A montanha pariu um átomo ?

Primeiro, foi o entusiasmo. Depois interesse contido. Por fim, um misto de encanto e desencanto, e tudo por causa de um átomo. Eu explico...
O primeiro anúncio da NASA era críptico, não se percebia se poderiam estar ou não a falar de sinais indirectos de vida num outro ponto do sistema solar, provavelmente num satélite de Saturno. Como o cenário é geralmente tido como minimamente aceitável, deixei-me empolgar. No meio da especulação, apareceram logo de seguida sugestões sobre possíveis traços de actividade metabólica invulgar, aqui mesmo no nosso planeta. Passei ao modo de contenção, uma vez que essa sugestão não seria nova e certamente que tudo se iria mais uma vez reduzir a uma interminável discussão sobre caganitas de três mícrons que afinal podem ser concreções normalíssimas da silva.
Para acabar com o mistério, assisti a uma parte da conferência, para ser confrontado com algo que não é propriamente um ovo de Colombo mas que é ao mesmo tempo um ovo de Colombo...
Antes de mais, um apontamento. Tudo isto pouco ou nada teve a ver com homenzinhos verdes, mas uma vez que é a NASA a pagar a factura da investigação, talvez tenha achado apropriada a encenação para garantir que a torneira dos financiamentos se mantém aberta. Há que fazer pela vida, é certo, mas o tiro de canhão saíu pela culatra, obrigando a NASA a pedir desculpa pela expectativa excessiva que criou.
Passemos ao resto, então... Por um lado, fico feliz por ver mais uma fronteira desmantelada, a da estanqueicidade química das estruturas fundamentais do nosso ramo da árvore da vida, que se junta às ruínas de coisas de maior complexidade, como as espécies. Mais umas noites de insónia para os teólogos, o que é sempre bom. Por outro lado, esperaria que para além de um mísero átomo de arsénio nos fosse revelada uma estrutura alternativa ao DNA. Plonc. Desilusão.
Mas ainda assim... Que delícias nos esperam, sabendo agora que a margem de tolerância é bem maior do que pensávamos, e que afinal mesmo algumas moléculas de perfil rebuscado podem ser codificadas com tranquilidade por um DNA manco ?
Não obtivemos nenhuma resposta, obtivemos antes novas perguntas.
O que, feitas as contas, é bem mais divertido.

Batman e Robin amuam

Na relação quase edipiana entre o ex-presidente Putin e o filho de Putin que de momento assegura a presidência, Medvedev, há também espaço para momentos de aconchego.
Juntinhos, rebelam-se agora contra a etiqueta de Batman e Robin que os diplomatas americanos lhes pespegaram. Que bem lhes fica o amuo...

Wikiloucos

Um frenesim. Amazon, EveryDNS, agora a PayPal ...

Não havia necessidade, o melhor está ainda para aparecer. Até aqui, nada de novo veio a público, trata-se acima de tudo de corroboração oficial de informação já veiculada pelos media de segunda linha.
E sendo informação oficial, já não podem os media da primeira linha continuar a fugir à sua divulgação, por muito que lhes custe... Perante este drama, as chancelarias entram em pânico e, como é óbvio, de imediato descascam o fino verniz de civilidade com que habitualmente se apresentam, pegam num cacete e passam ao plano B, o da repressão directa e indirecta.

Coisa curiosa, a argumentação em defesa da censura, que começou pelo grave perigo de estarem a ser colocadas vidas em risco... Dados os cuidados da equipa do Wikileaks, é pouco provável que isso venha a acontecer, mas logo aqui vale a pena perguntar onde estava esta gente tão apoquentada, por exemplo aquando das convulsões políticas iranianas. Não é difícil responder, estavam na linha da frente da divulgação e amplificação de toda a informação que saísse do Irão, sem qualquer cuidado na sua verificação e muito menos na garantia da segurança de quem a disponibilizava, uma incúria que custou vidas.

Posto isto, qual é afinal o valor real de toda a informação que agora está a ser revelada ? Bom, ela é essencialmente política e revela não só uma parte substancial da animalidade que preside às relações entre estados como alguns amores ilícitos nas camas do poder.

Quanto aos amores ilícitos percebe-se o reboliço, os cidadãos podem por vezes irritar-se quando encontram os seus representantes gemendo apaixonadamente nos braços do poder económico. Mas a irritação dura pouco, geralmente, e logo os cidadãos amansam e aceitam de bom grado a reposição da canga. Temos em Portugal abundância de exemplos desse fenómeno.

Quanto à animalidade, percebe-se que ocorra em regimes despóticos. Não se percebe no entanto em regimes democráticos, supostamente alicerçados numa superioridade moral fartamente apregoada. E aí convém perguntar se os poderes que agora se movem em defesa dos segredos da realpolitik estão isolados ou se, na verdade, ao tentar reprimir a publicação, não reflectem afinal a anuência do cidadão comum quanto à ocultação dos pormenores mais sórdidos da defesa do interesse nacional, da qual é beneficiário. Os estados-nação são pródigos nestas aberrações, talvez a questão seja pertinente.

Seja como for, joga-se aqui mais uma fatia da liberdade de informação. E para os vários poderes, o cenário é simples de entender e gerir... Assuste-se o pobre cidadão com os horrores da imprevisibilidade de uma informação livre, e logo ele aquiescerá à imposição de novas medidas censórias, sem por um momento pensar nas consequências de longo prazo. Desde que isto seja feito por etapas, funciona sempre. Passo a passo, também a Internet vai sendo domesticada.