Para benefício de algumas pessoas, tratei de traduzir um artigo do JPost de 2004, que creio ser bastante clarificador para compreensão da atitude de Israel face aos guetos.
Traduzi o artigo na íntegra, não porque o ache importante em toda a sua extensão, mas porque, na medida do possível, posso assim garantir ao leitor a contextualização das afirmações que me parecem mais chocantes, e deixar-lhe assim total liberdade ( e responsbilidade ) pela sua interpretação.
Devo notar que há duas palavras de tradução difícil, dado que se trata de eufemismos de usos muito intensivo nos media israelitas, a saber:
- Disengagement - Trata-se do conceito de separação, que considero bastante próximo do conceito de apartheid. Optei pelo termo 'desacoplamento';
- Transfer - Deportação massiva. Neste caso, fico por 'transferência'.
The Jerusalem Post
20 de Maio de 2004
It's the Demography, Stupid
Entrevista com o geógrafo/demógrafo Arnon Soffer
por Ruthie Blum
'Pensava que nunca me ouviria dizer isto', diz o geógrafo Arnon Soffer da Universidade de Haifa, sem um traço de dúvida, 'mas Israel terá deprescindir do vale do Jordão'.
Soffer, um geostratega geralmente considerado como criador do plano de separação de Ariel Sharon, nunca foi pessoa que se inibisse no uso das palavras.
Figura proeminente no debate público sobre o desacoplamento, Soffer tem liderado nas últimas três décadas a produção de previsões apocalíticas acerca do problema demográfico de Israel face aos árabes.
Aos 68 anos, a sua estatura e a sua atitude de elevada autoconfiança quase o fazem parecer demasiado grande para o pequeno gabinete que, diz, se tornou o ponto de encontro para reuniões com toda a gente, de militares a membros do Knesset.'
Muitos disseram que eu era doido', diz Soffer com um brilho de satisfação nos olhos. 'Mas desde então, acabaram por concluir que eu estava certo'.
Enquanto o governo se prepara para votar a proposta mais recente na próxima semana, Soffer discutiu connosco o raciocínio subjacente ao plano por si concebido, as perspectivas quanto à sua execução e os desafios que se depararão a Israel no seio do que ele considera ser uma vizinhança necessariamente hostil.
A idéia do desacoplamento foi sua ?
No dia em que foi eleito, Sharon pediu-me para lhe trazer um mapa que eu tinha publicado em 2001. Tenho sido uma figura de proa na questão do desacoplamento nos últimos anos.
Quando o convocou ele pela primeira vez ?
Já nos tínhamos encontrados muitas vezes antes. Conhece-me bem, e solicitou o encontro.
É considerado como um profeta da desgraça demográfica. Como se chegou a isso ?
Em 1970, então um jovem geógrafo, decidi focar-me na geografia militar, ou geopolítica. Então, ao trabalhar no plano orientador nacional para a zona Norte, tornei-me obcecado com o problema dos israelitas árabes que via desenvolver-se na Galileia.
Em retrospectiva, isso acabou por ter influência na escolha dos locais onde se mais tarde se instalaram colonatos.
Muitos disseram que eu era doido, mas desde então têm vindo a perceber que estava certo.
Em 1975, iniciei uma pesquisa mais séria do problema. Foi então que percebi que a questão tem a ver com a demografia.
Comecei a levar membros da defesa à Galileia para lhes mostrar o que estava a acontecer. Lentamente, fui chamando a atenção.
A seguir, comecei a levar as mesmas pessoas até à Linha de Separação. Nos últimos 15 anos, todas as semanas, uma ou duas vezes por semana, acompanho até lá as figuras de topo da defesa.
Em 1988, publiquei um panfleto no qual levantava a questão de saber se o sionismo é ou não um sonho. As 1000 cópias do panfleto esgotaram-se imediatamente.
Arafat recebeu uma cópia dele, e disse então pela primeira vez que o ventre palestiniano é uma arma biológica.
Foi mais ou menos por essa altura que comecei a dizer publicamente que os dias de Israel estavam contados.
Depois de alguma pesquisa, concluí que o acordo de Oslo não poderia funcionar, e disse a Bibi Netanyahu que o processo de Oslo deveria ser imediatamente interompido.
Bibi leu o meu material, e citou-o no seu livro Um lugar debaixo do Sol, num capítulo sobre demografia.
A propósito de Bibi, a sua atitude face ao plano tem sido ambígua. Bibi comprende que o desacoplamento é necessário, disse-o em mais de uma ocasião. Mas também é um animal político, e considera Sharon como rival.
Infelizmente, os políticos estão muitas vezes dispostos a vender o seu país em favor dos seus interesses pessoais.
Isto aplica-se a todo o Knesset.Tome a manifestação de Sábado à noite em Tel Aviv. Cada um dois partidos se apresentou de maneira a livrar-se dos rivais. Tudo aquilo foi ridículo.
A manifestação não exprimiu um apoio alargado ao desacoplamento ?
Tivesse sido uma manisfestação contra a rejeição do desacoplamento por parte do Likud, e até eu teria participado.
Mas esteve lá Yossi Beilin para vender a sua imagem. E Ami Ayalon. E Shimon Peres, que só se preocupa com Shimon Peres.
Que acha da rejeição Likud do plano apresentado pelo seu próprio líder ?
O Likud está atulhado de ignorantes. Não se passa um dia em que eu não me dirija a um membro do Likud que não é capaz de dizer onde fica Kalkilya, ou mesmo onde se situa a Linha Verde.
Mantenho no meu gabinete um mapa de 1966, porque mostra onde realmente se situa a Linha Verde.
Também tenho um mapa que mostra como os palestinianos vêem o seu país. Nele, todo o estado de Israel lhes pertence. É algo que a esquerda israelita gostaria de esquecer.
De que forma os confrontos actuais se relacionam com o plano de desacoplamento ?
Desacoplamento é uma coisa e a Philadelphi Route (a estrada que separa a faixa de Gaza do Egipto) é outra. Mesmo após o desacoplamento - que, não tenho dúvidas, o primeiro-ministro Sharon fará passar nas próximas duas ou três semanas - a Philadelphi Route terá de ser fortemente guardada, para impedir a instalação de tropas egípcias em Gaza.
A operação em Gaza é uma necessidade benvinda. O gang terrorista que ali governa deve ser extirpado, e os túneis bloqueados. A proposta de uma trincheira também é boa, embora técnica e fisicamente complicada.
Alguns opõem-se ao desacoplamento porque acham que nenhuma solução será viável até que os palestinianos aceitem a existência de Israel
Dizem até pior que isso.
Pessoas como Effi Eitam e Benny Elon dizem que os palestinianos deveriam criar o seu estado no Sinai.
Perguntei a Eitam, na conferência de Herzliya, se ele tinha tinha falado com Hosni Mubarak sobre o seu plano e ele respondeu 'Ainda não'. Ouça, estes tipos perderam a cabeça. A Direita está doida ao acreditar na deportação, porque não está a perceber o ambiente internacional - Quer dizer, olhe para o que aconteceu no Kosovo - e a Esquerda está doida quando acredita em planos como o Acordo de Genebra, que começa por dizer 'Haverá mútua boa-fé' entre nós e os palestinianos.
Foi por isso que se opôs a Oslo ? Porque não era unilateral ?
Sim. Em 2001, disse a uma assembléia dos economistas do país que o relógio demográfico está em marcha, e que se não tomássemos decisões corajosas, teria início a contagem decrescente para Israel. Causei um terramoto.
Faisal Husseini disse em resposta: 'Israel acabará por nos pedir que lhe deixemos uma pequena faixa de terra'.
Tenho andado a gritar isto do alto dos telhados para quem quiser ouvir. Se você andasse pelo corredor ao lado do meu gabinete nos últimos dois meses, pensaria estar no Knesset, tal o número de políticos que por aqui passaram para ouvir as minhas previsões demográficas.
Dan Meridor disse que eu o convenci. Há seis meses atrás, Ehud Olmert disse 'O professor Soffer convenceu-me; não podemos continuar a fugir a isto'. Sharon, como pode ver, também compreendeu.
E quanto ao seu antigo colega da Universidade de Haifa, Yuval Steinitz ? Ele não foi convencido.
Antes de se ele tornar um membro do Knesset, costumávamos viajar juntos todas as semanas até Tel-Aviv para encontros sobre o assunto.
Ele compreende muito bem o problema, quem é que ele está a tentar enganar quando diz que não entende ?
Está familiarizado com todos os números e estatísticas que aparecem na minha pesquisa.
Em 1987, num encontro organizado por Zalman Shoval ( antigo embaixador dos EUA ) entre mim, Shoval, Yuval Ne'eman ( físico nuclear e líder da ala direita ) e Ghandi ( o falecido Rehavam Ze'evi ), comecei por apresentar as estatísticas demográficas.
Ne'man levantou-se e disse: 'Não acreditem no que Arnon Soffer vos está a dizer: o Departamento Central de Estatística também pertence à Esquerda'. Nesse momento, Ghandi levantou-se e disse: 'Conheço Arnon há muitos anos. Aceito todas as palavras que proferiu. Este país não é algo de que possamos abdicar, mas as pessoas podem ser transferidas'. Foi então que decidiu fundar o partido Moledet.
Shulamit Aloni telefonou, e a minha mulher disse-lhe: 'Sabe, o Arnon fala demais'.
Dois meses mais tarde, o primeiro-ministro Yitzhak Shamir foi-me apresentado e disse: 'Oh, então é você que anda a chatear toda a gente com as suas estatísticas.'
Respondi-lhe que ele e Shulamit Aloni tinham uma coisa em comum: as minhas estatísticas chateavam ambos.
Portanto, ignorou os seus críticos e continuou a 'chateá-los' com as suas estatísticas.
Como académico, cabe-me publicar as minhas pesquisas.
Veja, estes dados demográficos são factos. O mundo está a endoidecer. O Islão está a ficar fora de controle.Vai ocorrer um confronto de civilizações. No Médio-Oriente, vai ocorrer a maior taxa de natalidade do planeta. Não pode haver paz.
Olhemos para isso numa perspectiva palestiniana. Façamos de conta que você e eu somos Arafat e Yasser Abed Rabbo olhando para um mapa.
Olhe para o que os Judeus nos vão deixar em jeito de estado.
Vão-nos deixar a faixa de Gaza, que não é mais que uma 'prisão' sobrelotada. Vão-nos deixar também uma outra 'prisão' chamada Hebron, e uma outra, maior, chamada Samaria.Aqui temos 1,6 milhões, aqui 1 milhão e aqui 1,5 milhões ( que em breve serão 3 milhões ). Cada uma destas 'prisões' está isolada das restantes. Os Judeus não nos permitirão ter um exército, enquanto o seu poderoso exército nos cercará. Não nos permitirão ter uma força aérea, enquanto a sua própria força aérea voará sobre nós. Não nos concederão o Direito de Retorno.
Porque havemos de estabelecer um acordo com eles ?
Porque haveríamos de aceitar um estado dado por eles ?
Aguardemos pacientemente por mais 10 anos, nessa altura os Judeus constituirão uns meros 40% da população, enquanto nós seremos 60%. O mundo não aceitará que uma minoria governe sobre uma maioria, portanto a Palestina será nossa.
O facto de entretanto estarem a ser mortas crianças palestinianas não interessa; o que interessa é que a Palestina acabará por ser nossa.
Não será lógico que os palestinianos vejam as coisas dessa forma ?
Então, enquanto Abed Rabbo vai conversando com Yossi Beilin, e Sari Nusseibeh vai conversando com Ami Ayalon, o tempo vai passando e as mulheres palestinianas vão engravidando.
Isto, acrescido pelo fluxo de árabes de outros países - 300000 desde 1948 - significa que vão acabar connosco.
Por isso continuo a dizer que, para salvar o Estado de Israel, devemos separar-nos unilateralmente, tão depressa quanto possível.
Sharon concorda claramente consigo. Então, porque é que ele trouxe o plano até ao Likud para uma votação ?
Ele e os dois filhos estão prestes a ser indiciados. Não há nenhuma outra explicação lógica.
Ainda assim, claramente ele vai fazer passar o plano - dentro de duas ou três semanas.
Qual o aspecto da região no dia seguinte ao da separação unilateral ?
Os palestinianos irão bombardear-nos com fogo de artilharia - e nós teremos de retaliar. Mas pelo menos a guerra terá lugar na fronteira - não nos jardins infantis de Tel-Aviv e Haifa.
Israel estará então preparado para essa guerra ?
Em primeiro lugar, a vedação não está construída como o Muro de Berlim. É uma vedação que iremos guardar de ambos os lados.
Em vez de entrarmos em Gaza, como fizémos na semana passada, diremos aos palestinianos que se um só míssil for disparado sobre a vedação, enviaremos 10 em resposta. E mulheres e crianças serão mortas, e casas destruídas.
Após o quinto incidente desta natureza, as mães palestinianas não deixarão os seus maridos disparar os Kassam, porque saberão o que os espera.
Em segundo lugar, quando 2,5 milhões de pessoas viverem numa Gaza enclausurada, será uma catástrofe humana.
Essa gente irá tornar-se ainda mais animalesca do que é hoje, com o auxílio dum fundamentalismo islâmico insano.
A pressão na fronteira será horrível. Será uma guerra terrível.
Portanto, se queremos manter-nos vivos, teremos de matar e matar e matar.
Todo o dia, todos os dias.
Enquanto a CNN mantém as câmaras apontadas ?
Se não matarmos, deixaremos de existir.
A única coisa que me preocupa é garantir que os rapazes e homens que terão de fazer o morticíno sejam capazes de voltar para as suas famílias e sejam seres humanos normais.
Qual será o resultado final de todo este morticínio ?
Os palestinianos serão obrigados a tomar consciência de que a demografia já não é mais significativa, porque nós estamos aqui e eles estão ali.
Começarão então a pedir conversações de 'gestão de conflito' - não essa palavra suja, 'paz'. Paz é uma palavra para crentes, e eu não tenho tolerância para crentes - seja para os que usam o yarmulk ou para os que rezam ao deus da paz.
Há os que fazem peregrinações ao Baba Sali e aos túmulos em Hebron, e os que fazem peregrinações ao Kikar Rabin em Tel-Aviv.
Ambos são perigosos. A separação unilateral não garante 'paz' - garante um estado Sionista-Judeu com uma maioria clara de Judeus; garante o tipo de segurança que trará novamente turistas ao país; e garante uma outra coisa importante.
Entre 1948 e 1967, a vedação era uma vedação e 400000 pessoas deixaram voluntariamente a Margem Ocidental. O que acontecerá após a separação será isto: Se um palestiniano não pode vir a Tel-Aviv para trabalhar, procurará no Iraque, no Koweit ou em Londres.
Creio que haverá movimento para fora da zona.
Transferência voluntária ?
Sim. E Gaza será um desastre tal que estará para além da nossa capacidade auxiliá-los.
Deverá haver ajuda internacional em larga escala. Os EUA terão de pressionar o Egipto para ceder terras.
E - embora pensasse que nunca me ouviria dizer isto - Israel deverá prescindir do vale do Jordão.
E quanto aos israelitas árabes ? Se também eles causarem um problema demográfico, como é que a separação unilateral poderá ajudar ?
O aumento da população de israelitas árabes constituirá um problema maior.
Mas, se já não incluirmos os palestinianos e começarmos a acolher emigrantes, trabalhadores estrangeiros, druzos e cristãos - que agora estão do nosso lado, porque estão a ver a loucura do Islão radical - então não haverá um problema com os israelitas árabes.
Enquanto estamos neste assunto, diga-me para que precisamos de Jerusalem leste.
Poque precisamos de 300000 árabes como cidadãos israelitas ? O que há se sagrado naquela zona ? O que for sagrado, deveremos anexar.
Mas toda a zona se Shuafat, Zur Baher... Acabei de de subtrair 20000 - e subitamente deixou de haver um problema árabe.
E se isso não for suficiente, um dia diremos a Umm el-Fahm que tomaremos Ariel e eles tomarão Umm el-Fahm e toda a gente viverá na sua própria cultura.
Por outras palavras, devemos agir com sensatez, e isso por vezes significa usar em simultâneo uma cenoura e um bastão.
A grande tragédia hoje é a dos beduínos.
E quem são os culpados disso ? Você e eu. Porque havemos de conceder abonos a um homem que tem toneladas de filhos ?
Você também é um grande alarmista em relação à água. A cedência de territórios não iria privar-nos de aquíferos cruciais ?
Em qualquer caso, não há água fresca suficiente para as duas populações, portanto não faz diferença.
Compreendemos hoje que não temos escolha senão a de aumentar a dessalinização. Note, você provavelmente bebe café. Quanto custa um café no estabelecimento da sua zona ? NIS 10. São dois dólares.
Sabe quanta água pode purificar por dois dólares ? Os palestinianos não podem pagar isso, mas nós podemos.
Então, porque não está Israel a implementar a purificação de água em larga escala ?
Porquê ? Porque o país está doido. Porque não estamos a purificar água ? Porque temos de o fazer. Porque não resolvemos o problema do lixo ? Porque temos de o fazer. Porque não cuidamos da educação ? Porque temos de o fazer.
Mas esse é um outro problema. Você está a questionar-me acerca de geopolítica. Porque nos estamos a transformar num país de Terceiro Mundo é uma outra questão.
Não se está a deixar levar ? Israel tem apenas 56 anos, e tem um historial notável.
Pertencemos à mais esperta e talentosa nação do mundo, com o maior número de prémios Nobel.
Como tal, somos capazes de fazer tudo, e o que não conseguimos realizar tem a ver com o sistema, não com a massa cinzenta.
Se você soubesse quantos membros do Knesset passaram pelo meu gabinete... Digo-lhe, são imbecis iletrados.
Alguns dizem que o resultado do pós-separação será novamente a ocupação.
Não os ocuparemos novamente. Entraremos apenas em missões punitivas. Como disse, no minuto em que um míssil seja lançado, destruiremos a área.
Não vê problemas na reinstalação dos colonos ?
Vejo. Por isso não sou a favor de um retorno à Linha Verde. Porque não estamos apenas face a um problema palestiniano. Estamos também face a uma guerra civil.
Por isso movimento-me cuidadosamente e acredito em compromissos.
A sua atitude não deixa espaço para o imprevisível, como a emigração massiva a partir da antiga União Soviética. Se tivesse feito tais previsões em 1917, Israel nunca teria sido estabelecido.
Se tivesse usado as minhas previsões em 1930, teria errado, porque não antecipei o Holocausto.
Se tivesse feito o mesmo em 1950, teria errado, porque não antecipei a Guerra dos Seis Dias.
Se o tivesse feito em 1970, teria errado, porque não sabia que a União Soviética iria cair.
A mensch tracht, unt Got lacht ( o homem faz planos e Deus ri ). Dito isto, é de qualquer forma irresponsável não fazer planos, ignorar as realidades.
Como disse ao rabi principal: 'Em 1939, vocês esperaram por Deus e ele não apareceu'.
Destruição de Gaza - O que significa ?
R
Na infância, uma parte muito significativa da aquisição de conhecimento provém da imitação.
Brincar é simular, é a familiarização possível com uma realidade complexa.
Não se estranhe portanto o surrealismo cruel desta fotografia, porque é de um surrealismo cruel a realidade que a criança captou.
Nas últimas semanas, no mais recente pogrom, Israel liquidou 1200 pessoas, das quais cerca de 300 ( de acordo com o IDF ) seriam combatentes. Pelo seu lado, os palestinianos liquidaram 13 pessoas ( 10 das quais combatentes ). Acessoriamente, e como é de uso, o IDF aproveitou para causar danos particularmente extensos às infrastuturas de Gaza. Não destruiu o Hamas, nem poderia fazê-lo. Em boa verdade, não tinha sequer essa intenção. Tal como tem ocorrido ao longo de décadas, tratou-se apenas de agravar o mais possível as condições de vida da população, o que não tem sido tarefa difícil. Os quatro milhões de pessoas confinadas nos guetos da Cisjordânia e de Gaza não dispõem de artilharia, aviação ou poderio naval que as defendam. Não dispõem sequer de liberdade de circulação, mesmo no interior dos guetos.
Por ironia da História, tal como os judeus em Varsóvia, vivem o dia-a-dia ao sabor do arbítrio da potência dominante.
Uma potência que se reclama democrática, não racista e não confessional, que tem arvorado como prova das suas boas intenções a igualdade de estatuto dos cidadãos israelitas árabes, mas que aproveitou a oportunidade para, a poucos dias das eleições, interditar a participação dos dois principais partidos que representam esses cidadãos.
O mundo ocidental não reparou. Não reparou também na humilhação aberta de Rice, forçada a abster-se na votação de uma resolução cujo texto redigira. E não reparou também no fim das negociações sobre o estado palestiniano, o tal que estava prometido para 2006. Porque haveria de reparar ? Afinal de contas, trata-se de sub-humanos.
Diz R que no que escrevo sobre este assunto há uma nota de ódio.
R engana-se.
Não é ódio, é uma mistura de repulsa e vergonha.
Repulsa pelo empreendimento sionista, que corporizou em finais do séc. XIX a lógica demencial dos nacionalismos que dominaria a Europa até meados do séc. XX. À luz dessa coisa, a instalação de colonos judaicos na Palestina e a limpeza étnica subsequente faziam sentido. Não causaram por isso qualquer incómodo as declarações de Herzl sobre a necessidade de empurrar gentilmente os árabes dali para fora, nem criaram estremecida comoção as declarações de Jabotinsky sobre a muralha de ferro ou a necessidade de tornar intolerável a vida dos árabes.
Não ocorreu a muitos europeus, desde então, que o projecto de colonização só poderia ter obtido alguma legitimidade moral se, antes do seu início, tivesse sido salvaguardado o direito de autodeterminação do povo palestiniano.
Poderia esperar-se que, com a renovação do pensamento decorrente do pós-guerra e do colapso moral do colonialismo, os cidadãos dos países europeus ( ao menos esses ), que tanto gostam de brandir os valores superiores da Revolução Francesa e mimos diversos sobre a herança cristã, tentassem pelo menos travar o descalabro.
Não o fizeram, não o fazem e não tenho esperança de que venham a fazê-lo.
Quando podem, refugiam-se em eufemismos e/ou narrativas censuradas. Quando confrontados com os factos, refugiam-se num silêncio levemente indignado, como se a mera sugestão da sua cumplicidade fosse uma inconveniência que não merece resposta. Não sei quantas vezes já presenciei este espectáculo dispensável... Por isso considero que a atitude dos meus concidadãos europeus constitui uma grave cobardia moral, e dessa cobardia me envergonho.
Não posso aceitar, em caso algum, que os quatro milhões de palestianos dos territórios ocupados, mais o milhão e meio que vive em Israel ( agora efectivamente privado de direitos políticos ), mais os três milhões que vivem em campos de refugiados nos países limítrofes, sejam por nós considerados como gado e condenados a uma existência de escravos. Não é esse o meu entendimento dos valores positivos da cultura europeia, e depois de cem anos desta obscenidade julgo que é tempo de cada um de nós, individualmente, clarificar sem margem para dúvidas a sua posição sobre o assunto. De preferência de forma mais frontal que o Vaticano, que até para assinalar o paralelo entre Gaza e Varsóvia precisou de recorrer a um cardeal de segunda linha.
Brincar é simular, é a familiarização possível com uma realidade complexa.
Não se estranhe portanto o surrealismo cruel desta fotografia, porque é de um surrealismo cruel a realidade que a criança captou.
Nas últimas semanas, no mais recente pogrom, Israel liquidou 1200 pessoas, das quais cerca de 300 ( de acordo com o IDF ) seriam combatentes. Pelo seu lado, os palestinianos liquidaram 13 pessoas ( 10 das quais combatentes ). Acessoriamente, e como é de uso, o IDF aproveitou para causar danos particularmente extensos às infrastuturas de Gaza. Não destruiu o Hamas, nem poderia fazê-lo. Em boa verdade, não tinha sequer essa intenção. Tal como tem ocorrido ao longo de décadas, tratou-se apenas de agravar o mais possível as condições de vida da população, o que não tem sido tarefa difícil. Os quatro milhões de pessoas confinadas nos guetos da Cisjordânia e de Gaza não dispõem de artilharia, aviação ou poderio naval que as defendam. Não dispõem sequer de liberdade de circulação, mesmo no interior dos guetos.
Por ironia da História, tal como os judeus em Varsóvia, vivem o dia-a-dia ao sabor do arbítrio da potência dominante.
Uma potência que se reclama democrática, não racista e não confessional, que tem arvorado como prova das suas boas intenções a igualdade de estatuto dos cidadãos israelitas árabes, mas que aproveitou a oportunidade para, a poucos dias das eleições, interditar a participação dos dois principais partidos que representam esses cidadãos.
O mundo ocidental não reparou. Não reparou também na humilhação aberta de Rice, forçada a abster-se na votação de uma resolução cujo texto redigira. E não reparou também no fim das negociações sobre o estado palestiniano, o tal que estava prometido para 2006. Porque haveria de reparar ? Afinal de contas, trata-se de sub-humanos.
Diz R que no que escrevo sobre este assunto há uma nota de ódio.
R engana-se.
Não é ódio, é uma mistura de repulsa e vergonha.
Repulsa pelo empreendimento sionista, que corporizou em finais do séc. XIX a lógica demencial dos nacionalismos que dominaria a Europa até meados do séc. XX. À luz dessa coisa, a instalação de colonos judaicos na Palestina e a limpeza étnica subsequente faziam sentido. Não causaram por isso qualquer incómodo as declarações de Herzl sobre a necessidade de empurrar gentilmente os árabes dali para fora, nem criaram estremecida comoção as declarações de Jabotinsky sobre a muralha de ferro ou a necessidade de tornar intolerável a vida dos árabes.
Não ocorreu a muitos europeus, desde então, que o projecto de colonização só poderia ter obtido alguma legitimidade moral se, antes do seu início, tivesse sido salvaguardado o direito de autodeterminação do povo palestiniano.
Poderia esperar-se que, com a renovação do pensamento decorrente do pós-guerra e do colapso moral do colonialismo, os cidadãos dos países europeus ( ao menos esses ), que tanto gostam de brandir os valores superiores da Revolução Francesa e mimos diversos sobre a herança cristã, tentassem pelo menos travar o descalabro.
Não o fizeram, não o fazem e não tenho esperança de que venham a fazê-lo.
Quando podem, refugiam-se em eufemismos e/ou narrativas censuradas. Quando confrontados com os factos, refugiam-se num silêncio levemente indignado, como se a mera sugestão da sua cumplicidade fosse uma inconveniência que não merece resposta. Não sei quantas vezes já presenciei este espectáculo dispensável... Por isso considero que a atitude dos meus concidadãos europeus constitui uma grave cobardia moral, e dessa cobardia me envergonho.
Não posso aceitar, em caso algum, que os quatro milhões de palestianos dos territórios ocupados, mais o milhão e meio que vive em Israel ( agora efectivamente privado de direitos políticos ), mais os três milhões que vivem em campos de refugiados nos países limítrofes, sejam por nós considerados como gado e condenados a uma existência de escravos. Não é esse o meu entendimento dos valores positivos da cultura europeia, e depois de cem anos desta obscenidade julgo que é tempo de cada um de nós, individualmente, clarificar sem margem para dúvidas a sua posição sobre o assunto. De preferência de forma mais frontal que o Vaticano, que até para assinalar o paralelo entre Gaza e Varsóvia precisou de recorrer a um cardeal de segunda linha.
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