À conversa com Zulmira


Com os dias mais quentes, sabe bem uma pausa na lavoura, quase ao final da tarde.
Visita-me a morsa Zulmira, que tem uma loja de espiritualidades ali perto, junto à nacional duzentos e seis.
E como sempre acontece, ao lanche toma-se um chá de anémonas secas, que vai bem com os biscoitos de araruta. Com os seus oitocentos quilos, Zulmira só poderia ter uma sabedoria tranquila que muito me apraz, dando à conversa um tom de melodia bem medida.
Apenas me irrita um pouco aquele hábito de pontuar as frases com um arroto generoso a um palmo da minha cara. O fedor levanta um morto, mas evito a fuga porque sei que entre as morsas aquilo é sinal de boa educação e afecto sentido. Uma 'oferta de maresia', dizem. Por algum tempo ficamos no patati patatá, olhando os montes rapados ali à volta, onde só crescem umas árvores esqueléticas com três ramos que rodopiam.
Nesta última visita a conversa fluiu em desfavor dos humanos. Segundo Zulmira, não é por acaso que a nossa grande obsessão se relacione com a procura de um propósito. Trata-se, assegura, de um efeito colateral algo infeliz da forma especializada como o nosso cérebro se transformou em tempos recentes, privilegiando a muleta do nexo de causalidade. Vantajosa, sim, a muleta, por conferir alguma habilidade preditiva. Mas andando quase sempre a par com a intencionalidade do sujeito que a usa, por ser uma ferramenta tão útil dessa intencionalidade. E o que começou como casamento de conveniência acabou estampado a quente no desenho dos axónios, de tal forma que já nem precisamos de sujeito para encontrar intencionalidade, ela ganhou vida própria. O que, ainda segundo Zulmira, é visto como extraordinário e um pouco pateta pela generalidade das outras espécies, às quais nunca passaria pela cabeça nada que se afastasse do mais absoluto vazio de sentido.
Deixando-me com uma última oferta de maresia, lá foi fechar a loja.

 
 
 



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