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Não havia necessidade, o melhor está ainda para aparecer. Até aqui, nada de novo veio a público, trata-se acima de tudo de corroboração oficial de informação já veiculada pelos media de segunda linha.
E sendo informação oficial, já não podem os media da primeira linha continuar a fugir à sua divulgação, por muito que lhes custe... Perante este drama, as chancelarias entram em pânico e, como é óbvio, de imediato descascam o fino verniz de civilidade com que habitualmente se apresentam, pegam num cacete e passam ao plano B, o da repressão directa e indirecta.
Coisa curiosa, a argumentação em defesa da censura, que começou pelo grave perigo de estarem a ser colocadas vidas em risco... Dados os cuidados da equipa do Wikileaks, é pouco provável que isso venha a acontecer, mas logo aqui vale a pena perguntar onde estava esta gente tão apoquentada, por exemplo aquando das convulsões políticas iranianas. Não é difícil responder, estavam na linha da frente da divulgação e amplificação de toda a informação que saísse do Irão, sem qualquer cuidado na sua verificação e muito menos na garantia da segurança de quem a disponibilizava, uma incúria que custou vidas.
Posto isto, qual é afinal o valor real de toda a informação que agora está a ser revelada ? Bom, ela é essencialmente política e revela não só uma parte substancial da animalidade que preside às relações entre estados como alguns amores ilícitos nas camas do poder.
Quanto aos amores ilícitos percebe-se o reboliço, os cidadãos podem por vezes irritar-se quando encontram os seus representantes gemendo apaixonadamente nos braços do poder económico. Mas a irritação dura pouco, geralmente, e logo os cidadãos amansam e aceitam de bom grado a reposição da canga. Temos em Portugal abundância de exemplos desse fenómeno.
Quanto à animalidade, percebe-se que ocorra em regimes despóticos. Não se percebe no entanto em regimes democráticos, supostamente alicerçados numa superioridade moral fartamente apregoada. E aí convém perguntar se os poderes que agora se movem em defesa dos segredos da realpolitik estão isolados ou se, na verdade, ao tentar reprimir a publicação, não reflectem afinal a anuência do cidadão comum quanto à ocultação dos pormenores mais sórdidos da defesa do interesse nacional, da qual é beneficiário. Os estados-nação são pródigos nestas aberrações, talvez a questão seja pertinente.
Seja como for, joga-se aqui mais uma fatia da liberdade de informação. E para os vários poderes, o cenário é simples de entender e gerir... Assuste-se o pobre cidadão com os horrores da imprevisibilidade de uma informação livre, e logo ele aquiescerá à imposição de novas medidas censórias, sem por um momento pensar nas consequências de longo prazo. Desde que isto seja feito por etapas, funciona sempre. Passo a passo, também a Internet vai sendo domesticada.

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