Montazeri está morto, viva o Ashura


Os pretextos sucedem-se, e são aproveitados até ao tutano.
Depois da morte de Montazeri, que mobilizou uma nova onda de protestos enquanto o poder se esforçava por abafar o assunto de forma burlesca, segue-se amanhã o Ashura, significativo para a facção xiita.

Como se tem podido observar, a oposição continua a tentar afirmar-se quase somente na arena religiosa, de forma a evitar que o regime monopolize essa fonte de legitimação. Um jogo que terá a sua piada mas que ao mesmo tempo cria algum incómodo, pois restringe a dinâmica da orientação política dos protestos.

Referi há algum tempo que me parecia que a manutenção da iniciativa nas mãos da classe média urbana, não sendo capaz de envolver outros segmentos da sociedade, poderia condenar a oposição a um lento e fatal isolamento. Ora, há dois segmentos parcialmente sobrepostos que se podem mobilizar, o operariado e as mulheres. O primeiro porque tem vindo a sofrer em primeira mão as consequências de um longo período inflacionário, o segundo porque a subalternização da mulher sob domínio xiita se coaduna cada vez menos com uma estrutura social em que cresce o número de mulheres que acedem ao ensino enquanto as faixas mais largas da árvore etária se concentram à volta dos 20 a 24 anos.

As contradições são muitas, e é desconcertante assistir às movimentações de uma liderança claramente teocrática ( por convicção ou medo ) seguida por uma onda popular cada vez mais propensa a utilizar palavras de ordem anti-teocráticas.

E se é sinal positivo a expansão dos protestos a um número crescente de cidades, resta saber para onde se irá orientar, se subsistir, o descontentamento das classes mais baixas, numa altura em que a taxa de inflação desce para os 15% e se espera atinja os 10% nos primeiros meses de 2010.
A janela de oportunidade para um levantamento geral não é muito larga.

Perda


São raros os membros do clero que me merecem admiração.
O grande ayatollah Hossein-Ali Montazeri era um deles.
Companheiro de Khomeiny, acabou votado ao ostracismo durante vinte anos depois de denunciar o desvio do regime para a tirania.
Brilhou uma última vez ao desafiar de forma crua e corajosa a chapelada de Khamenei e Ahmadinejad. A sua morte priva os iranianos de uma voz valiosa.

À vista de todos

A nova encenação do congelamento da construção nos territórios sob ocupação militar israelita, sendo uma repetição de encenações anteriores ( com a inovação de declaradamente ter um prazo limitado findo o qual a colonização irá prosseguir normalmente ), revela mais uma vez o extraordinário sucesso do projecto sionista, capaz de produzir uma limpeza étnica gigantesca sem suscitar qualquer reparo dos seus patronos, entre os quais se incluem os cidadãos europeus.

O método é tudo.
Ao contrário do que fizeram os nazis na Europa, Israel não tem tido o hábito de deportar massivamente a população indígena.
Prefere um outro processo, mais moroso é certo, mas igualmente efectivo, que consiste em montar uma 'grelha de soberania' que confine os indígenas a espaços cada vez mais reduzidos e menos capazes de sustentar as actividades económicas necessárias à sobrevivência.
À vista de todos e com a complacência de todos, o processo vem-se desenrolando lentamente. Atinge agora o ponto em que já não nos é possível disfarçar mais... Ou tomamos medidas para pôr cobro a esta actividade criminosa, ou assumimos plena responsabilidade histórica pela nossa cumplicidade.

A proposta sueca para uma declaração da UE que abra caminho à proclamação de um estado palestiniano nas fronteiras de 1967 está sob ataque cerrado, e é duvidoso que possa ver a luz do dia sem que lhe seja retirada toda a substância.
Cabe a cada um de nós, cidadãos europeus, que tanto gostamos de proclamar a nossa superioridade moral, que tão clamorosamente elegemos o racismo nazi e os seus processos como representações do mal absoluto, chegar-se agora à frente e dizer se quer continuar a participar no projecto colonial sionista ou se quer travá-lo.

E para que o leitor não possa continuar a fazer de conta que não sabe de nada, aqui lhe deixo um mapa magnífico, produzido por Julien Bousac, que representa o que resta da soberania palestiniana: um arquipélago desconexo.


Cheguem-se à frente

O Yedioth acaba de noticiar uma declaração de Dahlan, em que este afirma que a autoridade palestiniana está a considerar solicitar ao Conselho de Segurança o reconhecimento do estado palestiniano delimitado pelas fronteiras de 1967, sem quaisquer alterações.

Depois do fracasso da administração norte-americana na sua tentativa de travar o processo sionista de colonização, não há de facto muitas alternativas...
Mesmo que seja retomado algum processo de paz, a sua duração será suficiente para inviabilizar à partida o novo estado, dado que em vez de preparar a remoção dos colonatos, Israel decidiu investir tudo na sua expansão.
Ora, se não é possível criar um estado viável através de um processo de paz entre as duas partes interessadas, cabe ao CS a responsabilidade de intervir e impor a solução mais consensual, pois de outra forma a única saída possível será a transformação de Israel num estado binacional.

Como disse Dahlan, embora o risco de veto por parte dos EUA seja elevado, será também uma oportunidade para saber se é ou não real o alegado empenho da superpotência na solução dos dois estados.
Tendo em conta a humilhante cedência na questão dos colonatos, julgo que vale a pena fazer o teste.

Inquietação persistente



O vídeo acima, um de vários cuja difusão está a ser facilitada pelo  Enduring America, retrata as movimentações dos estudantes universitários iranianos em preparação para as manifestações de rua convocadas para amanhã pela oposição.

Parece-me de certa forma extraordinário que os estudantes universitários se mantenham na linha da frente.
Tendo sido os alvos preferenciais da forte violência repressiva que conteve os protestos pós-eleitorais, num processo que não produziu avanços políticos decisivos, seria de esperar algum desânimo ou, no mínimo, maior cautela.

Louvo-lhe a coragem e a determinação, mas mantenho a reserva que já exprimi quanto às possibilidades de sucesso de movimentações revolucionárias no Irão nesta altura, pois julgo que a classe média não tem ali, para já, a massa crítica necessária para causar instabilidade grave e a subsequente adesão de outras classes a essas movimentações. No entanto, o que se vai passando é sintoma de que o regime está a entrar num beco sem saída muito característico dos regimes estáticos, pois a elevação do nível médio de formação dos cidadãos, condição sine qua non para o desenvolvimento económico do país, acarreta a necessidade paralela de responder à sua exigência de participação nos processos políticos.

Já agora, não posso deixar de apresentar um dos exemplos dessa magnífica e estranhamente perturbadora forma de protesto político que é o coro desencontrado de apelos a Alá lançados na noite a partir das janelas e dos telhados, uma reminiscência da resistência ao antigo xá.




Plano D, precisa-se

E depressa, antes que o abecedário se esgote.
A ameaça já tinha sido feita há bastante tempo atrás, ainda durante a contagem dos votos. Agora, com o enorme atraso do processo a provocar uma pressa incontrolável na preparação da segunda volta, que se prevê tão ou mais fraudulenta que a primeira, Abdullah Abdullah atirou a toalha ao chão.
Será correcto ?
O candidato já tinha sido pressionado a aceitar uma solução que passasse pelo reconhecimento da derrota, a que se seguiria o estabelecimento de uma fórmula de partilha do poder com Karzai. Uma espécie de presidência pague-um-leve-dois.
Não aceitou, seguiu-se a trapalhada do caso Galbraith e a azáfama da preparação de uma segunda volta que, de qualquer maneira, boa ou má, pudesse proporcionar alguma legitimidade a Karzai e salvar a honra da casa. E da ONU, já agora.
Também não aceitou, e o sentido da sua mensagem é muito claro... Se querem continuar com esta fraude, continuem, mas não me envolvam nisto.

Washington, we have a problem... Bruxelles, on a un problème ...
Estamos a ficar sem pretextos para manter as nossas valerosas forças defensivas no Afeganistão. Quanto mais não seja porque não parece nada a defender.

Precisamos então do plano D, já. Sei lá, podemos dizer que o Irão se prepara para invadir o país... Ou que os chineses querem fazer passar por ali um pipeline muito comprido para chupar todo o petróleo do Médio Oriente. Vá lá, qualquer coisa, sejamos criativos...

Parece justo ...

Vão aparecendo algumas indicações sobre a rejeição pelo Irão das condições propostas pelo grupo ocidental, relativas ao enriquecimento de urânio acima dos 3,5%.

Basicamente, a proposta ocidental previa a entrega imediata do urânio já enriquecido, cujo teor seria aumentado na Rússia e posteriormente transformado pela França em barras apropriadas ao uso em reactor.

O Irão, depois de alguns dias de notória confusão entre as diversas instituições que governam o país, parece congregado em torno de uma proposta alternativa, segundo a qual a entrega das barras deve preceder a saída do urânio.
Na origem desta exigência aparentemente desconcertante, está a manifesta desconfiança do Irão relativamente à França, que já no passado faltou ao cumprimento das suas obrigações contratuais.
A isto, junto a possibilidade dessa desconfiança se estender à Rússia, dado o atraso substancial na construção e accionamento do reactor de Bushehr.

Bom, tendo em conta o historial dos distintos agentes, esta posição iraniana parece-me equilibrada.
Resta saber se será formalizada.
E em caso afirmativo, qual a resposta do grupo ocidental ... Aceitam-se apostas, mas os zunzuns diplomáticos indiciam a sua rejeição.

Plano C, precisa-se


Notei hoje duas afirmações, uma de Loureiro dos Santos num canal de televisão e uma outra de um leitor comentando no Público, que de formas distintas associavam a violência Taliban às eleições presidenciais.

Bom, é natural que qualquer movimento rebelde tente sabotar os actos eleitorais, é dos livros.
E é também natural que qualquer regime em situação semelhante à afegã tente publicitar a realização dos actos eleitorais como manifestações de coragem e de solidez do sistema.
Mas na actualidade afegã a questão é secundária. Mesmo sem violência Taliban, a segunda volta das presidenciais está à partida condenada a ser inconclusiva e pouco concorrida, em grande parte parte devido ao descrédito causado pela gigantesca fraude que constituiu a primeira volta. Uma fraude em que a ONU se envolveu até à ponta dos cabelos, infelizmente.
Claramente, mesmo sem Talibons e Talimaus a situação política afegã seria um filme desaconselhável a menores.
E aqui sim, está concentrado o grande problema afegão. Oito anos de guerra tiveram como único resultado proteger alguns quistos perniciosos que retiram governabilidade ao país. Ver Rashid Dostum e facínoras similares sendo cooptados pelo poder oficial, com apoio activo ou simples complacência de uma comunidade internacional bloqueada pela consciência da ausência de alternativas, é razão suficiente para pensar que algo continua muito mal por aquelas bandas.

Estamos na difícil situação de ter de escolher entre um regime fundamentalista imposto por um movimento ideologicamente coeso e outro regime pouco ou nada democrático imposto por uma pandilha de criminosos sob a batuta tremelicante de Karzai.
De qualquer das formas, o que será necessário explicar com alguma urgência é a extensão crescente da zona de actuação dos Taliban. Há uns meses atrás reproduzi aqui um mapa que retratava uma situação preocupante. Reproduzo hoje um novo mapa das áreas de actuação dos Taliban ( com os meus agradecimentos ao ICOS pela autorização concedida ) que faz passar a situação de preocupante a arrepiante.

Deixo ao leitor a incumbência de reflectir sobre este resultado de oito anos de guerra ( oito para nós, já que para os afegãos a tragédia se mede em décadas ).
Deixo também ao leitor a incumbência de reflectir sobre o seu grau de responsabilidade em tudo isto. Ao crer cegamente nas narrativas duvidosas que justificaram e justificam esta guerra, e ao traduzir em votos essa crença, não estará o leitor a contribuir para a manutenção do Afeganistão num estado de guerra permanente ?

Tectónica de placas

O novo século confirma uma mudança geostratégica profunda que põe termo a meio milénio de supremaia ocidental.
Ao arranque dado pelas economias da Ásia/Pacífico segue-se agora o projecto de um novo enquadramento político, semelhante ao da União Europeia, que englobe num único bloco perto de metade da população humana.
Com alguma frieza, pode dizer-se que o projecto é praticamente impossível de realizar, pois não se vê como poderão a China e a Índia facilmente desistir dos seus projectos nacionais, alicerçados entre outras coisas no tremendo peso demográfico de cada um.
No entanto, à semelhança do que aconteceu na velha Europa das nações, não havendo para a rivalidade entre os dois colossos muitas formas airosas de desenvolvimento, a integração económica e política pode estar a emergir como a saída inevitável.
Pelo menos, os trabalhos estão em marcha.

Doha debates

Dada a recomendação entusiástica de AB, acho vou passar a acompanhar os Doha debates na BBC.
Trata-se de um espaço de discussão livre, uma ave rara no mundo árabe.
Convido o leitor a petiscar também este acepipe, seja na televisão ou no site do programa.

Mano Basílio, antropólogo

Mano Basílio foi ao Alentejo profundo, e descobriu num vilarejo um fascinante grupo de cantares tradicionais.
As feições dos aldeãos sugerem a prática continuada de casamentos consanguíneos como forma de combater o despovoamento.

A golpada

Criticável, Saramago ? Em parte.

Afinal de contas, não inova na apreciação dos textos bíblicos. Qualquer indivíduo que tente ler o antigo testamento fica aterrorizado pela figura ali retratada, de um deus narcisita, caprichoso, vingativo.
Uma figura que nem os textos seguintes conseguem esbater.
Uma figura que nem as modernas divagações sobre sentidos figurados conseguem esbater.
Se alguns procuram naqueles textos religiosos uma mensagem tranquilizadora e inspiradora de nobres sentimentos, talvez devam perguntar-se se não estarão a ler o livro errado.

Por outro lado deve reconhecer-se que, voluntária ou involuntariamente, Saramago se deixou seduzir pelo sensacionalismo como ferramenta de marketing. Não foi bonito, não havia necessidade, os seus livros vendem-se como pãezinhos quentes mesmo sem golpadas.

No entanto, surpreende a restolhada que acolheu as declarações.
Afinal, tanta indignação contra um descrente e tanto silêncio quando o grande ayatollah Aníbal Ibn Silva Al-Gharbi emprestou a presidência da república, supostamente laica, à canonização do sujeito que consertou a senhora do olho frito.

Para amenizar, sugiro que depois de Saramago também o ayatollah renuncie à cidadania. Pode ser ?

Jornalismo duvidoso

O quadro pintado pela imprensa portuguesa parece não coincidir com os factos.
Com dois meses de atraso, continua a não ser possível o anúncio do resultado das eleições presidenciais afegãs. Durante a semana corriam rumores na imprensa segundo os quais o anúncio seria feito no Sábado. Teoricamente, o resultado reflectiria a decisão da comissão de fiscalização, colocando Karzai nuns generosos 47%, que forçariam uma segunda volta. Seria uma solução credível para o problema de se suspeitar que a fraude pode ter chegado a afectar um em cada três votos a favor de Karzai. E se este já era um problema sério, mais se agravou com o escândalo no interior da missão da ONU, quando o seu líder Kai Eide foi acusado pelo seu número dois, Peter Galbraith, de estar a participar activamente no encobrimento dos factos. Ora Peter Galbraith foi demitido, o que significa que a posição de Eide teve cobertura ao mais alto nível na ONU.
Os 47% propostos a Karzai representariam assim uma tentativa de dar alguma credibilidade a esta farsa, mas pelos vistos nem isso o actual presidente está disposto a aceitar, pelo que o anúncio foi mais uma vez adiado.
Perante isto, elementos próximos de Abdullah Abdullah fizeram saber que, caso seja declarado um resultado que atribua a maioria absoluta a Karzai, irão considerar inválida a eleição e recorrerão às armas para repor a justiça.
Os dados estão lançados, num contexto cada vez mais complicado, que não só envolve agora a ONU numa fraude gigantesca, mas que, pelo atraso verificado, vai tornando mais remota a possibilidade de efectuar uma segunda volta antes do Inverno, o que deixará o país num limbo dificilmente controlável.
Estamos perante um cenário pouco auspicioso, pois o avanço dos Taliban parece imparável e a indecisão do messias norte-americano está a causar um sério mau-estar entre os soldadinhos, que nem sequer é aliviado pelos sinais de abertura do mullah Omar. Sinais que parecem apontar para um acordo de princípio sobre um regresso ao poder sob compromisso de exclusão da Al-Qaeda. Al-Qaeda que, de resto, tem hoje em dia uma expressão residual no território afegão.
Seria importante que a imprensa portuguesa explorasse devidamente a abumdante informação existente sobre a realidade afegã. Prestaria um serviço aos cidadãos, um serviço tão mais apreciado quanto é certo que a muito curto prazo estes cidadãos irão ser confrontados com eventos que porão em causa tudo que lhes foi ensinado nos últimos oito anos.

The sick man of the Middle East

Israel seems shocked by the turkish slap.

And suddenly, yesterday's convenient allies become members of some ominous Axis of Evil.
Is this the official position ? It probably is, considering the expression is beeing used so often since then.

But reading Yoel Marcus on the subject is almost useless. He simply recites the old mantra about the mean, anti-semitic, holocaust denying palestinian terrorists who can't rule themselves.
Boring. At least for those who are not particularly interested, at this point, on the israelis perceptions about their own actions and the obvious outcome of those actions. Anyway, for those few israeli braves who have not yet completely lost their minds, one would suggest they should just concentrate on the settlement population growth in the last ten years in the occupied territories ( sorry, in the territories ). The numbers involved are a clear, inequivocal sign. No need for additional mantras, spare the ink.
Although a more ideologically biased author, Caroline Glick shows a somewhat wider view on a JPost article,  How Turkey was lost .

Hmm... Is the turkish shift some kind of unexpected tsunami ? It shouldn't be. For those who have been following the soap opera of the EU flirt with the sick man of Europe, the path was very clear. After being insulted for so long, Turkey would slowly turn its back on Europe, step by step.

Facing reality, it becomes difficult to criticize Turkey, as Glick probably knows. Turkey is much more important to the EU than the opposite and, unfortunately, the EU members are currently led by a lousy lot of short-sighted politicians. So goodbye Turkey, we'll meet again in a few years on different terms.

Well, the israelis seem to be the first to enjoy the dubious benefits of this divorce. The umbrella seems to be breaking...
It wouldn't be so bad hadn't Israel started its own drift towards the extreme right which is causing a growing international isolation.
But for those who have also been following the Eretz Israel soap opera, this path was also very clear, and the future seems to have arrived: a viable palestinian state is no longer possible, and one wonders how many palestinians are out there, inside the bantustans or in the near vicinity, waiting. Ten million ? And counting ?

The turkish affair is, for Israel, just a tiny part of much more important developments. And on those developments, what kind of delusional narrative will be able to provide a cover, shallow as it might be, for the need for strong measures in the near future ? How far are israelis prepared to go ? The european 20th century history should suffice to provide some clues...

Perhaps Bibi won't have the guts, but Lieberman will gladly play the role of a shiny light unto the nation of Israel. Keep going, you're on the right track.

Vitória de Pirro ?

O Haaretz publicou um alegado facsimile da proposta palestiniana de resolução a submeter ao Conselho de Direitos Humanos da UN .

Estranho o facto de numa única proposta se misturarem os eventos de Jerusalém com o relatório Goldstone.
Depois de tudo o que aconteceu à volta da posição do Quisling palestiniano, conhecido o interesse de Israel em abafar o relatório, parece pouco produtiva a inclusão deste numa proposta mais vasta que siga depois para o Conselho de Segurança, que será assim mais facilmente bloqueada pelo amigo americano.

Muito morto ou apenas pouco vivo ?

Rumores, rumores, rumores ...

Em torno de Khamenei, ontem sugeria-se que um colapso que teria forçado o seu total isolamento, hoje já se dá a múmia por definitivamente morta.

Na dúvida, vai-se discutindo a sucessão. Não fora o cisma que divide o poder político, Rafsanjani estaria na pole position. Mas tal como as coisas estão, se a velha múmia se finar de imediato o mais provável é que o IRGC tente o assalto final e suprima o cargo de supremo líder, ponto final.

Ao contrário do que alguns possam defender, o afastamento ou morte de Khamenei num prazo inferior a um ano não será necessariamente uma boa notícia. Embora possa ser discutível a dimensão do poder efectivo do eixo Ahmadinejad/IRGC, é notório que o conjunto das forças que se lhe opõem está demasiado dividido, o que dificulta os esforços actuais de retorno ao normal funcionamento das instituições e simplesmente inviabiliza qualquer processo de reforma.

Oeste selvagem

Pouco resta do colorido país profundo de outrora.
Lareiras fumarentas, galinhas debicando nas eiras, sacholadas no vizinhos, tudo se vai perdendo numa modernidade pouco dada à exteriorização dos humores.

Sai por isso enriquecida a etnografia lusitana com o tiroteio de hoje no triângulo das Bermudas que se estende até ao Marco, apesar de não ter sido essa a intenção do pistoleiro.
Discretamente contactado pelo Coproscópio, o foragido revelou que tudo não passou de um mal-entendido, pois estava convencido de que as eleições se ganhavam depositando mortos nas urnas, em vez de votos. Desfeito o equívoco, espera que não haja ressentimentos e que por altura das festas da Senhora da Graça já ninguém se lembre do assunto.

Acto II, cena 3

Se o guião tivesse sido seguido, o clero de Qom deveria por esta altura ter produzido algum ruído de fundo.
Se calhar fê-lo, mas à porta fechada. Para o público, nem um pio.
Mas talvez no seguimento do conclave, o tom geral parece ser de conciliação em torno das propostas arbitradas por Rafsanjani, cujo alegado plano de salvação nacional já vai na versão 315.
O velho tubarão está a conseguir juntar conservadores, reformistas, fiéis de Khamenei e mais alguma fauna dispersa, tendo como base, aparentemente, o retorno efectivo à normalidade institucional através de cedências mútuas.

Como é usual nestas situações, há bodes expiatórios para satisfazer a sede de sangue. Bodes com sabores distintos. Do lado do governo, Mortazavi parece ser o bode eleito, com o próprio Ahmadinejad em situação curiosa. Do lado reformista, foi lavrada sentença de morte do primeiro bode no julgamento dos sediciosos.

Mas, no jogo de sombras do poder iraniano, que significa isto ?
Pouco, creio eu.
Tenho a esperança de que esta ou outras sentenças de morte não venham a ser cumpridas, não só porque assinalariam aos reformistas que as negociações em curso não seriam sérias, mas porques lhes proporcionariam também um ou mais mártires. Da mesma forma, duvido que Mortazavi chegue a pousar o rabo no banco dos réus. É capaz de ser peso-pesado suficiente para suscitar resposta violenta do IRGC.

Quanto à sorte de Ahmadinejad, é cedo para perceber. Nas mãos do parlamento estão duas bombas atómicas prudentemente silenciadas à chegada, mas não antes de ser cuidadosamente passado para o domínio público um resumo do seu conteúdo.
Uma das bombas é o relatório da comissão de inquérito à repressão e condições de detenção dos cidadãos envolvidos nos tumultos pós-eleitorais, que confirma grande parte das acusações de abuso de poder. Daí o nervosismo de Mortazavi.
A outra bomba, esta de profundidade, é o relatório da auditoria às contas do estado sob consulado de Ahmadinejad. Se os números ventilados forem credíveis, estamos a falar de desvios de muitas ( mesmo muitas ) dezenas de milhar de milhão de dólares. À beira disto, os corruptos da nossa praça ainda nem do infantário saíram.
Mas Ahmadinejad está de momento numa posição quase intocável, graças à vitória estonteante que obteve nas negociações com o Ocidente, onde ganhou muito sem ceder nada. Deve ter aprendido com os amigos israelitas.

By the book

No Independent, Robert Fisk anunciou ao mundo a ocorrência de certo número de reuniões discretas ( ou secretas, se apreciarmos o género ) entre países produtores de petróleo e algumas das maiores potências económicas, destinadas a pôr termo à hegemonia do dólar nas transacções de produtos petrolíferos.
Em resposta, o ouro foi acometido de hipertensão arterial.

A ser verdadeira, a notícia reflecte uma tomada de decisões concretas depois de muitos meses de um nervosismo desorientado.
O aspecto mais importante desta dinâmica não é a definição de um meio alternativo, mas antes a ponderação dos efeitos que a transição irá produzir no dólar, seja para os EUA seja para os proponentes dessa transição, dada a dimensão do seu envolvimento com a moeda em declínio.

Pensamento positivo... Estamos a presenciar um momento histórico, o da transferência de privilégios e responsabilidades para a Ásia. Guardemo-lo na memória, para contarmos tudo aos nossos netinhos. Quanto ao resto, logo se há-de ver.

Bom senso em ampolas injectáveis

Crianças submetidas nas escolas a procedimentos ridículos, como se fossem robots orwellianos.
Uma  ministra sinistra que dia sim dia não vem encher o ecrã com avisos sussurrados que gelam o sangue.
Jornais sedentos de horror que buscam nas morgues o cadáver ainda fresco da primeira vítima do monstro assassino.

Está tudo doido, ou fui eu que me esqueci de tomar as gotinhas ?

Que há afinal de extraordinário nesta estirpe ?
Para mim, que pouco percebo destas coisas, o bicho não parece ter nada de notável. Não sei exactamente em que terá divergido das estirpes mais populosas, mas parece tão-só que a diferença lhe concederá por algum tempo maior capacidade de propagação. De resto, que eu saiba, a mortalidade associada não tem nada de anormal.

Que risco acrescido existe, então ? Do meu ponto de vista, só causarão mossa as situações em que seja contaminado em simultâneo um número excessivo de funcionários desta ou daquela empresas, prejudicando-lhes o funcionamento durante alguns dias.
Fora isso, não percebo. Posso até pensar que talvez seja mais prático proporcionar vias controladas de propagação, de forma a diminuir com alguma celeridade a densidade relativa das pessoas não imunizadas.
Afinal de contas, trata-se de uma estirpe bem sucedida que irá perdurar, façamos nós o que fizermos.
Em contrapartida, o acréscimo inconsiderado de desinfectantes que aspergimos em pânico sobre tudo o que nos rodeia não só não nos protege de forma eficiente contra coisa nenhuma, como acaba por reforçar a selecção artificial de estirpes resistentes de bicharocos bem mais perniciosos, num percurso idêntico ao dos antibióticos.

Traz-me algum alívio ouvir finalmente um especialista no métier insurgir-se contra a histeria. Só pergunto porque demorou tanto, e se não haverá alguém com capacidade para fornecer uma explicação clara e detalhada sobre este assunto.

Big Mona


Dentro de um mês, vai abrir um McDonald's no Louvre, um precioso encontro de culturas que já tardava.

Louvre renovado, agora com cheiro a fritos.

Clareza


Para os apreciadores de clareza e credibilidade na avaliação dos factos que nos afectam, reproduzo aqui uma peça registada no Youtube que me parece digna de alguma atenção, ao contrário das habitualmente produzidas pelos papagaios que evoaçam nos media portugueses.
Lamento ter de mais uma vez recorrer a uma fonte em língua inglesa, mas é o que há.

Culpite aguda

Há muitos, muitos anos atrás, tinha eu um softwarezito em certa farmácia hospitalar, tive a oportunidade de participar nos primeiros passos do então novíssimo regime de unidose.

Desbravou-se terreno, de forma titubeante. Tratava-se afinal de reduzir o espantoso desperdício de recursos que o sistema de distribuição anterior facilitava, e a iniciativa era digna de apreço, do maior dos apreços.
Quem tenha tido conhecimento do peso que os serviços farmacêuticos representavam então na despesa de funcionamento dos hospitais poderá avaliar melhor esse esforço.
Mas não há bela sem senão...
Um dos vários pormenores que na altura em chamaram a atenção foi o do risco que representava a perda de elementos de identificação quando alguns fármacos eram subdivididos para preparação das doses individuais, fosse por simples fraccionamento ou por mistura com excipientes.

O problema explica-se com facilidade: num certo número de casos, os fármacos são comercializados em blister, e cada unidade que se extraia de um bloco contém ainda elementos de identificação que diminuem a possibilidade de erro em etapas posteriores da distribuição. Quanto mais não seja, persiste o nome comercial do fármaco, o que é suficiente mesmo que não exista informação sobre o lote específico. Nos casos restantes, a coisa muda de figura. Com particular risco no caso dos fármacos comercializados sob forma líquida. Se o responsável pela subdivisão da unidade comercial em unidades de distribuição, num qualquer sector da farmácia hospitalar, não dispuser de meios para adicionar às subdivisões uma identificação inequívoca ou, dispondo desses meios, cometer o mais pequeno erro, estará aberto o caminho para a ocorrência de acidentes graves.

Aparentemente, terá sido isso que aconteceu .

Conhecendo o ritmo imposto pelo sistema de unidose, qualquer um perceberá que a probabilidade de erro se transforma em certeza com a maior das facilidades. Não há milagres.

Assim sendo, neste ou noutro dos muitos casos que já deverão ter ocorrido, será fácil, demasiado fácil, encontrar o funcionário responsável pelo erro de identificação e puni-lo. A ânsia de encontrar culpados ficará satisfeita, o circo terá o seu momento de glória.

Mas em vez de condenar o pessoal menor ao ostracismo ou à defenestração, parece-me que seria mais razoável pensar em coordenar com a indústria farmacêutica a definição de métodos de subdivisão de fármacos que garantam que as fracções resultantes dessas subdivisões possam viajar ao longo de toda a cadeia de distribuição sem perda de elementos de identificação. É fácil caçar bruxas. É mais difícil, mas bem mais necessário, garantir a racionalidade dos processos.

O rei mudo

O ayatollah falou e disse pouco.

Pena, porque ao diminuir os cidadãos à condição de bonecos acéfalos não só demonstra um elitismo insultuoso, próprio de um cacique do terceiro mundo, como deixa a presidência numa posição pouco digna.

Tentou o ayatollah o expediente de misturar alhos com bugalhos, relevando a questão da participação de assessores em actividades partidárias, em detrimento da questão central, a da sugestão da prática de actos ilícitos por parte do governo ou, em alternativa, de envolvimento da presidência da república numa fraude.

Saiba sua eminência que os seus assessores têm toda a legitimidade para participar em actividades partidárias. Escusa de se preocupar com isso. Escusa de nos fazer perder tempo com isso.

Saiba também sua eminência que muitos dos cidadãos que lhe pagam o salário ( e pelos vistos até o  provedor de justiça ) continuam à espera de uma explicação sobre a questão das escutas. Trata-se de uma prova de estatura. Ou sua eminência a tem, ou não a tem. Em que ficamos ?

Os três porquinhos

Os três porquinhos juntaram-se um dia e vieram a público denunciar os horrendos planos nucleares do monstro iraniano. Com mapas e fotografias e sabe-se lá mais o quê.

Podemos olhar mais de perto ?

Em primeiro lugar, parece-me razoável perguntar se assiste a um qualquer país o direito de defesa.

Se sim, então será natural que o Irão, tal como acontece com outros países, se muna rapidamente de um dissuasor nuclear. Por um lado, porque a ingerência dos países ocidentais que causou o fim de Mossadegh e a ascensão do xá é algo que irá grantidamente repetir-se no futuro ( para que não haja dúvidas, os EUA, desde a queda do títere, recusaram dar ao Irão quaisquer garantias de segurança ). Por outro lado, porque o disparate da invasão e destruição do Iraque causou um desequilíbrio excessivo, que em rigor só pode ser restabelecido pela destruição do poderio militar iraniano... E os iranianos sabem disso.

Se não, então não se compreende a histeria ocidental face ao Irão, quando não suscitou qualquer reparo digno de nota a obtenção de armamento nuclear por parte de países como Israel, a Índia ou o Paquistão. Muito menos quando, como aconteceu com a Coreia do Norte, o único caso em que houve reparo digno de nota, o resultado final é a garantia de segurança para o transgressor.

Em segundo lugar, uma observação de pormenor... A descoberta de novas instalações militares subterrâneas destinadas ao processamento de urânio não é na verdade uma descoberta. Há mais de três anos que as instalações são conhecidas, como qualquer pessoa vulgaríssima que tenha observado a zona no Google Earth poderá confirmar. No caso das fotografias da instalação existente a noroeste de Qom, é de estranhar que hoje, como há uns anos atrás, se relevem os dois acessos mais fotogénicos e se esqueça que a algumas centenas de metros a mesma elevação é perfurada por nada menos de dez hangares parcialmente soterrados, qualquer um deles servindo perfeitamente como entrada de túnel para o interior da elevação. A inclusão destes hangares na fotografia tiraria talvez algum brilho à fantástica descoberta, perder-se-ia o impacto mediático da encenação e o ímpeto belicista iria por água abaixo. Uma chatice.

Em terceiro lugar, do ponto de vista legal é defensável a posição iraniana. Declarou a existência de uma nova instalação nuclear dentro dos prazos previstos.
Perante isto, não surpreende que a encenação desemboque no que realmente nos interessa, a saber, que vamos agora dar o passo seguinte, agravando as sanções destinadas a obter a submissão iraniana aos nossos interesses estratégicos. Sejam lá quais forem.

Hmm... Vamos pensar um pouco ?

Como referi num outro post, na presente conjuntura política iraniana é útil para Ahmadinejad, muito útil, a existência de crispação face a um inimigo externo.
Os problemas internos do Irão não se resumem à configuração do sistema político. A vertente económica vai tendo peso crescente e, no caso particular dos combustíveis, é de todo o interesse para o governo iraniano que rapidamente os seus congéneres ocidentais imponham um embargo, que dará a justificação para algumas medidas impopulares, que são inadiáveis com ou sem embargo. E obtido o benefício da justificação, o embargo pode sempre ser furado pela fronteira iraquiana, ou pelos amigos chineses ou russos. Como não temos infelizmente grande tino, damos de borla a Ahmadinejad uma ferramenta excelente para que consolide o seu poder.

Julgamos talvez ter o poder militar necessário para dar cumprimento às nossas ameaças neste poker de apostas crescentes. Mais uma vez, como não temos infelizmente grande tino, não percebemos que já temos na zona mais de um quarto de milhão de soldadinhos que nada fizeram de útil ao longo dos últimos sete anos, limitando-se a matar indiscriminadamente e a consumir recursos a um ritmo épico. Não percebemos que um ataque convencional ao Irão não terá qualquer benefício, e que uma invasão daquele país é simplesmente impossível, seja porque o número de soldadinhos necessários é gigantesco, seja porque, como ainda ontem frisou o governo iraquiano, o uso do território do Iraque para uma agressão ao Irão não será autorizado.
Quando jogamos poker, seria prudente que pensássemos até onde estamos dispostos a ir. De outra forma, a partir de certa altura ( como está a acontecer no Afeganistão ) arriscamo-nos a deixar de conduzir para passarmos a ser conduzidos.

O que está em jogo no Médio-Oriente é demasiado sério. Cada um de nós, cidadãos ocidentais, deveria por isso pensar bem nas responsabilidades que assume quando persiste em delegar cegamente em aventureiros a definição das políticas para aquela zona.

O híbrido

Convenhamos, o PSD apresenta-se às eleições numa posição de fraqueza.

Enquanto representante modelar do novo-riquismo competitivo que deu os seus primeiros passos no início da década de 70, tem naturalmente dificuldade em manter a unidade interna, só o conseguindo nas poucas ocasiões em que usufrui de uma liderança forte.

Não surpreende portanto que uma figura como MFL esteja fadada ao sacrifício. Canibalismo é assim mesmo, e MFL carrega a sua dose de culpa, na medida em que não conseguiu sequer alinhavar um programa eleitoral credível.

Mesmo nestas condições, seria de esperar que a arrogância e alguns dos insucessos de Sócrates e sus muchachos resultassem no rotativismo em que tanto gostamos de marinar.
Mas quiseram os deuses que o ayatollah de Belém se enrolasse numa história escura, faltando-lhe agora coragem ou seriedade para clarificar a situação. Conseguiu, de um só golpe, ressuscitar a possibilidade de Sócrates obter nova maioria absoluta.

E pronto, está tudo explicado. Ou não ?...

Julgo que não. O que me parece perigoso de há uns anos para cá é que o PS tenha sido sujeito a uma operação plástica que coseu o elitismo esclarecido, laico, republicano e vagamente socialista dos seus fundadores aos interesses de classe representados anteriormente pelo PSD, ainda por cima pela mão de um dos seus antigos membros.

O rotativismo parece ter cumprido o seu destino ao gerar um único filho, uma espécie de Frankenstein centrista. O PSD tornou-se por isso dispensável.
Poderão os partidos restantes dar conta do recado ?

Uomini d'onore

Faltam poucos dias, a dúvida permanece.

E na circunstância a ausência de esclarecimento é equiparável a insulto, um insulto a todos os cidadãos.
Vale a pena insistir no convite ao ayatollah de Belém para que ganhe coragem e, ainda antes das eleições, explique exactamente o que se passou.
O convite  provavelmente não será aceite, pois será natural que num país de tão brandos costumes até o presidente se ache inimputável... E pelos arrufos dos ideólogos de piquete nas famiglie do centro, pode depreender-se que as élites que superiormente nos dirigem não querem ver esta lebre aos saltos, optando antes por um entendimento de cavalheiros que salvaguarde para já a imagem do grande ayatollah.

Permitam os meninos que discorde desse tipo de entendimentos.

O ponto dá instruções

O tubarão mexe-se.

Hoje, na reunião da Assembleia de Peritos, assinalou claramente que a única voz que importa ouvir é a dos grandes ayatollahs, devendo por isso ser considerada como guia absoluto para pôr termo à crise institucional a declaração que estes agora emitam, já que constituem o último bastião de defesa genuína do sistema de república islâmica.

Ora bem, os rumores indicam que os ayatollahs estariam inclinados a recomendar a deposição da múmia suprema. Só que... A Assembleia de Peritos, detentora desse poder, está recheada de apoiantes de Khamenei, pouco inclinados certamente a liquidar o patrão.
Mas, ao omitir quaisquer sinais de deferência para com a suprema múmia e, genericamente, dar ao discurso o tom de quem ordena em vez de sugerir, Rafsanjani dá solidez à idéia de que Khamenei está politicamente acabado e de que há que reduzir severamente a margem de manobra de Ahmadinejad, inclusive na gestão da política externa.

Rafsanjani está no centro da manobra política, e ao antecipar-se à declaração de Qom aparece mais uma vez com uma dimensão de estado mais credível que a de Khamenei.
Uma vez que nos últimos meses tem cultivado com cuidado essa imagem de vulto sereno e relativamente independente, estaria capaz de sugerir que Rafsanjani, ao invés de trabalhar no sentido da abolição da figura de supremo líder, como aventou há uns tempos atrás, está na verdade a posicionar-se como candidato natural à sucessão do desgastado Khamenei, cavalgando a onda de defesa do status quo ante.

As apresentações foram feitas, sentemo-nos então para a cena 3 do acto II.

Portugalistão

Ironicamente, defendi ontem junto de algumas pessoas a postura do grande ayatollah de Belém, pessoa
que não me inspira habitualmente um grande apreço.
Essa defesa baseava-se numa razão simples, a de que seria inconcebível que o presidente, ao longo de um ano e agora de forma mais aberta, se tivesse enredado numa burla capaz de o sujar seriamente e, pior que isso, de sujar também a instituição que personifica.

Os factos de hoje parecem mudar o cenário.

Valerá por isso a pena que o presidente, antes das eleições, explique claramente os factos.
Porque das duas uma... Ou o primeiro-ministro utilizou meios ilícitos para espiar um outro órgão de soberania, e os cidadãos devem ser informados a tempo de lhe dar a resposta adequada no dia 27, ou o presidente utilizou abusivamente o cargo para emprestar credibilidade a uma calúnia capaz de influenciar decisivamente a votação.

Em qualquer dos casos, parece-me higiénico que um dos figurantes saia de cena.
Porque se os figurantes simplesmente se ficarem por um acordo de cavalheiros que conduza a um manso esquecimento do assunto, então ficará a impressão de que o afunilamento ao centro da vida política não gera apenas entendimentos duvidosos, mas gera também encobrimentos mais sérios.

Um dos meninos que se chegue à frente. Já.

Trotsky airlines


Morreu Irving Kristol, o criador da arrumação ideológica que dá pelo nome de neoconservadorismo.
Como vários da nossa praça, na fase final da juventude levantou vôo do trotskismo para aterrar no campo da direita.
'Mas não é esse o destino óbvio de todo o radical pequeno-burguês de fachada socialista ?', perguntaria o velho Barreirinhas.
Sim, quase sempre, mas... O que tornou Krystol uma figura de relevo foi o brilhantismo com que legitimou o salto do ponto de vista ideológico.
Querido leitor, aconselho-o a consultar alguns dos seus trabalhos, que são como o Tintin, bons para todas as idades. Se o leitor for um trotskista arrependido, sentir-se-à vingado. Se for um direitinha desde tenra idade será banhado pela luz do intelecto. Se for um gauchiste caviar, sentir-se-à muito justamente enxovalhado. E se for um estalinista na pré-reforma, sentirá os fedores enxofrados do demónio.
Em qualquer caso, se for de esquerda prepare-se, tem pela frente um osso muito duro de roer. O neoconservadorismo é muito mais do que as figurinhas caricatas que por instantes vimos associadas ao poder norte-americano.

Acto II, cena 2

 A criança continua viva. Apesar de tudo.

No final dos eventos do Quds, o balanço é relativamente neutro.

No plano da populaça, os poucos confrontos que ocorreram envolveram apenas membros das milícias Basij e da oposição, apesar da presença significativa (mas não muito) de apoiantes das várias facções.
Pode dizer-se que o apelo de Khamenei não teve tradução efectiva. As suas massas não se sobrepuseram às dos oponentes, nem qualquer das partes se deixou tentar pela violência sectária.
Do lado da oposição, não há motivo para júbilo excessivo. Pode alegar-se que as ameaças de Khamenei, as dificuldades organizativas decorrentes da repressão contínua, ou até os feriados decretados em cima da hora, terão desmobilizado parte importante da classe média. Pela minha parte, embora me pareça que a utilização das movimentações pacíficas de massas seja uma estratégia muito interessante e que venha dando resultados muito positivos, a sua maior ou menor dimensão está sempre limitada pela capacidade mobilizadora dos objectivos propostos para cada acção singular. Relativamente à acção de ontem, os comentários que li traduziam a ausência de objectivos concretos para além de uma mera prova de vida.

No plano da direcção política, o impacto é um pouco maior.
Ahmadinejad apareceu debilitado. Não foi capaz de se referir à situação interna do país, preferindo jogar mais forte na conflitualidade face ao inimigo externo, com ênfase numa série de patacoadas sobre os judeus.
O exercício não teria por si só grande sucesso juntos dos iranianos, pois já se tornou demasiado óbvio e cansativo. Só produziu benefício político graças à imbecilidade de alguns dirigentes ocidentais, que logo esbracejaram como tolinhos.
Khamenei também perdeu algo. O seu apelo caíu em saco roto e ao longo do dia não teve qualquer relevância no discurso político. Foi simplesmente ignorado.
E do lado da oposição ? Rafsanjani foi de férias, Moussavi esteve mas não esteve, Khatami esteve mas pisgou-se depois de levar uns tabefes dos basiji, Karroubi passeou-se mais ou menos despercebido. Que se pode dizer ?... Missa est, venha a próxima.

A cena seguinte talvez tenha consequências mais notáveis, dependendo do conteúdo. Após uma gestação prolongada, o clero de Qom deverá na próxima semana emitir uma declaração conjunta. Embora o clero nunca seja raça de confiança, ali ou em qualquer outro lado, o facto de se sentir com os calos bem pisados poderá levá-lo a, uma vez sem exemplo, fazer alguma coisa útil.

Parabéns

Os promotores da Iniciativa de Genebra publicaram o  acordo geral e anexos sectoriais  resultantes dos trabalhos efectuados nos últimos dois anos pela equipa mista israelita e palestiniana.

Se a iniciativa era meritória por si só, ganha especial valor pelo simples facto de sujeitar as suas propostas a dicussão pública.

Quer para os povos directamente interessados, quer para todas as potências externas envolvidas, a existência de um documento de trabalho aberto tem dois efeitos importantes:
-  A construção de uma plataforma realista baseada nas sugestões e alertas colhidos nas mais diversas fontes;
- A redução do espaço de manobra de quantos se oponham à opção dos dois estados, uma redução tão mais acentuada quanto mais minuciosos forem os detalhes de implementação.

Parabéns a todos os que deram ou venham a dar o seu contributo a este projecto.

As habilidades natatórias do tubarão

Depois de Khamenei pedir aos seus apoiantes uma presença massiva no dia de Qods, é a vez de Rafsanjani ripostar, publicando um apelo no mesmo sentido. O fraseado é delicioso, cheio de referências veladas à situação iraniana, a fazer lembrar os articulistas portugueses no tempo da censura ( mas a semelhança limita-se aos truques de estilo, já que o contexto é bem diferente ).
Mas leia-se com cuidado... No cenário mais perigoso, o da afluência de grande número de apoiantes de ambos os campos em reclamação da 'propriedade' do dia de Quds, os confrontos serão praticamente inevitáveis. Rafsanjani tem plena consciência disso, e no entanto não há no texto uma única referência à sua eventual presença física nas manifestações ou sequer na liderança das orações de 6ª feira. Isto é, o velho tubarão, mais uma vez, desafia publicamente a suprema múmia sem se expor pessoalmente...

O nervosismo é patente. A suprema múmia achou importante negar que Rafsanjani tivesse ameaçado demitir-se de todos os cargos se Karroubi fosse detido. No mesmo dia, foram presos três netos do grande ayatollah Montazeri, talvez em retaliação por uma declaração deste em que acusa o regime de ter abandonado os valores religiosos e se ter transformado numa ditadura militar. Também no mesmo dia, o porta-voz do parlamento, Larijani ( o meu catavento favorito ), deu-se ao trabalho de pedir uma audiência a Karroubi, ao que consta para lhe pedir alguma contenção. E ainda no mesmo dia, Karroubi reagiu às acusações da comissão judicial que investigava as violações de detidos, chamando mentirosos aos membros desssa mesma comissão. Louvo-lhe a coragem.

Por falar em coragem, estará Moussavi de férias ?

Acto II, cena 1

A primeira cena desta etapa do processo político iraniano teve o seu lugar.

Nas orações de 6ª feira, Khamenei deixou sinais claros do que aí vem. Quando citou a frase há um tempo para a tolerância e um tempo para a espada, abriu caminho para uma série de ameaças mais ou menos veladas e para o incitamento, este sob a forma de uma chamada aos seus apoiantes para que assegurem uma presença massiva e combativa no dia de Quds.

A manobra não surge isolada. Depois dos assaltos e prisões do dia anterior, veio a público que Khamenei já há duas semanas atrás assinou um mandato de captura em nome de Karroubi, que pode ser cumprido a qualquer momento. Entretanto, a comissão judicial encarregue de investigar as alegações de violação de detidos afirma ter terminado os trabalhos e concluído que as alegações de Karroubi são falsas. Logo se renovaram os apelos de algumas figuras importantes relacionadas com Ahmadinejad para que Karroubi seja preso ou morto.

Rafsanjani não perdeu tempo a reagir. Fez saber que se reuniu com a suprema múmia e lhe manifestou abertamente o desacordo quanto a esse mandato, uma revelação curiosa pelo que representa de desafio público à autoridade de Khamenei. E esta revelação foi logo seguida de uma outra, que caíu como uma bomba nas hostes reformistas, a de que Rafsanjani se retira da acção política e renuncia a várias posições importantes, incluindo o direito de liderar as orações no próximo dia 18, o que pode ser entendido como um sinal de rendição.

Mas convém ler nas entrelinhas... Rafsanjani já percebeu ( como toda a gente, de resto ) que a autoridade de Khamenei é cada vez mais diminuta, e que as suas ameaças não são mais que um último esforço para manter a iniciativa perante o eixo Ahmadinejad/IRGC. E nesta dinâmica, é praticamente impossível evitar um confronto de massas violento no dia 18 mesmo que entretanto, como se teme, todos os dirigentes reformistas sejam detidos. Rato, Rafsanjani pode estar simplesmente a tentar distanciar-se da violência, para que a culpa pese inteiramente sobre os ombros do moribundo supremo líder. Noto que não é a primeira vez nestes três meses que Rafsanjani tenta afirmar uma imagem de ponderação em resposta a atitudes irreflectidas de Khamenei. Não é à toa que lhe chamam tubarão.

A coisa não está fácil. Com o IRGC a assumir, agora abertamente pela voz do seu comandante, que no novo cenário já não faz sentido manter-se arredado do poder político, então restam apenas as forças armadas regulares como última entidade capaz de os travar. E desse lado o silêncio continua a ser absoluto.

A evolução dos acontecimentos não é positiva. Uma ditadura suportada por um corpo paramilitar irá forçosamente procurar legitimação no confronto com o inimigo externo, o que cria dificuldade acrescida ao processo negocial com os países ocidentais. Depois da palhaçada que constituiu a mais recente proposta do governo iraniano ( que pode ser consultada em documents.propublica.org ) e que foi hoje tomada a sério em marcha-atrás pelos EUA, outras se seguirão, provavelmente com um tom de desafio mais incisivo que forçosamente suscite reacção ocidental equivalente, o que nos colocará a todos no reino da imprevisibilidade.

Vale a pena ter bem presente que a posição iraniana é muito forte. Mesmo sem quaisquer apoios externos. Note-se que do ponto de vista militar é praticamente impossível aos países ocidentais organizar um ataque convencional capaz de submeter o Irão ( a palavra convencional não está aqui por acaso, e a palavra submeter também não ).

Mas no fundo é para uma aventura desse tipo que caminhamos. A Rússia e a China já o perceberam, e pelo menos do lado russo não têm faltado as indicações de que vão rejeitar o incremento das pressões políticas e económicas, o que encorajará os países ocidentais a aplicar sanções unilaterais e, quando estas falharem, a enveredar pela guerra.

Mas não nos queixemos. Afinal de contas, quem bem faz a cama, bem se deita nela.

Periclitante

Quando parecia que Ahmadinejad estaria condenado a uma posição relativamente passiva, eis que o tabuleiro vira por completo.

Para que se compreenda melhor esta reviravolta, convém antes de mais lembrar, que já há poucos dias atrás o parlamento recebeu uma ordem directa da suprema múmia para se deixar de coisas e aprovar o novo painel ministerial, quando tudo indicava que pelo menos cinco ministros seriam rejeitados. E o parlamento obedeceu.

Fico na dúvida sobre os desenvolvimentos de ontem, com as buscas, apreensão de documentos e prisões nas instalações de Moussavi e Karroubi. Num primeiro momento, dir-se-ia que os actos teriam sido ordenados por Ahmadinejad. Tendo vindo a ser sujeito a uma cerco crescente, seria razoável que passasse à ofensiva, forçando o campo conservador próximo de Khamenei a apoiá-lo in extremis. Não seria caso para menos, pois um retorno à normalidade institucional, com o cortejo de acções judiciais punitivas que estão em marcha, coloca em risco a sobrevivência política e económica do polvo construído pela guarda revolucionária.

No entanto, as muitas fugas de informação que desde ontem vêem sendo difundidas apontam para a Khamenei como autor das medidas repressivas em curso. Aguardemos clarificação...

Em qualquer caso, tudo conflui para uma agudização rápida da crise, com a aproximação de três eventos que poderão ter impacto maior, a saber, a alocução de Khamenei nas orações de 6ª feira, as manifestações anti-sionistas no dia de Al-Quds ( 18/9 ) e o desenlace da reunião dos grandes ayatollahs que decorre em Qom.

Na 6ª feira, Khamenei poderá apelar a uma repressão mais significativa dos reformistas, alegando que já foram tomadas as medidas necessárias para o retorno à legalidade institucional. Nesse cenário, as prisões de alto nível ontem efectuadas seriam provavelmente um prelúdio para a prisão de Khatami, Karroubi, Moussavi e, quem sabe, Rafsanjani. Um dos rumores em circulação é o de que o IRGC (a guarda revolucionária) terá enviado a Khamenei provas de que todos eles estão conluiados na preparação da deposição da suprema múmia. Se pensarmos um pouco, o rumor é um pouco ridículo, dado que a única pessoa que não trabalha neste momento para depor a suprema múmia é a dita cuja.

No dia de Al-Quds ( instituído por Khomeini, in illo tempore ), esperam-se movimentações de massas em larga escala, devidamente enquadradas politicamente. De forma pouco clara, vai-se tendo a percepção de que os reformistas estão a preparar alguma coisa significativa para esse dia. Alegam uns que a azáfama de ontem se destinou a preparar o terreno para a prisão dos líderes reformistas antes do dia 19. Alegam outros que Ahmadinejad poderá declarar um feriado nessa data, de forma a desmobilizar o maior número possível de participantes, ou simplesmente proibir as comemorações, o que teria um custo político muito elevado.

Entretanto, espera-se que a reunião do topo do clero resulte num finca-pé claro contra as investidas anti-clericais do eixo Ahmadinejad/IRGC. Talvez seja esperar demasiado, mas vale a pena notar que alegadamente a reunião deverá contar com a presença de Sistani, o que, a ser verdade, será muito significativo.

Com os eventos de ontem, parece ter tido início o jogo em campo aberto. O impasse arrastou-se sem decisão por muito tempo, e alguns terão concluído que só pode decidir-se pela força. E talvez tenham razão.

Afundistão

Karzai perdeu a cabeça, o resultado está à vista.

Tornando-se a certa altura bastante provável que fosse necessária uma segunda volta das presidenciais afegãs, generalizou-se a preocupação sobre a exequibilidade dessa segunda volta.
Karzai não terá achado conveniente perder muito tempo com o assunto, pelo que, algum tempo antes do acto eleitoral, tomou medidas de dois tipos. Por um lado, foi repescar o famigerado Dostum à Turquia, para onde o tinha exilado há uns meses atrás, tornando-o agora em aliado e prometendo-lhe um cargo à medida. Por outro lado, foi preparando a chapelada à vista de todos.

E se não é possível perceber o impacto efectivo da repescagem de Dostum, é ao contrário notável o efeito da chapelada... A comissão eleitoral recebeu milhares de queixas, e centrou a atenção em 700 dessas queixas. Não é caso para menos, pois cada uma delas corresponde a actos susceptíveis de alterar decisivamente o resultado das eleições.

Entretanto, centenas de líderes tribais do Sul reuniram-se em Cabul para denunciar a ocorrência de fraude massiva nas suas localidades de origem e exigir a demissão de Karzai e a repetição da eleição presidencial.

Perante isto, não posso deixar de considerar burlesco o anúncio feito há uns dias atrás segundo o qual o general Stanley McChrystal, comandante das tropas no terreno, vai solicitar mais 20.000 soldados para tentar inverter o avanço dos Taliban. Afinal de contas, nesta altura deveríamos orientar a força militar contra os Taliban ou contra um presidente que convida um criminoso de guerra para o governo enquanto pratica uma fraude eleitoral generalizada ? Fico confuso.

Quererá Sócrates, nosso querido líder, explicar o que se passa ?

A dupla personalidade do estado iraniano

Um pequeno update ( especial para o P.R. ) ...

A utilização dos meios do estado pelas facções em disputa no Irão está a atingir um nível bastante ruidoso.

Do lado de Ahmadinejad, chega a notícia da demissão simultânea de 40 embaixadores que não lhe prestaram o devido apoio após a eleição. Para além disso uma notícia não confirmada indica que terão sido presos dois colaboradores do filho de Rafsanjani.

Do lado da agora mega-oposição, foi anunciada a abertura de mais algumas investigações tendo como alvo seguidores de Ahmadinejad, tendo particular relevo as que se relacionam com os casos de violação e de homicídio. Há também uma notícia não confirmada, segundo a qual o director da IRIB ( agência noticiosa conotada com a guarda revolucionária), pode ser substituído por Mohsen Razaei ( conotado com Rafsanjani ).

Ao mesmo tempo que em Teerão se desenrolam estas cenas de faca e alguidar, na cena regional o governo sionista parece ter conseguido entalar os EUA numa posição cujo desenvolvimento acarretará mais problemas para o Irão.
Há uns dias atrás corria o boato de que Bibi cederia na questão dos colonatos na condição de que fosse em paralelo apertado o pescoço ao Irão. Bom, os dados parecem confirmar que Obama cedeu mesmo às exigências do regime racista de Tel-Aviv. Isso implica que, não havendo contra-medidas da China ou da Rússia, o leque de sanções vai ser agravado, provavelmente ainda este mês, com incidência nos sectores financeiro e energético.

A ressurreição da fónix

Mortazavi, procurador de Teerão responsável por muitos dos abusos de poder cometidos na algazarra pós-eleitoral, foi demitido por Sadeq Larijani, o novo dirigente do poder judicial iraniano, que vem tomando várias medidas para restabelecer o estado de direito.

O clero da linha de Khamenei parece ter decidido acomodar-se a uma convivência amargurada com o campo reformista, facilitando uma união de facto que permita aguentar o sistema.

A generalidade do clero restante limita-se a jogar à defesa. Se do ponto de vista ideológico ainda pode reclamar alguma legitimidade, do ponto de vista prático já não tem espingardas suficientes para retomar as rédeas do poder, pelo que se limita a titubear princípos de quando em quando, incapaz de qualquer outra acção.

Enfronhada na sua maior crise desde as purgas de Khomeini, a teocracia tenta restabelecer-se num novo patamar de estabilidade. Mas talvez seja um exercíco fútil, pois as contradições do sistema são agora demasiado profundas.
Qualquer confluência na acção será por isso sol de pouca dura, os projectos dos distintos grupos não são passíveis de acomodação duradoura.
Mas enquanto o pau vai e vem, despontam sinais de vitalidade. Para além das muitas acções empreendidas ou apoiadas pelos poderes parlamentar e judicial, que incluem a investigação das violações de detidos de ambos os sexos e dos cadáveres em campas não identificadas, também os media parecem ganhar algum vigor na crítica ao presidente e seus apoiantes ( é o síndrome dos vira-casacas, que nós portugueses tivemos oportunidade de observar há uns anos atrás ).

Do outro lado da barricada, Ahmadinejad vai aguentando os enxovalhos com ar brejeiro, desafiando tudo e todos, desafiando até Khamenei, a suprema múmia que vai dando o dito por não dito na esperança de salvar o pouco que lhe resta.
E de onde vem a arrogância de Ahmadinejad ? Do poder das armas da guarda revolucionária. O que não deixa de ser espantoso, se considerarmos que o projecto plutocrático desta é, bem vistas as coisas, antagónico do projecto populista e algo socializante de Ahmadinejad.

Sociquê, pergunta o leitor, escandalizado ? Bom, sem querer parecer especialmente cínico, diria que, salvaguardada a componente religiosa, o projecto que na cena internacional actual me parece mais próximo do de Ahmadinejad é o de Hugo Chavez...

E já agora, continuando a não querer parecer especialmente cínico, confesso a minha profunda admiração por alguns dos aspectos da cultura política iraniana, que nalguns momentos revelam um grau de elaboração bastante invulgar.

E é talvez a conjugação das contradições do sistema aliada a essa elaboração que está a complicar seriamente os processos de avaliação ocidentais, o que é prenúncio seguro de novas e maiores asneiradas da nossa parte. Espero que os nossos queridos líderes não se deixem embalar pelos cantos de certa sereia que tudo faz para nos arrastar para um confronto directo com o Irão.
Espero que, depois da imbecilidade das aventuras afegã e iraquiana, não nos arrastem para uma situação ainda mais grave.

Como estava escrito...

O Iraque perdeu uma figura importante. E pelo seu lado, finalmente esvaziada de todos os seus membros mais destacados, a família de Abdul Haziz al-Hakim irá perder grande parte da teia de relações de poder construída ao longo de décadas.

Com Maliki cada vez mais distante, o campo xiita vai ter de passar por uma redefinição algo difícil. Um período de alguma convulsão dentro do ISCI e uma oportunidade de ouro para o renascimento do anafadinho Sadr, que deve estar deliciado com a morte de um dos seus mais poderosos adversários... Mas também uma oportunidade, talvez única, para uma reaproximação entre as facções xiitas e Maliki, que talvez propiciasse um desenvolvimento político relativamente tranquilo.

O campo xiita beneficiou durante os últimos seis anos da liderança de dois indivíduos de grande capacidade, Hakim e Sistani. Morto Hakim e declinando Sistani, abre-se lentamente o caminho aos aventureiros. E dentre estes, tanto Maliki como Sadr estão em boa posição, e facilmente despirão o manto democrático se forem deixados à solta.

Dois estados

Entre várias acções recentes do JStreet, destaco um pequeno vídeo com declarações de algumas figuras israelitas proeminentes, em apoio à solução dos dois estados. Reproduzo-o aqui, lamentando que não haja legendagem em português.


O sujeitinho

Depois da generosa quantidade de disparates gerados por um episódio de erosão natural, valeria a pena reflectir um pouco sobre o bom senso de uma sociedade.
Perdi essa esperança, no entanto, depois de assistir à intervenção televisiva de um sujeitinho desagradável, que creio ser o chefe de um sindicato de magistrados e o provável proponente de um inquérito-crime.

Não que um inquérito seja em abstracto uma má idéia. Tratou-se de um conjunto de mortes, cuja causa deve ser estabelecida sem margem para dúvidas, o que julgo ser o que geralmente se faz quando a causa de morte não é uma doença. Neste caso, dados os relatórios das autópsias e o número elevado de testemunhas do acidente, não me parece que no fim devam subsistir muitas dúvidas sobre o que aconteceu.

Só que... O que o sujeitinho reclama é bem mais do que isso. Reclama o despedimento dos responsáveis, gente que em seu entender poderá não ter cumprido o seu dever de zelar convenientemente pelo bem-estar dos cidadãos.

Este sujeitinho é perigoso, e aproveita-se de duas fontes de problemas:

- Um é bastante genérico, e tem a ver com o grau de responsabilidade que o Estado deve assumir em substituição dos cidadãos. Perante uma massa extensa de material sedimentar que vem sendo naturalmente destruída ao longo de milhões de anos , parece-me simplesmente idiota que se vá além da sinalização das zonas de maior risco, quando estas sejam conhecidas. Ir para além deste ponto significa assumir que os cidadãos adultos não dispõem da capacidade mental necessária para, conhecendo um risco, tomar as suas decisões.

- O outro é o da formulação dos deveres a que estão sujeitos os desgraçados que o sujeitinho quer agora despedir... Porque se essa formulação tiver sido genérica ( o que é muito provável ), então os funcionários que se limitaram a sinalizar o perigo faltaram ao seu dever, pois, tendo consciência de que algures neste milénio aquela ou qualquer outra massa existente no solo deste país poderão desagregar-se, não cuidaram de vedar as áreas, não colocaram polícias de piquete em cada uma delas nem mantiveram ambulâncias de piquete nesses locais.

Refluxo

Todas as figuras públicas iranianas andam agora de faca na liga.
Incluindo Khamenei. A suprema múmia percebeu finalmente a sua suprema imbecilidade, e decidiu criar uma milícia pessoal para se proteger.

À medida que a bruma se vai esbatendo, não só se revelam os actores como se retoma algum do brilho que, em minha opinião, é uma singularidade da vida política daquele país.

Os campos estão mais claramente divididos entre o IRGC/Ahmadinejad e os outros. Todos os outros. Por muito surrealista que seja o quadro, todos os opositores do presidente, à direita e à esquerda, confluem na acção ( e apenas na acção, naturalmente ) para desagregar a estrutura que ameaça tomar de assalto o estado.

Parece confirmar-se a opção pela estratégia que mencionei em 29/7, de cerco legalista à dupla IRGC/Ahmadinejad. Sucedem-se as demissões, acusações e punição de elementos de peso, e ganha algum fôlego a crítica do sistema, seja a proveniente do clero ( com relevo para um discurso memorável do grande ayatollah Saanei ), seja a proveniente das proto-múmias próximas de Khamenei. Ver Larijani apelar à pluralidade é o mesmo que ouvir um hino à duplicidade congénita dos carreiristas.

Definitivamente, algo se passa em Teerão, e parece apontar para o restabelecimento do sistema de checks and balances.
Não se tratará ainda do nascimento de uma Vénus republicana e laica, mas julgo ver sinais de uma gravidez prolongada que inevitavelmente produza esse bicho ( admito que possa estar a empolar a importância de alguns detalhes, mas logo veremos ).

Espero que tudo corra pelo melhor. Com quatro pontos de crise simultânea no Médio-Oriente, será benéfico para a paz mundial que o Irão não descambe para uma ditadura militarista. Tendo em conta os problemas internos do país, seria demasiado tentadora a velha solução de legitimação pelo confronto com o inimigo externo. Definitivamente, mesmo sem esse Sarajevo já temos lamaçal suficiente para chafurdar durante as próximas décadas.

Gravura de Flammarion

Tive por companheira nos anos de infância uma pequena enciclopédia histórica da Verbo. Numa das capas o designer tinha colocado um fragmento de uma gravura que me impressionou de forma duradoura.

O que tornava notável essa pequena gravura, na interpretação que dela fazia, era a desconcertante humildade do grafismo, talvez até a sua ingenuidade, em se tratando de representar a ânsia atrevida com que sondamos o complexo oceano de maravilhas que é o universo. Mais notável ainda, o autor tinha desenhado um adulto como agente dessa aventura.

Ora, por um dos estranhos encadeamentos que só a Internet proporciona, foi a partir do Twitter que finalmente cheguei a saber pela Wikipedia um pouco mais sobre a imagem, que dá pelo nome de gravura de Flammarion.

Deixo-lha aqui, caro leitor, desejando que ela seja tão inspiradora para si como tem sido para mim.

Plano B, precisa-se

Em Cabul, os grupos Taliban não tiveram hoje dificuldade em assinalar, com todas as letras, que está na sua mão o sucesso ou insucesso da consulta eleitoral.
Um responsável policial veio reforçar mensagem, ao afirmar claramente que não seria possível garantir a tranquilidade necessária.

Não sei se o querido leitor se interessa pelo assunto. É certo que se tornou impraticável para os media manter esse interesse ao longo de oito anos de coisa nenhuma. Quase apostaria que uma sondagem aleatória iria revelar que a maior parte dos cidadãos desconhece a extensão do envolvimento da NATO nesta drôle de guerre iniciada por pataratas e continuada por burocratas.

Longe da vista, longe do coração. Não há soldados portugueses a morrer, a guerra está ganha, portanto não vale a pena falar sobre o assunto. Hmm ?....

Bom, clarifiquemos a situação corrente... Há poucos dias atrás, um general britânico sugeriu que o envolvimento do seu país no Afeganistão poderá prolongar-se pelos próximos 40 anos, nas suas várias componentes. Nada mau, para uma guerra que se supunha ganha há 8 anos atrás mas que na verdade tem resultado de ano para ano numa contínua expansão das áreas de actuação dos grupos Taliban.
Uma expansão tão séria que conduz agora a uma alteração profunda na estratégia militar, tal como refere o actual comandante das tropas norte-americanas, num curioso fraseado em língua de pau apontando a necessidade de enfatizar a protecção das populações civis, mas que na realidade se traduz numa concentração defensiva bem a norte da fronteira com o Paquistão, em detrimento das operações de conquista e manutenção de posições. Bom, em qualquer caso é um sinal de realismo sempre bem vindo.

E pergunta o leitor, mas afinal os Talimaus trogloditas controlam o quê, se enfrentam as moderníssimas e bem equipadas tropas da NATO ?
Para elucidar esse ponto, vale a pena ler um artigo recentemente publicado, que alegadamente reflecte a avaliação feita pelo próprio governo afegão sobre o risco de ataques dos Taliban ou outras forças, e que vem acompanhado do mapa que ( com os meus agradecimentos à Reuters ) reproduzo abaixo, depois de lhe ter traduzido as legendas.



Perante esta linda pintura, não seria útil que os nossos burocratas, começando pelo ministro da Defesa, explicassem de forma muito clara o que estamos a fazer no Afeganistão, de preferência sem as frases vazias do costume ?
E que explicassem também as consequências de uma previsível derrota militar da NATO naquele território, quando são aparentemente incapazes de construir e implementar um plano B, defendido até pelo governo afegão, uma alternativa política que resulte numa partilha de poder com os Taliban ?

E pergunto-lhe a si, querido leitor, uma vez que é o responsável último das políticas do seu governo: Está disposto a persistir nesta guerra, independentemente do sofrimento causado ao povo afegão ?... Porquê ?

Crispação

Khamenei decretou, aparentemente com algum distanciamento, a validade da reeleição de Ahmadinejad, cuja tomada de posse irá agora ter lugar.

Esta será uma semana crítica. Do lado dos oponentes de Ahmadinejad ( incluindo sectores conservadores ), entre ontem e hoje várias figuras e instituições manifestaram abertamente a sua oposição à tomada de posse, bem como aos julgamentos em curso.
Nas ruas de Teerão e de outras cidades ocorreram manifestações de pequena monta, sujeitas a repressão pouco severa, mas anuncia-se uma mobilização alargada para a tomada de posse. No sentido de neutralizar essa mobilização, o regime está alegadamente a deslocar um grande número de efectivos para pontos-chave em Teerão. Ao mesmo tempo, foi anunciada a suspensão por 72 horas dos serviços de SMS.

No campo reformista cresce a apreensão, alimentada por rumores não confirmados. Um deles refere que Ahmadinejad terá afirmado a sua intenção de, literalmente, esmagar os seus opositores imediatamente após a tomada de posse. Um outro rumor refere que Rafsanjani estará preparado para abandonar o país face à degradação das condições de segurança.

Trata-se de rumores, mas ganham um carácter lúgubre quando se observa a estranha sintonia com que algumas figuras leais a Ahmadinejad vieram exigir nos media que o governo passe à ofensiva e persiga os oponentes de maior calibre, isto é, Rafsanjani, Moussavi, Khatami, Karoubi e alguns outros.

Manifestamente, a chave do poder está nas mãos da guarda revolucionária, cujo controle Khamenei poderá ter perdido. Se as coisas derem para o torto neste jogo de poker e as forças armadas não se mexerem, os princípios islâmicos que sustinham alguma colegialidade do regime irão perder-se.

Vários estados

É caso para perguntar quantos aparelhos de estado existem neste momento no Irão. Vejamos porquê...

Foi iniciada uma investigação parlamentar sobre as condições em que foram efectuadas as detenções em massa desde as eleições. Trata-se de apurar não só quem foram os responsáveis pelas detenções, mas também a quantidade e gravidade dos abusos cometidos, desde a tortura até ao homicídio por espancamento. O processo está a ser acompanhado por representantes de todas as forças políticas, incluindo as reformistas, e os relatos não confirmados sobre as investigações indicam que os factos são mais graves do que se pensava.
Entretanto, perto de trezentos prisioneiros terão sido libertados nas últimas horas, no meio da imensa confusão em que os estado iraniano caíu.

Pelo seu lado, Montazeri, pouco dado a floreados cosméticos, declarou que o encerramento da prisão de Kahrizak não foi suficiente, sendo necessário avançar para a punição dos responsáveis.

E no castelo de Ahmadinejad, as coisas vão de mal a pior. A escandaleira das demissões de ministros vai-se tornando mais clara, e sabe-se agora que o ministro da informação terá sido demitido porque, tendo-lhe sido solicitada uma investigação sobre o papel do inimigo externo na condução dos protestos, a sua equipa produziu um relatório em que afirma não ter havido qualquer intervenção externa. Furioso, para além de despedir o ministro Ahmadinejad terá ordenado a reforma compulsiva de cerca de 30 funcionários superiores do ministério, e pô-lo hoje sob a sua alçada directa.
E num sinal do destino que poderá estar-lhe reservado, um grupo conservador divulgou uma carta em que o ameaça com a deposição. Mas uma no cravo, outra na ferradura. Também ele conquistado pelo espírito de abrangência, ou meramente preocupado com a possibilidade de vir a ser perseguido como responsável pelas detenções ilegais, solicitou ao procurador-geral que seja leniente, tendo em conta que as detenções sem culpa formada se prolongaram por tempo excessivo (!).

Khamenei anda mais caladito. Quietito. Sabe-se apenas que terá interdito o uso de violência sobre os participantes nas manifestações programadas para amanhã. Não admira o recuo, dado o número de figuras proeminentes que advogam agora a substituição da figura de líder supremo por um colégio de três líderes. Ou dos que, como hoje fez Rafsanjani, advogam a supressão pura e simples do cargo. Khamenei parece estar condenado a saír pela porta pequena, um final de carreira plenamente justificado.

Hmm... Algo maior parece estar em marcha. Não me surpreenderei se a tomada de posse de Ahmadinejad não se concretizar. Esta súbita unanimidade quanto ao apuramento de rsponsabilidades e ao cumprimento estrito da lei pode significar que as élites conservadoras e reformistas perceberam que esta era a única forma de, mantendo a liderança política, cercar a guarda revolucionária e em seguida decapitá-la numa sucessão de processos legais. Nesse cenário, qualquer reacção adversa da guarda revolucionária poderia ser catalogada de rebelião, justificando a intervenção das forças armadas.
Aguardemos alguns dias.

Campeões da abrangência

Cada um salva a pele como pode.
Há uns dias atrás, Larijani, para poder ter uma postura mais abrangente, tratou de se afastar da linha de mira no parlamento, o que deixou Ahmadinejad possesso.
Este, por sua vez, tentou o brilharete de encaixar uma figura pró-ocidental no baralho governamental e falhou miseravelmente. Amuado com a humilhação que se seguiu, ripostou com o despedimento dos protegés de Khamenei, mas até nisso fez mal as contas e colocou o governo numa posição de ilegitimidade formal.
Entretanto, não querendo ficar atrás no campeonato, a suprema múmia mandou encerrar uma das prisões onde foram cometidos abusos. Um sinal de abrangência e de carinho pessoal para com os detidos. Mais ordenou a suprema múmia a abertura de um inquérito rigoroso sobre a matéria, de acordo com a PressTV ( que da noite para o dia também virou abrangente ). Os mortos agradecem.

Estranho país, onde os líderes situacionistas se esfaqueiam mutuamente sem que o estado se desagregue. E se olharmos mais de perto, a indiferença das forças armadas só faz crescer a estranheza, mesmo depois de descontada a tradição de fiel subordinação ao poder político.
Mas, se olharmos ainda mais de perto, percebemos que o único poder efectivo que ainda segura todos os contendores é a guarda revolucionária, namorada à vez pelos conservadores desavindos e temida pelos reformistas. Ganhe quem ganhar, é esta instituição hipertrofiada que vai ter de ser submetida, antes que chegue ao ponto de submeter o estado. Quem se chegará à frente ?

Balbúrdia no Leste

Ahmadinejad, depois de gozar com Khamenei durante uma semana, lá resolveu aceitar as ordens e desnomear ( acho que é a palavra adequada ) o novíssimo vice.
Em jeito de vingança, demitiu também três membros mais ariscos do governo, mas logo aterrou num pequeno problema constitucional, pois tendo sido ultrapassado o limiar de 50% de demissões de membros do governo original seria forçado a apresentar uma moção de confiança no parlamento, a uma semana do final do mandato. Por via das dúvidas, dois dos demitidos foram desdemitidos ( acho que também é a palavra adequada ).
Compreende-se que ande nervoso. Foi uma semana recheada de purgas, que terminou com chave de ouro com a sugestão de que a guarda revolucionária se acha vocacionada para o poder absoluto. Subitamente, a margem de manobra para uma saída negociada mingou de forma preocupante, sem que se saiba se a tropa comum irá manter-se afastada das questões políticas.

ASAE, dois pesos e duas medidas

O sanguinário mutante do grupo H1N1 que deu à costa este ano, para além de preencher telejornais, tem virtudes menos óbvias.
Não terá escapado ao olhar atento do querido leitor o conjunto de normas eclesiásticas destinado a prevenir a difusão do vírus nas assembleias de crentes. No centro das atenções, o problema da hóstia, estando agora vedado aos ministros enfiar os dedos na boca do crente quando lhe administrem o produto.
Zelo digno de louvor, mas que realça um problema de saúde pública sistematicamente ignorado pela polícia dos costumes. Sendo a hóstia um produto alimentar acessível ao público, a sua distribuição deveria cumprir as disposições legais aplicáveis, o que não acontece.
Nomeadamente, cada hóstia deveria ser disponibilizada em invólucro hermeticamente selado e rotulado, com indicação da composição e do prazo de validade. Admite-se que os componentes espirituais do produto sejam sigilosos, dificilmente quantificáveis, ou que haja até dúvida teológica razoável quanto ao prazo de validade. Em qualquer caso, não se compreende o desleixo com que a ASAE vem tratando o problema, já que noutros ramos de actividade situações similares conduzem ao imediato encerramento dos estabelecimentos.
Ao que sabe o Coproscópio, o impasse deve-se à indefinição sobre a instituição mais vocacionada para a fiscalização das hóstias. Enquanto alguns juristas entendem que a hóstia, sendo um produto alimentar, deveria ficar sob a alçada da ASAE, realçam outros que em se tratando de um produto claramente associado a uma terapia espiritual, deveria ser controlado pelo INFARMED.

Seria do interesse dos consumidores que os peritos se entendessem sobre este assunto. Rapidamente.