Vitória no feminino
Moussavi rejeitou hoje a solução proposta pelo Conselho de Guardiães, que previa a recontagem de 10% dos votos sob supervisão dos candidatos.
Presumo que Moussavi possa estar a apostar numa outra abordagem, patrocinada, ao que consta, por Rafsanjani. Confesso algum cepticismo. Rafsanjani já teve tempo suficiente para manobrar, mas a clique detentora do poder parece cristalizada numa divisão em dois blocos de peso quase similar, dado que Larijani prefere cirandar feito mariposa, sem definir para que lado cai.
Mantendo-se o impasse, o médio prazo iraniano será minado pelo confronto surdo das duas facções, mas no curto prazo é de esperar acção repressiva mais decidida pelos pupilos de Khamenei.
Quem mais perde, para já, é a classe média urbana. Submetida pelo terror, foi forçada a perceber da pior forma que o modelo Ghandi não é universalmente aplicável, principalmente quando não se tem um projecto político capaz de mudar a correlação de forças, e quando do outro lado as barreiras éticas são as determinadas pela fé religiosa ( isto é, nenhumas ). Deverá aguardar que o seu próprio crescimento gere peso negocial, ou que a administração incompetente de Ahmadinejad gere descontentamento generalizado.
Mas nem tudo é amargo. Devo homenagear o único grupo que sairá desta refrega com uma imagem fortalecida, o das mulheres.
Os exemplos de coragem e determinação que as mulheres deram nos momentos mais complicados, movendo-se adiante dos homens que se acobardavam, realçaram a mediocridade de uma sociedade entregue ao machismo, uma sociedade suficientemente tola para amputar uma metade tão rica de si própria.
A lei da rolha
De Teerão pouco se sabe, excepto que prossegue o confisco de telemóveis com capacidade de filmagem e, note-se bem, de antenas parabólicas em residências particulares.
Teve relevo a notícia de que apenas um terço dos parlamentares terá comparecido a uma cerimónia comemorativa promovida por Ahmadinejad, o que é digno de nota, pois significa que parte dos parlamentares conservadores recusou o beija-mão.
Moussavi voltou a criticar abertamente Khamenei, enquanto alguma imprensa internacional informa ( sem confirmação ) que estarão em curso negociações para uma eventual segunda volta entre Moussavi e Ahmadinejad, enquanto Rafsanjani se vai mexendo no Conselho de Peritos com vista à deposição de Khamenei ( contando nesta altura com apoios muito próximos dos 50% dos membros do Conselho ), e Montazeri mais uma vez alertou para a degradação da situação.
Creio que o sermão a proferir amanhã por Khamenei poderá fornecer indicações mais claras.
Será bom que caminhe para o compromisso. O impasse actual vai minando as instituições iranianas, impondo cada vez mais uma solução de força. Ora, a assumpção da via ditatorial, independentemente das consequências estritamente locais, terá consequências sérias no plano regional, aumentando a crispação num momento sensível. A violência no Iraque está a aumentar, em resposta aos preparativos para a remoção das tropas imperiais, pelo que poderemos assistir a um maior envolvimento de países árabes ( o Egipto criticou hoje fortemente a direcção iraniana, um tiro que lhe vai sair pela culatra aquando das próximas eleições ).
A ressurreição de Montazeri ?
E, cerejinha em cima do bolo, o general Ali Fazli, um dos comandantes dos Pasdaran, recusou-se a cumprir as ordens de Khamenei.
Portugal dos pequeninos
Trata-se de uma questão importante, sabendo-se que estão a ocorrer detenções de activistas que recorreram aos hospitais públicos.
No entanto, quando questionado sobre o assunto, o nosso embaixador preferiu dar uma resposta evasiva, dizendo apenas que a embaixada não recebeu qualquer solicitação nesse sentido.
Cheguem-se à frente o embaixador ou o ministro, e expliquem sem ambiguidades a política portuguesa sobre o assunto.
O milagre da multiplicação dos votos
Na verdade, diz-nos o Conselho, esse facto ocorreu apenas em 50 cidades...
Mais diz o Conselho que, uma vez que essa fraude afecta apenas três milhões de votos, o resultado da eleição não será por aí substancialmente afectado ...
Acho notável que o porta-voz do Conselho tenha conseguido dizer estas coisas sem desatar às gargalhadas. Exemplar auto-controle.
Se isto serve de mote, o CG deve saber mais do que diz e está a preparar o terreno, pelo que poderemos esperar um esclarecimento sobre os milhões de votos que ainda pairam na estratosfera. Se isto serve de mote, Khamenei vai ter alguma dificuldade em segurar-se.
Organizando as forças
Os transportes públicos parecem ter entrado em greve de solidariedade, a indústria petrolífera poderá seguir-se, e vão surgindo apelos a igual paralização na zona do bazar.
Pelo seu lado, Moussavi publicou há pouco no seu site um pedido de apoio para a organização de uma greve geral ( a iniciar provavelmente na 3a. feira, segundo alguns tweets ).
Antes disso, Larijani demarcou-se de Khamenei ao pedir que seja respeitada a vontade do que definiu como uma maioria que não considera válido o resultado eleitoral.
Surgem também indicações ( poucas e não confirmadas ) de um crescente incómodo no interior das forças armadas relativamente a Khamenei.
Negociação ?
A quase simultaneidade parece indicar uma posição concertada, e representa um volte-face relativamente às posições anteriores.
Ao mesmo tempo, foi accionada uma repressão mais severa dos civis, resultando num número indeterminado de vítimas.
Começou ?
Posts não confirmados, no Twitter, indicam que o Conselho de Guardiães terá recebido carta branca para acabar com os protestos no espaço de uma semana. Ao mesmo tempo, as tropas comuns estarão a ser confinadas aos quartéis, deixando o terreno livre para os Pasdaran e as milícias.
23:51
Mais posts sem confirmação...
Parte da equipa de campanha de Mousawi poderá ter sido detida.
Circula convocatória para manifestação de amanhã, onde deverão estar presentes figuras importantes de vários sectores de oposição.
Vão surgindo indicações de algumas cisões nas forças repressivas.
Anuncia-se que Rafsanjani poderá atacar Khamenei num alocução pública nos próximos dias.
Os desenvolvimentos de hoje levam-me a pensar que se entrou na fase da contagem de espingardas. Não invejo a sorte daquela classe média, que poderá estar prestes a enfrentar uma situação muito dura, sem para isso estar preparada. Angustiam-me as vozes na noite e os apelos à emulação de Ghandi.
Fuga para a frente
Nesse discurso, reiterou o reconhecimento da vitória de Ahmadinejad e salientou que partilham a mesma visão política.
A partir daqui, Khamenei já não pode retroceder.
Ménage à trois
1 - O eixo Khamenei-Ahmadinejad, representando as forças religiosas intervencionistas;
2 - A sopa de pedra reformista, uma colecção improvável de facções, onde cabem Moussawi, Rafsanjani e o grande ayatollah Montazeri, entre outros;
3 - A classe média urbana, simultaneamente locomotiva e carruagem de um projecto que até agora desconhecia.
Fico com a impressão de que o confronto maior se estabeleceu entre os dois primeiros grupos, em resultado da ofensiva que constituiu a alegada chapelada.
Note, caro leitor, que não é possível perceber se as irregularidades do processo eleitoral tiveram um impacto decisivo. Creio que se tratou de uma acção precipitada e talvez desnecessária do bloco intervencionista, já que, na pior das hipóteses, Ahmadinejad poderia ter sido forçado a uma segunda volta. No entanto, por muito pequenas que tenham sido as irregularidades, todo o processo ficou desacreditado. Pior ainda, Khamenei envolveu-se directamente na farsa, o que o colocou numa posição crítica, arriscando agora a deposição se não conseguir uma solução negociada. A alternativa é a fuga em frente, a imposição da supremacia pela força, com apoio das milícias leais. Mas essa fuga em frente não será mais que um adiamento.
Porquê ? Bom, a aposta totalitária teve o condão de unir todas as outras forças. E se algumas das figuras desse casamento de conveniência são pouco recomendáveis, outras têm um peso moral indiscutível. Creio que um primeiro sinal de enquadramento dos protestos foi a declaração de Montazeri, rejeitando por completo os resultados da eleição. Ora, Montazeri é talvez a figura religiosa mais importante no Irão. E tratando-se de um quietista, como Sistani no Iraque, a dureza da sua declaração ganha assim particular importância, podendo influenciar a acção do conselho de peritos.
Como pano de fundo, a classe média urbana não parece saber muito bem o que fazer. Começando com uma vaga idéia sobre a necessidade de transparência, poderia continuar como bloco meramente instrumental, passivo, sem perceber o seu real poder. Mas noto que começou hoje a circular no Twitter um manifesto que indicia, ao atacar directamente Khamenei e o regime constitucional, que esta classe vai a curto prazo reclamar a posição a que acha ter direito. O manifesto anuncia o fim do regime confessional.
Até aqui, todos os intervenientes mantiveram um cuidado notável na minimização da violência. Mas há o risco de o eixo Khamenei-Ahmadinejad, caso seja demasiado apertado, fazer uso das milícias, que no seu conjunto, julgo saber, andarão perto dos dois milhões de efectivos.
No fundo, tudo gira à volta da classe média urbana. Trata-se de uma bomba que vai explodir mais cedo ou mais tarde, se antes disso as correntes religiosas não se trucidarem mutuamente na sua tentativa de controlar o processo histórico. Isto é patético ...
O fim de um ciclo ?
E que nos dizem ?
E das duas uma, ou a cúpula religiosa cerra fileiras em defesa de Ahmadinejad e acaba com os protestos de forma drástica, o que resulta na quebra do pacto de confiança com o povo iraniano, ou tenta assumir uma postura de defesa do interesse nacional, caso em que Ahmadinejad terá de ser dispensado para que o essencial possa ser salvo.
Os sinais de hesitação são claros. Khamenei voltou atrás e solicitou a verificação do processo de contagem. Ao mesmo tempo, os apoiantes de Moussawi parecem ter perdido o medo, e as forças repressivas, ao contrário do que tinha sido anunciado, não exerceram pressão significativa para conter as manifestações, cujas proporções são notáveis.
De forma intermitente, alguns media foram autorizados a relatar os factos, o que diz muito se pensarmos no bloqueio que ontem atingiu quase todos os meios de comunicação ( bloqueio que não ficou sem resposta... Os hackers mais entusiastas encarregaram-se de por sua vez sabotar os sites dos órgãos oficiais. Por aqui, noto com algum prazer que o site da IRNA perdeu o pio ).
Mais notável, mas ainda sem confirmação, é a indicação de que o clero de Qom manifestou o seu repúdio pelo que parece ser uma chapelada.
A república islâmica tem agora um problema muito sério para resolver. E, se tentar voltar para trás, então parece-me que a sua credibilidade só será mantida se Ahmadinejad for sacrificado.
Com ou sem razão, Khamenei poderá alegar que se tratou de uma tentativa de golpe de estado, invalidar os resultados da eleição e forçar a resignação do presidente.
Mas, aconteça o que acontecer, alguns danos já não podem ser reparados. A república islâmica poderá ter-se suicidado.
Mais do mesmo
Nos dois principais focos de tensão do momento, mais do mesmo...
Em Israel, Bibi confirmou no discurso de hoje a incapacidade para medir claramente as suas responsabilidades. Ao reafirmar a vontade de criar um regime de pleno apartheid, no mesmo dia em que os rabis reformistas norte-americanos apelam ao congelamento do crescimento dos colonatos, estabelece-se como o Santana Lopes do Levante. Um artista do arame sem projecto que conduz o país para o desastre.
No Irão, Américo Ahmadinejad Tomás foi milagrosamente reeleito. A serem verdadeiras duas ou três informações sobre o escrutínio, o regime confessional entrou em modo de pânico, sinal inequívoco de degradação estrutural.
A demência religosa teve a sua oportunidade de liderar, e naturalmente falhou. Ciente da sua própria incapaciddae, cede à tentação da fuga em frente, pelo que doravante vale tudo. Onde é que já vimos isto ?... Pois. Com a diferença de se tratar de um país com uma população quase sete vezes superior à portuguesa e de se tratar do país de charneira entre o Ocidente e o Resto.
Realismo
Confesso-me baralhado com a sucessão de factos no Médio Oriente.
Mas julgo que esse será o estado de espírito de todos quanto os observem, incluindo os decisores políticos mais directamente envolvidos. E nesta sucessão de mini-crises, as propostas legislativas da direita israelita ( sobre o juramento de lealdade e a penalização das comemorações da Nakba), enquanto manifestação do desvio totalitário escolhido pelos eleitores, ganharam valor particular.
Não só pelo seu valor simbólico de clarificação do projecto racista, mas também pelo debate vivo que suscitaram um pouco por todo o planeta, um debate que alertou para todas as possíveis ramificações desta demência.
As idéias não caíram em saco roto. Fosse por genuína defesa de um mínimo de democraticidade ou por mero cálculo da totalidade dos custos políticos, o conselho ministerial de Domingo rejeitou a proposta do Yisrael Beiteinu sobre o juramento de lealdade. Goste-se ou não, o realismo produz resultados.
Um sinal positivo, acompanhado no entanto por outros menos auspiciosos... O governo de Bibi reiterou a intenção de permitir o crescimento dos colonatos, enquanto o Egipto rejeitou a proposta de normalização gradual das relações do mundo árabe com Israel ( uma rejeição que me parece adequada).

