O morto

Percebe-se a decisão.

Com 51 anos, especializado numa área sem alternativas profissionais, ao professor caberia aguentar mais catorze anos de provação sem qualquer apoio institucional, sabendo que essa provação seria mais impiedosa à medida que o avanço da idade o fosse debilitando.
Encurralado como um rato, a decisão foi correcta.

Segue-se um inquérito ou dois, vem um patetinha de carreira à televisão sussurrar conveniências e amenidades, apela-se à tranquilidade por amor às criancinhas, a poeira assenta e tudo fica na mesma.

Esquecemos esta culpa imensa de uma sociedade que, egoísta ao ponto de se ter tornado incapaz de cuidar dos seus filhos, os despeja como lixo nas escolas, esperando que alguém os aguente até que por milagre ou decreto se tornem adultos.
Esquecemos esta traição ao corpo de docentes, cuja missão sagrada de transmissão do conhecimento se vai perdendo, transformada numa degradante luta diária pela dignidade.
Matámos este homem. Um aborrecimento, mas felizmente demasiado distante para que tomemos consciência deste acto.

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