Colonatos e arquiduques

O aviso de Hillary Clinton a Israel, no seguimento da visita de Bibi a Washington, foi muito claro:
A presidência norte-americana entende que toda a actividade de colonização nos territórios ocupados deve cessar, quer se trate de postos avançados ou crescimento natural, sem excepções.

Tratando-se de uma clarificação do real teor da mensagem transmitida por Obama a Netanyahu, não sobrando portanto margem para outras interpretações, note-se que o presidente imperial colocou aqui em jogo a sua credibilidade.
Caso Israel ignore o aviso e prossiga com a colonização, então os EUA terão de exercer algum tipo de coacção. Não o fazendo, assumirão uma posição subalterna face a Israel que lhes retirará qualquer influência nos acontecimentos subsequentes.

Do lado de Israel, como era previsível, a situação não é melhor. O governo de Bibi, logo após a reunião com Obama, repescou as habituais formas de ganhar tempo enquanto constrói 'factos no terreno', uma especialidade da casa.
O vazio desta abordagem tornou-se visível após o desmantelamento do primeiro posto avançado... Algumas horas após a demolição, já os colonos reconstruíam os barracões.

Simultaneamente, a direita avança em duas frentes.
Na frente interna, ensaia uma perigosa penalização legal da dissenção quanto ao carácter judaico do estado. Na frente externa, mobiliza as forças disponíveis para impedir o congelamento dos colonatos. Hoje com novo e perigoso desenvolvimento, o de um apelo feito pelos rabis dos territórios ocupados: aos colonos para que resistam e aos militares para que desobedeçam. Curiosamente, um dos deputados presentes achou-se obrigado a assegurar que não se trata de uma guerra e que não aceitará uma guerra entre judeus.

Bibi encontra-se numa posição demasiado delicada. O seu governo, para sobreviver, terá de submeter-se à direita mais radical. Em resultado disso, terá de afrontar o aliado norte-americano e, numa bola de neve que vai crescendo de dia para dia, mergulhar no poço sem fundo da agressividade nacionalista. Caso opte por uma outra via, arrisca-se a fazer caír o país numa situação próxima da guerra civil.
E note-se, o que está em discussão neste momento é apenas o congelamento dos colonatos, uma das medidas previstas em vários acordos e negociações que nunca foi cumprida. Não se trata ainda, portanto, da remoção de colonatos em resultado da negociação territorial final.

Este é o triste resultado da aventura dos colonatos, previsto por muitos ao longo de muitos anos, incluindo Sharon. E, numa perspectiva mais aproximada no tempo, a validação da acusação feita a Livni de ter sacrificado de forma grave o interesse nacional, ao bloquear qualquer acordo pré-eleitoral com Bibi.

Assume grande relevância, pela confluência no tempo, a posição de Israel face ao Irão. É lícito o tom alarmista com que se descreve o projecto nuclear iraniano ? Sim e não.Vale a pena ter presente, antes de tudo, a repetida afirmação feita por distintos poderes iranianos sobre a interdição religiosa do uso de armamento nuclear. Parece claro que a movimentação iraniana actual se destina a atingir um patamar em que, sem dispor de armamento nuclear, o país disponha de meios para o produzir num espaço de alguns meses caso as circunstâncias o exijam. Não é portanto necessário que o Irão construa uma bomba nuclear para conseguir o efeito dissuasor. Basta-lhe anunciar, aberta ou veladamente, que está em condições de a produzir.
Para Israel, no entanto, o resultado é catastrófico, pois o seu estatuto de única potência nuclear do Médio Oriente, que lhe garantia supremacia estratégica absoluta, cai por terra. Com a agravante de vários outros países da zona terem assinalado que poderão então sentir-se forçados a avançar também pela via do nuclear.

Israel sabe que tem de fazer algo.
O tempo da procrastinação quanto à Palestina parece estar a chegar ao fim, e simultaneamente vai crescendo a extensão da área de influência iraniana, graças antes de mais à mediocridade norte-americana, que lhes entregou o Iraque de bandeja e que, noblesse oblige, ali se colocou à mercê dos interesses russos e chineses.
Israel, portanto, pode ser facilmente tentado a pensar que a blindagem dos territórios ocupados, bem como a submissão militar do Irão, só podem ser garantidas por uma radicalização dos diversos agentes. Mais concretamente, embora um eventual ataque israelita ao Irão, por muito extenso e bem sucedido que seja, não produza benefícios de longo prazo quanto à questão nuclear, produziria provavelmente uma cascata de acontecimentos que acabaria no envolvimento directo dos EUA num conflito de extensão mais vasta. E esse sim, poderia em caso de sucesso conter o Irão por muitos e bons anos.

Vale a pena lembrar duas coisas...
Por um lado, que há uns anos atrás Sharon aventou a hipótese de aproveitar um eventual conflito intenso com o Iraque para forçar a deportação massiva da população palestiniana. Bibi poderá lembrar-se desse detalhe.
Por outro lado, que o envolvimento directo norte-americano num conflito com o Irão não resulta necessariamente numa vitória. Os EUA avaliaram a dimensão desse risco, e por isso até o imbecil Bush tentou evitar uma agressão israelita ao Irão. Em boa verdade, se tivermos em conta que os EUA passariam a ter de se haver com três cenários de guerra simultâneos e um apoio mais ou menos aberto da Rússia e da China ao Irão, as perspectivas não seriam brilhantes. Afinal de contas, a mudança dos pólos económicos a que vimos assistindo em décadas recentes irá traduzir-se, necessariamente e a prazo não muito prolongado, por uma alteração significativa das zonas de influência, um tipo de alteração que usualmente se processa de forma violenta.

Seria curioso, se não fosse dramático, que a aventura dos colonatos acabasse numa alteração significativa do xadrez político no Médio Oriente.
Colonatos e arquiduques... Quem diria ?

57

O reizete da Jordânia sumariou correctamente o estado actual do Médio Oriente.

O plano árabe ( que efectivamente constitui a consagração da vitória do projecto sionista ) corporiza a vontade colectiva de 57 países, no sentido de acomodar a existência da entidade sionista. Mais do que isso, encontra-se em revisão para clarificar a questão do direito de retorno.
Israel tem perante si uma oportunidade única, e não lhe adianta nada atirar com mais poeira para os olhos do resto do planeta. Bibi, quando este mês se encontrar com a segunda incarnação de JC, deve pesar muito bem as palavras e, mais que isso, acompanhá-las de actos concretos, de uma vez por todas.
Não o fazendo, abre caminho a uma nova guerra no espaço de 12 a 18 meses, uma guerra mais vasta que as anteriores, que não envolverá apenas os actores usuais.

Na verdade, não é Bibi o único a ter de decidir em definitivo o destino do projecto racista. Essa é também uma responsabilidade histórica da UE, herdada da leviandade colonial britânica, e uma responsabilidade da nova administração imperial norte-americana, suporte principal desta vergonha nas últimas décadas.

Há demasiadas coisas em jogo que, em abono da verdade, não se restringem à condição sub-humana de quase 9 milhões de palestinianos.
Parece alarmante que num momento em que o poderio do patrono norte-americano decai e força o realinhamento dos investimentos, o eleitorado israelita tenha optado pela soberba nacionalista.
Bibi poderá ter já percebido que a arrogância e cinismo que marcaram o início do seu mandato poderão garantir-lhe um lugar na História... O de coveiro de Israel.

O mês de Maio será determinante para a última das capitulações ocidentais impostas ao império turco. Numa abordagem estritamente realista, não se pode dizer que o seu peso seja fundamental, mas o seu valor simbólico determina tudo o resto.

Sabem-no os árabes, os persas, os israelitas, a administração imperial e os seus cúmplices europeus. Sabem-no e amedrontam-se com a tempestade perfeita que se avoluma, este cruzamento insanável de crises pontuais, em que um erro pode precipitar a catástrofe.

Este não é um momento bonito. É um momento em que se revela a grandeza ou a mediocridade das lideranças. E os sinais de histeria no galinheiro vão-se sucedendo. No lugar de Bibi, não arriscaria mais um bluff. Muito menos uma saída de emergência pela abertura de uma frente de guerra no Irão que miraculosamente encoste a administração imperial à parede.

Estará Bibi à altura ?