ISO 1974

Acordei com um estrondo.

Sei que não é bonito começar o dia rogando pragas, mas interromperam-me um sonho interessantíssimo, por sinal o último episódio de uma série espectacular...

Lá acabei por perceber a razão do estrondo. Tratou-se de um foguete. Pum. E para o caso de não ter percebido, os autores da proeza decidiram dar mais algumas dicas. É assim que há mais de uma hora ziguezagueia por aqui uma banda saída dos infernos, com bombos cruéis que repetem até à exaustão o estrondo original, enquanto um friso de moçoilas viçosas abanica as pernocas gordas e uns duendes inchados sopram cornetas estridentes, aterrorizando tudo quanto é cão, passarito ou insecto, até mesmo um ou outro vegetal.
Ocorreu-me pegar no carro e passá-los a ferro, mas mudei de idéias quando vi que se faziam acompanhar de escolta policial armada.

Creio que se trata das comemorações da revolução ISO 1974, mas fico curioso, que revolução é essa que se faz acompanhar de escolta policial ? Pergunto-me o que na verdade comemorará esta gente... A vitória póstuma de Caetano ?

Revoluções não se comemoram, fazem-se. São como trovoada refrescante, manifestação épica de vitalidade. E quem, no seu perfeito juízo, comemoraria uma qualquer trovoada, espetando medalhs no peito de relâmpagos há muito apagados ?
Revoluções não se comemoram, podemos lembrar-nos ocasionalmente do ribombar deste ou daquele sonhos mais fortes, mas são apenas memórias de coisas há muito desaparecidas. Não se comemoram, anseia-se pela sua volta para que nelas voltemos a mergulhar com a insanidade da alegria, o deboche da criação, o urro da esperança.
O resto é treta.

Nothing personal, just business

I have a business proposal for you, Mr. Dershowitz.

Let's deal with the money issues first. For your professional services, each palestinian will pay you one dollar and so will each pro-palestinian activist in the planet, if you succeed. Otherwise, sorry but you won't see a dime. Of course, in the end you're entitled to decline the payment and redirect it to charity, if you deem appropriate.

The task won't be easy, I'm affraid. It will be your responsability to manage the negotiations with Israel, on behalf of the palestinian people. You're expected to, as a bright professional, do your best to defend your constituents rights. It will be a demanding task, but I'm sure you'll give your israeli opponents a hell of a fight. From the Balfour abusive declaration to today's apartheid regime, you'll easily find abundant material as proof of persistent denial of your constituents self-determination rights.

Before handing you the task, however, I'm affraid I'll have to ask you to publicly describe the strategy you intend to follow to achieve the final goal, which is the establishment of an independent and viable palestinian state, side-by-side with Israel. No, no, sorry but a simple diagram drawn in the sand won't do. Unfortunately, many of the co-sponsors of this project unfairly doubt your capability. So, they demand a full description of a credible strategy before investing their precious dollar.

You could begin by the moral values at stake. An easy introduction which will certainly stimulate your reasoning before you get to the tough issues. And you know those tough issues... Settlements, water, territorial contiguity and the fine details of border definition, Jerusalem, the refugees ( don't forget to take into account that we're talking about a total figure of roughly 8 million persons, 4 million in the ghettos and 4 more in the neighbouring countries ) ...
Oh, and don't forget to include a paragraph or two on the security guarantees you believe Israel should provide. We don't want the new country to be invaded every six months, do we ?

Do you feel up to the task, Mr. Dershowitz ?

Clarificação

Parece passada a fase da conspiração.
Está aberto o espaço para, a pretexto desta crise violenta, os católicos abrirem então uma discussão franca sobre tudo e mais alguma coisa.
Interesseira ou desatenta, a igreja católica tem vivido num mundo de fantasia que apenas a distrai. E o que o cardeal Policarpo sugere, se bem entendo, é que se reorganizem as hostes para que no fim se perceba o que efectivamente sobrou da Europa católica e se assuma com humildade prática o lugar que daí resulte. Não porque uma muito provável retracção signifique uma derrota. Significará apenas o fim de um ciclo demasiado extenso, em que parte substancial da influência da igreja católica adveio do facto de se ter encavalitado com sucesso em muitos dos poderes terrenos. Uma teia bem construída, que lhe proporcionou inúmeros benefícios mas que pode causar-lhe uma morte penosa à medida que a cada nova crise essa existência de favor se torna mais difícil e que, onde julgava ver fiéis, vai percebendo que há afinal adversários.
O processo será decerto rápido, porque já foi desperdiçado tempo, mas espero que a igreja católica não ceda à tentação dum simples aggiornamento. Na verdade será necessário que vá mais longe, pois se podemos ir prescindindo dos deuses, não podemos prescindir da ética e talvez esteja aí o novo lugar dos católicos, com muito ou pouco clero, com muitos ou poucos fiéis. Uma voz que não sendo necessariamente seguida possa pelo menos ser firme quando se fizer ouvir.

Fumo negro

Quando a derrocada teve início, nos EUA, achei piada.
Quando passou para a Europa, fui lentamente engolindo o riso, à medida que o assunto se foi firmando como um patético circo niilista. Não me interprete mal o leitor... O meu desprezo pelas religiões permanece universal e profundo. Mas reconheço que muitos terão genuína dificuldade em viver sem elas, de tão esfomeados que estão de um propósito franchisado.
E perante esta revoada de acusações saídas de todos os lados e de todos os tempos, pouco adianta agora tentar perceber se Ratazaninger é cúmplice ou justiceiro, a populaça já lhe roubou o processo das mãos e quer sangue. E, coisa que talvez não seja estranha, no meio dessa populaça agitam-se muitos crentes desiludidos.

Não sei quantos serão os seguidores desta corrente religiosa na Europa, mas admito que sejam muito numerosos ( a maior parte sê-lo-à por inércia, mas mesmo assim... ).
E quando penso no dano que isto pode causar, não ao clero mas às vidas até aqui bem ancoradas de toda essa gente, fico deprimido.

No fim do circo, quantos olharão as portas da sua igreja como portas de acolhimento ?

Holger Czukay

Obrigado ao Público pela menção deste músico. Do mais nauseabundo electro-pimba ao mais sublime experimentalismo, o homem esteve em todas.



Verão quente iraquiano

Não, leitor, não resmungue, não estou desatento do Iraque.

Mas atingiu-se ali um momento de pausa constrangida, potencialmente histórica. Lembrar-se-ão alguns de há uns anos ter sugerido que o grande confronto entre os distintos sectores iraquianos só poderia ocorrer finda a ocupação. Pois creio que se aproxima esse momento, quando os soldadinhos imperiais finalmente se preparam para ir abater pessoas noutras paragens ( não muito distantes, quem sabe ).
E o momento apanha três figurinhas sobrenadantes... Alawi, Maliki e o anafadinho Sadr. O resto é paisagem, mas tudo bem, pois a base de apio destes três actores reflecte uma configuração sociológica quase estável, embora com certo distanciamento dos curdos. Em jeito grosseiro, Maliki e Sadr aparecem como representantes dos xiitas, Alawi como representante dos sunitas e de um caldo confuso de cidadãos laicos.
Uma arrumação com o seu quê de surpreendente, já que Maliki vinha apertando passo a passo as rédeas do poder e parecia ter há uns anos mandado Sadr de volta para o infantário. Triste sina. Maliki, com todas as batotas que fez e as que fará ainda, não conseguiu senão o segundo lugar.
Depois, Allawi, que saíu da penumbra e saltou para o primeiro lugar, congregando os apoios sunitas e, pasme-se, o de muitos xiitas finalmente cansados do canto de sereia religioso.
Por último, o anafadinho Sadr. Depois de atacado sem dó nem piedade pela velha guarda do SCIRI/ISCI, aproximou-se dele para melhor o cilindrar, ficando com a parte de leão dos lugares da coligação e tornado-se automaticamente no ponto focal do sistema político, já que, com apenas dois lugares de diferença entre Alawi e Maliki, acaba por ser Sadr a decidir quem vai governar o país.

Mas antes disso, há um problema delicado a resolver, que é o de decidir quem vai ser convidado a formar governo... Teoricamente, Alawi tem a primazia. Na prática, Maliki entretem-se agora a tentar emitir mandatos de captura sobre os eleitos do seu adversário, e não pára de dizer que o que conta é o número de eleitos que consigam sentar-se no parlamento. A ser assim, bastar-lhe-ia engavetar três dos eleitos de Alawi para garantir o direito de formar governo.

Mas mesmo que o truque funcionasse, só poderia traduzir-se em algo de útil caso Sadr lhe concedesse posteriormente o apoio necessário no parlamento. Por razões de todos conhecidas, é razoável supor que Sadr só apoiará Maliki para melhor o esquartejar, de preferência depois de o mandar enforcar, empalar e cremar. Não quero com isto dizer que Sadr ponha de lado um acordo de viabilização, é suficientemente cínico para usar a situação como melhor lhe convier, se possível fazendo de conta que a idéia não é sua. Talvez por isso tenha decidido organizar um referendo informal para saber quem é que os iraquianos achavam mais apto como primeiro-ministro, mas a artistada falhou, porque nesse referendo Maliki e Alawi nem para chefes de banda conseguiram votos, o que deixa nos ombros de Sadr toda a responsabilidade pela escolha. Azar.

Que se vai seguir ? Bom, até Agosto a coisa tem de estar resolvida, e parece consensual que se Maliki persistir em bloquear as instituições com truques de secretaria o assunto poderá ter de ser resolvido através da guerra civil. Resta assim acreditar que o novo tutor do país, o Irão, preferirá garantir para já a estabilidade no interior do Iraque, algo que poderá mais tarde ser facilmente invertido, caso as circunstâncias venham a aconselhá-lo. E se as contas não me falham, esse cenário poderá colocar-se em meados de 2011, caso o processo de independência palestiniano avance com apoio norte-americano. Tit for tat.

On the killing of Reuters employees

For those interested, there's a Scribd upload of a document announced as the internal investigation report.
Interesting that some are now turning to the van as evidence of a war crime.

Só quando elas mordem ?

O comportamento equívoco dos media face aos desmandos das forças que por algum motivo lhes pareçam próximas não merece grande aplauso.

E se há teatro de guerra em que isso é bem notório é o do Iraque, onde sistematicamente os media silenciaram os aspectos mais negros, refugiando-se no eufemismo dos critérios editoriais.
Aos leitores não foi oferecida a experiência das imagens dos cadáveres transformados em almôndegas pelos rastos dos blindados, do concurso de tiro sobre um sujeito ferido ( com aplauso para o primeiro a acertar ), da carrinha de uma das empresas de mercenários que, de porta a traseira aberta, percorria a auto-estrada despejando rajadas de metralhadora sobre os condutores que se apresentassem na linha de mira, das inúmeras profanações de cadáveres, das armas marcadas com símbolos religiosos pelo fabricante, entre muitas, muitas outras façanhas.

Pelos vistos, só quando os alvos são funcionários dos media ( e neste conflito em particular deve dizer-se que a Reuters teve a sua dose ) é que valem o esforço de alguma insistência na quebra das restrições militares. No caso agora relatado, nem se percebe muito bem a indignação. Trata-se de um grupo em que alguns indivíduos estão claramente armados, e nesse contexto não espanta que o material que os jornalistas trazem a tiracolo acabe por passar também por armamento. A sequência é semelhante a muitas outras, em que uma força avalia a situação durante algum tempo, relata-a em seguida aos superiores e abre fogo depois de autorização clara nesse sentido.
Neste caso, ao contrário de outros, tratou-se claramente de um erro de avaliação que, objectivamente, só acabou por ser desfeito quando se percebeu que havia duas crianças entre as vítimas.

Aprecio o trabalho da Reuters e de outras agências cujos repórteres pagam por vezes com a vida o nosso direito à informação.
Mas apreciaria muito mais que a informação referente a situações bem mais graves que esta tivesse tido o relevo adequado.

O padre canta-missas

Pode parecer estranho que um padre jogue a cartada do anti-semitismo, mas no decurso das suas deambulações intelectuais o padre canta-missas terá achado que se a coisa tem funcionado bem para os boers sionistas poderia também funcionar para o clube católico. Pelos vistos, não.

Para quem assiste à distância, isto vai-se tornando patético. Quase apetece sugerir que mudem a designação social para Igreja da Sagrada Deflecção, depois das inúmeras tentativas de atirar a culpa para cima dos outros, sejam eles os maçons, os protestantes, o New Your Times, os ateus, o Elvis ou essa entidade misteriosa e omnipresente que dá pelo nome de 'Eles'.

Importa esclarecer, para benefício dos crentes europeus mais tetanizados pelo cenário fantasioso em que gostam de viver, que esta história já se desenrola há anos de forma bem visível na Irlanda e nos EUA, pelo que não se percebe muito bem o porquê da surpresa virginal que tomou os crentes agora que o assunto aparece exposto à luz do dia na Europa.

E o que está em causa, afinal ?

No fundo, uma máquina dotada de um poder imenso, que não se coíbe de pregar normas aos crentes e aos não-crentes, foi apanhada pela transformação dos costumes sem ter a flexibilidade para reagir atempadamente. Durante séculos e séculos, os abusos agora denunciados foram socialmente tolerados, suscitando apenas leve reprovação. Não custa por isso perceber que o clero se tenha habituado a resolver os eventuais incómodos pela simples ocultação.
Mas a sociedade ocidental mudou muito nas últimas três ou quatro décadas, e comportamentos anteriormente tidos como mero sinal de alguma fraqueza passaram a ser considerados crimes, à medida que a atenção se concentrou nas vítimas desses comportamentos.

E sem que se desse por isso, a ocultação conveniente transformou-se em cumplicidade no crime. Talvez o clero católico não tenha percebido em devido tempo que tinha de fazer algo, rápida e decididamente. Ou talvez tenha percebido a dimensão da tarefa que tinha pela frente. Certo é que o problema já vinha sendo tratado com atenção crescente, como parece indiciar a actividade passada do cardeal Ratazaninger.
Mas foi pouco, tardio e lento. E quando o dominó começou a cair, o clero acabou por ser apanhado de calças na mão.

Soluções ? Desde logo, o clero deveria deixar-se de pieguices. Tem uma tremenda responsabilidade moral em todo o planeta, uma responsabilidade que constantemente apregoa, não pode agora dar-se ao luxo do relativismo. Tem de cooperar activamente no levantamento dos abusos e, como dizia ontem frei Jerónimo, simplesmente remover os culpados das actividades sacerdotais, ponto final.

Será o bastante ? Bom, seria justo que às vítimas fosse em todas as circunstâncias facilitado o recurso à via judicial, para que possam fazer valer os seus direitos se assim o desejarem.
E depois disso, talvez seja interessante o clero virar-se para os seus processos de formação... Os comportamentos predatórios não caem do céu, e se a regra do celibato pode nalguns casos explicar alguns desses comportamentos, outros haverá que talvez tenham origem no estranho modo de vida que envolve a preparação dos clérigos. Muito antes de se colocarem a si próprios a questão do celibato.

Viúvas negras

Lembro-me bem de uma sujeita, provavelmente diplomata, afirmando perante as câmaras de televisão portuguesas que a Checheno-Ingúchia estava tranquila e nunca se separaria da Rússia.
Um ou dois dias depois, Dudayev declarava a secessão.

Recomeçou então o inferno nesta região de charneira, repetidamente violentada ao longo da história e sujeita à ocupação russa desde há dois séculos, uma ocupação particularmente brutal cujo episódio mais grave seria o da deportação massiva da população às ordens de Estaline.
O que se seguiu à secessão foram anos de violência crescente, um período que culminaria com a deposição do presidente eleito Aslan Mashkadov, três anos depois de Dudayev ter levado com um míssil russo entre as orelhas.
Dir-se-ia que com a queda de de Mashkadov e a posterior ascensão e solidificação do poder do pró-russo Kadyrov, a Europa podia fazer de conta que nada se tinha passado, que a Chechénia era um problema interno russo que não suscitaria reparos desde que se mantivesse longe das câmaras.
Os cidadãos europeus apreciam estas soluções.

Mas os incómodos mantiveram-se, primeiro com o assassinato de Kadyrov, que a Rússia rapidamente substituiria pelo seu filho Ramzan, líder de uma milícia pouco recomendável. Tão rapidamente que o rapaz teve de aguardar uns anitos até atingir a idade legalmente admissível para ocupar a presidência. Depois, com episódios como o teatro de Moscovo, Beslan, ou os assassínios de Mashkadov e Politkovskaya, numa altura em que tentavam acordar com o Conselho da Europa uma solução política.
E agora, com os atentados na Rússia e no Daguestão.
Podem os cidadãos europeus persistir no seu sono tranquilo ?
Talvez seja difícil... Se os atentados em Moscovo demonstram ( a quem não acompanhe o que se vai passando na Chechénia ) que a guerrilha chechena está viva, os do Daguestão, tal como já acontecera em Beslan, são a ponta do véu de um um cenário que se vem montando de há meia dúzia de anos para cá, o do lento alastramento da instabilidade ao conjunto das repúblicas do norte do Cáucaso.
A este alastramento, irá a Rússia certamente responder com um novo banho de sangue, pois Putin não pode arriscar apresentar-se às próximas eleições com um fracasso entre mãos, anos depois de ter garantido que o problema estava resolvido.
Mas não se apoquente o senhor Putin, pois do lado russo está bem alicerçado no racismo, e do lado europeu, passada a primeira comoção, pode contar com o silêncio habitual dos cidadãos.

Se o leitor nunca se tiver preocupado em tentar obter documentação sobre o que se tem efectivamente passado naquela zona nos últimos vinte anos, escusa de o fazer. Essa documentação existe, mas a sua observação resulta dolorosa, talvez demasiado dolorosa.
Permita-me que lhe sugira antes uma versão um pouco mais leve. Trata-se de uma reportagem algo extensa e já antiga ( produzida na altura do assassinato de Kadyrov ), legendada em inglês, que o irá ajudar a perceber porque existem mulheres jovens a quem chamam viúvas negras, e porque estão decididas a despedaçar-se levando consigo o maior número possível de vítimas que gostaríamos de poder catalogar como inocentes.