O padre canta-missas

Pode parecer estranho que um padre jogue a cartada do anti-semitismo, mas no decurso das suas deambulações intelectuais o padre canta-missas terá achado que se a coisa tem funcionado bem para os boers sionistas poderia também funcionar para o clube católico. Pelos vistos, não.

Para quem assiste à distância, isto vai-se tornando patético. Quase apetece sugerir que mudem a designação social para Igreja da Sagrada Deflecção, depois das inúmeras tentativas de atirar a culpa para cima dos outros, sejam eles os maçons, os protestantes, o New Your Times, os ateus, o Elvis ou essa entidade misteriosa e omnipresente que dá pelo nome de 'Eles'.

Importa esclarecer, para benefício dos crentes europeus mais tetanizados pelo cenário fantasioso em que gostam de viver, que esta história já se desenrola há anos de forma bem visível na Irlanda e nos EUA, pelo que não se percebe muito bem o porquê da surpresa virginal que tomou os crentes agora que o assunto aparece exposto à luz do dia na Europa.

E o que está em causa, afinal ?

No fundo, uma máquina dotada de um poder imenso, que não se coíbe de pregar normas aos crentes e aos não-crentes, foi apanhada pela transformação dos costumes sem ter a flexibilidade para reagir atempadamente. Durante séculos e séculos, os abusos agora denunciados foram socialmente tolerados, suscitando apenas leve reprovação. Não custa por isso perceber que o clero se tenha habituado a resolver os eventuais incómodos pela simples ocultação.
Mas a sociedade ocidental mudou muito nas últimas três ou quatro décadas, e comportamentos anteriormente tidos como mero sinal de alguma fraqueza passaram a ser considerados crimes, à medida que a atenção se concentrou nas vítimas desses comportamentos.

E sem que se desse por isso, a ocultação conveniente transformou-se em cumplicidade no crime. Talvez o clero católico não tenha percebido em devido tempo que tinha de fazer algo, rápida e decididamente. Ou talvez tenha percebido a dimensão da tarefa que tinha pela frente. Certo é que o problema já vinha sendo tratado com atenção crescente, como parece indiciar a actividade passada do cardeal Ratazaninger.
Mas foi pouco, tardio e lento. E quando o dominó começou a cair, o clero acabou por ser apanhado de calças na mão.

Soluções ? Desde logo, o clero deveria deixar-se de pieguices. Tem uma tremenda responsabilidade moral em todo o planeta, uma responsabilidade que constantemente apregoa, não pode agora dar-se ao luxo do relativismo. Tem de cooperar activamente no levantamento dos abusos e, como dizia ontem frei Jerónimo, simplesmente remover os culpados das actividades sacerdotais, ponto final.

Será o bastante ? Bom, seria justo que às vítimas fosse em todas as circunstâncias facilitado o recurso à via judicial, para que possam fazer valer os seus direitos se assim o desejarem.
E depois disso, talvez seja interessante o clero virar-se para os seus processos de formação... Os comportamentos predatórios não caem do céu, e se a regra do celibato pode nalguns casos explicar alguns desses comportamentos, outros haverá que talvez tenham origem no estranho modo de vida que envolve a preparação dos clérigos. Muito antes de se colocarem a si próprios a questão do celibato.

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