Vários estados

É caso para perguntar quantos aparelhos de estado existem neste momento no Irão. Vejamos porquê...

Foi iniciada uma investigação parlamentar sobre as condições em que foram efectuadas as detenções em massa desde as eleições. Trata-se de apurar não só quem foram os responsáveis pelas detenções, mas também a quantidade e gravidade dos abusos cometidos, desde a tortura até ao homicídio por espancamento. O processo está a ser acompanhado por representantes de todas as forças políticas, incluindo as reformistas, e os relatos não confirmados sobre as investigações indicam que os factos são mais graves do que se pensava.
Entretanto, perto de trezentos prisioneiros terão sido libertados nas últimas horas, no meio da imensa confusão em que os estado iraniano caíu.

Pelo seu lado, Montazeri, pouco dado a floreados cosméticos, declarou que o encerramento da prisão de Kahrizak não foi suficiente, sendo necessário avançar para a punição dos responsáveis.

E no castelo de Ahmadinejad, as coisas vão de mal a pior. A escandaleira das demissões de ministros vai-se tornando mais clara, e sabe-se agora que o ministro da informação terá sido demitido porque, tendo-lhe sido solicitada uma investigação sobre o papel do inimigo externo na condução dos protestos, a sua equipa produziu um relatório em que afirma não ter havido qualquer intervenção externa. Furioso, para além de despedir o ministro Ahmadinejad terá ordenado a reforma compulsiva de cerca de 30 funcionários superiores do ministério, e pô-lo hoje sob a sua alçada directa.
E num sinal do destino que poderá estar-lhe reservado, um grupo conservador divulgou uma carta em que o ameaça com a deposição. Mas uma no cravo, outra na ferradura. Também ele conquistado pelo espírito de abrangência, ou meramente preocupado com a possibilidade de vir a ser perseguido como responsável pelas detenções ilegais, solicitou ao procurador-geral que seja leniente, tendo em conta que as detenções sem culpa formada se prolongaram por tempo excessivo (!).

Khamenei anda mais caladito. Quietito. Sabe-se apenas que terá interdito o uso de violência sobre os participantes nas manifestações programadas para amanhã. Não admira o recuo, dado o número de figuras proeminentes que advogam agora a substituição da figura de líder supremo por um colégio de três líderes. Ou dos que, como hoje fez Rafsanjani, advogam a supressão pura e simples do cargo. Khamenei parece estar condenado a saír pela porta pequena, um final de carreira plenamente justificado.

Hmm... Algo maior parece estar em marcha. Não me surpreenderei se a tomada de posse de Ahmadinejad não se concretizar. Esta súbita unanimidade quanto ao apuramento de rsponsabilidades e ao cumprimento estrito da lei pode significar que as élites conservadoras e reformistas perceberam que esta era a única forma de, mantendo a liderança política, cercar a guarda revolucionária e em seguida decapitá-la numa sucessão de processos legais. Nesse cenário, qualquer reacção adversa da guarda revolucionária poderia ser catalogada de rebelião, justificando a intervenção das forças armadas.
Aguardemos alguns dias.

Campeões da abrangência

Cada um salva a pele como pode.
Há uns dias atrás, Larijani, para poder ter uma postura mais abrangente, tratou de se afastar da linha de mira no parlamento, o que deixou Ahmadinejad possesso.
Este, por sua vez, tentou o brilharete de encaixar uma figura pró-ocidental no baralho governamental e falhou miseravelmente. Amuado com a humilhação que se seguiu, ripostou com o despedimento dos protegés de Khamenei, mas até nisso fez mal as contas e colocou o governo numa posição de ilegitimidade formal.
Entretanto, não querendo ficar atrás no campeonato, a suprema múmia mandou encerrar uma das prisões onde foram cometidos abusos. Um sinal de abrangência e de carinho pessoal para com os detidos. Mais ordenou a suprema múmia a abertura de um inquérito rigoroso sobre a matéria, de acordo com a PressTV ( que da noite para o dia também virou abrangente ). Os mortos agradecem.

Estranho país, onde os líderes situacionistas se esfaqueiam mutuamente sem que o estado se desagregue. E se olharmos mais de perto, a indiferença das forças armadas só faz crescer a estranheza, mesmo depois de descontada a tradição de fiel subordinação ao poder político.
Mas, se olharmos ainda mais de perto, percebemos que o único poder efectivo que ainda segura todos os contendores é a guarda revolucionária, namorada à vez pelos conservadores desavindos e temida pelos reformistas. Ganhe quem ganhar, é esta instituição hipertrofiada que vai ter de ser submetida, antes que chegue ao ponto de submeter o estado. Quem se chegará à frente ?

Balbúrdia no Leste

Ahmadinejad, depois de gozar com Khamenei durante uma semana, lá resolveu aceitar as ordens e desnomear ( acho que é a palavra adequada ) o novíssimo vice.
Em jeito de vingança, demitiu também três membros mais ariscos do governo, mas logo aterrou num pequeno problema constitucional, pois tendo sido ultrapassado o limiar de 50% de demissões de membros do governo original seria forçado a apresentar uma moção de confiança no parlamento, a uma semana do final do mandato. Por via das dúvidas, dois dos demitidos foram desdemitidos ( acho que também é a palavra adequada ).
Compreende-se que ande nervoso. Foi uma semana recheada de purgas, que terminou com chave de ouro com a sugestão de que a guarda revolucionária se acha vocacionada para o poder absoluto. Subitamente, a margem de manobra para uma saída negociada mingou de forma preocupante, sem que se saiba se a tropa comum irá manter-se afastada das questões políticas.

ASAE, dois pesos e duas medidas

O sanguinário mutante do grupo H1N1 que deu à costa este ano, para além de preencher telejornais, tem virtudes menos óbvias.
Não terá escapado ao olhar atento do querido leitor o conjunto de normas eclesiásticas destinado a prevenir a difusão do vírus nas assembleias de crentes. No centro das atenções, o problema da hóstia, estando agora vedado aos ministros enfiar os dedos na boca do crente quando lhe administrem o produto.
Zelo digno de louvor, mas que realça um problema de saúde pública sistematicamente ignorado pela polícia dos costumes. Sendo a hóstia um produto alimentar acessível ao público, a sua distribuição deveria cumprir as disposições legais aplicáveis, o que não acontece.
Nomeadamente, cada hóstia deveria ser disponibilizada em invólucro hermeticamente selado e rotulado, com indicação da composição e do prazo de validade. Admite-se que os componentes espirituais do produto sejam sigilosos, dificilmente quantificáveis, ou que haja até dúvida teológica razoável quanto ao prazo de validade. Em qualquer caso, não se compreende o desleixo com que a ASAE vem tratando o problema, já que noutros ramos de actividade situações similares conduzem ao imediato encerramento dos estabelecimentos.
Ao que sabe o Coproscópio, o impasse deve-se à indefinição sobre a instituição mais vocacionada para a fiscalização das hóstias. Enquanto alguns juristas entendem que a hóstia, sendo um produto alimentar, deveria ficar sob a alçada da ASAE, realçam outros que em se tratando de um produto claramente associado a uma terapia espiritual, deveria ser controlado pelo INFARMED.

Seria do interesse dos consumidores que os peritos se entendessem sobre este assunto. Rapidamente.

O menino desobediente

Apesar de insistências de várias figuras públicas, aconteceu o impensável... Ahmadinejad recusou cumprir a ordem de Khamenei relativa à demissão do vice-presidente.
Trata-se de um sinal de fragmentação do campo conservador, que parece dividir-se em duas facções, uma delas centrada no ayatollah Yazdi, mentor de Ahmadinejad, e uma outra centrada em Khamenei talvez por dever de ofício.

Dir-se-ia que Khamenei estará a tentar reaver a postura supra-partidária inerente ao seu cargo, antes que a rápida perda de credibilidade o condene à deposição, mas o exercício colide frontalmente com o projecto corporizado por Ahmadinejad. Digo corporizado porque na verdade o jogo de influência se trava entre as vertentes ideológicas representadas por Khamenei e Yazdi.

Pelos sinais que esvoaçam de outras paragens, dir-se-ia ainda que o exercício de Khamenei não é solitário, antes parece de alguma forma combinado com sectores reformistas, que ainda hoje fizeram passar no conselho de peritos uma resolução no sentido de incompatibilizar o desempenho de funções governativas com a participação no conselho de guardiães. Separação de poderes, separação de poderes...

Ah, nota-se também um ligeiro abrandamento do controle sobre os media.

Julgo que as negociações de bastidores poderão estar a resultar em pequenas cedências mútuas capazes de evitar a derrocada do sistema. Nesse cenário, Ahmadinejad será uma figura a abater, ou a sujeitar pelo menos a um controle apertado, enquanto a Khamenei será assegurado um período mais ou menos alargado para sair com alguma dignidade da pocilga em que se meteu.

Poderá esta estratégia ser bem sucedida ? Creio que sim. Tenho desde há muito tempo a impressão de que o descontentamento popular se restringe quase exclusivamente ao sector da classe média urbana, um sector ainda demasiado débil para poder abalançar-se a encabeçar uma revolução.

Tive hoje a grata surpresa de, finalmente, ler dois artigos de grupos marxistas distintos que fazem uma análise semelhante, e que apontam a necessidade de incitar o operariado a envolver-se, e eventualmente liderar, a movimentação social actual.
Sem querer ser a ave de mau agouro, acho que há aqui um pequeno problema de agenda... A ligação de Ahmadinejad à defesa do interesse popular é bem real, e só uma degradação mais notória das condições de vida poderá, a prazo, conduzir o operariado à revolta.

Uma revolta que, mesmo assim, ficará subordinada aos interesses da classe média.

A revolta das torradeiras

A contagem de espingardas continua, com prejuízo para os que julgam poder parar a dinâmica da sociedade.

Não fora o brilhante sermão de Rafsanjani na 6ª feira, os protestos da populaça poderiam ter esmorecido e o jogo de secretaria poderia prosseguir. Mas o velho tubarão, certamente bem estribado, devolveu a palavra às massas e deu mais uma pancada na pouca credibilidade que resta a Khamenei.

Assim abençoada, a classe média voltou hoje aos protestos de rua, e já tem actividades programadas para os próximos dias. As festividades terminaram com uma nova sobrecarga programada da rede eléctrica que a fez colapsar em algumas zonas. As instruções de hoje eram simples, às nove da noite todos deveriam ligar em suas casas os electrodomésticos de maior consumo. Tiro e queda.

A correlação de forças nos escalões mais altos continua a pender lentamente para o lado dos sectores descontentes, contabilizadas que sejam as sucessivas declarações de apoio à república provenientes de membros do clero, bem como alguma diminuição do grau de violência na repressão dos manifestantes.
No campo conservador, mais ainda, é perceptível alguma descoordenação. Mal Ahmadinejad acabava de nomear um familiar para vice-presidente ( curiosamente um sujeito vagamente conotado com o campo reformista ), e de todos os lados já choviam reprovações. À direita por causa das suas declarações favoráveis à melhoria das relações com os EUA, à esquerda por se tratar de favorecimento ilegítimo de um familiar.
A nomeação caíu mal. Tão mal que Khamenei, numa nota particularmente seca, ordenou hoje a Ahmadinejad que demitisse o vice. Partindo do princípio que Ahmadinejad acatará a ordem, o pobre vice nem chegará a aquecer o lugar.
Aproveitando o ensejo, o supremo líder ainda aproveitou para ameaçar pessoalmente Rafsanjani, mas não parece que o tubarão tenha tremido.

Nothing personal, just business


Depois de ter sido tornado público o envolvimento da Nokia e da Siemens na venda e implementação em 2008 de um sistema de monitorização automática das telecomunicações no Irão, capaz de interceptar e gerar alertas sobre conteúdos verbais ou escritos, permitindo assim a vigilância em larga escala dos cidadãos daquele país, os negócios de ambas as empresas começam a sofrer as consequências.
No caso da Nokia, as vendas no Irão desceram a pique. Para a Siemens, o problema vem dos activistas que promovem um boicote nas aquisições por organismos públicos.

Incontrolável ?

O sermão de Rafsanjani era mais esperado que o D. Sebastião.
Expectativa talvez desmesurada, mas reflectindo a necessidade de algum sinal que pusesse termo, a bem ou a mal, à curiosa suspensão da vida política iraniana.

Rafsanjani proferiu um discurso emocionado ( há relatos de que tremeu e chorou durante alguns momentos da alocução ) mas politicamente contido. Outra coisa não seria de esperar, qualquer frase mal medida poderia assinalar o fim do sistema teocrático. Notável a insistência repetida na idéia de que o poder só é islâmico quando legitimado pelo povo. O mote foi dado, o resto se verá.

Mas, talvez mais importante que o discurso é o ambiente circundante...
No interior do recinto os apoiantes de Khamenei gritaram a plenos pulmões, enquanto cá fora uma massa estimada em cerca de um milhão de pessoas fazia o mesmo, mas reclamando liberdade e apelidando Rafsanjani de traidor, enquanto os Basiji distribuíam cacetada e gás lacrimogénio.
Notícias poucas, que uma hora antes do sermão o governo encarregou-se de cortar a rede celular na zona da universidade.
Na televisão, pela primeira vez, não houve transmissão directa do sermão. Em seu lugar, passaram gravações de outros sermões, talvez menos controversos.

Há agora nas ruas demasiadas pessoas, demasiado expectantes. Uma massa humana que esperava algo que não aconteceu, nem poderia ter acontecido. Julgo essa massa irá agora fazer com que aconteça algo, sem saber exactamente o quê. Começaram por cercar o ministério do interior...

Um dia perigoso, este. Notícias não confirmadas informam que foi instaurado o estado de emergência na região de Teerão.

A fatwa de Montazeri

Já está disponível uma tradução para inglês da fatwa de Montazeri que, sem nunca nomear Khamenei ou Ahmadinejad, declara ilegítimo o seu poder.
Ao que consta ( sem confirmação... ) as autoridades iranianas estarão a tentar evitar a divulgação do texto, difundindo ao mesmo tempo uma notícia alegando que Montazeri está mentalmente instável e que a fatwa terá sido redigida no exterior do país.

Há duas razões que fazem desta fatwa um elemento importante.
Uma delas é o estatuto religioso de Montazeri. Embora formalmente Khamenei disponha de estatuto idêntico, teve que o obter através de manobras de bastidores, para poder ocupar o cargo de líder supremo. Pode dizer-se que tirou o curso de Grande Ayatollah na Independente...
A outra razão poderá ser simples coincidência, mas não deverá ser inócua. Rafsanjani aceitou liderar as orações da próxima 6ª feira em Teerão, que deverão também contar com a presença de Mousavi, Karoubi e Khatami.

Desnorte

Talvez em resultado da contínua indefinição da élite, a classe média iraniana voltou às ruas.
Embora com a reserva apropriada a uma situação de blackout informativo quase total , é razoável afirmar que as manifestações de hoje têm aspectos notáveis.

O número de cidades envolvidas é elevado, idem para o número de participantes e seu entusiasmo.
É também significativo que, depois da sucessão de afirmações de posição de figuras de relevo da estrutura religiosa, as intervenções da polícia e das milícias tenham sido genericamente mais contidas que em episódios anteriores.
Haverá duas leituras possíveis para este facto, sendo uma a de que os decisores terão sido influenciados pelos repetidos apelos da estrutura religiosa, a outra a de que o grau de indecisão é agora tão elevado que as forças repressivas estarão menos resolutas na defesa do novo status quo, na expectativa talvez de uma mudança súbita na direcção política do país.

Trata-se afinal de um processo dinâmico, em que o prolongamento do impasse vai movendo as balizas para pontos imprevistos. Quer do lado civil quer do religioso, o discurso saíu da esfera da legitimidade do acto eleitoral e vai-se transformando em oposição aberta à teocracia.

Se inicialmente se podia perceber que o eixo Khamenei-Ahmadinejad representava uma facção religiosa una, ao longo da semana essa percepção foi-se abatendo com o aparecimento de sinais de rejeição provenientes de teólogos do campo conservador, que sentem ter sido envolvidos numa vulgar golpada que pouco tem a ver com questões religiosas.

Este impasse é perigoso, pois ao nível das élites não foi possível chegar a um compromisso que salvaguardasse a imagem da teocracia, pelo que essa imagem se tem vindo a degradar, o que se traduz num ânimo renovado dos seus opositores. E a cada passo nesse sentido, aumenta o risco de um confronto armado.

Tradução, precisa-se

Se algum dos leitores puder traduzir o documento da associação de professores de Qom ( seja para português ou inglês ) hoje mencionado pelo Público, muito agradeço.
Ando desde ontem a tentar arranjar voluntário na Net, mas ninguém se chega à frente.

Reabre brevemente com nova gerência

Na guerra pelos despojos da GM, o ramo europeu tem agora um novo candidato a comprador.
A China, naturalmente.

Passarinhos

O Times publica hoje um artigo segundo o qual a Arábia Saudita autorizou Israel a utilizar o seu espaço aéreo para ataques às instalações nucleares iranianas.

Numa resposta imediata, o governo israelita negou tudo.

O passarinho está no ar, auscultemos as reacções.

À espera de Godot

Clarifiquemos, Moussavi não é um republicano laico e socialista sarapintado de valores norte-americanos. É, como todos os actores da cena política iraniana, parte integrante do regime teocrático. Um regime que sofre agora um embate simultâneo em duas frentes.

Por um lado, o de uma classe média instruída e em crescimento acelerado, que, tal como acontece em todo o lado, reclama o seu quinhão do bolo económico e igual medida de autonomia política.
Independentemente de quaisquer outras considerações, parece-me que esta classe corporiza uma contradição insanável, a de o seu crescimento ser condição necessária à modernização do país, sendo ao mesmo tempo o coveiro mais anunciado do jugo teocrático.

Por outro lado, o combate entre as duas grandes vertentes ideológicas do regime, uma preconizando a administração directa por uma élite iluminada pelos deuses, a outra mais contida, preconizando que essa intervenção se restrinja à fiscalização dos padrões éticos alegadamente prescritos nos textos religiosos.

Pelo andar da carruagem, vou fixando a crença de que o levantamento da classe média é prematuro.

Nesta última semana, enquanto prosseguiu a supressão dos sinais de insurreição, desde as manifestações de rua às antenas parabólicas nos terraços das habitações, somaram-se as tomadas de posição de sectores clericais de oposição ao eixo Khamenei-Ahmadinejad, numa espécie de convergência contra-natura ditada pela necessidade. Bom, contra-natura mas não muito. A nota dominante nos comentários públicos é a de que a destruição dos pólos de fiscalização mútua não garante a sobrevivência do regime, antes associa o clero à tirania, um casamento que descredibiliza o clero e acarreta a prazo o seu afastamento total e compulsivo da cena política. Não admira por isso a súbita beijoquice entre tantos amantes desavindos. Pior que isso, não admira também eles convirjam na narrativa da sublevação instigada pelo inimigo externo.

Não há limites para a pulhice humana, principalmente quando couraçada pela religião... Não me surpreenderá que um progressivo afastamento dos candidatos a tiranos seja precedido pelo enforcamento de um certo número de activistas civis. Nesse cenário, o levantamento da classe média terá sido prematuro. O que acarreta sempre um preço elevado.

E em que posição ficamos nós, ocidentais, no meio de tudo isto ?
Numa posição delicada, mas ainda assim com alguma margem de manobra. Se aos EUA está vedada qualquer acção que possa ser aproveitada por Khamenei-Ahmadinejad para unir artificialmente o país numa demência nacionalista contra o inimigo externo, à UE mantém-se aberta a possibilidade de exercer uma pressão diplomática persistente sem riscos notáveis. Julgo que as direcções políticas europeias já o perceberam, pelo que poderemos montar uma cenaça de polícia-bom-polícia-mau com, quem diria, os EUA a fazer de polícia bom.

Mas trata-se aqui de fazer o (quase) impossível... Combater este desvio para a tirania no poder político iraniano, e ao mesmo tempo construir as bases de um relacionamento equitativo que a médio prazo impeça que se complete a transformação do país num peão dos interesses chineses e russos. Uma tarefa que vai sendo dificultada a todo o momento pelo regime racista de Israel, que, literalmente em todas as frentes, tem aproveitado esta crise para incitar toda a espécie de actos que possam conduzir a uma intervenção militar ocidental.