Um voto

Fascinou-me em miúdo a súbita mudança que percebia, sem a entender. Iniciava-se a década de 70 e por toda a parte surgiam pessoas e projectos de modernidade luminosa, contrastante com a beatice mórbida que a precedera. Num ápice, uma classe média jovem, educada e bem sucedida pressentiu e testou o seu efectivo poder num pronunciamento militar que quase lhe escapou das mãos, prosseguindo depois para uma lenta asfixia de projectos que lhe eram alheios, fossem os dos proletários, os da linhagem republicana ou os de algumas das élites de outrora.
Ao longo de trinta e cinco anos o seu número cresceu sem parar, tal como cresceu também o seu fascínio pelo novo poder, cedo teorizado como direito absoluto, como espólio devido a cada mercenário da gravata numa guerra onde vale tudo. Valeu tudo, de facto. De tal forma que, já nada havendo para arrebatar, esse exército imenso não parou, mesmo sabendo que traía os seus próprios filhos.
Chatice, a ilusão parece ter-se evaporado, restam apenas um vendedor de sapatos e um beato devoto de Nun'Álvares a fazer as vezes de governantes dum lar disfuncional.
Um deles é agora candidato, a par com um republicano ressabiado e já um pouco esquecido dos combates que em tempos quis travar. Gente desinteressante, que não percebe que quer dar novo fôlego a um cadáver.
Que pode então fazer esta classe imensa, agora que deixou de ser locomotiva e passou a ser carruagem ? Nada. Não tem capacidade para qualquer renovação ideológica, teria muito a perder se o fizesse e, pior ainda, fez questão de abafar toda a dissenção dos seus pares e de inculcar nos seus filhos a sua frivolidade, o seu vazio de idéias. Não admira portanto que não haja nenhum leque de formações onde a geração seguinte possa alicerçar os consensos que lhe proporcionem soluções credíveis, será necessário esperar alguns anos até que os construam.
Entramos então num período de nojo, será interessante que nalguma das instituições do estado haja alguém com a credibilidade suficiente para ir chamar a geração seguinte e ao mesmo tempo tenha a humildade suficiente para não se armar em tutor. Talvez Fernando Nobre o possa fazer. É por isso, e apenas por isso, que lhe entrego o meu voto.

Sem comentários: