Clarificação

Parece passada a fase da conspiração.
Está aberto o espaço para, a pretexto desta crise violenta, os católicos abrirem então uma discussão franca sobre tudo e mais alguma coisa.
Interesseira ou desatenta, a igreja católica tem vivido num mundo de fantasia que apenas a distrai. E o que o cardeal Policarpo sugere, se bem entendo, é que se reorganizem as hostes para que no fim se perceba o que efectivamente sobrou da Europa católica e se assuma com humildade prática o lugar que daí resulte. Não porque uma muito provável retracção signifique uma derrota. Significará apenas o fim de um ciclo demasiado extenso, em que parte substancial da influência da igreja católica adveio do facto de se ter encavalitado com sucesso em muitos dos poderes terrenos. Uma teia bem construída, que lhe proporcionou inúmeros benefícios mas que pode causar-lhe uma morte penosa à medida que a cada nova crise essa existência de favor se torna mais difícil e que, onde julgava ver fiéis, vai percebendo que há afinal adversários.
O processo será decerto rápido, porque já foi desperdiçado tempo, mas espero que a igreja católica não ceda à tentação dum simples aggiornamento. Na verdade será necessário que vá mais longe, pois se podemos ir prescindindo dos deuses, não podemos prescindir da ética e talvez esteja aí o novo lugar dos católicos, com muito ou pouco clero, com muitos ou poucos fiéis. Uma voz que não sendo necessariamente seguida possa pelo menos ser firme quando se fizer ouvir.

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