Os esterótipos não são eternos.
Cai agora mais um.
A aparente serenidade chinesa face à crise financeira não durou muito tempo. No seguimento de uma sugestão que vagueava há já algum tempo pelos media sem encontrar defensores assertivos, o governador do banco central da RPC, Zhou Xiaochuan, propõe a criação de uma nova moeda de reserva internacional, controlada pelo FMI, que possa substituir o dólar.
Razões não faltam e a China está numa posição particularmente sensível, dado o peso que atingiu o seu financiamento da dívida dos EUA. Com certo gozo, dizia a venenosa senhorita Clinton há uns dias atrás que das duas uma, ou se salvam juntos ou caem juntos.
O chinoca está nervoso. Muito nervoso.
O semblante impassível do chinoca
Le sacré du printemps
O topo da hierarquia religiosa afegã começa também a mexer-se, propondo a abertura de negociações entre o governo e os Taliban, com mediação saudita.
Assim de repente, tenho dificuldade em lembrar-me de algum interveniente que ainda não tenha manifestado a sua fé numa saída política. Bom, com tantas vontades expressas e apesar de algumas reticências de Omar, julgo que este poderá será um ano de progresso efectivo.
Abençoada crise... Não sobra muito dinheiro para bombas.
Esteve bem
Depois do fax de Obama, o topo da hierarquia iraniana não perdeu muito tempo a digerir o biscoito e responder de forma adequada.
Khamenei passou bem a bola, ao exigir que as lindas palavras de Obama se traduzam em actos concretos, para que se perceba se há ou não uma mudança nas políticas da Casa Branca.
Alguns outros dirigentes e porta-vozes proferiram declarações semelhantes, e em mais de um caso alertaram para a possibilidade de se tratar de mera operação de relações públicas, destinada a criar uma imagem pacifista da administração imperial.
A resposta iraniana é directa, e parece-me equilibrada. Noto ainda que parece consensual, indiciando a existência de uma discussão prévia bastante alargada. Nada de novo por aqui, não há espaço no Irão para jogadores solitários, o que deveria tranquilizar-nos.
Quanto à chicha, devo dizer que concordo plenamente que o Irão desconfie de nós. Depois de Mossadegh, depois do Xá, depois da ofensiva iraquiana, depois das sanções, seriam doidos se confiassem.
Resta-nos estabelecer em concreto formas de cooperação, começando por exemplo pelo aprofundamento dos entendimentos sobre o Iraque e na contrução de uma posição comum sobre o Afeganistão. Depois disso, talvez possamos sugerir ao Irão que pode confiar em nós.
Finalmente...
Embora com um fraseado adocicado, próprio de quem tem medo das acusações da praxe, o ministro Luís Amado enviou um aviso claro ao próximo governo da entidade sionista. Não sei se a iniciativa lhe pertence, presumo antes que ele assuma o papel de termómetro por decisão tomada a um nível mais alto na UE, mas em todo o caso valerá a pena observar a reacção de Bibi e do seu indigitado ministro dos negócios externos.
Noto com algum pesar que no fraseado não se menciona o desmantelamento dos colonatos, preferindo-se o fim do seu alargamento. Também não se ameaça com o fim do regime de favorecimento de Israel, sugerindo-se em vez disso que o regime não será aprofundado.
O aviso peca por tardio. O sionismo parece demasiado decidido a optar por um beco sem saída, a última das capitulações não deverá ter melhor destino que as precedentes.
O bafo da múmia
O velho Ossama acordou para admoestar mais uma vez a família.
A denúncia das élites sunitas, que de forma mais ou menos velada assistiram com algum prazer à chacina efectuada por Israel, cheira a oportunismo.
Este novíssimo e angelical defensor dos palestinianos esquece a gravidade dos crimes que os seus pupilos iraquianos cometeram sobre os xiitas. Bem prega o mullah Tomás...
É bem verdade que a maior parte dos poderes árabes não passa de uma corja de déspotas corruptos, mas convém observar as coisas no contexto em que ocorrem... A atitude árabe é apenas a expressão da animosidade contra o Hamas, visto como correia de transmissão do Irão.
Sim ou sim
Para os Taliban, os ventos correm de feição.
A Norte, controlam cerca de 30% do território afegão, numa altura em que o exército imperial norte-americano não parece poder dispor dos meios necessários a um esforço duradouro e os cínicos da Velha Europa só esperam uma oportunidade para fugir do atoleiro.
Num curioso desenvolvimento paralelo, agora que a tropa imperial ensaia uma investida redentora, também a Sul os Taliban ganham uma posição relativamente tranquila depois de explorarem até ao tutano a crescente debilidade do estado paquistanês.
Ora, o acordo de paz estabelecido no Paquistão passou também por um esforço de aproximação entre diversas milícias, um dois-em-um que Omar imediatamente aproveitou, apelando aos militantes para que se congreguem no combate ao inimigo comum em território afegão, em vez de perderem tempo a chacinar muçulmanos.
Em que ficamos, então ?
Na mesma.
Não é possível obter do Paquistão qualquer medida decisiva, seja porque os Taliban constituem um elemento-chave da sua estratégica política no Afeganistão, como dissuasor da influência indiana, seja também porque o Paquistão pode a qualquer momento tornar-se ingovernável... Sharif apelou hoje claramente à insubordinação, depois de ameaçado com prisão perpétua. Uma situação a acompanhar nos próximos dias.
Perante esta salgalhada, os decisores políticos da NATO ( realçando-se de forma crescente os seus componentes norte-americanos ) rodopiam em busca de uma solução política. O problema é que não há Talibons para conversar, apenas Talimaus, o que é uma chatice pois de momento Omar só está disposto a negociar depois da saída das tropas estrangeiras do Afeganistão, impedindo assim qualquer aproximação directa.
Mas quem não tem cão, caça com gato, e tanto o Paquistão como os EUA cortejam agora o Irão, na esperança de um salvífico ménage à trois. Pode ser. Mas talvez seja útil habituarmo-nos à idéia de, como dizia o outro, ver Omar passeando-se pelas recepções de gala em Washington.
Ao longe, os boiardos rebolam-se de gozo.
