O clero da linha de Khamenei parece ter decidido acomodar-se a uma convivência amargurada com o campo reformista, facilitando uma união de facto que permita aguentar o sistema.
A generalidade do clero restante limita-se a jogar à defesa. Se do ponto de vista ideológico ainda pode reclamar alguma legitimidade, do ponto de vista prático já não tem espingardas suficientes para retomar as rédeas do poder, pelo que se limita a titubear princípos de quando em quando, incapaz de qualquer outra acção.
Enfronhada na sua maior crise desde as purgas de Khomeini, a teocracia tenta restabelecer-se num novo patamar de estabilidade. Mas talvez seja um exercíco fútil, pois as contradições do sistema são agora demasiado profundas.
Qualquer confluência na acção será por isso sol de pouca dura, os projectos dos distintos grupos não são passíveis de acomodação duradoura.
Mas enquanto o pau vai e vem, despontam sinais de vitalidade. Para além das muitas acções empreendidas ou apoiadas pelos poderes parlamentar e judicial, que incluem a investigação das violações de detidos de ambos os sexos e dos cadáveres em campas não identificadas, também os media parecem ganhar algum vigor na crítica ao presidente e seus apoiantes ( é o síndrome dos vira-casacas, que nós portugueses tivemos oportunidade de observar há uns anos atrás ).
Do outro lado da barricada, Ahmadinejad vai aguentando os enxovalhos com ar brejeiro, desafiando tudo e todos, desafiando até Khamenei, a suprema múmia que vai dando o dito por não dito na esperança de salvar o pouco que lhe resta.
E de onde vem a arrogância de Ahmadinejad ? Do poder das armas da guarda revolucionária. O que não deixa de ser espantoso, se considerarmos que o projecto plutocrático desta é, bem vistas as coisas, antagónico do projecto populista e algo socializante de Ahmadinejad.
Sociquê, pergunta o leitor, escandalizado ? Bom, sem querer parecer especialmente cínico, diria que, salvaguardada a componente religiosa, o projecto que na cena internacional actual me parece mais próximo do de Ahmadinejad é o de Hugo Chavez...
E já agora, continuando a não querer parecer especialmente cínico, confesso a minha profunda admiração por alguns dos aspectos da cultura política iraniana, que nalguns momentos revelam um grau de elaboração bastante invulgar.
E é talvez a conjugação das contradições do sistema aliada a essa elaboração que está a complicar seriamente os processos de avaliação ocidentais, o que é prenúncio seguro de novas e maiores asneiradas da nossa parte. Espero que os nossos queridos líderes não se deixem embalar pelos cantos de certa sereia que tudo faz para nos arrastar para um confronto directo com o Irão.
Espero que, depois da imbecilidade das aventuras afegã e iraquiana, não nos arrastem para uma situação ainda mais grave.

