Milagre de Nossa Senhora da Net, santinha da minha devoção

Após quase trinta anos de interregno, chegaram da confederação helvética notícias de um Emarginato sobrevivo.
Sim, o Luigi instalou-se por lá e parece desejoso de atazanar novamente as cândidas mentes lusitanas.

E por onde andam os Emarginatos restantes ?
Estão vivos, sucumbiram ao colesterol, à má vida ou a uma conversão tardia ?
Onde andam o Luís Beato, a Graça, o João Grosso, a Nandinha, a Eduarda, a Sara Lima e todas as outras almas perdidas desse projecto insano ?

Se estão vivos, pois mandem um email.
Se estiverem mortos será mais complicado, mas podem sempre psicografar qualquer coisita...

Voltando ao Luigi, não compreendo como foi parar àquele país medonho, onde a Heidi está a cumprir pesada pena de prisão por gerir uma rede de tráfico de menores e o Pedro só não lhe faz companhia porque conseguiu fugir para a Patagónia sob a protecção de uma rede de solidariedade de nazis reformados. O tempora, o mores, e tal e coisa.

Mas devaneio... O Luigi desenterrou um curioso teste de vídeo, datado de 1981, que o querido leitor pode ver aqui. Incipiente, de facto, mas ainda assim um aconchego espiritual para as famílias, que dele tanto carecem.

O televisiota

Confesso...
Por vezes, permito-me algum relaxe da razão e vejo até ao fim a peroração dos televisiotas, babando-me com mansidão adequada.
E pergunta o leitor, o que é um televisiota ?
Pois querido leitor, um televisiota é uma estirpe de idiota que infecta a televisão.
Usualmente solitário, pode por vezes surgir em grupos de três ou quatro espécimes, como acontece na Quadratura do Círculo.

Ontem vi dois, na RTPN ( para os menos informados, a sigla significa RTP Naçom ).
Um deles fazia o papel de entrevistadora, o outro o de comentador.
E peroram longamente sobre as conversações entre a Síria e Israel. Enquanto ouvia a vulgaridade monocórdica dos espécimes, questionava-me sobre o objectivo daquela encenação... Não consegui encontrar nenhum. Zero.

A páginas tantas, o espécime que fazia de entrevistadora arrepiava-se com o destino dos colonatos dos Golan. O espécime comentador, por seu lado, parecia acreditar que os contactos se tinham iniciado há dois dias e que a questão do valor estratégico dos Golan era central e não apenas folclórica.

Fiquei desiludido. Esperava que o televisiota macho dissesse alguma coisa sobre o impacto de uma paz separada, sobre a publicidade súbita que foi dada ao assunto, sobre o papel da Turquia no meio disto, ou ainda sobre a possibilidade de o primeiro-ministro de uma das partes poder a qualquer momento sair algemado da mesa de negociações, enquanto vai sendo sucessivamente desautorizado pela oposição.

No fundo, gostaria de poder acreditar na seriedade desta negociação. Não porque subitamente me tenha convertido em fada boazinha, mas porque a imparável ascensão xiita ( que não decorre de qualquer mérito da seita ) me parece um camião desgovernado que acabará por prejudicar de forma grave o interesse palestiniano. Na minha ranzinzice tendo a olhar para os anos mais recentes do Médio-Oriente como uma espécie de Sarajevo em câmara lenta e gostaria de, uma vez sem exemplo, ver os televisiotas concentrados sobre o que é importante.

Notícias do além

Não se negoceia com terroristas.
Frase muito máscula, muito em voga. Quando ouço esta preciosidade, há um mecanismo mental pérfido que me puxa da memória a figurinha do Ahmadinejad garantindo que não há homossexualidade no Irão.

Mas deixemo-nos de fantasias...

No Paquistão, as negociações com os terroristas Taliban correm às mil maravilhas. Prisioneiro para cá, prisioneiro para lá, a coisa vai andando. Não surtiu grande efeito a subtil pressão que tentámos exercer, despejando meia dúzia de mísseis em território paquistanês. Os paquistaneses não se acobardaram como seria desejável.

Na Palestina, as negociações com os terroristas do Hamas têm dias... Às Segundas, Quartas e Sextas, vai-se acordar um cessar-fogo entre as partes e vão-se trocar uns prisioneiros. Às Terças, Quintas e Domingos, não há acordo nenhum porque os prisioneiros de um lado ou de outro não valem tanto como se diz por aí. Ao Sábado, toda a gente descansa.
Em contra-corrente, diz-se que Olmert quer fazer uma limpeza em Gaza, agora que o Superpateta voltou para casa, mas serão apenas boatos... De momento Olmert deve estar mais concentrado em como fugir da bófia, que não lhe larga as canelas.
Lá do fundo da sua cova, o falecido Abbas manda dizer que está farto de aturar vigaristas e vai dar por falhado o processo de paz daqui por uns dias. Pelos vistos, não sendo totalmente imbecil, acabou por perceber que o Quarteto é de cordas e lhe está apenas a dar música.
Mas, não sendo totalmente imbecil, é-o em boa medida, como toda a gente sabe. Logo, não é ser nenhuma pitonisa para vaticinar que nas próximas eleições palestinianas vai ser corrido, muito provavelmente em benefício do Hamas, o tal que é muito terrorista.
Nestas circunstâncias, a potência ocupante, que não negoceia com terroristas, está aparentemente a ponderar a hipótese de libertar Barghouti e lançá-lo à conquista do eleitorado palestiniano. Para benefício dos mais desatentos, Barghouti é um terrorista que se encontra a cumprir uma pena de algumas décadas em Israel por homicídios e destruições diversas. Ora o moçoilo é simultaneamente um fenómeno de popularidade entre os palestinianos e é há muitos anos considerado como um líder com enorme potencial, respeitado também pelos seus captores.
Quem se lembrar ainda do julgamento, ou tiver notado a facilidade com que vai dando palpites a partir da sua cela, perceberá a que me refiro.

No Iraque, as negociações com os terroristas sunitas também não correram nada mal. Desde que o ocupante lhes atribuiu o rendimento mínimo garantido deixaram de explodir, o que é bom para o ambiente.
Já não correu tão bem a tentativa de entalar o Irão... Não só o governo iraquiano diz que não encontrou provas de intervenção iraniana, como a tropa imperial teve de meter o rabo entre as pernas quando, poucos dias depois de ter anunciado com trombetas que iria revelar ao mundo um arsenal iraniano capturado às milícias, se veio a saber que não há qualquer armamento iraniano envolvido. Chatice. Há que procurar outro casus belli e depressa, que o Superpateta está por um fio.

Já no Líbano, as negociações com os terroristas do Hezbollah provavelmente não foram boa idéia. Os rapazes estão agora numa posição magnífica, depois de terem resistido à tentação de cilindrar todos os adversários duma assentada.
Deixo aqui um singelo contributo... Uma vez que a Al Qaeda apelou à guerra santa contra os apóstatas do Hezbollah, podíamos dar um toque ao Bin Laden e oferecer-lhe um patrocínio.

Em nosso nome

Um curioso argumento que tenho lido e ouvido com regularidade, relacionado com o ghetto de Gaza, é o de que a retirada dos colonatos israelitas teria resultado na entrega do território à responsabilidade plena dos palestinianos e que estes se terão mostrado incapazes de fazer funcionar a economia.

Bom, após sujeitarmos 1,3 milhões de pessoas a tantos meses de bloqueio, estranho é que haja ainda alguma actividade.
Para que se tenha uma idéia emblemática sobre o ponto a que esta punição colectiva da população civil foi levado, noto que neste fim-de-semana as padarias não puderam produzir pão.
Para que se tenha uma idéia menos emblemática de como o processo se tem desenrolado ao longo do tempo, remeto o leitor para o artigo Gaza: The Death of Industry, de Saleh al Naeimi, onde se descreve o colapso da actividade industrial.

Lembro ao leitor, cidadão de pleno direito da UE, que esta União é uma das entidades que apoiam o bloqueio.

Reunião Tupperware

Há alguns anos atrás participei num debate sobre a Palestina, e chocou-me na altura o seguidismo da audiência. Chocou-me ainda mais a prudência do representante da OLP, que, mesmo acicatado, não se desviou um milímetro da linha fotogénica, deixando-me tão enriquecido como quando lá chegara.

Há uns dias atrás, chegou a vez do sionismo, a pretexto das comemorações dos 60 anos de Israel. O anúncio do evento prometia conferência e debate sobre a actual situação do Médio Oriente. Lá fui de cabelos ao vento.

Oops. Uma audiência minúscula, frente a uma mesa com um jornalista equidistante, um trotskista arrependido e um jovial cidadão israelita.

O mote foi dado logo no início, quando o trotskista arrependido nos ensinou que as posições anti-sionistas resultam de ignorância. Fiquei a saber logo ali que sou um igorante.

A coisa prosseguiu, com uma lenta sucessão de declarações de princípios, dentro de limites que eu achava que já tinham sido postos de lado, mas que afinal ainda sobrevivem: os palestinianos não existem, o mufti de Jerusalém era nazi, a comunidade judaica gerou muitos prémios Nobel, Israel é um farol da democracia,...

Tentei questionar algumas das afirmações e avançar para o que seria importante, mas, sendo a única voz dissidente, precisaria de duas coisas importantes, que infelizmente não existiram:
- Algum apoio da mesa para evitar a dispersão;
- Um interlocutor pró-sionista que pudesse validar as afirmações que fiz quanto à realidade actual, estabelecendo uma plataforma minimamente realista sobre a qual pudéssemos em seguida elaborar.

Curiosamente, o cidadão israelita, que me parecia um bom alvo para o segundo ponto, parecia desconhecer que o Hamas fosse o vencedor das eleições palestinianas, ou que o governo israelita estivesse obrigado à devolução de impostos à AP, ou que haja quase 500 postos de controle nos territórios ocupados, ou que haja dezenas de colonatos na Cisjordânia, ou qual a distribuição territorial proposta por Sharon.

Não me pareceu portanto que valesse a pena pedir opiniões sobre a aparente contradição dum estado simultaneamente democrático e confessional ( embora não me tenha escapado que vários intervenientes tenham sentido uma irreprimível necessidade de afirmar a pés juntos que Israel não é um estado confessional ), o esforço diplomático para estabelecimento de uma frente anti-xiita e sua desautorização pelos EUA, agravidade da semelhança entre Gaza e Varsóvia, a decadência moral ( semelhante à experimentada pelos militares portugueses nas colónias ) relatada em primeira mão na segunda edição do Breaking the Silence, a periódica aparição de grupos neonazis entre israelitas de segunda geração, a travagem dos processos rápidos de conversão que ajudaram ao crescimento demográfico mas ameaçavam a descaracterização do estado, a possibilidade de criação de um estado único que integre os 8 milhões de israelitas e 8 milhões de palestinianos como cidadãos de pleno direito,... A lista seria bem longa.

Suscitou-me alguma esperança a intervenção de uma figura discretamente sentada na última fila, que julgo ser pessoa com algum ascendente na comunidade judaica. Apesar de não poder dispor de muito tempo, teve a cortesia de pôr os pontos nos is quanto à representatividade doHamas, mas terminou a sua presença com uma ( mais uma ) exposição sobre as magníficas realizações e a imensa simpatia dos israelitas.

Julgava que iria participar num debate político, não numa reunião de vendas duma agência de viagens. Saí tão enriquecido como quando lá cheguei, mas não perco a esperança, pode ser que alguém venha um dia a organizar um debate digno desse nome.
Precisamos dele.

Indigestão de percepções

A novela dos comentadores militares norte-americanos vai talvez ganhar alguma vitalidade.
Cerca de quarenta congressistas solicitaram ao inspector-geral do Departamento de Defesa que investigue o assunto e se pronuncie sobre eventual ilegalidade.

Note-se que a notícia original do NYT foi abafada pelos media norte-americanos, o que não deixa de ser curioso, se tivermos em conta que estamos a falar de 75 ( sim, setenta e cinco ) comentadores. Qualquer que seja o ponto de onde se observe a questão, é manifesto que durante vários anos esses comentadores, supostamente independentes, se deixaram envolver num processo de manipulação da opinião pública em larga escala.

Mais uma vez, fico à espera da reacção dos media portugueses. Por via das dúvidas, já puxei uma cadeirinha.

Tau-tau no rabinho ou pum-pum na cabeça ?

O Superpateta parece decidido a não abandonar a Casa Branca sem um último disparate.
Na ânsia de reequilibrar a balança estratégica depois do desastre iraquiano, qualquer motivo será bom para a abertura de hostilidades contra o Irão.

Objectivos concretos, espanto dos espantos, não parecem existir. Dir-se-ia que há apenas a intenção de 'dar um sinal' à liderança iraniana para que não insista muito na solidificação da sua nova área de influência. Tem sido essa a opinião de alguns, e é hoje repetida de forma mais alarmante pelo American Conservative .

Mas uma análise coproscópica mais fina pode sugerir outra coisa... Pode não se tratar de um mero sinal mas sim de um acto destinado a provocar uma resposta agressiva dos iranianos, um qualquer Golfo de Tonquin que constituiria pretexto ideal para um subsequente ataque aéreo massivo pelas tropas imperiais ( se o Irão cair na esparrela, o que não julgo muito provável ).
Se olharmos de perto para a situação, este é de facto o momento apropriado, pois no final do ano os EUA terão as mãos amarradas pela quase simultaneidade das suas eleições com as eleições iraquianas, o que significa que uma eventual mudança no xadrez político iraquiano não poderá ser devidamente acompanhada durante o render da guarda na liderança imperial.