A receita do tecnofacho

Há diferenças substanciais entre os regimes autoritários do século passado e o que agora construímos.
Sobressaem a diferença na gestão da informação e a escolha mais cuidadosa do timing da escalada.
O episódio agora em exibição desenrola-se em torno da instalação de um sistema mandatório de identificação electrónica de veículos. Em termos práticos, o estado passará a dispor de meios para controlar os movimentos de qualquer viatura. Como é hábito, também este episódio se vai desenrolar sem dramas, com o maior respeito pelos aspectos processuais da democracia representativa.

O esquema é linear:
- Num primeiro momento, dão-se dois passos na direcção desejada, a coberto de autorização parlamentar;
- Num segundo momento, o choque resultante trará o vendedor de sapatos à boca de cena para acalmar os mais inquietos, seduzindo-os com a eficácia, o modernismo ou qualquer outro chavão bacoco. E num espírito dialogante, o vendedor de sapatos manifestará ainda a sua abertura ao aperfeiçoamento das novas regulamentações. No fim, terá de recuar apenas um passo.

A receita não falha. O cidadão comum, embrutecido por overdoses sucessivas de futebóis e fantásticos toques polifónicos no télélé, nem chega a perceber o que lhe aconteceu.
Estranho gado este, que sorri enquanto o tecnofacho lhe aperta a canga.

Da criação de dálmatas

Um despacho morno da Reuters serve perfeitamente. É mais uma pequena batatinha na travessa da ligeireza. Hmm ? De que falo eu ? Pois, será conveniente explicar...

No Yahoo apareceu hoje um artigo baseado num despacho da Reuters, cujo título anuncia a descoberta de uma ligação entre genes, violência e delinquência.
Na base desta conclusão está um estudo da Universidade da Carolina do Norte, que terá determinado a existência de correlação entre uma variante específica de um gene e comportamentos classificados como antissociais.
Bem, a história não aprofunda muito o tema, mas depois de um título incisivo é curioso observar a rampa descendente em que se vai diluindo a sugestão inicial.
Lá para o meio do texto, ficamos a saber que se trata não de um, mas três, os genes implicados.
Mais para o fim, remata-se a coisa com a afirmação de que afinal não basta a presença de variantes específicas desses três genes para que o comportamento antissocial se revele, são também necessárias condições ambientais propícias.
Destas, sublinhe-se a paparoca: se o espécime almoçar e jantar regularmente com os familiares, o risco de comportamento antissocial desvanece-se milagrosamente.

Não sei muito bem qual a intenção da articulista, e provavelmente ela também não...
E é isto mesmo que me preocupa. De forma imprudente, vai-se aqui e ali estabelecendo um pano de fundo tirado a papel químico do que aconteceu há quase cem anos atrás, com a mesma cobertura de ciência defeituosa.
E se no século passado se usou a antropometria como garante de seriedade, agora usa-se a genética.
A idéia subjacente é sempre a mesma, a obsessão burguesa pela ordem, uma ordem que neste campo se alcançará pela depuração da raça.

Noto uma singularidade no texto, quando sugere a utilização de fármacos para corrigir o defeito. E fico a pensar... Quanto tempo demorará a articulista a chegar ao ponto de sugerir a correcção in vitro das linhagens defeituosas ? Afinal de contas, se há uns dias atrás se corrigiu o BRCA1, porque não corrigir também o MAOA, DAT1 e DRD2 ? Ou qualquer um dos outros ?
Temos montes deles para brincar às casinhas.

Da criação de caniches

Cheios de boas intenções, lá vamos corrigindo os muitos defeitos dos processos naturais.
Ao contrário do que acontece com os criadores de cães, que podem arbitrariamente decidir sobre as linhagens a cruzar, os guardiães da boa raça humana enfrentam o problema da liberdade.
Os valores que nos regem impedem de momento a esterilização compulsiva ou métodos similares de higiene racial, o que acaba por facilitar a reprodução de espécimes portadores de características perniciosas, uma vez que os humanos tendem a acasalar de forma pouco criteriosa. Isto é muito aborrecido.

Mas como a ciência nos vai habilitando a reconhecer as raízes genéticas das alegadas deficiências e a tecnologia nos vai deixando interferir de forma mais precisa nos processos biológicos, parece-nos que será fácil direccionar a evolução da espécie sem colidir com barreiras éticas.

A Times relata-nos um novo expediente, muito promissor. Trata-se da selecção artificial na fase embrionária, que nos permite dizer que descartamos embriões de menor qualidade, em vez termos de dizer que praticamos aborto eugénico.
Como funcionou a coisa, neste caso particular ?... Ao que diz o artigo, a linhagem do macho é portadora de uma variante do gene BRCA1 da qual resulta prejuízo para os processos de reparação do DNA, aumentando o risco de aparecimento de cancro da mama. Os anjos da ciência decidiram então criar meia dúzia de embriões por IVF, seleccionaram dois que não continham essa variante e implantaram-nos na feliz mamã, atirando os outros para a retrete. Tão fácil como saltar à corda.

É uma história bonita. Comovente. Não mais haverá naquela família a dor da perda de entes queridos às mãos do cancro, por muitas e muitas gerações.

Mas deixem-me azedar a festa...
Como acontece em muitas outras situações, o BRCA1 não é actor isolado. A escolha de uma variante em detrimento de outra, sem que se faça selecção simultânea nalguns outros genes, é condição suficiente para que a reparação de DNA passe a decorrer normalmente ?
Por outro lado, a variante preterida, sendo feitas correcções noutros genes, não poderia, a la longue, revelar-se afinal uma melhoria no património genético ?

Tudo isto é muito bonito, mas conviria não esquecer que este tipo de correcções vai produzir efeitos por muitas gerações. Não seria mais prudente explorar a fundo todas as medidas de redução de risco que não impliquem uma manipulação cega do património genético ?
A via Frankenstein para a felicidade comporta riscos muito elevados. Seria útil que os discutíssemos.

Visitação da alma

Alguma gente perversa acusa-me de opacidade.
Diz essa gente que mal abro uma nesguinha do meu ser logo fecho a janela nas trombas das pessoas.
É falso. E por ser falso e ser necessário acabar de vez com tais insinuações, aqui publico uma fotografia da minha alma. Mais transparente que isto, não há.

Trata-se de um fotografia única, que consegue captar toda a essência do animal no seu estado vegetativo, e que só foi possível graças à equipa da Medimonção, cuja solicitude e entusiasmo muito agradeço.