Os três porquinhos juntaram-se um dia e vieram a público denunciar os horrendos planos nucleares do monstro iraniano. Com mapas e fotografias e sabe-se lá mais o quê.
Podemos olhar mais de perto ?
Em primeiro lugar, parece-me razoável perguntar se assiste a um qualquer país o direito de defesa.
Se sim, então será natural que o Irão, tal como acontece com outros países, se muna rapidamente de um dissuasor nuclear. Por um lado, porque a ingerência dos países ocidentais que causou o fim de Mossadegh e a ascensão do xá é algo que irá grantidamente repetir-se no futuro ( para que não haja dúvidas, os EUA, desde a queda do títere, recusaram dar ao Irão quaisquer garantias de segurança ). Por outro lado, porque o disparate da invasão e destruição do Iraque causou um desequilíbrio excessivo, que em rigor só pode ser restabelecido pela destruição do poderio militar iraniano... E os iranianos sabem disso.
Se não, então não se compreende a histeria ocidental face ao Irão, quando não suscitou qualquer reparo digno de nota a obtenção de armamento nuclear por parte de países como Israel, a Índia ou o Paquistão. Muito menos quando, como aconteceu com a Coreia do Norte, o único caso em que houve reparo digno de nota, o resultado final é a garantia de segurança para o transgressor.
Em segundo lugar, uma observação de pormenor... A descoberta de novas instalações militares subterrâneas destinadas ao processamento de urânio não é na verdade uma descoberta. Há mais de três anos que as instalações são conhecidas, como qualquer pessoa vulgaríssima que tenha observado a zona no Google Earth poderá confirmar. No caso das fotografias da instalação existente a noroeste de Qom, é de estranhar que hoje, como há uns anos atrás, se relevem os dois acessos mais fotogénicos e se esqueça que a algumas centenas de metros a mesma elevação é perfurada por nada menos de dez hangares parcialmente soterrados, qualquer um deles servindo perfeitamente como entrada de túnel para o interior da elevação. A inclusão destes hangares na fotografia tiraria talvez algum brilho à fantástica descoberta, perder-se-ia o impacto mediático da encenação e o ímpeto belicista iria por água abaixo. Uma chatice.
Em terceiro lugar, do ponto de vista legal é defensável a posição iraniana. Declarou a existência de uma nova instalação nuclear dentro dos prazos previstos.
Se sim, então será natural que o Irão, tal como acontece com outros países, se muna rapidamente de um dissuasor nuclear. Por um lado, porque a ingerência dos países ocidentais que causou o fim de Mossadegh e a ascensão do xá é algo que irá grantidamente repetir-se no futuro ( para que não haja dúvidas, os EUA, desde a queda do títere, recusaram dar ao Irão quaisquer garantias de segurança ). Por outro lado, porque o disparate da invasão e destruição do Iraque causou um desequilíbrio excessivo, que em rigor só pode ser restabelecido pela destruição do poderio militar iraniano... E os iranianos sabem disso.
Se não, então não se compreende a histeria ocidental face ao Irão, quando não suscitou qualquer reparo digno de nota a obtenção de armamento nuclear por parte de países como Israel, a Índia ou o Paquistão. Muito menos quando, como aconteceu com a Coreia do Norte, o único caso em que houve reparo digno de nota, o resultado final é a garantia de segurança para o transgressor.
Em segundo lugar, uma observação de pormenor... A descoberta de novas instalações militares subterrâneas destinadas ao processamento de urânio não é na verdade uma descoberta. Há mais de três anos que as instalações são conhecidas, como qualquer pessoa vulgaríssima que tenha observado a zona no Google Earth poderá confirmar. No caso das fotografias da instalação existente a noroeste de Qom, é de estranhar que hoje, como há uns anos atrás, se relevem os dois acessos mais fotogénicos e se esqueça que a algumas centenas de metros a mesma elevação é perfurada por nada menos de dez hangares parcialmente soterrados, qualquer um deles servindo perfeitamente como entrada de túnel para o interior da elevação. A inclusão destes hangares na fotografia tiraria talvez algum brilho à fantástica descoberta, perder-se-ia o impacto mediático da encenação e o ímpeto belicista iria por água abaixo. Uma chatice.
Em terceiro lugar, do ponto de vista legal é defensável a posição iraniana. Declarou a existência de uma nova instalação nuclear dentro dos prazos previstos.
Perante isto, não surpreende que a encenação desemboque no que realmente nos interessa, a saber, que vamos agora dar o passo seguinte, agravando as sanções destinadas a obter a submissão iraniana aos nossos interesses estratégicos. Sejam lá quais forem.
Hmm... Vamos pensar um pouco ?
Como referi num outro post, na presente conjuntura política iraniana é útil para Ahmadinejad, muito útil, a existência de crispação face a um inimigo externo.
Os problemas internos do Irão não se resumem à configuração do sistema político. A vertente económica vai tendo peso crescente e, no caso particular dos combustíveis, é de todo o interesse para o governo iraniano que rapidamente os seus congéneres ocidentais imponham um embargo, que dará a justificação para algumas medidas impopulares, que são inadiáveis com ou sem embargo. E obtido o benefício da justificação, o embargo pode sempre ser furado pela fronteira iraquiana, ou pelos amigos chineses ou russos. Como não temos infelizmente grande tino, damos de borla a Ahmadinejad uma ferramenta excelente para que consolide o seu poder.
Julgamos talvez ter o poder militar necessário para dar cumprimento às nossas ameaças neste poker de apostas crescentes. Mais uma vez, como não temos infelizmente grande tino, não percebemos que já temos na zona mais de um quarto de milhão de soldadinhos que nada fizeram de útil ao longo dos últimos sete anos, limitando-se a matar indiscriminadamente e a consumir recursos a um ritmo épico. Não percebemos que um ataque convencional ao Irão não terá qualquer benefício, e que uma invasão daquele país é simplesmente impossível, seja porque o número de soldadinhos necessários é gigantesco, seja porque, como ainda ontem frisou o governo iraquiano, o uso do território do Iraque para uma agressão ao Irão não será autorizado.
Quando jogamos poker, seria prudente que pensássemos até onde estamos dispostos a ir. De outra forma, a partir de certa altura ( como está a acontecer no Afeganistão ) arriscamo-nos a deixar de conduzir para passarmos a ser conduzidos.
O que está em jogo no Médio-Oriente é demasiado sério. Cada um de nós, cidadãos ocidentais, deveria por isso pensar bem nas responsabilidades que assume quando persiste em delegar cegamente em aventureiros a definição das políticas para aquela zona.
Hmm... Vamos pensar um pouco ?
Como referi num outro post, na presente conjuntura política iraniana é útil para Ahmadinejad, muito útil, a existência de crispação face a um inimigo externo.
Os problemas internos do Irão não se resumem à configuração do sistema político. A vertente económica vai tendo peso crescente e, no caso particular dos combustíveis, é de todo o interesse para o governo iraniano que rapidamente os seus congéneres ocidentais imponham um embargo, que dará a justificação para algumas medidas impopulares, que são inadiáveis com ou sem embargo. E obtido o benefício da justificação, o embargo pode sempre ser furado pela fronteira iraquiana, ou pelos amigos chineses ou russos. Como não temos infelizmente grande tino, damos de borla a Ahmadinejad uma ferramenta excelente para que consolide o seu poder.
Julgamos talvez ter o poder militar necessário para dar cumprimento às nossas ameaças neste poker de apostas crescentes. Mais uma vez, como não temos infelizmente grande tino, não percebemos que já temos na zona mais de um quarto de milhão de soldadinhos que nada fizeram de útil ao longo dos últimos sete anos, limitando-se a matar indiscriminadamente e a consumir recursos a um ritmo épico. Não percebemos que um ataque convencional ao Irão não terá qualquer benefício, e que uma invasão daquele país é simplesmente impossível, seja porque o número de soldadinhos necessários é gigantesco, seja porque, como ainda ontem frisou o governo iraquiano, o uso do território do Iraque para uma agressão ao Irão não será autorizado.
Quando jogamos poker, seria prudente que pensássemos até onde estamos dispostos a ir. De outra forma, a partir de certa altura ( como está a acontecer no Afeganistão ) arriscamo-nos a deixar de conduzir para passarmos a ser conduzidos.
O que está em jogo no Médio-Oriente é demasiado sério. Cada um de nós, cidadãos ocidentais, deveria por isso pensar bem nas responsabilidades que assume quando persiste em delegar cegamente em aventureiros a definição das políticas para aquela zona.


