Os três porquinhos

Os três porquinhos juntaram-se um dia e vieram a público denunciar os horrendos planos nucleares do monstro iraniano. Com mapas e fotografias e sabe-se lá mais o quê.

Podemos olhar mais de perto ?

Em primeiro lugar, parece-me razoável perguntar se assiste a um qualquer país o direito de defesa.

Se sim, então será natural que o Irão, tal como acontece com outros países, se muna rapidamente de um dissuasor nuclear. Por um lado, porque a ingerência dos países ocidentais que causou o fim de Mossadegh e a ascensão do xá é algo que irá grantidamente repetir-se no futuro ( para que não haja dúvidas, os EUA, desde a queda do títere, recusaram dar ao Irão quaisquer garantias de segurança ). Por outro lado, porque o disparate da invasão e destruição do Iraque causou um desequilíbrio excessivo, que em rigor só pode ser restabelecido pela destruição do poderio militar iraniano... E os iranianos sabem disso.

Se não, então não se compreende a histeria ocidental face ao Irão, quando não suscitou qualquer reparo digno de nota a obtenção de armamento nuclear por parte de países como Israel, a Índia ou o Paquistão. Muito menos quando, como aconteceu com a Coreia do Norte, o único caso em que houve reparo digno de nota, o resultado final é a garantia de segurança para o transgressor.

Em segundo lugar, uma observação de pormenor... A descoberta de novas instalações militares subterrâneas destinadas ao processamento de urânio não é na verdade uma descoberta. Há mais de três anos que as instalações são conhecidas, como qualquer pessoa vulgaríssima que tenha observado a zona no Google Earth poderá confirmar. No caso das fotografias da instalação existente a noroeste de Qom, é de estranhar que hoje, como há uns anos atrás, se relevem os dois acessos mais fotogénicos e se esqueça que a algumas centenas de metros a mesma elevação é perfurada por nada menos de dez hangares parcialmente soterrados, qualquer um deles servindo perfeitamente como entrada de túnel para o interior da elevação. A inclusão destes hangares na fotografia tiraria talvez algum brilho à fantástica descoberta, perder-se-ia o impacto mediático da encenação e o ímpeto belicista iria por água abaixo. Uma chatice.

Em terceiro lugar, do ponto de vista legal é defensável a posição iraniana. Declarou a existência de uma nova instalação nuclear dentro dos prazos previstos.
Perante isto, não surpreende que a encenação desemboque no que realmente nos interessa, a saber, que vamos agora dar o passo seguinte, agravando as sanções destinadas a obter a submissão iraniana aos nossos interesses estratégicos. Sejam lá quais forem.

Hmm... Vamos pensar um pouco ?

Como referi num outro post, na presente conjuntura política iraniana é útil para Ahmadinejad, muito útil, a existência de crispação face a um inimigo externo.
Os problemas internos do Irão não se resumem à configuração do sistema político. A vertente económica vai tendo peso crescente e, no caso particular dos combustíveis, é de todo o interesse para o governo iraniano que rapidamente os seus congéneres ocidentais imponham um embargo, que dará a justificação para algumas medidas impopulares, que são inadiáveis com ou sem embargo. E obtido o benefício da justificação, o embargo pode sempre ser furado pela fronteira iraquiana, ou pelos amigos chineses ou russos. Como não temos infelizmente grande tino, damos de borla a Ahmadinejad uma ferramenta excelente para que consolide o seu poder.

Julgamos talvez ter o poder militar necessário para dar cumprimento às nossas ameaças neste poker de apostas crescentes. Mais uma vez, como não temos infelizmente grande tino, não percebemos que já temos na zona mais de um quarto de milhão de soldadinhos que nada fizeram de útil ao longo dos últimos sete anos, limitando-se a matar indiscriminadamente e a consumir recursos a um ritmo épico. Não percebemos que um ataque convencional ao Irão não terá qualquer benefício, e que uma invasão daquele país é simplesmente impossível, seja porque o número de soldadinhos necessários é gigantesco, seja porque, como ainda ontem frisou o governo iraquiano, o uso do território do Iraque para uma agressão ao Irão não será autorizado.
Quando jogamos poker, seria prudente que pensássemos até onde estamos dispostos a ir. De outra forma, a partir de certa altura ( como está a acontecer no Afeganistão ) arriscamo-nos a deixar de conduzir para passarmos a ser conduzidos.

O que está em jogo no Médio-Oriente é demasiado sério. Cada um de nós, cidadãos ocidentais, deveria por isso pensar bem nas responsabilidades que assume quando persiste em delegar cegamente em aventureiros a definição das políticas para aquela zona.

O híbrido

Convenhamos, o PSD apresenta-se às eleições numa posição de fraqueza.

Enquanto representante modelar do novo-riquismo competitivo que deu os seus primeiros passos no início da década de 70, tem naturalmente dificuldade em manter a unidade interna, só o conseguindo nas poucas ocasiões em que usufrui de uma liderança forte.

Não surpreende portanto que uma figura como MFL esteja fadada ao sacrifício. Canibalismo é assim mesmo, e MFL carrega a sua dose de culpa, na medida em que não conseguiu sequer alinhavar um programa eleitoral credível.

Mesmo nestas condições, seria de esperar que a arrogância e alguns dos insucessos de Sócrates e sus muchachos resultassem no rotativismo em que tanto gostamos de marinar.
Mas quiseram os deuses que o ayatollah de Belém se enrolasse numa história escura, faltando-lhe agora coragem ou seriedade para clarificar a situação. Conseguiu, de um só golpe, ressuscitar a possibilidade de Sócrates obter nova maioria absoluta.

E pronto, está tudo explicado. Ou não ?...

Julgo que não. O que me parece perigoso de há uns anos para cá é que o PS tenha sido sujeito a uma operação plástica que coseu o elitismo esclarecido, laico, republicano e vagamente socialista dos seus fundadores aos interesses de classe representados anteriormente pelo PSD, ainda por cima pela mão de um dos seus antigos membros.

O rotativismo parece ter cumprido o seu destino ao gerar um único filho, uma espécie de Frankenstein centrista. O PSD tornou-se por isso dispensável.
Poderão os partidos restantes dar conta do recado ?

Uomini d'onore

Faltam poucos dias, a dúvida permanece.

E na circunstância a ausência de esclarecimento é equiparável a insulto, um insulto a todos os cidadãos.
Vale a pena insistir no convite ao ayatollah de Belém para que ganhe coragem e, ainda antes das eleições, explique exactamente o que se passou.
O convite  provavelmente não será aceite, pois será natural que num país de tão brandos costumes até o presidente se ache inimputável... E pelos arrufos dos ideólogos de piquete nas famiglie do centro, pode depreender-se que as élites que superiormente nos dirigem não querem ver esta lebre aos saltos, optando antes por um entendimento de cavalheiros que salvaguarde para já a imagem do grande ayatollah.

Permitam os meninos que discorde desse tipo de entendimentos.

O ponto dá instruções

O tubarão mexe-se.

Hoje, na reunião da Assembleia de Peritos, assinalou claramente que a única voz que importa ouvir é a dos grandes ayatollahs, devendo por isso ser considerada como guia absoluto para pôr termo à crise institucional a declaração que estes agora emitam, já que constituem o último bastião de defesa genuína do sistema de república islâmica.

Ora bem, os rumores indicam que os ayatollahs estariam inclinados a recomendar a deposição da múmia suprema. Só que... A Assembleia de Peritos, detentora desse poder, está recheada de apoiantes de Khamenei, pouco inclinados certamente a liquidar o patrão.
Mas, ao omitir quaisquer sinais de deferência para com a suprema múmia e, genericamente, dar ao discurso o tom de quem ordena em vez de sugerir, Rafsanjani dá solidez à idéia de que Khamenei está politicamente acabado e de que há que reduzir severamente a margem de manobra de Ahmadinejad, inclusive na gestão da política externa.

Rafsanjani está no centro da manobra política, e ao antecipar-se à declaração de Qom aparece mais uma vez com uma dimensão de estado mais credível que a de Khamenei.
Uma vez que nos últimos meses tem cultivado com cuidado essa imagem de vulto sereno e relativamente independente, estaria capaz de sugerir que Rafsanjani, ao invés de trabalhar no sentido da abolição da figura de supremo líder, como aventou há uns tempos atrás, está na verdade a posicionar-se como candidato natural à sucessão do desgastado Khamenei, cavalgando a onda de defesa do status quo ante.

As apresentações foram feitas, sentemo-nos então para a cena 3 do acto II.

Portugalistão

Ironicamente, defendi ontem junto de algumas pessoas a postura do grande ayatollah de Belém, pessoa
que não me inspira habitualmente um grande apreço.
Essa defesa baseava-se numa razão simples, a de que seria inconcebível que o presidente, ao longo de um ano e agora de forma mais aberta, se tivesse enredado numa burla capaz de o sujar seriamente e, pior que isso, de sujar também a instituição que personifica.

Os factos de hoje parecem mudar o cenário.

Valerá por isso a pena que o presidente, antes das eleições, explique claramente os factos.
Porque das duas uma... Ou o primeiro-ministro utilizou meios ilícitos para espiar um outro órgão de soberania, e os cidadãos devem ser informados a tempo de lhe dar a resposta adequada no dia 27, ou o presidente utilizou abusivamente o cargo para emprestar credibilidade a uma calúnia capaz de influenciar decisivamente a votação.

Em qualquer dos casos, parece-me higiénico que um dos figurantes saia de cena.
Porque se os figurantes simplesmente se ficarem por um acordo de cavalheiros que conduza a um manso esquecimento do assunto, então ficará a impressão de que o afunilamento ao centro da vida política não gera apenas entendimentos duvidosos, mas gera também encobrimentos mais sérios.

Um dos meninos que se chegue à frente. Já.

Trotsky airlines


Morreu Irving Kristol, o criador da arrumação ideológica que dá pelo nome de neoconservadorismo.
Como vários da nossa praça, na fase final da juventude levantou vôo do trotskismo para aterrar no campo da direita.
'Mas não é esse o destino óbvio de todo o radical pequeno-burguês de fachada socialista ?', perguntaria o velho Barreirinhas.
Sim, quase sempre, mas... O que tornou Krystol uma figura de relevo foi o brilhantismo com que legitimou o salto do ponto de vista ideológico.
Querido leitor, aconselho-o a consultar alguns dos seus trabalhos, que são como o Tintin, bons para todas as idades. Se o leitor for um trotskista arrependido, sentir-se-à vingado. Se for um direitinha desde tenra idade será banhado pela luz do intelecto. Se for um gauchiste caviar, sentir-se-à muito justamente enxovalhado. E se for um estalinista na pré-reforma, sentirá os fedores enxofrados do demónio.
Em qualquer caso, se for de esquerda prepare-se, tem pela frente um osso muito duro de roer. O neoconservadorismo é muito mais do que as figurinhas caricatas que por instantes vimos associadas ao poder norte-americano.

Acto II, cena 2

 A criança continua viva. Apesar de tudo.

No final dos eventos do Quds, o balanço é relativamente neutro.

No plano da populaça, os poucos confrontos que ocorreram envolveram apenas membros das milícias Basij e da oposição, apesar da presença significativa (mas não muito) de apoiantes das várias facções.
Pode dizer-se que o apelo de Khamenei não teve tradução efectiva. As suas massas não se sobrepuseram às dos oponentes, nem qualquer das partes se deixou tentar pela violência sectária.
Do lado da oposição, não há motivo para júbilo excessivo. Pode alegar-se que as ameaças de Khamenei, as dificuldades organizativas decorrentes da repressão contínua, ou até os feriados decretados em cima da hora, terão desmobilizado parte importante da classe média. Pela minha parte, embora me pareça que a utilização das movimentações pacíficas de massas seja uma estratégia muito interessante e que venha dando resultados muito positivos, a sua maior ou menor dimensão está sempre limitada pela capacidade mobilizadora dos objectivos propostos para cada acção singular. Relativamente à acção de ontem, os comentários que li traduziam a ausência de objectivos concretos para além de uma mera prova de vida.

No plano da direcção política, o impacto é um pouco maior.
Ahmadinejad apareceu debilitado. Não foi capaz de se referir à situação interna do país, preferindo jogar mais forte na conflitualidade face ao inimigo externo, com ênfase numa série de patacoadas sobre os judeus.
O exercício não teria por si só grande sucesso juntos dos iranianos, pois já se tornou demasiado óbvio e cansativo. Só produziu benefício político graças à imbecilidade de alguns dirigentes ocidentais, que logo esbracejaram como tolinhos.
Khamenei também perdeu algo. O seu apelo caíu em saco roto e ao longo do dia não teve qualquer relevância no discurso político. Foi simplesmente ignorado.
E do lado da oposição ? Rafsanjani foi de férias, Moussavi esteve mas não esteve, Khatami esteve mas pisgou-se depois de levar uns tabefes dos basiji, Karroubi passeou-se mais ou menos despercebido. Que se pode dizer ?... Missa est, venha a próxima.

A cena seguinte talvez tenha consequências mais notáveis, dependendo do conteúdo. Após uma gestação prolongada, o clero de Qom deverá na próxima semana emitir uma declaração conjunta. Embora o clero nunca seja raça de confiança, ali ou em qualquer outro lado, o facto de se sentir com os calos bem pisados poderá levá-lo a, uma vez sem exemplo, fazer alguma coisa útil.

Parabéns

Os promotores da Iniciativa de Genebra publicaram o  acordo geral e anexos sectoriais  resultantes dos trabalhos efectuados nos últimos dois anos pela equipa mista israelita e palestiniana.

Se a iniciativa era meritória por si só, ganha especial valor pelo simples facto de sujeitar as suas propostas a dicussão pública.

Quer para os povos directamente interessados, quer para todas as potências externas envolvidas, a existência de um documento de trabalho aberto tem dois efeitos importantes:
-  A construção de uma plataforma realista baseada nas sugestões e alertas colhidos nas mais diversas fontes;
- A redução do espaço de manobra de quantos se oponham à opção dos dois estados, uma redução tão mais acentuada quanto mais minuciosos forem os detalhes de implementação.

Parabéns a todos os que deram ou venham a dar o seu contributo a este projecto.

As habilidades natatórias do tubarão

Depois de Khamenei pedir aos seus apoiantes uma presença massiva no dia de Qods, é a vez de Rafsanjani ripostar, publicando um apelo no mesmo sentido. O fraseado é delicioso, cheio de referências veladas à situação iraniana, a fazer lembrar os articulistas portugueses no tempo da censura ( mas a semelhança limita-se aos truques de estilo, já que o contexto é bem diferente ).
Mas leia-se com cuidado... No cenário mais perigoso, o da afluência de grande número de apoiantes de ambos os campos em reclamação da 'propriedade' do dia de Quds, os confrontos serão praticamente inevitáveis. Rafsanjani tem plena consciência disso, e no entanto não há no texto uma única referência à sua eventual presença física nas manifestações ou sequer na liderança das orações de 6ª feira. Isto é, o velho tubarão, mais uma vez, desafia publicamente a suprema múmia sem se expor pessoalmente...

O nervosismo é patente. A suprema múmia achou importante negar que Rafsanjani tivesse ameaçado demitir-se de todos os cargos se Karroubi fosse detido. No mesmo dia, foram presos três netos do grande ayatollah Montazeri, talvez em retaliação por uma declaração deste em que acusa o regime de ter abandonado os valores religiosos e se ter transformado numa ditadura militar. Também no mesmo dia, o porta-voz do parlamento, Larijani ( o meu catavento favorito ), deu-se ao trabalho de pedir uma audiência a Karroubi, ao que consta para lhe pedir alguma contenção. E ainda no mesmo dia, Karroubi reagiu às acusações da comissão judicial que investigava as violações de detidos, chamando mentirosos aos membros desssa mesma comissão. Louvo-lhe a coragem.

Por falar em coragem, estará Moussavi de férias ?

Acto II, cena 1

A primeira cena desta etapa do processo político iraniano teve o seu lugar.

Nas orações de 6ª feira, Khamenei deixou sinais claros do que aí vem. Quando citou a frase há um tempo para a tolerância e um tempo para a espada, abriu caminho para uma série de ameaças mais ou menos veladas e para o incitamento, este sob a forma de uma chamada aos seus apoiantes para que assegurem uma presença massiva e combativa no dia de Quds.

A manobra não surge isolada. Depois dos assaltos e prisões do dia anterior, veio a público que Khamenei já há duas semanas atrás assinou um mandato de captura em nome de Karroubi, que pode ser cumprido a qualquer momento. Entretanto, a comissão judicial encarregue de investigar as alegações de violação de detidos afirma ter terminado os trabalhos e concluído que as alegações de Karroubi são falsas. Logo se renovaram os apelos de algumas figuras importantes relacionadas com Ahmadinejad para que Karroubi seja preso ou morto.

Rafsanjani não perdeu tempo a reagir. Fez saber que se reuniu com a suprema múmia e lhe manifestou abertamente o desacordo quanto a esse mandato, uma revelação curiosa pelo que representa de desafio público à autoridade de Khamenei. E esta revelação foi logo seguida de uma outra, que caíu como uma bomba nas hostes reformistas, a de que Rafsanjani se retira da acção política e renuncia a várias posições importantes, incluindo o direito de liderar as orações no próximo dia 18, o que pode ser entendido como um sinal de rendição.

Mas convém ler nas entrelinhas... Rafsanjani já percebeu ( como toda a gente, de resto ) que a autoridade de Khamenei é cada vez mais diminuta, e que as suas ameaças não são mais que um último esforço para manter a iniciativa perante o eixo Ahmadinejad/IRGC. E nesta dinâmica, é praticamente impossível evitar um confronto de massas violento no dia 18 mesmo que entretanto, como se teme, todos os dirigentes reformistas sejam detidos. Rato, Rafsanjani pode estar simplesmente a tentar distanciar-se da violência, para que a culpa pese inteiramente sobre os ombros do moribundo supremo líder. Noto que não é a primeira vez nestes três meses que Rafsanjani tenta afirmar uma imagem de ponderação em resposta a atitudes irreflectidas de Khamenei. Não é à toa que lhe chamam tubarão.

A coisa não está fácil. Com o IRGC a assumir, agora abertamente pela voz do seu comandante, que no novo cenário já não faz sentido manter-se arredado do poder político, então restam apenas as forças armadas regulares como última entidade capaz de os travar. E desse lado o silêncio continua a ser absoluto.

A evolução dos acontecimentos não é positiva. Uma ditadura suportada por um corpo paramilitar irá forçosamente procurar legitimação no confronto com o inimigo externo, o que cria dificuldade acrescida ao processo negocial com os países ocidentais. Depois da palhaçada que constituiu a mais recente proposta do governo iraniano ( que pode ser consultada em documents.propublica.org ) e que foi hoje tomada a sério em marcha-atrás pelos EUA, outras se seguirão, provavelmente com um tom de desafio mais incisivo que forçosamente suscite reacção ocidental equivalente, o que nos colocará a todos no reino da imprevisibilidade.

Vale a pena ter bem presente que a posição iraniana é muito forte. Mesmo sem quaisquer apoios externos. Note-se que do ponto de vista militar é praticamente impossível aos países ocidentais organizar um ataque convencional capaz de submeter o Irão ( a palavra convencional não está aqui por acaso, e a palavra submeter também não ).

Mas no fundo é para uma aventura desse tipo que caminhamos. A Rússia e a China já o perceberam, e pelo menos do lado russo não têm faltado as indicações de que vão rejeitar o incremento das pressões políticas e económicas, o que encorajará os países ocidentais a aplicar sanções unilaterais e, quando estas falharem, a enveredar pela guerra.

Mas não nos queixemos. Afinal de contas, quem bem faz a cama, bem se deita nela.

Periclitante

Quando parecia que Ahmadinejad estaria condenado a uma posição relativamente passiva, eis que o tabuleiro vira por completo.

Para que se compreenda melhor esta reviravolta, convém antes de mais lembrar, que já há poucos dias atrás o parlamento recebeu uma ordem directa da suprema múmia para se deixar de coisas e aprovar o novo painel ministerial, quando tudo indicava que pelo menos cinco ministros seriam rejeitados. E o parlamento obedeceu.

Fico na dúvida sobre os desenvolvimentos de ontem, com as buscas, apreensão de documentos e prisões nas instalações de Moussavi e Karroubi. Num primeiro momento, dir-se-ia que os actos teriam sido ordenados por Ahmadinejad. Tendo vindo a ser sujeito a uma cerco crescente, seria razoável que passasse à ofensiva, forçando o campo conservador próximo de Khamenei a apoiá-lo in extremis. Não seria caso para menos, pois um retorno à normalidade institucional, com o cortejo de acções judiciais punitivas que estão em marcha, coloca em risco a sobrevivência política e económica do polvo construído pela guarda revolucionária.

No entanto, as muitas fugas de informação que desde ontem vêem sendo difundidas apontam para a Khamenei como autor das medidas repressivas em curso. Aguardemos clarificação...

Em qualquer caso, tudo conflui para uma agudização rápida da crise, com a aproximação de três eventos que poderão ter impacto maior, a saber, a alocução de Khamenei nas orações de 6ª feira, as manifestações anti-sionistas no dia de Al-Quds ( 18/9 ) e o desenlace da reunião dos grandes ayatollahs que decorre em Qom.

Na 6ª feira, Khamenei poderá apelar a uma repressão mais significativa dos reformistas, alegando que já foram tomadas as medidas necessárias para o retorno à legalidade institucional. Nesse cenário, as prisões de alto nível ontem efectuadas seriam provavelmente um prelúdio para a prisão de Khatami, Karroubi, Moussavi e, quem sabe, Rafsanjani. Um dos rumores em circulação é o de que o IRGC (a guarda revolucionária) terá enviado a Khamenei provas de que todos eles estão conluiados na preparação da deposição da suprema múmia. Se pensarmos um pouco, o rumor é um pouco ridículo, dado que a única pessoa que não trabalha neste momento para depor a suprema múmia é a dita cuja.

No dia de Al-Quds ( instituído por Khomeini, in illo tempore ), esperam-se movimentações de massas em larga escala, devidamente enquadradas politicamente. De forma pouco clara, vai-se tendo a percepção de que os reformistas estão a preparar alguma coisa significativa para esse dia. Alegam uns que a azáfama de ontem se destinou a preparar o terreno para a prisão dos líderes reformistas antes do dia 19. Alegam outros que Ahmadinejad poderá declarar um feriado nessa data, de forma a desmobilizar o maior número possível de participantes, ou simplesmente proibir as comemorações, o que teria um custo político muito elevado.

Entretanto, espera-se que a reunião do topo do clero resulte num finca-pé claro contra as investidas anti-clericais do eixo Ahmadinejad/IRGC. Talvez seja esperar demasiado, mas vale a pena notar que alegadamente a reunião deverá contar com a presença de Sistani, o que, a ser verdade, será muito significativo.

Com os eventos de ontem, parece ter tido início o jogo em campo aberto. O impasse arrastou-se sem decisão por muito tempo, e alguns terão concluído que só pode decidir-se pela força. E talvez tenham razão.

Afundistão

Karzai perdeu a cabeça, o resultado está à vista.

Tornando-se a certa altura bastante provável que fosse necessária uma segunda volta das presidenciais afegãs, generalizou-se a preocupação sobre a exequibilidade dessa segunda volta.
Karzai não terá achado conveniente perder muito tempo com o assunto, pelo que, algum tempo antes do acto eleitoral, tomou medidas de dois tipos. Por um lado, foi repescar o famigerado Dostum à Turquia, para onde o tinha exilado há uns meses atrás, tornando-o agora em aliado e prometendo-lhe um cargo à medida. Por outro lado, foi preparando a chapelada à vista de todos.

E se não é possível perceber o impacto efectivo da repescagem de Dostum, é ao contrário notável o efeito da chapelada... A comissão eleitoral recebeu milhares de queixas, e centrou a atenção em 700 dessas queixas. Não é caso para menos, pois cada uma delas corresponde a actos susceptíveis de alterar decisivamente o resultado das eleições.

Entretanto, centenas de líderes tribais do Sul reuniram-se em Cabul para denunciar a ocorrência de fraude massiva nas suas localidades de origem e exigir a demissão de Karzai e a repetição da eleição presidencial.

Perante isto, não posso deixar de considerar burlesco o anúncio feito há uns dias atrás segundo o qual o general Stanley McChrystal, comandante das tropas no terreno, vai solicitar mais 20.000 soldados para tentar inverter o avanço dos Taliban. Afinal de contas, nesta altura deveríamos orientar a força militar contra os Taliban ou contra um presidente que convida um criminoso de guerra para o governo enquanto pratica uma fraude eleitoral generalizada ? Fico confuso.

Quererá Sócrates, nosso querido líder, explicar o que se passa ?

A dupla personalidade do estado iraniano

Um pequeno update ( especial para o P.R. ) ...

A utilização dos meios do estado pelas facções em disputa no Irão está a atingir um nível bastante ruidoso.

Do lado de Ahmadinejad, chega a notícia da demissão simultânea de 40 embaixadores que não lhe prestaram o devido apoio após a eleição. Para além disso uma notícia não confirmada indica que terão sido presos dois colaboradores do filho de Rafsanjani.

Do lado da agora mega-oposição, foi anunciada a abertura de mais algumas investigações tendo como alvo seguidores de Ahmadinejad, tendo particular relevo as que se relacionam com os casos de violação e de homicídio. Há também uma notícia não confirmada, segundo a qual o director da IRIB ( agência noticiosa conotada com a guarda revolucionária), pode ser substituído por Mohsen Razaei ( conotado com Rafsanjani ).

Ao mesmo tempo que em Teerão se desenrolam estas cenas de faca e alguidar, na cena regional o governo sionista parece ter conseguido entalar os EUA numa posição cujo desenvolvimento acarretará mais problemas para o Irão.
Há uns dias atrás corria o boato de que Bibi cederia na questão dos colonatos na condição de que fosse em paralelo apertado o pescoço ao Irão. Bom, os dados parecem confirmar que Obama cedeu mesmo às exigências do regime racista de Tel-Aviv. Isso implica que, não havendo contra-medidas da China ou da Rússia, o leque de sanções vai ser agravado, provavelmente ainda este mês, com incidência nos sectores financeiro e energético.