Parece justo ...

Vão aparecendo algumas indicações sobre a rejeição pelo Irão das condições propostas pelo grupo ocidental, relativas ao enriquecimento de urânio acima dos 3,5%.

Basicamente, a proposta ocidental previa a entrega imediata do urânio já enriquecido, cujo teor seria aumentado na Rússia e posteriormente transformado pela França em barras apropriadas ao uso em reactor.

O Irão, depois de alguns dias de notória confusão entre as diversas instituições que governam o país, parece congregado em torno de uma proposta alternativa, segundo a qual a entrega das barras deve preceder a saída do urânio.
Na origem desta exigência aparentemente desconcertante, está a manifesta desconfiança do Irão relativamente à França, que já no passado faltou ao cumprimento das suas obrigações contratuais.
A isto, junto a possibilidade dessa desconfiança se estender à Rússia, dado o atraso substancial na construção e accionamento do reactor de Bushehr.

Bom, tendo em conta o historial dos distintos agentes, esta posição iraniana parece-me equilibrada.
Resta saber se será formalizada.
E em caso afirmativo, qual a resposta do grupo ocidental ... Aceitam-se apostas, mas os zunzuns diplomáticos indiciam a sua rejeição.

Plano C, precisa-se


Notei hoje duas afirmações, uma de Loureiro dos Santos num canal de televisão e uma outra de um leitor comentando no Público, que de formas distintas associavam a violência Taliban às eleições presidenciais.

Bom, é natural que qualquer movimento rebelde tente sabotar os actos eleitorais, é dos livros.
E é também natural que qualquer regime em situação semelhante à afegã tente publicitar a realização dos actos eleitorais como manifestações de coragem e de solidez do sistema.
Mas na actualidade afegã a questão é secundária. Mesmo sem violência Taliban, a segunda volta das presidenciais está à partida condenada a ser inconclusiva e pouco concorrida, em grande parte parte devido ao descrédito causado pela gigantesca fraude que constituiu a primeira volta. Uma fraude em que a ONU se envolveu até à ponta dos cabelos, infelizmente.
Claramente, mesmo sem Talibons e Talimaus a situação política afegã seria um filme desaconselhável a menores.
E aqui sim, está concentrado o grande problema afegão. Oito anos de guerra tiveram como único resultado proteger alguns quistos perniciosos que retiram governabilidade ao país. Ver Rashid Dostum e facínoras similares sendo cooptados pelo poder oficial, com apoio activo ou simples complacência de uma comunidade internacional bloqueada pela consciência da ausência de alternativas, é razão suficiente para pensar que algo continua muito mal por aquelas bandas.

Estamos na difícil situação de ter de escolher entre um regime fundamentalista imposto por um movimento ideologicamente coeso e outro regime pouco ou nada democrático imposto por uma pandilha de criminosos sob a batuta tremelicante de Karzai.
De qualquer das formas, o que será necessário explicar com alguma urgência é a extensão crescente da zona de actuação dos Taliban. Há uns meses atrás reproduzi aqui um mapa que retratava uma situação preocupante. Reproduzo hoje um novo mapa das áreas de actuação dos Taliban ( com os meus agradecimentos ao ICOS pela autorização concedida ) que faz passar a situação de preocupante a arrepiante.

Deixo ao leitor a incumbência de reflectir sobre este resultado de oito anos de guerra ( oito para nós, já que para os afegãos a tragédia se mede em décadas ).
Deixo também ao leitor a incumbência de reflectir sobre o seu grau de responsabilidade em tudo isto. Ao crer cegamente nas narrativas duvidosas que justificaram e justificam esta guerra, e ao traduzir em votos essa crença, não estará o leitor a contribuir para a manutenção do Afeganistão num estado de guerra permanente ?

Tectónica de placas

O novo século confirma uma mudança geostratégica profunda que põe termo a meio milénio de supremaia ocidental.
Ao arranque dado pelas economias da Ásia/Pacífico segue-se agora o projecto de um novo enquadramento político, semelhante ao da União Europeia, que englobe num único bloco perto de metade da população humana.
Com alguma frieza, pode dizer-se que o projecto é praticamente impossível de realizar, pois não se vê como poderão a China e a Índia facilmente desistir dos seus projectos nacionais, alicerçados entre outras coisas no tremendo peso demográfico de cada um.
No entanto, à semelhança do que aconteceu na velha Europa das nações, não havendo para a rivalidade entre os dois colossos muitas formas airosas de desenvolvimento, a integração económica e política pode estar a emergir como a saída inevitável.
Pelo menos, os trabalhos estão em marcha.

Doha debates

Dada a recomendação entusiástica de AB, acho vou passar a acompanhar os Doha debates na BBC.
Trata-se de um espaço de discussão livre, uma ave rara no mundo árabe.
Convido o leitor a petiscar também este acepipe, seja na televisão ou no site do programa.

Mano Basílio, antropólogo

Mano Basílio foi ao Alentejo profundo, e descobriu num vilarejo um fascinante grupo de cantares tradicionais.
As feições dos aldeãos sugerem a prática continuada de casamentos consanguíneos como forma de combater o despovoamento.

A golpada

Criticável, Saramago ? Em parte.

Afinal de contas, não inova na apreciação dos textos bíblicos. Qualquer indivíduo que tente ler o antigo testamento fica aterrorizado pela figura ali retratada, de um deus narcisita, caprichoso, vingativo.
Uma figura que nem os textos seguintes conseguem esbater.
Uma figura que nem as modernas divagações sobre sentidos figurados conseguem esbater.
Se alguns procuram naqueles textos religiosos uma mensagem tranquilizadora e inspiradora de nobres sentimentos, talvez devam perguntar-se se não estarão a ler o livro errado.

Por outro lado deve reconhecer-se que, voluntária ou involuntariamente, Saramago se deixou seduzir pelo sensacionalismo como ferramenta de marketing. Não foi bonito, não havia necessidade, os seus livros vendem-se como pãezinhos quentes mesmo sem golpadas.

No entanto, surpreende a restolhada que acolheu as declarações.
Afinal, tanta indignação contra um descrente e tanto silêncio quando o grande ayatollah Aníbal Ibn Silva Al-Gharbi emprestou a presidência da república, supostamente laica, à canonização do sujeito que consertou a senhora do olho frito.

Para amenizar, sugiro que depois de Saramago também o ayatollah renuncie à cidadania. Pode ser ?

Jornalismo duvidoso

O quadro pintado pela imprensa portuguesa parece não coincidir com os factos.
Com dois meses de atraso, continua a não ser possível o anúncio do resultado das eleições presidenciais afegãs. Durante a semana corriam rumores na imprensa segundo os quais o anúncio seria feito no Sábado. Teoricamente, o resultado reflectiria a decisão da comissão de fiscalização, colocando Karzai nuns generosos 47%, que forçariam uma segunda volta. Seria uma solução credível para o problema de se suspeitar que a fraude pode ter chegado a afectar um em cada três votos a favor de Karzai. E se este já era um problema sério, mais se agravou com o escândalo no interior da missão da ONU, quando o seu líder Kai Eide foi acusado pelo seu número dois, Peter Galbraith, de estar a participar activamente no encobrimento dos factos. Ora Peter Galbraith foi demitido, o que significa que a posição de Eide teve cobertura ao mais alto nível na ONU.
Os 47% propostos a Karzai representariam assim uma tentativa de dar alguma credibilidade a esta farsa, mas pelos vistos nem isso o actual presidente está disposto a aceitar, pelo que o anúncio foi mais uma vez adiado.
Perante isto, elementos próximos de Abdullah Abdullah fizeram saber que, caso seja declarado um resultado que atribua a maioria absoluta a Karzai, irão considerar inválida a eleição e recorrerão às armas para repor a justiça.
Os dados estão lançados, num contexto cada vez mais complicado, que não só envolve agora a ONU numa fraude gigantesca, mas que, pelo atraso verificado, vai tornando mais remota a possibilidade de efectuar uma segunda volta antes do Inverno, o que deixará o país num limbo dificilmente controlável.
Estamos perante um cenário pouco auspicioso, pois o avanço dos Taliban parece imparável e a indecisão do messias norte-americano está a causar um sério mau-estar entre os soldadinhos, que nem sequer é aliviado pelos sinais de abertura do mullah Omar. Sinais que parecem apontar para um acordo de princípio sobre um regresso ao poder sob compromisso de exclusão da Al-Qaeda. Al-Qaeda que, de resto, tem hoje em dia uma expressão residual no território afegão.
Seria importante que a imprensa portuguesa explorasse devidamente a abumdante informação existente sobre a realidade afegã. Prestaria um serviço aos cidadãos, um serviço tão mais apreciado quanto é certo que a muito curto prazo estes cidadãos irão ser confrontados com eventos que porão em causa tudo que lhes foi ensinado nos últimos oito anos.

The sick man of the Middle East

Israel seems shocked by the turkish slap.

And suddenly, yesterday's convenient allies become members of some ominous Axis of Evil.
Is this the official position ? It probably is, considering the expression is beeing used so often since then.

But reading Yoel Marcus on the subject is almost useless. He simply recites the old mantra about the mean, anti-semitic, holocaust denying palestinian terrorists who can't rule themselves.
Boring. At least for those who are not particularly interested, at this point, on the israelis perceptions about their own actions and the obvious outcome of those actions. Anyway, for those few israeli braves who have not yet completely lost their minds, one would suggest they should just concentrate on the settlement population growth in the last ten years in the occupied territories ( sorry, in the territories ). The numbers involved are a clear, inequivocal sign. No need for additional mantras, spare the ink.
Although a more ideologically biased author, Caroline Glick shows a somewhat wider view on a JPost article,  How Turkey was lost .

Hmm... Is the turkish shift some kind of unexpected tsunami ? It shouldn't be. For those who have been following the soap opera of the EU flirt with the sick man of Europe, the path was very clear. After being insulted for so long, Turkey would slowly turn its back on Europe, step by step.

Facing reality, it becomes difficult to criticize Turkey, as Glick probably knows. Turkey is much more important to the EU than the opposite and, unfortunately, the EU members are currently led by a lousy lot of short-sighted politicians. So goodbye Turkey, we'll meet again in a few years on different terms.

Well, the israelis seem to be the first to enjoy the dubious benefits of this divorce. The umbrella seems to be breaking...
It wouldn't be so bad hadn't Israel started its own drift towards the extreme right which is causing a growing international isolation.
But for those who have also been following the Eretz Israel soap opera, this path was also very clear, and the future seems to have arrived: a viable palestinian state is no longer possible, and one wonders how many palestinians are out there, inside the bantustans or in the near vicinity, waiting. Ten million ? And counting ?

The turkish affair is, for Israel, just a tiny part of much more important developments. And on those developments, what kind of delusional narrative will be able to provide a cover, shallow as it might be, for the need for strong measures in the near future ? How far are israelis prepared to go ? The european 20th century history should suffice to provide some clues...

Perhaps Bibi won't have the guts, but Lieberman will gladly play the role of a shiny light unto the nation of Israel. Keep going, you're on the right track.

Vitória de Pirro ?

O Haaretz publicou um alegado facsimile da proposta palestiniana de resolução a submeter ao Conselho de Direitos Humanos da UN .

Estranho o facto de numa única proposta se misturarem os eventos de Jerusalém com o relatório Goldstone.
Depois de tudo o que aconteceu à volta da posição do Quisling palestiniano, conhecido o interesse de Israel em abafar o relatório, parece pouco produtiva a inclusão deste numa proposta mais vasta que siga depois para o Conselho de Segurança, que será assim mais facilmente bloqueada pelo amigo americano.

Muito morto ou apenas pouco vivo ?

Rumores, rumores, rumores ...

Em torno de Khamenei, ontem sugeria-se que um colapso que teria forçado o seu total isolamento, hoje já se dá a múmia por definitivamente morta.

Na dúvida, vai-se discutindo a sucessão. Não fora o cisma que divide o poder político, Rafsanjani estaria na pole position. Mas tal como as coisas estão, se a velha múmia se finar de imediato o mais provável é que o IRGC tente o assalto final e suprima o cargo de supremo líder, ponto final.

Ao contrário do que alguns possam defender, o afastamento ou morte de Khamenei num prazo inferior a um ano não será necessariamente uma boa notícia. Embora possa ser discutível a dimensão do poder efectivo do eixo Ahmadinejad/IRGC, é notório que o conjunto das forças que se lhe opõem está demasiado dividido, o que dificulta os esforços actuais de retorno ao normal funcionamento das instituições e simplesmente inviabiliza qualquer processo de reforma.

Oeste selvagem

Pouco resta do colorido país profundo de outrora.
Lareiras fumarentas, galinhas debicando nas eiras, sacholadas no vizinhos, tudo se vai perdendo numa modernidade pouco dada à exteriorização dos humores.

Sai por isso enriquecida a etnografia lusitana com o tiroteio de hoje no triângulo das Bermudas que se estende até ao Marco, apesar de não ter sido essa a intenção do pistoleiro.
Discretamente contactado pelo Coproscópio, o foragido revelou que tudo não passou de um mal-entendido, pois estava convencido de que as eleições se ganhavam depositando mortos nas urnas, em vez de votos. Desfeito o equívoco, espera que não haja ressentimentos e que por altura das festas da Senhora da Graça já ninguém se lembre do assunto.

Acto II, cena 3

Se o guião tivesse sido seguido, o clero de Qom deveria por esta altura ter produzido algum ruído de fundo.
Se calhar fê-lo, mas à porta fechada. Para o público, nem um pio.
Mas talvez no seguimento do conclave, o tom geral parece ser de conciliação em torno das propostas arbitradas por Rafsanjani, cujo alegado plano de salvação nacional já vai na versão 315.
O velho tubarão está a conseguir juntar conservadores, reformistas, fiéis de Khamenei e mais alguma fauna dispersa, tendo como base, aparentemente, o retorno efectivo à normalidade institucional através de cedências mútuas.

Como é usual nestas situações, há bodes expiatórios para satisfazer a sede de sangue. Bodes com sabores distintos. Do lado do governo, Mortazavi parece ser o bode eleito, com o próprio Ahmadinejad em situação curiosa. Do lado reformista, foi lavrada sentença de morte do primeiro bode no julgamento dos sediciosos.

Mas, no jogo de sombras do poder iraniano, que significa isto ?
Pouco, creio eu.
Tenho a esperança de que esta ou outras sentenças de morte não venham a ser cumpridas, não só porque assinalariam aos reformistas que as negociações em curso não seriam sérias, mas porques lhes proporcionariam também um ou mais mártires. Da mesma forma, duvido que Mortazavi chegue a pousar o rabo no banco dos réus. É capaz de ser peso-pesado suficiente para suscitar resposta violenta do IRGC.

Quanto à sorte de Ahmadinejad, é cedo para perceber. Nas mãos do parlamento estão duas bombas atómicas prudentemente silenciadas à chegada, mas não antes de ser cuidadosamente passado para o domínio público um resumo do seu conteúdo.
Uma das bombas é o relatório da comissão de inquérito à repressão e condições de detenção dos cidadãos envolvidos nos tumultos pós-eleitorais, que confirma grande parte das acusações de abuso de poder. Daí o nervosismo de Mortazavi.
A outra bomba, esta de profundidade, é o relatório da auditoria às contas do estado sob consulado de Ahmadinejad. Se os números ventilados forem credíveis, estamos a falar de desvios de muitas ( mesmo muitas ) dezenas de milhar de milhão de dólares. À beira disto, os corruptos da nossa praça ainda nem do infantário saíram.
Mas Ahmadinejad está de momento numa posição quase intocável, graças à vitória estonteante que obteve nas negociações com o Ocidente, onde ganhou muito sem ceder nada. Deve ter aprendido com os amigos israelitas.

By the book

No Independent, Robert Fisk anunciou ao mundo a ocorrência de certo número de reuniões discretas ( ou secretas, se apreciarmos o género ) entre países produtores de petróleo e algumas das maiores potências económicas, destinadas a pôr termo à hegemonia do dólar nas transacções de produtos petrolíferos.
Em resposta, o ouro foi acometido de hipertensão arterial.

A ser verdadeira, a notícia reflecte uma tomada de decisões concretas depois de muitos meses de um nervosismo desorientado.
O aspecto mais importante desta dinâmica não é a definição de um meio alternativo, mas antes a ponderação dos efeitos que a transição irá produzir no dólar, seja para os EUA seja para os proponentes dessa transição, dada a dimensão do seu envolvimento com a moeda em declínio.

Pensamento positivo... Estamos a presenciar um momento histórico, o da transferência de privilégios e responsabilidades para a Ásia. Guardemo-lo na memória, para contarmos tudo aos nossos netinhos. Quanto ao resto, logo se há-de ver.

Bom senso em ampolas injectáveis

Crianças submetidas nas escolas a procedimentos ridículos, como se fossem robots orwellianos.
Uma  ministra sinistra que dia sim dia não vem encher o ecrã com avisos sussurrados que gelam o sangue.
Jornais sedentos de horror que buscam nas morgues o cadáver ainda fresco da primeira vítima do monstro assassino.

Está tudo doido, ou fui eu que me esqueci de tomar as gotinhas ?

Que há afinal de extraordinário nesta estirpe ?
Para mim, que pouco percebo destas coisas, o bicho não parece ter nada de notável. Não sei exactamente em que terá divergido das estirpes mais populosas, mas parece tão-só que a diferença lhe concederá por algum tempo maior capacidade de propagação. De resto, que eu saiba, a mortalidade associada não tem nada de anormal.

Que risco acrescido existe, então ? Do meu ponto de vista, só causarão mossa as situações em que seja contaminado em simultâneo um número excessivo de funcionários desta ou daquela empresas, prejudicando-lhes o funcionamento durante alguns dias.
Fora isso, não percebo. Posso até pensar que talvez seja mais prático proporcionar vias controladas de propagação, de forma a diminuir com alguma celeridade a densidade relativa das pessoas não imunizadas.
Afinal de contas, trata-se de uma estirpe bem sucedida que irá perdurar, façamos nós o que fizermos.
Em contrapartida, o acréscimo inconsiderado de desinfectantes que aspergimos em pânico sobre tudo o que nos rodeia não só não nos protege de forma eficiente contra coisa nenhuma, como acaba por reforçar a selecção artificial de estirpes resistentes de bicharocos bem mais perniciosos, num percurso idêntico ao dos antibióticos.

Traz-me algum alívio ouvir finalmente um especialista no métier insurgir-se contra a histeria. Só pergunto porque demorou tanto, e se não haverá alguém com capacidade para fornecer uma explicação clara e detalhada sobre este assunto.

Big Mona


Dentro de um mês, vai abrir um McDonald's no Louvre, um precioso encontro de culturas que já tardava.

Louvre renovado, agora com cheiro a fritos.

Clareza


Para os apreciadores de clareza e credibilidade na avaliação dos factos que nos afectam, reproduzo aqui uma peça registada no Youtube que me parece digna de alguma atenção, ao contrário das habitualmente produzidas pelos papagaios que evoaçam nos media portugueses.
Lamento ter de mais uma vez recorrer a uma fonte em língua inglesa, mas é o que há.

Culpite aguda

Há muitos, muitos anos atrás, tinha eu um softwarezito em certa farmácia hospitalar, tive a oportunidade de participar nos primeiros passos do então novíssimo regime de unidose.

Desbravou-se terreno, de forma titubeante. Tratava-se afinal de reduzir o espantoso desperdício de recursos que o sistema de distribuição anterior facilitava, e a iniciativa era digna de apreço, do maior dos apreços.
Quem tenha tido conhecimento do peso que os serviços farmacêuticos representavam então na despesa de funcionamento dos hospitais poderá avaliar melhor esse esforço.
Mas não há bela sem senão...
Um dos vários pormenores que na altura em chamaram a atenção foi o do risco que representava a perda de elementos de identificação quando alguns fármacos eram subdivididos para preparação das doses individuais, fosse por simples fraccionamento ou por mistura com excipientes.

O problema explica-se com facilidade: num certo número de casos, os fármacos são comercializados em blister, e cada unidade que se extraia de um bloco contém ainda elementos de identificação que diminuem a possibilidade de erro em etapas posteriores da distribuição. Quanto mais não seja, persiste o nome comercial do fármaco, o que é suficiente mesmo que não exista informação sobre o lote específico. Nos casos restantes, a coisa muda de figura. Com particular risco no caso dos fármacos comercializados sob forma líquida. Se o responsável pela subdivisão da unidade comercial em unidades de distribuição, num qualquer sector da farmácia hospitalar, não dispuser de meios para adicionar às subdivisões uma identificação inequívoca ou, dispondo desses meios, cometer o mais pequeno erro, estará aberto o caminho para a ocorrência de acidentes graves.

Aparentemente, terá sido isso que aconteceu .

Conhecendo o ritmo imposto pelo sistema de unidose, qualquer um perceberá que a probabilidade de erro se transforma em certeza com a maior das facilidades. Não há milagres.

Assim sendo, neste ou noutro dos muitos casos que já deverão ter ocorrido, será fácil, demasiado fácil, encontrar o funcionário responsável pelo erro de identificação e puni-lo. A ânsia de encontrar culpados ficará satisfeita, o circo terá o seu momento de glória.

Mas em vez de condenar o pessoal menor ao ostracismo ou à defenestração, parece-me que seria mais razoável pensar em coordenar com a indústria farmacêutica a definição de métodos de subdivisão de fármacos que garantam que as fracções resultantes dessas subdivisões possam viajar ao longo de toda a cadeia de distribuição sem perda de elementos de identificação. É fácil caçar bruxas. É mais difícil, mas bem mais necessário, garantir a racionalidade dos processos.

O rei mudo

O ayatollah falou e disse pouco.

Pena, porque ao diminuir os cidadãos à condição de bonecos acéfalos não só demonstra um elitismo insultuoso, próprio de um cacique do terceiro mundo, como deixa a presidência numa posição pouco digna.

Tentou o ayatollah o expediente de misturar alhos com bugalhos, relevando a questão da participação de assessores em actividades partidárias, em detrimento da questão central, a da sugestão da prática de actos ilícitos por parte do governo ou, em alternativa, de envolvimento da presidência da república numa fraude.

Saiba sua eminência que os seus assessores têm toda a legitimidade para participar em actividades partidárias. Escusa de se preocupar com isso. Escusa de nos fazer perder tempo com isso.

Saiba também sua eminência que muitos dos cidadãos que lhe pagam o salário ( e pelos vistos até o  provedor de justiça ) continuam à espera de uma explicação sobre a questão das escutas. Trata-se de uma prova de estatura. Ou sua eminência a tem, ou não a tem. Em que ficamos ?