E agora, Messias ?

Uma semana rica em acontecimentos de grande qualidade.
Destaco neste post o coelho que a Turquia e o Brasil tiraram da cartola. Depois de uma negociação relativamente curta, conseguiram o muito desejado acordo do Irão para o enriquecimento final do seu urânio no exterior, na quantidade pretendida.

E aqui começa a balbúrdia... Afinal de contas, a quantidade pretendida sê-lo-ia há um ano atrás mas hoje pode ser considerada modesta, dado que o Irão não parou o seu processo de enriquecimento ao longo de todo este tempo.

Bom, vejamos as coisas pelo lado positivo, tanto a Turquia como o Brasil confirmaram a sua vontade de assumir na cena internacional o papel de relevo que merecem, mesmo que neste caso em concreto acabem por ser pouco mais que idiotas úteis.
E já que falamos de idiotas, úteis ou não, não podemos esquecer-nos do colosso norte-americano, cuja administração veio de imediato vangloriar-se de ter finalmente conseguido apoios para o esboço de um novo lote de sanções contra o iraniano mau, ignorando assim por completo o acordo dos tirocinantes.

E esta postura teve dois efeitos que apenas contribuem para descompor ainda mais o ramalhete... Por um lado, descredibilizou a propalada abertura dos EUA aos processos negociais, por outro apareceu como um puxão de orelhas aos dois tirocinantes que tiveram a ousadia de se armar em gente crescida, em particular o Brasil, cuja vontade de liderança não se ficou pela América Latina.
Esta rapaziada nova é um problema, terá pensado o Messias, vamos arrepiar caminho antes que seja tarde.
Só que já é tarde, a posição norte-americana está cada vez mais enfraquecida, como o demonstram as sucessivas cedências quanto ao raminho de sanções. Ou as contrapartidas correspondentes... Não ficou bem a notícia de que foram retiradas da lista negra empresas russas relacionadas com fornecimentos de índole militar ao Irão.

A administração norte-americana parece não ter noção clara do brilhantismo iraniano no jogo diplomático, e isso começa a tornar-se realmente perigoso. Esgotados os bluffs, os EUA estão a colocar-se na posição pouco invejável de ter de avançar unilateralmente para um conflito armado cujos objectivos não conseguem sequer definir.

Antes de quaisquer outras asneiras, portanto, seria interessante reflectir sobre dois aspectos muito importantes nesta década histórica...
O primeiro é a perda definitiva por parte do Ocidente da sua capacidade de influir unilateralmente sobre os assuntos internacionais através de ferramentas económicas e alianças políticas, o que lhe deixa disponível, tão-só, a capacidade militar. O segundo, o da avaliação da real capacidade militar convencional, tendo em conta que os factos têm vindo a demonstrar a existência de limites muito mais estritos do que se julgava. À manutenção do que resta da ordem imperial pode a breve trecho restar apenas o nuclear.
E entretanto, por aqui, a velha Europa vai-se alheando de tudo isto. Desgrenhada, corre pela casa atrás da filharada malcriada, incapaz de ter mão num lar que se vai desmanchando.

Everybody Draw Mohammed Day

Há quase um mês atrás, tive conhecimento de algo que me alarmou. Na sequência da inclusão de menções pouco abonatórias de Maomé no programa South Park os seus autores, bem como toda a produção, receberam ameaças públicas de morte de um grupo islâmico a partir de um site onde se incluíam dados sobre a localização da empresa.

Perante isto, uma cartoonista de Seattle, Molly Norris, lançou um apelo à apresentação colectiva de representações de Maomé em 20 de Maio, em defesa clara da liberdade de expressão.

Como ateu, não distingo particularmente o Islão das outras religiões. Talvez por isso ao longo dos anos não tenha reconhecido legitimidade à islamofobia que se instalou no Ocidente, pois não tenho conhecimento de que o rol de crimes imputáveis ao Islão seja superior ao de outras religiões. Mas o facto de não embarcar na islamofobia da moda não implica que me transforme num compagnon de route de uma qualquer tendência no interior do Islão, mesmo que maioritária.

Ora, tal como já tinha acontecido na Europa, a tentativa de intimidação da equipa do South Park colocou em cima da mesa o direito à liberdade de expressão, que é um dos poucos valores que considero indiscutivelmente defensáveis no legado cultural desta civilização ocidental que me formou.
Assim sendo, não poderia deixar de responder ao apelo de Molly Norris. Se não respondesse, cederia pelo silêncio à coacção. Deixo portanto aqui a minha representação de Maomé. E deixo também aos seus seguidores um apelo para que, de forma absolutamente inequívoca, sem subterfúgios, se pronunciem sobre o valor que realmente atribuem à liberdade de expressão.

Tal Afar. Outra vez.

O Iraque parece mergulhar em novo ciclo de morte, agora que as tropas imperiais se retiram e os vazios vão sendo finalmente preenchidos.
O dia de hoje foi severo... A violência política causou mais 150 mortos e 600 feridos, um prenúncio do que está para vir.
Ao ler a lista das localidades afectadas pelos incidentes, chamou-me a atenção um nome, o de Tal Afar.
E recordei-me: há cinco anos atrás, esta criança perdeu ali os pais, literalmente despedaçados por rajadas de metralhadora das tropas de ocupação, no meio da violência em que o Iraque estava então mergulhado.
Não sei, mas imagino, que os eventos de hoje tenham lhe suscitado novas perguntas, agora que é adolescente. E tal como há cinco anos atrás, não saberá a quem deve colocar essas perguntas.
Com uma displicência notável, colaborámos na destruição do Iraque, sem por um momento pararmos para pensar que a guerra nada produz senão isto. Talvez valha a pena, neste país alegadamente cristão, reflectir e decidir sobre quem, dentre nós, irá responder a esta e a todas as outras crianças, adultos e velhos, cujas vidas nos pareceram e parecem ter um preço muito baixo.