Estamos perante um dilema incómodo.
Se cessarmos os acordos de tratamento preferencial com Israel ou de alguma forma criticarmos a iniquidade do processo sionista, seremos de imediato acusados de anti-semitismo. Se mantivermos o apoio, no entanto, teremos de olhar para nós próprios e rever Varsóvia e muitos outros lugares de vergonha.
Não tenhamos ilusões... De pouco adianta a efabulação sobre um paraíso idílico onde os israelitas, graças a uma postura ponderada dos palestinianos, poderiam viver alegremente.
Israel foi fundado sobre as cinzas quentes dum tempo em que colonialismo e racismo não suscitavam reserva moral em nenhum cidadão do Ocidente, um tempo em que a limpeza étnica poderia ter passado completamente despercebida. Mas esse tempo passou, e o estado de Israel acabou por ser fundado a meio do processo, sem a pureza que lhe garantiria alguma coerência interna.
Já não é possível a deportação maciça, muito menos às mãos de judeus, em lugares visíveis do planeta.
Por isso nada mais resta que manter este povo como pária na sua própria terra, preferencialmente liderado de quando em quando por um Quisling, na esperança de que algum milagre venha a ocorrer.
E esse milagre não ocorrerá. Israel condenou-se, pela sua fundação, a ser um estado racista.
Não pode deixar de o ser, porque perderia a sua essência. Não pode continuar a sê-lo, porque se vai transformando em algo de animalesco.
E no meio deste monstruoso equívoco, cabe aos milhões de párias palestinianos viver como animais cercados, chacinados quando resistam, abusados quando cedam. Por quanto tempo ? O que for necessário, até que o balanço de forças penda um pouco menos a favor do Ocidente e este deixe de poder financiar este crime.
Nessa altura ocorrerá povavelmente um ajuste de contas. Sabemo-lo bem, como sempre o soubemos ao longo das décadas em que permitimos a criação do monstro e o nutrimos. E quando isso acontecer, iremos virar a cara para o lado. Somos peritos nessa arte.
É curioso que, na mesma altura em que se inicia mais um pogrom, uma notícia no Haaretz, acompanhada de um vídeo com entrevistas de rua, nos fale de uma criança israelita árabe cuja inscrição num infantário foi cancelada por pressão de um grupo de pais que prefere o segregacionismo. A ver com atenção, pois dificilmente a reportagem passará nas nossas estações de TV.
O jardim infantil
Roma, quantas vezes deves cair ?
Tomo o Ocidente como unidade composta por três grandes parcelas, a saber, as viúvas ricas da Europa, os grossos fanfarrões dos EUA e os boiardos alcoólicos da Rússia.
Grosso modo, não incluo a América Latina no gang, uma vez que ali parece estar a vestir-se finalmente uma identidade que pouco ou nada tem a ver com a nossa.
E se dos últimos duzentos anos podemos enfim tirar do forno um sistema ideológico defensável do ponto de vista ético, um farolim para a Humanidade mergulhada nas trevas, melhor seria se pudéssemos em simultâneo perceber a sua caducidade.
Os valores ocidentais são valores de luxo, patamares de entendimento que a todos nos agradaram por algum tempo enquanto distribuição minimamente equitativa dos benefícios de uma posição dominante sobre o resto do planeta.
E valores de luxo são equivalentes da ilusão romana. Supridas as necessidades básicas do centro, não por virtude angelical do modelo económico mas antes por manipulação do circuito global dos excedentes de produção e resolução mais ou menos sangrenta dos conflitos de classe a nível local, eis-nos, por duzentos anos, languidamente acomodados no que julgámos ser o fim da História.
Duzentos anos são um perigo... Pouco ou indiciam sobre as grandes linhas históricas mas enganam o indivíduo, cuja janela de vida é bem inferior a esse intervalo, pois lhe plantam na mente o pior dos erros de apreciação, o de que sempre foi assim e sempre há-de ser.
É agora indiscutível que a mudança para o séc. XXI assinala o fim da supremacia ocidental. Ano após ano, a deslocação massiva de riqueza para outros pólos reduz a nossa capacidade de manobra. Um movimento lento, mas mensurável. Não uma rampa contínua mas uma sucessão de patamares de crise.
E pela segunda vez, esta Roma, como a anterior, crê-se capaz de suprimir pela força ou pela fé a rebeldia. Erra e perde-se assim pela segunda vez, porque o resto do mundo não pára para contemplar com ar bovino as nossas construções ideológicas falaciosas.
Chegou o momento de discutir soluções efectivas. Estamos à altura ?
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Episódios que redefinem quase instantaneamente a perspectiva que temos de nós próprios e do que nos rodeia.
Debaixo de um microscópio, a transição da infância para a adolescência torna-se realmente rica. Nessa fase extraordinária da nossa vida, plena de descobertas e redescobertas do mundo, aquele instrumento de ampliação dos sentidos alicia-nos com a filigrana que sem ele nos escapa por completo. A orgia de vida numa gota de água lamacenta, a sinistra ordenação prussiana das células de uma pele de cebola, as formas escandalosas de um insecto, tudo gera novas perguntas que pedem urgência na resposta e nos causam tremuras e febres como se de doença se tratasse.
Depois, um belo dia, o grande choque. A imagem de si próprio, unitária, monolítica, construída por integração automática de sinais provenientes de sentidos grosseiros desde a fase final de gestação, desagrega-se. De um momento para o outro, sem aviso, a percepção da humilde cebola como colónia celular transforma-se na percepção de si próprio como colónia celular. Choque tremendo, quase vergonha. Adeus unidade, adeus individualidade, adeus eu.
Mais adiante, outra surpresa. Se pensarmos bem, faria sentido tostar Ptolomeu em fogo lento, pois na opinião dos nossos sentidos canhestros, é óbvio que o céu é côncavo. Mas um belo dia o artista é sujeito a uma experiência não intencional. Numa noite campista, depois de ums canecos valentes, jazendo de barriga para o ar sobre as ervas e tendo unicamente no seu campo de visão o céu límpido e estrelado, com a galáxia perpendicular ao eixo do seu próprio corpo, eis que de repente o trompe l'oeil se desvanece e a propriocepção se modifica. Já não está deitado olhando para um tecto côncavo. Está agora de pé, assente no vazio, olhando de longe para uma galáxia espiral gigantesca que se dispõe não acima mas à sua frente, imóvel, silenciosa, uma manada de sóis incontáveis suspensos num vazio negro de frieza indiferente. Vertigem tremenda, anima vagula blandula e tudo o resto.
Precisaria agora de um novo reset. A minha glândula pensadeira está presa numa visão newtoniana do universo. Poderão uns copos de Calgonit em jejum resolver o problema ?
Tempo de mudança
Um dos pontos quentes que a nova administração imperial deverá considerar desde o primeiro dia do seu mandato será o Irão.
Décadas de erros na relação com este país e a recente abertura do buraco negro iraquiano resultaram numa situação de instabilidade que a qualquer momento pode descambar para um conflito regional sério, que o Ocidente já não terá meios para gerir.
Importa por isso aproveitar esta mudança de turno para definir uma política de longo prazo mais sensata.
Nos EUA, um grupo de trabalho ( do qual faz parte Juan Cole, uma das minhas fontes preferenciais ) elaborou um documento que vale a pena divulgar junto da opinião pública, pela simplicidade da exposição.
Intitula-se Joint Experts' Statement on Iran e pode ser consultado aqui em HTML ou aqui em PDF. Divirtam-se.
Pópó
Antecedendo a anunciada estocada final na indústria automóvel europeia, a sua congénere norte-americana está prestes a entregar as cambotas ao criador.
GM, Chrysler e Ford aproximam-se do ponto de não-retorno, podendo entrar em bancarrota a uma distância de poucos meses.
Os funcionários da Chrysler, em qualquer cenário, perspectivam apenas o desmantelamento. A GM sangra abundantemente, com um prejuízo mensal próximo dos mil milhões de dólares. A Ford derrete-se em bolsa com uma perda de 90% no espaço de um ano.
Não espanta então o enorme esforço de lobbying que as manas desenvolvem para obter um salva-vidas de 25 mil milhões de dólares dos cofres federais, um esforço que se transformou num problema político sério, pois à natural reserva ideológica das correntes mais liberais, que prefeririam ver morrer empresas manifestamente mal dirigidas, opõe-se uma projecção de 4 milhões de desempregados decorrentes da cascata de falências que se seguirá à queda das três irmãs.
Será importante que nós, cidadãos da UE, saibamos ler os antecedentes desta situação e possamos preparar o choque de uma situação idêntica no nosso território. Porque, não nos iludamos, esse choque vai ocorrer. Os construtores europeus já há alguns anos alertam para isso.
Animateca
Ignoremos por instantes a tremenda diversidade de seres vivos na nossa biosfera.
Concentremo-nos apenas nos humanos. Mesmo assim, podemos em qualquer momento à sorte imaginar o incontável número de dramas pessoais, artistadas, momentos eureka, risadas, angústias, buzinadelas, ódios e amores que ocorrem em simultâneo neste oceano de seis mil milhões de marmelos.
Mas à distância nada disso é concebível.
Para um visitante extra-galáctico que observe de uma órbita elevada, a Terra é uma pasmaceira azul com uns farrapinhos.
Quase parece uma tranquila biblioteca de almas.
Seis dias
Depois do anúncio, há seis dias atrás, sobre o início de negociações in extremis com o FMI, o Paquistão anuncia hoje que está a seis dias da bancarrota.
Nada mau, num país politicamente instável, detentor de armamento nuclear, ensarilhado na armadilha fundamentalista que alimentou, e impotente face às cada vez mais frequentes acções militares da NATO no seu território.
Depois de alguns anos a contribuir com pregos para o caixão, estaremos em condições de rever a nossa política face ao Paquistão, ou queremos insistir até que se transforme num estado falhado ?
O anjo que tinha vertigens
Admitamos, a sucessão de crises neste início de século está a tornar-se um pouco incómoda.
Terroristas debaixo da cama, guerras sem propósito e sem fim, um sistema económico decrépito enganado com metadona, uma crise financeira de proporções bíblicas, um manto de CO2 que anseia por transformar o planeta numa cataplana...
Se para nós, europeus, tudo isto resulta em palpitações e ansiedades inconsequentes de viúva envelhecida, para os nossos sobrinhos do lado de lá do Atlântico as coisas apresentam-se de forma talvez mais brutal.
Na força da juventude, incultos, deslumbrados ainda por duzentos anos de sucesso fácil, confrontam-se com sinais de declínio que não podem entender nem aceitar.
Curioso que nos últimos oito anos tenham optado por bater no ceguinho, isto é, que tenham optado pela defesa agressiva de um estatuto que desejariam imutável. E se acho curiosa essa opção, é porque ela repete os erros dos impérios da velha Europa e de muitos outros grupos transitoriamente dominantes que a História foi engolindo entre bocejos.
É neste cenário que o mundo inteiro, pasme-se, de repente pára os seus afazeres para ver o que se passa naquela ponta do bairro, uma simples eleição presidencial que pode mudar tudo num mundo que desejaria agora poder também apresentar o seu voto, um voto que teria um sentido inequívoco... Seria eleito Obama, que nalgumas das sondagens feitas ao longo do planeta recolhe 80% de apoios.
Autistas, os norte-americanos não parecem aperceber-se da dimensão deste fenómeno, e muito menos da sua origem ou implicações.
Confesso que a figura de Obama não me fascina. Tendo a vê-lo como um ineficiente messias de púlpito, sem projecto concreto, condenado a reagir em vez de agir.
Mas reconheço-lhe uma abertura de espírito notável. Caso ele venha a ganhar a presidência, não espero que se afirme como visionário mas antes como catalisador, como pastor de vontades.
E se chegar o momento em que ele perceba que é essa na verdade a esperança de todo o planeta, e se nesse momento não for tomado de vertigens, então talvez tenha afinal a grandeza necessária.
Revelação mística
Como o leitor estará lembrado, um dos argumentos usados pelo Superpateta para promover a invasão do Iraque foi a protecção concedida por Saddam a Abu Nidal, um terrorista reformado muito mal visto na cena internacional.
Bom, o homem acabou suicidado e não se falou mais nisso.
Por uns tempos.
O Independent alega ter em seu poder os registos de uma confissão interessante de Abu Nidal ( registos provavelmente sacados do espólio do Mukhabarat, penso eu de que )...
Alegadamente, prestaria serviços de espionagem ao Egipto e ao Koweit, com conhecimento dos EUA, estando incumbido de recolher dados sobre uma eventual ligação entre Saddam e a Al-Qaeda.
Há coisas fantásticas, não há ?
A dança dos flatos
Como vimos num folhetim anterior, o Turquemenistão tem gases. E como certamente lembrará o querido leitor, há pouco tempo atrás a Rússia assegurou a exclusividade da comercialização das reservas conhecidas.
Ora bem, os amanhãs cantam para a Europa, já que um estudo agora concluído revela novas reservas com uma dimensão notável, que elevam o país para a segunda posição no ranking mundial... E estas novas reservas não estão incluídas no acordo com a Rússia.
Uma segunda oportunidade, portanto, para fazermos alguma coisinha pela vida.
Mas os amanhãs também grasnam para esta mesma Europa, pois esta semana teve lugar a primeira reunião para a formação do cartel do gás natural. Nada que nos alegre, tendo em conta que os produtores que mais nos interessariam estão entalados entre a Rússia e o Irão, dois membros fundadores da máfia do flato.
Pelo caminho que as coisas tomam, será razoável que nos preparemos espiritualmente para assinalar à Rússia que a Geórgia é zona de interesse vital para a UE ( ou mais genericamente, para todos os membros da NATO ). Estaremos a brincar com o fogo se não assinalarmos esse interesse, ou se o fizermos demasiado tarde.
Fazendo as malas
Há quem se divirta...
Larijani mandou dizer há uns dias que, por este andar, o mullah Omar acabará por ser convidado para as recepções da Casa Branca.
Hoje foi a vez de Mottaki avisar os patetinhas ocidentais contra uma negociação ingénua com os Taliban.
Mas que fazer, então ?...
Não creio que haja agora muitas saídas airosas. Tal como no Iraque, a nossa intervenção perturbou de forma insanável o status quo, sem o complementar com uma alternativa sustentável. Não surpreende portanto a agitação crescente da vizinhança, à medida que o poder dos Taliban se reforça e/ou o governo central definha.
Importa notar que esse poder não resulta de uma afirmação militar incontestada, mas antes do cansaço ou simples sensatez dos cidadãos afegãos, que se mostram cada vez mais dispostos a aceitar, senão mesmo a apoiar, o regresso dos fundamentalistas ao poder. Tendo em conta as circunstâncias, não os critico. Mal por mal...
Mas não me parece que as coisas possam evoluir para um final idílico. Desde logo, uma solução de partilha de poder não será fácil de aguentar... A não ser que os Taliban levem porrada de criar bicho no Paquistão, o seu regresso far-se-à numa posição que supõem ser de força, pelo que deverão sentir-se tentados a um assalto à totalidade do poder. Tal como no passado, enfrentarão uma oposição fragmentada e corrupta, mas enfrentarão também uma intervenção renovada do Irão, Índia e Rússia.
Caberá aos deuses decidir o desfecho desta palhaçada, que deveríamos ter evitado.
Deposito alguma esperança na intervenção inteligente de Petraeus e na renovação da administração imperial, que espero venha a ser menos dada ao banditismo e mais capaz de honrar o compromisso criado pela invasão.
Pouco me importa que o prestígio militar da NATO saia embaciado. Importa-me mais saber se teremos a habilidade e a dignidade necessárias para apoiar o povo afegão nas suas decisões, quaisquer que sejam e por muito que nos desagradem.
De outra forma, à retirada da NATO irão suceder-se anos de reajuste violento, cujo preço será mais uma vez pago por aquele povo. E se isso acontecer então envergonho-me, pois sei que nessa altura todos nós, cidadãos ocidentais, arranjaremos uma forma de olhar para o lado, como se nada tivéssemos a ver com o assunto. Somos peritos nesse jogo.
Sete anos
A inércia ideológica produz atoleiros capazes de engolir civilizações, já o sabemos da História.
Mas, confinados à nossa mesquinha janela de tempo de algumas décadas, estamos, como outros antes de nós, condenados a empenhar sempre mais recursos em batalhas sem sentido, batalhas perdidas à partida que nos condenam a uma lenta exaustão.
No Afeganistão, como aconteceu noutras épocas, o império ocidental vai-se desgastando, sem que ninguém possa apontar uma razão válida para a teimosia. Sete anos depois de uma invasão disparatada, com 70000 imbecis no terreno limitados a uma posição de defesa de um regime corrupto e sem futuro, resta-nos agora ir aumentando esse efectivo para evitar ou simplesmente adiar uma derrota vergonhosa. É a guerra pela guerra, uma chacina interminável na defesa quixotesca de uma fronteira ficcional contra um inimigo imaginário.
Nós, portugueses, poderíamos ainda assim conviver de forma desprendida com esta patetice, se ela se limitasse a uma episódica chacina de populações civis. Afinal de contas, se pudemos com alguma tranquilidade manter uma guerra deste tipo nas nossas colónias e claudicar apenas ao fim de catorze anos, então no Afeganistão estamos apenas a meio do trajecto, e com a auto-censura dos media a esconder os efeitos da guerra, mesmo agora que ela alastra ao Paquistão, a nossa anuência acéfala poderia estar mais ou menos garantida.
Mas o problema cosmético complicou-se subitamente, com a ocorrência quase simultânea de três factos relevantes, a saber:
- Numa comunicação supostamente reservada entre as representações inglesa e francesa, que acabou publicada nas páginas do Canard Encheiné, o embaixador inglês afirma que a estratégia ocidental está a fracassar, uma vez que o avanço dos Taliban é contínuo e o apoio das tropas ocidentais a um governo corrupto é parte do problema em vez de ser parte da solução;
- O general McKiernan, comandante da força NATO, insiste no reforço urgente das tropas, face à contínua degradação da segurança resultante do avanço das três facções mais importantes na oposição ao regime e à presença de tropas de ocupação. 20, 30 anos, é agora o prazo admissível para a retirada das forças;
- Karzai, plenamente ciente do factores em jogo, convidou o mullah Omar a retornar ao Afeganistão, garantindo-lhe condições para se candidatar às próximas eleições presidenciais... Juro, pela alma da sogra que nunca tive, que a proposta me surpreendeu... Ao que parece nem o Omar perdeu tempo com esta rendição ridícula, rejeitando-a no dia seguinte.
Querido leitor... Tem algo a dizer sobre o assunto, ou prefere continuar a alimentar-se de futebolices ?...
A queda anunciada
A lista de participantes do gabinete de crise reunido durante o fim-de-semana passado pela Reserva Federal incluía representantes do Royal Bank of Scotland, um dos bancos estrangeiros mais embrenhados no mercado norte-americano.
Lendo a lista, veio-me à memória o aviso feito pelo RBS aos investidores há precisamente três meses atrás sobre o que iria acontecer em Setembro.
Tratando-se de uma instituição com peso suficiente para ser agora chamada a intervir pela Reserva Federal, pergunto-me se esse gabinete de crise não deveria ter sido reunido logo que o RBS emitiu o aviso ...
Afogadistão
A aventura em terras afegãs tremelica.
Após meia dúzia de anos de envolvimento ocidental, tornou-se claro que a estratégia seguida nos vai conduzindo para uma derrota semelhante à das tropas soviéticas.
Perante isto, do outro lado do Atlântico o Superpateta decidiu em Julho dar o grande salto em frente e cobrir o problema com bombas, incluindo agora o território paquistanês, de modo a dar um sinal claro à governação deste país. O momento não foi bem escolhido, pois em Islamabad não há para já um poder definido.
Os primeiros resultados deste salto não podiam ser piores.
Os relatos de chacina de populações civis vão pingando com intervalos de poucos dias, conduzindo as autoridades afegãs e paquistanesas para um ponto perigoso.
No meio de uma situação política bastante instável, Islamabad é forçada a intensificar as acções para retoma de alguma soberania nos territórios autónomos, ao mesmo tempo que ameaça as tropas ocidentais com uma reacção violenta. Hoje mesmo, circularam rumores de que as tropas paquistanesas terão aberto fogo contra um grupo de helicópteros norte-americanos. O Pentágono nega os rumores. Complicado, complicado.
Terão os nossos queridos dirigentes pesado os riscos decorrentes da desestabilização do Paquistão ?... Mais, terão ponderado o problema do envolvimento da NATO na violação da soberania deste país ?... Se não, então quem autorizou Gordon Brown a dizer que vai solicitar ao governo paquistanês permissão para entrada das tropas da NATO ?...
Não parece que haja grande espaço de reflexão, se tivermos em conta um outro movimento, particularmente idiota, que promete agravar a situação...
Não se contentando com o crescente envolvimento económico indiano, que já causou uma reacção paquistanesa bastante cruel, tentam agora os nossos queridos dirigentes conduzir a Índia a um envolvimento militar, sabendo que o Paquistão não pode aceitar tal coisa.
Não creio que haja neste momento um único dirigente ocidental capaz de prever a duração do nosso envolvimento. Arrisco afirmar que esta guerra pateta será travada ainda por mais alguns anos, até que alguém note que não há nela quaisquer objectivos, ou quando a Índia e o Paquistão desatarem à estalada, ou mesmo quando a NATO e o Paquistão desatarem à estalada.
Brilhante. Para que serve isto ?
O flato do urso
Com a desagregação da URSS, não ocorreu um retorno massivo dos cidadãos russos. Para os países de charneira, a situação resultou delicada, pois deixou à Rússia a possibilidade de legitimar intervenções militares com base no direito de defesa dos seus cidadãos.
Ciente dessa vantagem, a Rússia não se tem preocupado muito em trazer de volta os seus concidadãos. Ao contrário, sempre que necessário tem vindo a incrementar por via burocrática o seu peso nalgumas regiões desses países, emitindo passaportes com grande generosidade. Aconteceu na Ossétia, acontece agora na Crimeia.
Manter os problemas em banho-maria não é necessariamente uma boa solução, porque alguns há que não morrem de tédio.
Neste caso concreto, o cenário está montado há anos, e era previsível que a reconstrução política da Rússia lhe permitisse reconstruir também o poder de imposição de soberania limitada na sua zona de influência, e a questão da cidadania só vem facilitar este movimento.
Nada que não soubéssemos, recordemos que há 60 anos atrás houve um senhor de bigodinho que se fartou de usar o expediente com excelentes resultados.
Na Europa, sabemos do interesse russo em ambas as vertentes do Cáucaso. Sabemos ainda da importância da estabilidade da Geórgia na garantia da nossa trémula independência energética.
Não sabemos muito mais... Mas há quem saiba, apesar de tudo. É o caso dos turcos, bastante empenhados em levar as tubagens até ao Irão, já que as de Tblissi se arriscam a ficar vazias até ao dia do juízo final.
Fim-de-semana alucinante
Em Wall Street, não houve fim-de-semana para ninguém.
Basicamente, uma lufa-lufa de reuniões para definir quem iria tombar.
Calhou a sorte ao Lehman Brothers, bancarrota pura e simples... Azar, não se inventam 600 mil milhões de dólares em dois dias.
Safaram-se os fãs do Merril Lynch, que acabou por ser papado pelo Bank of America.
Fantástico, melga.
Vejamos agora quem vai pagar isto. As bolsas europeias começaram o dia de hoje com hemorragia pronunciada.
Branca de Neve e os 27 anões
A ligeira asfixia da Ucrânia pela Rússia, há uns anos atrás, deu algo que pensar à UE, pois embora nada tivesse a ver com o assunto foi usada como peão das nicas e foi sujeita a uma breve redução dos fornecimentos do gás natural que transita pelo ramo ucraniano da rede asiática.
Estes acontecimentos e as safadezas subsequentes mostraram à UE a debilidade da sua posição, que a deixa vulnerável a pressões económicas e/ou políticas duma Rússia que por algumas décadas irá manter a arrogância.
O episódio foi curto e grosso, andou por algum tempo nas bocas do mundo, mas convenhamos que se tratou apenas da ponta acidentalmente visível de um icebergue muito grande e feio. E deste icebergue pouco ou nada se falou.
Com a passagem do tempo, a Branca de Neve vem estendendo os seus tentáculos ( perdão, os seus gasodutos ) num amplo movimento de cerco à Europa. O movimento mais teatral deu-se há poucos dias, com a entrada de leão da Gazprom no Turquemenistão. Com dois acordos distintos, a Gazprom colocou-se como interlocutor único daquele estado no que toca ao gás, oferecendo valores principescos por 20 anos de monopólio. Nada mau.
A norte haveria ainda alguma coisita disponível para os europeus, mas cazaques e uzbeques devem agora sentir-se um pouco entalados, pois o escoamento para sul poderá estar sujeito à boa vontade da Gazprom e os acontecimentos desta semana mostraram que o escoamento por Baku pode tornar-se um risco demasiado elevado. Vamos ver como se desenvolve a guerra na Geórgia, mas seria bom saber se é verdadeira a notícia de bombardeamento do oleoduto Baku-Ceyhan pela aviação russa, ou se não passa de propaganda de Tbilisi.
É certo que, para prevenir males maiores, alguns dos 27 anões têm andado a namorar o Irão, mas Israel tudo fará para impedir contratos de vulto, como se viu há poucos dias com a Alemanha. É pena, porque não só os projectos iranianos ficaram mais dependentes da boa vontade russa, como também o estabelecimento de uma relação directa e duradoura entre a UE e o Irão seria de grande interesse para ambas as partes. Não dispomos no entanto de dirigentes políticos com capacidade ou coragem para avançar por aí.
Resta-nos por isso o prémio de consolação. Uma vez que a Gazprom se prepara para dar o mesmo golpe do baú na Líbia e a na Argélia, seria útil que os media tentassem pelo menos esmiuçar os aspectos mais sórdidos dessa novela. Poderiam começar por investigar a ENI, teriam muito com que se entreter, nomeadamente a história das participações em empresas russas, dos métodos usados na sua obtenção e das contrapartidas exigíveis a prazo pelo estado russo. Em seguida, podem ir perguntar à direcção política da UE ( se a conseguirem encontrar ) o que tem andado a fazer no meio disto.
No fim desta película triste, a Rússia terá gases. À UE restará apenas o mau cheiro.
A receita do tecnofacho
Há diferenças substanciais entre os regimes autoritários do século passado e o que agora construímos.
Sobressaem a diferença na gestão da informação e a escolha mais cuidadosa do timing da escalada.
O episódio agora em exibição desenrola-se em torno da instalação de um sistema mandatório de identificação electrónica de veículos. Em termos práticos, o estado passará a dispor de meios para controlar os movimentos de qualquer viatura. Como é hábito, também este episódio se vai desenrolar sem dramas, com o maior respeito pelos aspectos processuais da democracia representativa.
O esquema é linear:
- Num primeiro momento, dão-se dois passos na direcção desejada, a coberto de autorização parlamentar;
- Num segundo momento, o choque resultante trará o vendedor de sapatos à boca de cena para acalmar os mais inquietos, seduzindo-os com a eficácia, o modernismo ou qualquer outro chavão bacoco. E num espírito dialogante, o vendedor de sapatos manifestará ainda a sua abertura ao aperfeiçoamento das novas regulamentações. No fim, terá de recuar apenas um passo.
A receita não falha. O cidadão comum, embrutecido por overdoses sucessivas de futebóis e fantásticos toques polifónicos no télélé, nem chega a perceber o que lhe aconteceu.
Estranho gado este, que sorri enquanto o tecnofacho lhe aperta a canga.
Da criação de dálmatas
Um despacho morno da Reuters serve perfeitamente. É mais uma pequena batatinha na travessa da ligeireza. Hmm ? De que falo eu ? Pois, será conveniente explicar...
No Yahoo apareceu hoje um artigo baseado num despacho da Reuters, cujo título anuncia a descoberta de uma ligação entre genes, violência e delinquência.
Na base desta conclusão está um estudo da Universidade da Carolina do Norte, que terá determinado a existência de correlação entre uma variante específica de um gene e comportamentos classificados como antissociais.
Bem, a história não aprofunda muito o tema, mas depois de um título incisivo é curioso observar a rampa descendente em que se vai diluindo a sugestão inicial.
Lá para o meio do texto, ficamos a saber que se trata não de um, mas três, os genes implicados.
Mais para o fim, remata-se a coisa com a afirmação de que afinal não basta a presença de variantes específicas desses três genes para que o comportamento antissocial se revele, são também necessárias condições ambientais propícias.
Destas, sublinhe-se a paparoca: se o espécime almoçar e jantar regularmente com os familiares, o risco de comportamento antissocial desvanece-se milagrosamente.
Não sei muito bem qual a intenção da articulista, e provavelmente ela também não...
E é isto mesmo que me preocupa. De forma imprudente, vai-se aqui e ali estabelecendo um pano de fundo tirado a papel químico do que aconteceu há quase cem anos atrás, com a mesma cobertura de ciência defeituosa.
E se no século passado se usou a antropometria como garante de seriedade, agora usa-se a genética.
A idéia subjacente é sempre a mesma, a obsessão burguesa pela ordem, uma ordem que neste campo se alcançará pela depuração da raça.
Noto uma singularidade no texto, quando sugere a utilização de fármacos para corrigir o defeito. E fico a pensar... Quanto tempo demorará a articulista a chegar ao ponto de sugerir a correcção in vitro das linhagens defeituosas ? Afinal de contas, se há uns dias atrás se corrigiu o BRCA1, porque não corrigir também o MAOA, DAT1 e DRD2 ? Ou qualquer um dos outros ?
Temos montes deles para brincar às casinhas.
Da criação de caniches
Cheios de boas intenções, lá vamos corrigindo os muitos defeitos dos processos naturais.
Ao contrário do que acontece com os criadores de cães, que podem arbitrariamente decidir sobre as linhagens a cruzar, os guardiães da boa raça humana enfrentam o problema da liberdade.
Os valores que nos regem impedem de momento a esterilização compulsiva ou métodos similares de higiene racial, o que acaba por facilitar a reprodução de espécimes portadores de características perniciosas, uma vez que os humanos tendem a acasalar de forma pouco criteriosa. Isto é muito aborrecido.
Mas como a ciência nos vai habilitando a reconhecer as raízes genéticas das alegadas deficiências e a tecnologia nos vai deixando interferir de forma mais precisa nos processos biológicos, parece-nos que será fácil direccionar a evolução da espécie sem colidir com barreiras éticas.
A Times relata-nos um novo expediente, muito promissor. Trata-se da selecção artificial na fase embrionária, que nos permite dizer que descartamos embriões de menor qualidade, em vez termos de dizer que praticamos aborto eugénico.
Como funcionou a coisa, neste caso particular ?... Ao que diz o artigo, a linhagem do macho é portadora de uma variante do gene BRCA1 da qual resulta prejuízo para os processos de reparação do DNA, aumentando o risco de aparecimento de cancro da mama. Os anjos da ciência decidiram então criar meia dúzia de embriões por IVF, seleccionaram dois que não continham essa variante e implantaram-nos na feliz mamã, atirando os outros para a retrete. Tão fácil como saltar à corda.
É uma história bonita. Comovente. Não mais haverá naquela família a dor da perda de entes queridos às mãos do cancro, por muitas e muitas gerações.
Mas deixem-me azedar a festa...
Como acontece em muitas outras situações, o BRCA1 não é actor isolado. A escolha de uma variante em detrimento de outra, sem que se faça selecção simultânea nalguns outros genes, é condição suficiente para que a reparação de DNA passe a decorrer normalmente ?
Por outro lado, a variante preterida, sendo feitas correcções noutros genes, não poderia, a la longue, revelar-se afinal uma melhoria no património genético ?
Tudo isto é muito bonito, mas conviria não esquecer que este tipo de correcções vai produzir efeitos por muitas gerações. Não seria mais prudente explorar a fundo todas as medidas de redução de risco que não impliquem uma manipulação cega do património genético ?
A via Frankenstein para a felicidade comporta riscos muito elevados. Seria útil que os discutíssemos.
Visitação da alma
Alguma gente perversa acusa-me de opacidade.
Diz essa gente que mal abro uma nesguinha do meu ser logo fecho a janela nas trombas das pessoas.
É falso. E por ser falso e ser necessário acabar de vez com tais insinuações, aqui publico uma fotografia da minha alma. Mais transparente que isto, não há.
Trata-se de um fotografia única, que consegue captar toda a essência do animal no seu estado vegetativo, e que só foi possível graças à equipa da Medimonção, cuja solicitude e entusiasmo muito agradeço.
A pausa
Não se negoceia com terroristas. Amen.
Posto isto, parece-me razoável um primeiro comentário ao resultado do cessar-fogo negociado entre duas forças terroristas antagónicas, Israel e Hamas.
À partida, será o acordo possível, restrito à supressão dos ataques a partir de Gaza e correspondente abertura de fronteiras por Israel. Pelo que posso perceber, as fronteiras com o Egipto não serão abertas incondicionalmente.
Que temos então ? A supressão do ruído dos Qassam, em troca do desmantelamento parcial do bloqueio. Vantagens para todos...
O governo israelita alivia um pouco o fardo moral do exercício de punição colectiva de 1,2 milhões de civis, e fica com maior sossego para negociar a Norte, que é de momento a aposta mais importante, pois a Sul Abbas pode ser enrolado por mais alguns meses sem grande inconveniente.
O Hamas, por seu lado, reafirma a credibilidade saindo incólume de uma situação de cerco total às mãos de Israel e dos países colaboracionistas.
Tudo perfeito, então ?... Nem por isso. Um dos pontos fracos deste acordo é o facto de não incluir a Cisjordânia. Será o meu mau carácter a falar, mas não creio que haja inocência neste desfasamento, que beneficia tanto Israel como a Fatah.
O resultado torna-se aparente desde já... Depois de um ataque israelita na Cisjordânia, tanto a Jihad Islâmica como a Fatah exerceram uma legítima retaliação. Mas fizeram-no a partir de Gaza, claro, dando a Israel um motivo para fechar novamente a fronteira e deixando o Hamas com a batata quente nas mãos.
Como o Hamas não se assusta muito com a temperatura das batatas, deixou claro que estes truques não devem repetir-se. Quem o fizer estará a trair o interesse do povo palestiniano e será devidamente punido.
Mais resultados ?... Para já, nenhum. A fase seguinte prevê trocas de prisioneiros e o alargamento do cessar-fogo à Cisjordânia. Se lá chegarmos, o Quisling da Fatah receberá mais um abalo na sua periclitante posição. Aguardemos sentados.
Eugenia, aberrante ou urgente ?
A produção intelectual da primeira metade do séc. XX teve inúmeras ramificações, num crescendo frenético cujo desenvolvimento, nalguns casos, nos apraz hoje classificar como imoral.
Depois de séculos e séculos de mansa subordinação a uma ordem social bafienta, aquela janela de tempo tem semelhanças com a louca explosão das formas de vida do Câmbrico. Profícua e insustentável.
Desse tempo sobrou acima de tudo sofrimento e vergonha. E dessa confusão, apetece-me esta noite sublinhar a eugenia, cuja morte matada se deve quase exclusivamente à despudorada abordagem feita pela Alemanha nazi.
Pessoa que se preze deve agora exibir náusea genuína perante as experiências aberrantes dos homens maus nos campos de concentração.
Pena, pena... A narrativa, neste e noutros pecadilhos, faz de conta que os homens maus tiveram culpa exclusiva, mas não poderíamos estar mais longe da verdade. A eugenia, talvez porque encaixe como luva na demência nacionalista, teve durante décadas uma audiência alargada e fez escola em todo o Ocidente.
A comprová-lo, a gravura que encabeça este artigo documenta o orgulho profissional do dever cumprido, depois de legalizada a esterilização forçada de grupos com comportamentos tidos como desviantes na maioria dos estados norte-americanos.
Incómodo ? Sim, mas não pense em furtar-se a essa responsabilidade...
Se apoia as medidas de redução contínua e incondicional da mortalidade infantil, deve estar ciente de que garante a sobrevivência e reprodutibilidade de mutantes de todo o género. Se, ao contrário, defende a selecção activa de linhagens, por nobilíssimas razões eugénicas ou simples leviandade estética, então prepare-se para ser julgado por crimes contra a humanidade.
Durma bem.
Milagre de Nossa Senhora da Net, santinha da minha devoção
Após quase trinta anos de interregno, chegaram da confederação helvética notícias de um Emarginato sobrevivo.
Sim, o Luigi instalou-se por lá e parece desejoso de atazanar novamente as cândidas mentes lusitanas.
E por onde andam os Emarginatos restantes ?
Estão vivos, sucumbiram ao colesterol, à má vida ou a uma conversão tardia ?
Onde andam o Luís Beato, a Graça, o João Grosso, a Nandinha, a Eduarda, a Sara Lima e todas as outras almas perdidas desse projecto insano ?
Se estão vivos, pois mandem um email.
Se estiverem mortos será mais complicado, mas podem sempre psicografar qualquer coisita...
Voltando ao Luigi, não compreendo como foi parar àquele país medonho, onde a Heidi está a cumprir pesada pena de prisão por gerir uma rede de tráfico de menores e o Pedro só não lhe faz companhia porque conseguiu fugir para a Patagónia sob a protecção de uma rede de solidariedade de nazis reformados. O tempora, o mores, e tal e coisa.
Mas devaneio... O Luigi desenterrou um curioso teste de vídeo, datado de 1981, que o querido leitor pode ver aqui. Incipiente, de facto, mas ainda assim um aconchego espiritual para as famílias, que dele tanto carecem.
O televisiota
Confesso...
Por vezes, permito-me algum relaxe da razão e vejo até ao fim a peroração dos televisiotas, babando-me com mansidão adequada.
E pergunta o leitor, o que é um televisiota ?
Pois querido leitor, um televisiota é uma estirpe de idiota que infecta a televisão.
Usualmente solitário, pode por vezes surgir em grupos de três ou quatro espécimes, como acontece na Quadratura do Círculo.
Ontem vi dois, na RTPN ( para os menos informados, a sigla significa RTP Naçom ).
Um deles fazia o papel de entrevistadora, o outro o de comentador.
E peroram longamente sobre as conversações entre a Síria e Israel. Enquanto ouvia a vulgaridade monocórdica dos espécimes, questionava-me sobre o objectivo daquela encenação... Não consegui encontrar nenhum. Zero.
A páginas tantas, o espécime que fazia de entrevistadora arrepiava-se com o destino dos colonatos dos Golan. O espécime comentador, por seu lado, parecia acreditar que os contactos se tinham iniciado há dois dias e que a questão do valor estratégico dos Golan era central e não apenas folclórica.
Fiquei desiludido. Esperava que o televisiota macho dissesse alguma coisa sobre o impacto de uma paz separada, sobre a publicidade súbita que foi dada ao assunto, sobre o papel da Turquia no meio disto, ou ainda sobre a possibilidade de o primeiro-ministro de uma das partes poder a qualquer momento sair algemado da mesa de negociações, enquanto vai sendo sucessivamente desautorizado pela oposição.
No fundo, gostaria de poder acreditar na seriedade desta negociação. Não porque subitamente me tenha convertido em fada boazinha, mas porque a imparável ascensão xiita ( que não decorre de qualquer mérito da seita ) me parece um camião desgovernado que acabará por prejudicar de forma grave o interesse palestiniano. Na minha ranzinzice tendo a olhar para os anos mais recentes do Médio-Oriente como uma espécie de Sarajevo em câmara lenta e gostaria de, uma vez sem exemplo, ver os televisiotas concentrados sobre o que é importante.
Notícias do além
Não se negoceia com terroristas.
Frase muito máscula, muito em voga. Quando ouço esta preciosidade, há um mecanismo mental pérfido que me puxa da memória a figurinha do Ahmadinejad garantindo que não há homossexualidade no Irão.
Mas deixemo-nos de fantasias...
No Paquistão, as negociações com os terroristas Taliban correm às mil maravilhas. Prisioneiro para cá, prisioneiro para lá, a coisa vai andando. Não surtiu grande efeito a subtil pressão que tentámos exercer, despejando meia dúzia de mísseis em território paquistanês. Os paquistaneses não se acobardaram como seria desejável.
Na Palestina, as negociações com os terroristas do Hamas têm dias... Às Segundas, Quartas e Sextas, vai-se acordar um cessar-fogo entre as partes e vão-se trocar uns prisioneiros. Às Terças, Quintas e Domingos, não há acordo nenhum porque os prisioneiros de um lado ou de outro não valem tanto como se diz por aí. Ao Sábado, toda a gente descansa.
Em contra-corrente, diz-se que Olmert quer fazer uma limpeza em Gaza, agora que o Superpateta voltou para casa, mas serão apenas boatos... De momento Olmert deve estar mais concentrado em como fugir da bófia, que não lhe larga as canelas.
Lá do fundo da sua cova, o falecido Abbas manda dizer que está farto de aturar vigaristas e vai dar por falhado o processo de paz daqui por uns dias. Pelos vistos, não sendo totalmente imbecil, acabou por perceber que o Quarteto é de cordas e lhe está apenas a dar música.
Mas, não sendo totalmente imbecil, é-o em boa medida, como toda a gente sabe. Logo, não é ser nenhuma pitonisa para vaticinar que nas próximas eleições palestinianas vai ser corrido, muito provavelmente em benefício do Hamas, o tal que é muito terrorista.
Nestas circunstâncias, a potência ocupante, que não negoceia com terroristas, está aparentemente a ponderar a hipótese de libertar Barghouti e lançá-lo à conquista do eleitorado palestiniano. Para benefício dos mais desatentos, Barghouti é um terrorista que se encontra a cumprir uma pena de algumas décadas em Israel por homicídios e destruições diversas. Ora o moçoilo é simultaneamente um fenómeno de popularidade entre os palestinianos e é há muitos anos considerado como um líder com enorme potencial, respeitado também pelos seus captores.
Quem se lembrar ainda do julgamento, ou tiver notado a facilidade com que vai dando palpites a partir da sua cela, perceberá a que me refiro.
No Iraque, as negociações com os terroristas sunitas também não correram nada mal. Desde que o ocupante lhes atribuiu o rendimento mínimo garantido deixaram de explodir, o que é bom para o ambiente.
Já não correu tão bem a tentativa de entalar o Irão... Não só o governo iraquiano diz que não encontrou provas de intervenção iraniana, como a tropa imperial teve de meter o rabo entre as pernas quando, poucos dias depois de ter anunciado com trombetas que iria revelar ao mundo um arsenal iraniano capturado às milícias, se veio a saber que não há qualquer armamento iraniano envolvido. Chatice. Há que procurar outro casus belli e depressa, que o Superpateta está por um fio.
Já no Líbano, as negociações com os terroristas do Hezbollah provavelmente não foram boa idéia. Os rapazes estão agora numa posição magnífica, depois de terem resistido à tentação de cilindrar todos os adversários duma assentada.
Deixo aqui um singelo contributo... Uma vez que a Al Qaeda apelou à guerra santa contra os apóstatas do Hezbollah, podíamos dar um toque ao Bin Laden e oferecer-lhe um patrocínio.
Em nosso nome
Um curioso argumento que tenho lido e ouvido com regularidade, relacionado com o ghetto de Gaza, é o de que a retirada dos colonatos israelitas teria resultado na entrega do território à responsabilidade plena dos palestinianos e que estes se terão mostrado incapazes de fazer funcionar a economia.
Bom, após sujeitarmos 1,3 milhões de pessoas a tantos meses de bloqueio, estranho é que haja ainda alguma actividade.
Para que se tenha uma idéia emblemática sobre o ponto a que esta punição colectiva da população civil foi levado, noto que neste fim-de-semana as padarias não puderam produzir pão.
Para que se tenha uma idéia menos emblemática de como o processo se tem desenrolado ao longo do tempo, remeto o leitor para o artigo Gaza: The Death of Industry, de Saleh al Naeimi, onde se descreve o colapso da actividade industrial.
Lembro ao leitor, cidadão de pleno direito da UE, que esta União é uma das entidades que apoiam o bloqueio.
Reunião Tupperware
Há alguns anos atrás participei num debate sobre a Palestina, e chocou-me na altura o seguidismo da audiência. Chocou-me ainda mais a prudência do representante da OLP, que, mesmo acicatado, não se desviou um milímetro da linha fotogénica, deixando-me tão enriquecido como quando lá chegara.
Há uns dias atrás, chegou a vez do sionismo, a pretexto das comemorações dos 60 anos de Israel. O anúncio do evento prometia conferência e debate sobre a actual situação do Médio Oriente. Lá fui de cabelos ao vento.
Oops. Uma audiência minúscula, frente a uma mesa com um jornalista equidistante, um trotskista arrependido e um jovial cidadão israelita.
O mote foi dado logo no início, quando o trotskista arrependido nos ensinou que as posições anti-sionistas resultam de ignorância. Fiquei a saber logo ali que sou um igorante.
A coisa prosseguiu, com uma lenta sucessão de declarações de princípios, dentro de limites que eu achava que já tinham sido postos de lado, mas que afinal ainda sobrevivem: os palestinianos não existem, o mufti de Jerusalém era nazi, a comunidade judaica gerou muitos prémios Nobel, Israel é um farol da democracia,...
Tentei questionar algumas das afirmações e avançar para o que seria importante, mas, sendo a única voz dissidente, precisaria de duas coisas importantes, que infelizmente não existiram:
- Algum apoio da mesa para evitar a dispersão;
- Um interlocutor pró-sionista que pudesse validar as afirmações que fiz quanto à realidade actual, estabelecendo uma plataforma minimamente realista sobre a qual pudéssemos em seguida elaborar.
Curiosamente, o cidadão israelita, que me parecia um bom alvo para o segundo ponto, parecia desconhecer que o Hamas fosse o vencedor das eleições palestinianas, ou que o governo israelita estivesse obrigado à devolução de impostos à AP, ou que haja quase 500 postos de controle nos territórios ocupados, ou que haja dezenas de colonatos na Cisjordânia, ou qual a distribuição territorial proposta por Sharon.
Não me pareceu portanto que valesse a pena pedir opiniões sobre a aparente contradição dum estado simultaneamente democrático e confessional ( embora não me tenha escapado que vários intervenientes tenham sentido uma irreprimível necessidade de afirmar a pés juntos que Israel não é um estado confessional ), o esforço diplomático para estabelecimento de uma frente anti-xiita e sua desautorização pelos EUA, agravidade da semelhança entre Gaza e Varsóvia, a decadência moral ( semelhante à experimentada pelos militares portugueses nas colónias ) relatada em primeira mão na segunda edição do Breaking the Silence, a periódica aparição de grupos neonazis entre israelitas de segunda geração, a travagem dos processos rápidos de conversão que ajudaram ao crescimento demográfico mas ameaçavam a descaracterização do estado, a possibilidade de criação de um estado único que integre os 8 milhões de israelitas e 8 milhões de palestinianos como cidadãos de pleno direito,... A lista seria bem longa.
Suscitou-me alguma esperança a intervenção de uma figura discretamente sentada na última fila, que julgo ser pessoa com algum ascendente na comunidade judaica. Apesar de não poder dispor de muito tempo, teve a cortesia de pôr os pontos nos is quanto à representatividade doHamas, mas terminou a sua presença com uma ( mais uma ) exposição sobre as magníficas realizações e a imensa simpatia dos israelitas.
Julgava que iria participar num debate político, não numa reunião de vendas duma agência de viagens. Saí tão enriquecido como quando lá cheguei, mas não perco a esperança, pode ser que alguém venha um dia a organizar um debate digno desse nome.
Precisamos dele.
Indigestão de percepções
A novela dos comentadores militares norte-americanos vai talvez ganhar alguma vitalidade.
Cerca de quarenta congressistas solicitaram ao inspector-geral do Departamento de Defesa que investigue o assunto e se pronuncie sobre eventual ilegalidade.
Note-se que a notícia original do NYT foi abafada pelos media norte-americanos, o que não deixa de ser curioso, se tivermos em conta que estamos a falar de 75 ( sim, setenta e cinco ) comentadores. Qualquer que seja o ponto de onde se observe a questão, é manifesto que durante vários anos esses comentadores, supostamente independentes, se deixaram envolver num processo de manipulação da opinião pública em larga escala.
Mais uma vez, fico à espera da reacção dos media portugueses. Por via das dúvidas, já puxei uma cadeirinha.
Tau-tau no rabinho ou pum-pum na cabeça ?
O Superpateta parece decidido a não abandonar a Casa Branca sem um último disparate.
Na ânsia de reequilibrar a balança estratégica depois do desastre iraquiano, qualquer motivo será bom para a abertura de hostilidades contra o Irão.
Objectivos concretos, espanto dos espantos, não parecem existir. Dir-se-ia que há apenas a intenção de 'dar um sinal' à liderança iraniana para que não insista muito na solidificação da sua nova área de influência. Tem sido essa a opinião de alguns, e é hoje repetida de forma mais alarmante pelo American Conservative .
Mas uma análise coproscópica mais fina pode sugerir outra coisa... Pode não se tratar de um mero sinal mas sim de um acto destinado a provocar uma resposta agressiva dos iranianos, um qualquer Golfo de Tonquin que constituiria pretexto ideal para um subsequente ataque aéreo massivo pelas tropas imperiais ( se o Irão cair na esparrela, o que não julgo muito provável ).
Se olharmos de perto para a situação, este é de facto o momento apropriado, pois no final do ano os EUA terão as mãos amarradas pela quase simultaneidade das suas eleições com as eleições iraquianas, o que significa que uma eventual mudança no xadrez político iraquiano não poderá ser devidamente acompanhada durante o render da guarda na liderança imperial.
O chamamento
Partido curioso, o PSD.
Nascido como pombinha liberal no ambiente cinzento da coisa salazarenta, recebeu baptismo e crisma já sob o novo regime, que achou piada àquela criança, a um tempo desabrida e solene.
Passado o fulgor da adolescência, já endurecido pela vida, conseguia ainda assim cativar um largo segmento, quase, quase interclassista, de gente unida no sonho burguês da Respeitabilidade, do Progresso, da Elevação Individual.
Mas é dura a vida, e cedo o irmão chucha lhe roubou o sonho e o tomou como seu. Erra agora o PSD, decapitado e sem alma, palco de vaidades menores que se canibalizam.
Falta-lhe um Líder.
Um líder que não precisa de ser um génio das finanças ou um douto em leis. Um que precisa antes de aproximar do Povo e de saber conduzi-lo, marcando a diferença senão pela substância ao menos pelo estilo, a um novo ciclo radioso de poder.
E esse Líder existe, aguarda apenas que o chamem...
A agonia de um títere
A farsa parece estar a chegar ao fim, como todas as que a precederam.
Logo após Abbas ter confessado o seu despontamento quanto aos resultados do encontro com o Superpateta, o Hamas ( com toda a pertinência, diria eu ) sugeriu-lhe que oficialmente considere fracassadas as negociações para o estabelecimento do estado palestiniano.
De facto, mais uma vez, não só o governo israelita pretende de forma ostensiva arrastar os pés sem se expor a qualquer compromisso sério, como a administração norte-americana cobre a palhaçada sem um único gesto de protesto com efeitos práticos.
No estado em que as coisas se encontram, ao sabotar uma negociação crítica que se desejaria séria, Israel joga a sua existência com uma leviandade digna de nota.
Vejamos:
A norte e a sul enfrenta agora, pela primeira vez, duas forças não estatais bem organizadas, capazes de promover a curto prazo, sem intervenção directa de terceiros, uma acção de desgaste intensiva, à qual não poderá responder sem um massacre indiscriminado em larga escala, com uma posição política enfraquecida por manifesta má-fé.
Para contrabalançar esse perigo, o governo de Olmert tem vindo a alimentar ilusões perigosas quanto à possibilidade de cindir o campo islâmico, por um lado através de uma paz separada com a Síria, por outro através do estabelecimento de uma frente de conveniência com países sunitas para alegadamente contrabalançar o avanço xiita.
Será útil que fixemos na memória este momento, para que mais tarde os distintos agentes não possam descartar-se das suas responsabilidades. Todo o Ocidente se envolveu de forma inequívoca no boicote abjecto a um governo dotado de clara legitimidade democrática. Todo o Ocidente se solidariza agora com a destruição política do idiota útil Abbas. Veremos como irão os governos e cidadãos dos países ocidentais reagir ao que muito provavelmente se segue.
Negócio fechado ?...
Assim parece.
O comando das hostes dos Talimaus no Paquistão ordenou um cessar-fogo aos seus petizes. Para que não haja problemas de interpretação, o comando advertiu que quem continuasse a atacar as tropas governamentais seria tratado de forma pouco simpática. Bom, parece que os Talimaus fecharam uma frente de guerra. Afeganistão, aí vão eles.
Do lado afegão, crescem também os esforços dos Talibons para negociar qualquer coisa com os Talimaus. Mais precisamente, a idéia será cativar os Talipoucomaus para uma partilha de poder, na esperança de que se divorciem dos Talimuitomaus. No meio das festividades, a NATO vai reforçando a sua carne para canhão, pois parece não ter grandes alternativas depois de se ter encafuado neste buraco. Adoramos fazer figura de parvos.
Tarzan Taborda vai às cordas
K.O. ao quarto assalto.
A imprensa aguentou os embates da rádio e da televisão, entrincheirou-se numa galáxia de nichos especializados, mas soçobra perante a acessibilidade das fontes na Internet, que proporciona ao consumidor final uma margem de manobra simplesmente imbatível.
À medida que o tempo passa, as tiragens diminuem e a publicidade procura novos meios, cada vez mais diversificados.
Nos próximos dias, é esperada uma redução drástica nos quadros do New York Times. No meio desse e de outros ajustes, muitos jornalistas de grande qualidade irão perder o seu púlpito. Infelizmente, não irão ser reaproveitados pelas empresas que operam na Internet. Estas, noblesse oblige, tendem cada vez mais para o imediatismo em detrimento da integração e da análise. Paradoxalmente, ao mesmo tempo que a Internet proporciona uma quantidade tremenda de informação e um grau de liberdade de expressão nunca antes experimentado, acaba também por enterrar a imprensa escrita, e com ela os seus serviços de integração e análise.
Horror dos horrores, as cadeias de televisão, cada vez mais concentradas e sujeitas a forte censura, acabam por receber de mão beijada, sem qualquer esforço, o monopólio desses serviços.
Ideologia, a Gata Borralheira dos nossos tempos
Como é de uso, quando se fala em ideologias imediatamente alguém se arrepia com a palavra e sugere uma outra coisa. No caso, um leitor propôs em alternativa uma reflexão sobre estratégias futuras.
Bom, de onde vem esta alergia a uma palavra tão interessante ?...
Esmiucemos... De forma simplificada, pode entender-se por ideologia qualquer corpo coerente de idéias que conferem algum tipo de justificação ética a uma prática.
Como alguém já referiu, usualmente a ideologia sucede à prática, não a precede.
Andemos para trás no tempo. Se observarmos as grandes mudanças qualitativas ao longo da História, podemos com alguma segurança afirmar que elas não foram precedidas de uma justificação coerente. Tipicamente, tratou-se de ajustes involuntários ( muitas vezes revolucionários ) resultantes da inadequação da ideologia vigente à realidade. Mas, particularmente na Europa, assume particular interesse o período que se inicia com o descalabro do absolutismo e termina no colapso da URSS, pela sua fecundidade do ponto de vista da produção ideológica, gerando um largo leque de opções, algumas delas com impactos muito dramáticos.
À saída deste período, venceu aos pontos uma versão da ideologia ( quase ) liberal. E, como tantas vezes acontece, criou-se então a ilusão de que o modelo proposto seria quase consensual e, mais ainda, representaria um cume inultrapassável, um compromisso que duraria por toda a eternidade. Houve até um rapaz muito jeitoso que jurou a pés juntos que tínhamos alcançado o fim da História, mas acabou por ter de se retractar alguns anos depois...
Nada de novo. A expressão sempre foi assim e há-de ser sempre assim é manifestamente falsa, como as inúmeras reviravoltas da História nos mostram, mas é talvez uma das frases que, ela sim, terá acompanhado desde sempre a humanidade. Trata-se apenas de uma de várias manifestações negativas do modo de funcionamento do nosso cérebro.
Sugiro, portanto, que será prudente olharmos para o mundo com sentido mais crítico, porque algumas das coisas em que acreditamos simplesmente não têm fundamento. De momento, uma das crenças que me parecem mais perigosas é a da associação entre a democracia política e um sistema económico capitalista quase liberal. Uma outra é a de uma infinita criatividade, supostamente capaz de gerar novas áreas de negócio que absorvam as massas humanas rejeitadas em virtude do contínuo aumento de produtividade num planeta em que os mercados atingem a sua dimensão máxima com a globalização.
Ora, noto que o sistema chinês, fortemente dirigista e completamente divorciado do humanismo ocidental, se apresenta hoje como solução de sucesso e promete ser a potência dominante dentro de duas ou três décadas, forçando os países ocidentais a um drástico e incondicional realinhamento por baixo.
Parece-me que o nosso sistema de crenças vai entrar em crise a curto prazo... Parece-me que seria prudente começarmos desde já a pôr os pontos nos is, em vez de nos colocarmos na péssima posição de ter de reagir em cima do acontecimento.
Por isso me parece, enfim, que a palavra ideologia não deveria ser maltratada. Vamos precisar dessa palavra.
Cautela e caldos de galinha
Vimos recentemente os primeiros sinais de alerta para o problema da escassez de alimentos, e assistimos de imediato à ressurreição do proteccionismo na sua pior forma, com cerca de dez grandes exportadores a impor restrições à saída do novo ouro. Nada de estranho, nada de imprevisível.
Há cerca de seis meses atrás, quando alguém me questionou sobre investimentos seguros, respondi de forma simples: produtos alimentares. Julgo que a pessoa em causa perceberá agora a que me referia.
Clarifiquemos, no entanto. A crise actual não passa de um prenúncio, algo que resulta para já de aspectos circunstanciais, que podem ser facilmente minimizados no quadro das instituições internacionais de regulação comercial existentes.
Trata-se de um núcleo de baixas pressões, sugado de um lado pelo aumento gradual da procura, de outro por incidentes naturais ou incompetência humana, e de outro ainda pela desastrosa performance da D. Branca norte-americana.
Não resisto no entanto a relevar o gozo imoral que me dão as notícias que chegam dos EUA... As que nos dão conta do racionamento imposto por várias cadeias de retalho a venda de diversos cereais, face à súbita tentação de açambarcamento que acometeu esta maravilhosa classe média.
Também por aí, não criemos no entanto angústias sem sentido. Se há problemas no abastecimento por parte dessas cadeias, eles decorrem apenas, para já, do modelo de gestão mais difundido, cujo primeiro mandamento é Não manterás stocks para mais de 24 horas, caso contrário vais para o olho da rua.
Gozo à parte, talvez fosse interessante que a lusa governação começasse a pensar no assunto, não vá o diabo tecê-las. E seguramente, o diabo vai tecê-las.
Gestão de percepções
A recolha, tratamento e difusão de notícias tem na cena internacional um reduzido número de agências de topo, o que potencialmente reduz o leque de visões que o consumidor final pode obter.
Por trás dos factos e opiniões que nos são apresentados nos noticiários nacionais estão essas agências de topo, não havendo portanto um grande trabalho local de investigação, mas um mero trabalho de filtragem final.
Usualmentes, o resultado não é muito credível.
E menos credível se torna quando, nalguns raros momentos, nos é dado perceber o grau de sujeição ao poder a que algumas das grandes cadeias dos media estão submetidas.
Num trabalho muito interessante, o New York Times decidiu focar a atenção sobre os comentadores militares que nessas grandes cadeias periodicamente se pronunciam sobre o desenvolvimento de situações como o Iraque ...
Seria de esperar que esses comentadores expressassem opiniões informadas e com elevado grau de isenção. Afinal de contas, têm a responsabilidade de ajudar um elevadíssimo número de cidadãos a interpretar os factos que se vão sucedendo.
O que o NYT expõe, afinal, é uma teia de relações centrada no Pentágono, um exercício metódico e persistente de influência directa sobre o tipo de interpretações a veicular pelos comentadores.
Para mais detalhes, divirta-se lendo o artigo . Noto que o eco já se espalhou um pouco por todo o planeta, tanto quanto posso observar. Sugiro ao leitor que esteja atento ao tratamento deste assunto pelos media nacionais, nos próximos dias.
Ainda o caixeiro viajante
É difícil perceber o contexto em que a viagem de Carter foi definida. Se por um lado a frente unida do Ocidente martela incessantemente a tecla do Hamas-muito-mau, e apregoa uma decisão férrea de o ignorar a todo o custo, apresenta continuamente sinais de algum realismo, ao concordar que o Hamas tem a legitimidade que falta à Fatah e que sem o Hamas qualquer acordo que se cozinhe será apenas mais uma história de fadas.
Veja-se que as manifestações informais de apoio a esta iniciativa surgem em vários pontos, incluindo pelo menos uma figura de topo do governo israelita. Ao mesmo tempo, são muitas as manifestações de desagrado, chegando a congressista Sue Myrick a exigir que o passaporte de Carter seja confiscado.
Embora se possa ver nesta salgalhada a desorientação inevitável que resulta da estratégia pateta de isolamento do Hamas, julgo que assistimos a algo mais profundo, um combate surdo entre duas linhas políticas no interior das estruturas de poder ocidentais, uma mais retrógrada que defende a posição colonialista com unhas e dentes, uma outra com motivações não necessariamente muito diferentes mas pelo menos com a consciência de que a farsa não pode arrastar-se por muito mais tempo.
Esta última linha continua em desvantagem, quanto mais não seja porque os incompetentes governos ocidentais, depois de se meterem neste buraco, não podem facilmente voltar atrás sem perder a face. É exemplo da actual correlação de forças, cá no nosso cantinho, a censura a que os media se sujeitam, calando as manifestações de apoio a Carter, e, pior que isso, calando as suas declarações mais incisivas. Veja-se o rigor e a profundidade:
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1326308&idCanal=11
Continuamos a viver ( e a querer viver ) num mundo orientado por narrativas efabuladas... Será bom que tenhamos consciência de que há um preço a pagar.
Como nota de rodapé, refiro que nos próximos dias a imprensa israelita poderá levantar a tampa sobre alguns assuntos que têm estado bem escondidos, e que não se relacionam com a visita de Carter. Depois de ver os ecos na imprensa ocidental, voltarei ao tema.
O cano de esgoto
O centro é o ralo por onde a democracia se escoa.
Ao longo do processo político desde 74, alguns, poucos, tiveram o cuidado de alertar para essa perversão. Neste ponto do campeonato, seja do ponto de vista formal por via dos arranjinhos parlamentares, seja do ponto de vista prático pelos golpes de cintura dos grupos de interesse prevalecentes nos dois maiores partidos, chegámos a uma situação que nem a fantasiosa alternância consegue mascarar, a da identidade ideológica desses dois partidos.
Vem isto a propósito da novíssima cena de faca e alguidar com que o PSD mais uma vez nos brinda, uma liturgia que ameaça tornar-se tão regular como um relógio de cuco. Sendo os dois partidos apoiantes plenos de um mesmo capitalismo-liberal-mas-não-muito, ao que se encontre circunstancialmente no poder cabe nesta época apenas a responsabilidade de garantir que a incontornável depreciação do estado não seja demasiado estrepitosa.
Quanto à fase seguinte, nenhum dos dois tem qualquer idéia, mas essa é uma falha que a realidade se encarregará de resolver.
Não admira portanto que, como aconteceu antes com o PS quando estava na oposição, o PSD esteja agora condenado a defenestrar o líder uma ou duas vezes por ano. Na ausência de causas políticas minimamente dignas desse nome, resta ao partido da oposição o canibalismo.
Chama-se a isso ginástica de manutenção. E se acontece hoje no PSD, acontecerá amanhã no PS quando por um qualquer acaso seja temporariamente arredado do poder.
Querido leitor, enquanto o mito da morte das ideologias perdurar, tenha lá paciência mas vai ter de engolir muitas vezes este tipo de palhaçadas. Aguente-se à bronca e tenha fé.
O viajante silenciado
Apesar de não ter ainda terminado a passeio de Carter pelo deserto, apetece-me botar já alguma faladura sobre o assunto.
Ainda o homem não tinha começado, já os poderes se mexiam para que em caso algum se encontrasse com o Hamas. Mal pôs os pés em Israel, ficou a saber-se que o governo, ostensivamente, não lhe garantiria segurança. Quando tentou ir a Gaza, o governo não lhe concedeu autorização.
No problem... Carter encountrou-se com o Hamas, no Egipto. E vai encontrar-se novamente, na Síria, na semana que vem. Depois do encontro no Cairo, fez uma pequena conferência na universidade americana, para dizer algumas coisas desagradáveis, a saber:
- Que o bloqueio imposto a Gaza é um crime e uma atrocidade;
- Que os palestinianos de Gaza estão a ser condenados à fome, com direito a menos calorias que os habitantes dos países mais pobres da África;
- Que, politicamente, esta atrocidade acabou por fortalecer o Hamas, em detrimento da Fatah.
Talimaus e Talibons
Querido leitor, arrependa-se e reze três pai-nossos.
Lembra-se de quando se horrorizava com as histórias terríveis sobre uns orientais primitivos que dinamitavam Budas ? Lembra-se de ter chorado com emoção a morte do Leão do Panshir, nobre e generoso líder dos Talibons ? Lembra-se do regozijo que lhe encheu o coração, quando se irmanou com a pobre populaça finalmente livre do jugo dos Talimaus ?
Definitivamente, os valores das democracias ocidentais não se vendem bem por catálogo. Mais tarde ou mais cedo, o make-up esfarela-se e as grandes linhas de força dos processos culturais emergem. No caso afegão, terá sido mais cedo que tarde. Veja-se a rapidez com que o país, logo que os Talimaus foram corridos, retomou o top de vendas dos opiáceos e ali se mantém. Ou a rapidez com que os senhores feudais sedimentaram o seu poder reconquistado. Veja-se também como, passo a passo, as grandes linhas de força se transformam em lei:
Afghan parliament committee drafts Taliban-style moral law
AFP
http://news.yahoo.com/s/afp/20080416/wl_sthasia_afp/afghanistanculturerelgionparliament
Desiludido, querido leitor ? A culpa é sua. Não se iludisse com narrativas fantasiosas.
A barriguinha quer-se cheia
E de repente, o FMI lembrou-se...Aqui d'el-rei, que isto vai dar para o torto, e centenas de milhar de pessoas irão morrer à fome. Tentemos perceber melhor o que se passa, porque isto parece não fazer muito sentido para nós, europeus, que pagamos aos nossos agricultores para que não produzam.
Por entre dois bocejos, a tendência de fundo tem sido vagamente reconhecida. Com um lote de mil milhões de novas bocas para alimentar a cada 10 ou 15 anos, seria necessário aumentar continuamente a dimensão e a produtividade das áreas cultivadas para que o balanço fosse neutro. Ora, não sendo os solos um maná inesgotável, a sua sobreexploração e a diminuição contínua da área aproveitável aconselhariam algumas medidas de precaução, mais ainda quando alguma projectada instabilidade climática promete ajudar à degradação rápida de zonas muito vastas do planeta, precisamente aquelas em que a concentração de pessoas e terras aráveis é maior.
Até ao momento, nada fizémos.
Do lado dos países mais desenvolvidos, uma mistura de sentimentos de segurança, impotência ou inevitabilidade, talvez associados a uma cínica esperança num ajuste malthusiano que reduza parte da procura. Se quisermos perceber como a coisa funciona, basta olhar para os hutus e tutsis, ou para alguns dos conflitos mais recentes. O mesmo cenário começa agora colocar-se em países um pouco mais ricos, e não poderia ser de outra forma. Ainda assim , devo dizer que acho arrepiante a visão de um camião de transporte de cereais sendo escoltado por homens armados de metralhadora.
Dir-se-à que a crise actual não será duradoura. Afinal de contas, os últimos dois ou três anos foram desastrosos em termos de colheitas e uma situação dessas não se prolonga indefinidamente. É verdade que estamos perante um pico de procura, mas, se as consequências são estas, a razão está no progressivo esgotamento dos stocks de reserva. Ao longo dos últimos dez anos, a humanidade tem estado a consumir mais do que produz, e a margem de manobra para reagir aos imprevistos desapareceu.Em boa verdade, portanto, sem esses imprevistos a crise que agora vivemos iria surgir, mas apenas daqui a quatro ou cinco anos.
Acordámos, com algum estrépito. Porquê ? Porque para os países ricos, que se julgavam de certa forma capazes de manter a crise alimentar no interior dos limites fronteiriços dos países mais pobres, foram confrontados com uma situação curiosa, que provavelmente vai alargar-se, a da gestão política de alguns exportadores tradicionais, que simplesmente estabeleceram tectos de exportação para evitar que a inflação degenere em convulsão social. Temos aqui, portanto, um primeiro sinal de retorno aos mercados controlados. Não basta agora ter dinheiro para comprar, é necessário que do outro lado os governos ( já não os produtores ) se disponham a vender.
Cada um por si e o diabo por todos, parece ser o mote. E o Santo Graal que todos procuram agora é o da auto-suficiência. Se alguns governos optam por investimentos massivos na produção agrícola no seu próprio território, outros, com terras mais estéreis ou mais sobreexploradas, inauguram um novo processo, o do 'aluguer' de vastas áreas cultivadas ou cultiváveis em território de outros países. O bicho homem é muito criativo.
Ah, antes que me esqueça, querido leitor... Se estava a pensar num ecológico pópó a etanol, comece a pensar noutra coisa, antes que o acusem de homicídio por negligência.
Pedro Bandeira Freire
Soube há pouco tempo atrás que a IGAC tinha ordenado o encerramento das salas do Quarteto.
Sei agora que Pedro Bandeira Freire se encontra internado, em estado grave.
Dos espaços culturais que tenho conhecido ao longo da vida, um dos que melhores memórias me traz é o Quarteto. Não apenas pelo cinema, que PBF soube oferecer de forma então inovadora, enriquecida ainda mais pela sua alma de cinéfilo...
É também pela aposta que fez há um quarto de século atrás, quando abriu a porta ao teatro Emarginato. Ocupávamos o espaço e o tempo de uma sessão de cinema, numa das salas. Um espaço físico reduzido, é certo, mas suficientemente grande para que ali se tenham criado momentos que guardo na memória como se de preciosidades se tratasse.
Obrigado, Pedro Bandeira Freire.
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1325694
Sinceras condoleezzas
A mórbida figura chega-se à frente, tal como vaticinado.
Não há agora sessão pública relacionada com McCain em que esta varejeira sinistra não insinue morcegos mensageiros, promovendo a sua natural candidatura ao cargo de vice...
Um acto de desespero, já que a colagem carreirista ao Superpateta é uma nódoa que nem a benzina esmaece.
Mas... Uma análise coproscópica cuidadosa do circo de horrores em que se transformou a cena política imperial, pasme-se, leva-me a crer que o duo McCain/Condoleezza seria panaceia adequada para os males do mundo...
Um mix de cinismo, traição e realismo com algum valor, ao contrário da paranóia narcísica de Hillary ou do messianismo bacoco de Obama.
Qualquer criatura que sobreviva a Rumsfeld merece o meu respeito e veneração. Amen, vai em frente, cachopa.
Homicídio, Inc.
O reconfortante manto da censura vai-se estendendo sobre a Net, é certo, garantindo-nos a possibilidade de fazer de conta que nada sabemos.
Não foi a tempo, no entanto, de esconder alguns dos episódios mais hediondos da nossa aventura nas areias iraquianas.
Entre muitas outras imagens particularmente cruéis, ficou-me na memória a filmagem do passeio de uma equipa de segurança privada ao longo de uma estrada de periferia urbana. Nessa filmagem, feita pelos próprios, o divertimento consistia em alvejar a tiro de metralhadora, aleatoriamente, os condutores dos veículos que por funesto acaso se aproximassem. Julgo que foi nesse momento que percebi as imagens anteriores sobre uma outra equipa, vitimada em Fallujah, transformada em torresmo e pendurada na ponte para gozo da populaça, episódio que haveria de causar um dos casos mais graves de punição colectiva da população civil, com o cerco e esvaziamento dessa cidade de quase 300000 habitantes, seguido da sua destruição .
Na raíz desta loucura está o recurso a empresas privadas de segurança com garantia de imunidade pelos crimes que cometam. Um complemento incontrolável, com dezenas de milhar de efectivos, das tropas imperiais regulares.
No centro desse grupo de mercenários está a Blackwater, cujo contrato foi agora renovado, sem atender às objecções do débil governo iraquiano. Rumsfeld fez escola.
O homem doente está a espirrar
Confesso que em vez de uma União Europeia preferiria, por um grande número de razões, uma União Mediterrânica.
Mais deixemos os sonhos de lado, que os meus concidadãos europeus preferem continuar a efabular sobre um clube europeu da cristandade, apesar de serem maioritariamente ateus ou agnósticos.
Ficar-me-ia então pelo paliativo mais próximo, a inclusão de um país de charneira, suficientemente pesado para que pudesse constituir um sinal sério de abertura. Precisamos disso como de pão para a boca.
A Turquia serve às mil maravilhas. Meio europeia, meio islâmica, meio democrática, meio tudo.
Não sendo a ponte perfeita para o mundo árabe, é o mais próximo que podemos encontrar. E vontade de inclusão parece não faltar.
A Turquia tem consciência plena do seu estatuto de charneira, e fez a sua escolha europeia em devido tempo, não uma mas várias vezes.
Infelizmente, não parece acontecer o mesmo do lado de cá, a resposta da UE tem sido um infindável e humilhante arrasta-pés, cujos resultados se vão tornando cada vez mais inquietantes. O capital de vontade política que as forças laicas ou religiosas turcas possam ter não é inesgotável, e a persistência de alguns de nós na efectiva construção de uma pindérica Fortaleza Europa está a minar lentamente essa vontade. Um passo aqui, outro além, e a Turquia acabará por desistir de várias coisas, laicidade incluída. Podemos ver o processo em marcha, e as suas fases seguintes poderão ser violentas e decisivas, acabando na morte definitiva de Ataturk.
A UE, por razões que a minha limitada razão desconhece, optou por investir a Leste o que deveria ter investido a Sudeste ou a Sul, e não parece ter tempo ou sequer vontade para emendar a mão.
O homem doente da Europa está a espirrar.
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1324727&idCanal=11
A gestão dos ventos
Matt Drudge, fenómeno do Entroncamento.
Um franco-atirador do jornalismo, um matador solitário, que em boa hora decidiu complementar o seu trabalho com o dos outros, criando o Drudge Report ( http://www.drudgereport.com/ ).
A chave do sucesso deste empreendimento é um misto de rapidez, um levantar da lebre ainda numa fase incipiente de validação da informação, com uma selecção cuidadosa das novidades de maior impacto e das fontes que as veiculam.
Números ? ... Uma subida constante ao longo dos anos, com um recorde de aproximadamente 500 milhões de visitas no passado mês de Março.
E a outra face da moeda... Sem qualquer exposição pessoal, pela mera gestão dos títulos, vai fazendo um jogo de influência em que a sua tendência conservadora sobressai. Em particular, tenho-me deliciado com a subtil pulhice com que trata as candidaturas presidenciais. Um verdadeiro Detritus.
Palminhas, palminhas.
As delícias do Grande Jogo
Uma das linhas de força mais importantes na cimeira da NATO, tão ou mais importante que a questão do alargamento, foi a necessidade de garantir maior empenho na estabilização do Afeganistão. A razão é simples, todo o esforço feito até agora na construção de uma democracia pluralista está em risco.
A tarefa não se adivinhava fácil. O país foi seriamente degradado por décadas de guerras, que acabaram por promover as lealdades tribais em detrimento do sentimento nacional, e a cruel unificação sob domínio Taliban foi interrompida pela intervenção dos países ocidentais, que dessa forma assumiram ingenuamente a responsabilidade de prosseguir a unificação em moldes mais humanos, quando lhes interessaria acima de tudo garantir alguma influência num país estrategicamente valioso. Chamem-me cínico, mas creio que poderíamos tê-lo feito sem abater os Taliban.
Como aconteceria em seguida no Iraque, pecaram os países ocidentais, julgo eu, por erro injustificado e persistente. Erro na demonização imprudente dos Taliban, erro na avaliação da correlação de forças. Quanto ao primeiro, pareceu-me na altura indício óbvio o conjunto de atrocidades cometidos pela Aliança do Norte. Do seu episódio mais grave fica a lembrança de uma investigação da ONU, nunca concluída, sobre a chacina de centenas de Taliban em contentores.Quanto ao segundo, pareceu-me e parece-me estranho que não se tenha reflectido sobre as razões que conduziram os Taliban ao poder.
Seis anos depois, estamos quase na estaca zero, com uma pequena agravante... O Paquistão, forçado a transformar o seu território numa das frentes de guerra que supostamente contribuiria para esmagar os Taliban e a Al-Qaeda, atirou agora a toalha ao tapete, ao negar a Musharraf a possibilidade de manter a aliança com o Ocidente, pois esta começava a ameaçar seriamente a integridade do estado.Um volte-face dramático, que conduziu Negroponte a uma humilhação quando, ainda antes da tomada de posse do novo governo, decidiu ir dar ordens em casa alheia e saíu pela porta do cavalo. Rei morto rei posto, o Paquistão inicia agora um processo negocial com os Taliban. Fechada esta frente de combate, eles ficarão totalmente disponíveis para o teatro afegão, o mesmo acontecendo aos muchachos da Al-Qaeda e até alguns desempregados da quezília de Cachemira.
Um quadro pouco auspicioso para nós, daí a urgência num maior empenho dos membros da NATO. Por mais que limpe as lentes do meu coproscópio, no entanto, não consigo perceber onde queremos chegar...
O menino que comia erva
Tinha de ser... Uns artistas britânicos da universidade de Newcastle andaram a brincar às casinhas e plantaram núcleos humanos em óvulos de vaca. Não foram muito longe, e agiram com as devidas autorizações. Usaram apenas meia dúzia de células e ao fim de alguns dias foi tudo pela retrete abaixo, pois aparentemente os híbridos não conseguiram sobreviver mais de três dias, o que faz algum sentido.
Adiante. Embora seja a primeira vez, julgo eu, que esta habilidade é executada com material humano, pode dizer-se que já foi banalizada com componentes de outras espécies. É sempre divertido e permite ir percebendo em que medida a maquinaria celular de um hospedeiro é compatível, ou auto-ajustável, de acordo com as necessidades do DNA hóspede e as suas determinações.
Presumamos então que por um qualquer milagre o DNA do núcleo invasor acabe por ser expresso e rapidamente o hospedeiro seja preenchido por um novíssimo bouquet de proteínas, em vez de se desfazer sem honra numa gosma aquosa... Ainda assim, não estaríamos perante a transferência da totalidade da informação que constitui o bilhete de identidade das nossas células. Faltam algumas coisitas, como as mitocôndrias, que no caso ensaiado continuaram a ser as da vaca. Gostaria muuuuito de saber o que poderia resultar de tão colorida mistura, caso se garantisse a constituição de uma colónia mais populosa. Sei lá, uma colónia que tivesse bracinhos e perninhas e dissesse 'mãmã', por exemplo.
Partilha da minha curiosidade, querido leitor ?
Os ultracongelados
De vez em quando, percorro textos mais antigos, em jeito de auditoria, à procura de erros de percepção cuja repetição deva ser evitada. Correcção de tiro, chamemos-lhe assim...
Muitos desses textos são hoje obsoletos, por força da alteração das circunstâncias ou da dinâmica dos costumes.
Não é assim em todos os casos, infelizmente. Nalguns aspectos, talvez dos mais centrais do ponto de vista ideológico, permanecemos bloqueados enquanto a realidade avança.
No seguimento de uma discussão tida este fim-de-semana, fui procurar algo que tinha escrito há quatro anos atrás. Convido o leitor (e com particular ênfase os que participaram na discussão) a espreitar esse artigo e a reflectir sobre as mudanças ocorridas desde então. Pela minha parte, não encontro nenhuma.
http://www.infoalternativa.org/moriente/mo010.htm
O meu clube tem mais sócios que o teu
No diz-que-disse associado ao campeonato da liga das divindades, a direcção do clube católico veio hoje a público admitir que um marco histórico foi estabelecido: o clube islâmico acaba de lhe passar à frente em número de sócios.
O anúncio foi feito pela voz do comentador Monsignor Vittorio Formenti no jornal do clube, o Osservatore Romano.
Sadram
A serem verdadeiras as notícias, mais uma vez o anafadinho Sadr, com a cabeça no cepo, terá transformado a derrota em vitória.
A couve galega
Agora que a Inglaterra se prepara para remover os maiores obstáculos à investigação criativa envolvendo embriões humanos, abre-se um universo de possibilidades com implicações éticas particularmente sérias.
À discussão deste tema, infelizmente e comme d'habitude, a massa ignara dos cidadãos não é chamada. Porque lamento essa falha e simultaneamente chamo burros aos cidadãos ?... Bom, porque me parece pertinente.
Para que fique claro, não tenho qualquer oposição de princípio à manipulação do desenvolvimento embrionário a partir de células estaminais ou à produção de colónias viáveis de células híbridas.
Para todos os efeitos, já transpusémos o portal da divindade, quer isso nos agrade ou não, e não há caminho de regresso. O que podemos e devemos fazer é estabelecer com o maior rigor possível as balizas arbitrárias dos desenvolvimentos aceitáveis, com particular atenção à arrogância cega e febril, natural nos aprendizes de feiticeiro, que vai inevitavelmente assaltar muitos dos técnicos que estão ou venham a estar envolvidos nestas actividades.
Como o caminheiro, estamos condenados a fazer caminho ao caminhar.
Lamento por isso desde logo que o primeiro projecto de liberalização, criando um precedente infeliz, venha a ser decidido não por referendo mas por uma representação parlamentar que não é forçosamente a élite esclarecida que julga ser, assessorada ou grosseiramente manipulada por um corpo científico que manifestamente também não é a élite esclarecida que julga ser.
Lamento em seguida que, como acontece em tantas áreas importantes, essas élites auto-proclamadas deliberadamente mantenham os restantes cidadãos na mais absoluta ignorância com o objectivo de legitimar essa auto-proclamação. As massas são ignorantes, e é nesse estado que as élites pretendem mantê-las.
Posto isto, devo confessar que também tenho andado a brincar aos deuses e, depois de muitas experiências infrutíferas, consegui finalmente produzir uma nova versão da couve galega, por adição de cloroplastos às células estaminais de uma senhora galega de fina extracção. O resultado, viável até à idade adulta, é demonstrado na fotografia anexa. Deve notar-se que os procedimentos técnicos são ainda um pouco incipientes, pelo que folhagem parece relativamente mirrada.
Estará Maliki maluku ?
As imagens não são dignificantes...
Logo aos primeiros balázios, os soldados do novíssimo exército governamental abandonaram veículo blindados, que logo foram capturados, usados e destruídos pela rapaziada de Sadr.
Nalguns casos, grupos de polícias e soldados simplesmente mudaram de barricada com armas e bagagens, reatando as antigas lealdades.
E se em Bassora Maliki chegou a controlar uma parte da cidade, em Sadr City a coisa correu mal e em Nassyriah e outras localidades ainda pior.
Nem os administradores imperiais escaparam... Passaram uma noite muito desagradável na Zona Verde, debaixo de bombardeamento contínuo. Pelo aspecto das explosões na área mais atingida, diria que a rapaziada acertou num grupo de depósitos de combustível. A delegação parlamentar alemã que ali se encontrava para testemunhar in loco os progressos da pacificação teve de ser recambiada. Fica para a próxima...
Depois do balde de água fria, Maliki, que tinha dados 3 dias aos sadristas para entregaram as armas, alargou o prazo para 10 dias. Não há pressa.
Confesso a minha perplexidade. Inicialmente, presumi que Maliki tinha sido instigado pela administração imperial. Como mais tarde se verá, ela teria muito a ganhar se o peso político de Sadr e Hakim diminuísse substancialmente em Bassora a muito curto prazo. Ora, se os zunzuns são verdadeiros, Maliki não comunicou a ninguém o que tencionava fazer. Bom, por um lado custa-me perceber como se monta uma operação com 30000 soldadinhos sem que a administração imperial tenha conhecimento. Por outro lado, Maliki poderá ter-se apoiado simplesmente em Hakim, um apoio que se revelou pouco substancial.
Que acontece agora ?
Só Alá sabe...
Na frente militar, apenas o envolvimento sério das tropas imperiais pode quebrar a resistência de Sadr, que, como já demonstrou em ocasiões anteriores, está sempre disposto a lutar ferozmente até à morte. A dos seus homens, entenda-se.
Na frente política, as portas fecharam-se quando xiitas e curdos se negaram a fazer intervir o parlamento, uma manobra supostamente destinada a tramar Sadr, mas que retira também a Maliki a posibilidade de uma saída airosa. A sessão parlamentar contou apenas com meia dúzia de gatos pingados, sadristas e sunitas.
Apesar do alargamento observado das hostilidades, com umas centenas de mortes uns milhares de milhões de dólares de prejuízos, arriscaria afirmar que a ofensiva irá esmorecer. Se assim for, o anafadinho Sadr irá sair mais uma vez fortalecido de uma situação desfavorável. O rapaz tem jeito para estas coisas.
Uma última palavrinha para as tropas de Sua Majestade. Encafuadas há meses no aeoroporto, devem passar o tempo nas free shops, pois nem piam. Supostamente, deveriam ter deixado Bassora num estado governável antes de removerem o grosso da manada.
Aloz, nós quelemos aloz
O arroz toma a dianteira, num sprint imbatível.
Nos mercados internacionais, o preço deu um salto de quase 30% num dia, o que significa que este produto vale agora o dobro do que valia em Janeiro.
Cambodja, Vietnam, Índia e Egipto, face à procura crescente, responderam com a limitação das exportações. Tendo em conta que a área agrícola desviada para produção de biocombustíveis já assume proporções significativas que afectam outros cereais, como acontece nos EUA, a previsão de uma crise alimentar nos países mais pobres parece estar a concretizar-ser bem mais cedo do que se poderia imaginar.
Aumento contínuo da procura, redução da oferta, stocks no quantitativo mais baixo dos últimos 30 anos... Alguém vai ficar sem nada na mesa, não tarda nada.
Dá-lhe agora, que está de costas
No meio da escaramuça entre Sadr e Maliki, há notícias de confrontos entre os sadristas do Mehdi e o Badr de Hakim, que pelos vistos aproveitou para molhar a sopa. Há que aproveitar as oportunidades.
A lágrima do insecto
Definitivamente, não foi boa idéia punir colectivamente mais de um milhão de pessoas no ghetto de Gaza pelo crime de apoiarem o Hamas. Noutros tempos ou locais estaríamos a falar de um grave crime de guerra, mas como somos nós a perpetrá-lo, o crime transmuta-se em benesse.
Bom, parece que alguns dos nossos queridos líderes acordaram. Em poucos dias, florescem por todo o Ocidente as declarações sobre a necessidade de uma reavaliação da estratégia adoptada. Até em Israel se proclama a necessidade de acabar com o bloqueio e chamar o Hamas para a mesa das negociações.
Por cima de todo este lixo, também Blair apareceu agora a apelar à mudança, pedindo pão para as bocas esfomeadas, na esperança de que as massas ignaras, com a barriguinha cheia, acabem por isolar os tenebrosos ( ai tão horrorosos ! ) extremistas. No raciocínio simples do insecto, a solução é simples: se não podemos vencê-los pela brutalidade, tentemos corrompê-los.
Bom, bom... Chega de patetices, meus senhores.
Chamar nomes ao Hamas e matar os seus membros ou metê-los na prisão não resolve nada. Seria mais ou menos equivalente a, em Portugal, acusar as Misercórdias de exercerem o crime organizado e esturricar os provedores a tiros de míssil ou metê-los todos na cadeia. Embora a acusação possa ter algum fundamento, duvido que a populaça batesse palmas.
O gânglio bem esgalhado
A mixórdia que se vê na gravura não é uma couve-flor. É antes o que resulta de um gânglio nervoso que foi crescendo e mudando ao longo de milhões de anos.
Bom, crescendo não será a palavra certa. Entre a central eléctrica simples que comanda uma minhoca e a gigantesca salgalhada de um cérebro humano as diferenças não são apenas quantitativas.
Tal como acontece com outras das variadíssimas populações que constituem um ser humano, observamos no cérebro os traços de um padrão de desenvolvimento histórico por etapas, em que cada nova estrutura parece conviver de forma umas vezes harmoniosa, outras vezes conflituosa, com estruturas mais primitivas. Se pensarmos um pouco, faz sentido. Cada nova divergência pode desenvolver-se e trazer pequenos ou grandes benefícios, havendo a garantia de que as estruturas mais primitivas, testadas ao longo de muitas gerações, continuam a assegurar a viabilidade da colónia. O seguro morreu de velho.
Mas adiante, que mais tarde hei-de voltar a este aspecto. Por hoje, apetece-me apenas chamar a atenção do querido leitor para dois pormenores que me deixam intrigado...
Um é o âmbito estranhamente limitado de modos de tratamento de informação que toda a espécie humana exibe. Se o leitor reparar, os 6 mil milhões de representantes da espécie parecem processar de forma muito semelhante quer a informação proveniente do exterior, quer a armazenada. Mais extraordinário ainda, comungam da capacidade de manter a estabilidade dessa forma de processamento ao longo de quase toda a sua vida, incluindo, pasme-se, os saltos qualitativos entre a infância, adolescência e idade adulta.
A que se deverá tão reduzida variação ?
O outro é a distribuição de competências funcionais num cérebro individual. Nas estruturas mais antigas, a especialização funcional é compreensível. Mas... E no neocórtex ? Será válido afirmar que a dimensão das áreas afectas a funcionalidades específicas é, grosso modo, quase idêntica em todos os seres humanos, variando apenas ligeiramente de acordo com o regime de estimulação nas fases iniciais de desenvolvimento ? Porquê ? Porquê ?
Vou nanar...


