No rescaldo da supressão da revolta de Varsóvia, perdão, de Gaza, vale a pena alertar para alguns pormenores notáveis...
Desde logo, a punição declarada da população civil. Acompanhando desde há muitos anos os media israelitas, não me lembro de nenhuma outra ocasião em que esta selvajaria tenha sido tão ostensivamente ignorada. Só agora, terminada a chacina, se vão lentamente mostrando os sinais de dissidência. Uns lamentando o número de vítimas, outros acusando as chefias militares de permitir a difusão de panfletos com incitamento ao ataque à população civil, outros alertando para a histeria belicista que parece afectar a maioria dos israelitas, um ou outro lunáticos reclamando a intervenção do poder judicial na abertura de processos por crimes de guerra, e um número crescente de analistas que perguntam para que serviu esta loucura.
Perguntam bem, estes últimos. Afinal de contas, como diz um articulista, os F-16 foram impotentes contra os Qassam. O Hamas, detentor da legitimidade democrática adquirida num processo eleitoral livre e limpo, um processo apadrinhado e fiscalizado pelas potências ocidentais, não só sobreviveu como parece ter obtido ganhos para a sua imagem no interior e no exterior da Palestina.
Assim sendo, não surpreende que a submissa UE, seja pela voz de Blair ou de outros dirigentes, reconheça finalmente que o bloqueio do ghetto de Gaza não produziu o efeito desejado. Já não é nada mau, não espero que os meus queridos concidadãos europeus alguma vez cheguem mais longe e reconheçam que são cúmplices de um crime grave. Não o fizemos há 50 anos atrás em relação aos sub-humanos judeus, porque haveríamos de o fazer agora em relação aos sub-humanos árabes ?
Ora, embora a direita israelita esteja a ganhar terreno de forma expressiva, alguns dirigentes têm consciência de que a trajectória inercial desencadeada com o ataque ao ghetto é uma trajectória suicida, que desemboca necessariamente numa postura desfavorável por parte das potências ocidentais. Entre estes, noto particularmente a figura de fraulein Livni, que hoje alertou para a necessidade de avançar com um plano de paz em hebreu, para evitar que Israel seja forçado a engolir um plano em árabe ou francês. Para os leitores mais distraídos, o plano em árabe ou em francês significa a definição de um estado palestiniano nas fronteiras de 1967, o que representa o fim da versão sionista da drag nach Ost. Para Livni, curiosíssima filha de um destacado membro do Irgun, tal plano é naturalmente inaceitável e há que dar a volta por cima, reconduzindo as negociações para lado nenhum.
Logo veremos. Se Bibi ganhar as eleições, podemos esperar uma agudização do conflito. Se ao invés as teses de Livni tiverem acolhimento, o arrastar de pés poderá prolongar-se por mais algum tempo e até o Quisling da AP poderá respirar de alívio e continuar a fingir que negoceia com o ocupante.
Helga
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