Esta é a minha terra bem-amada


Para os que já quase perderam a memória da sua gente, ou para os que nunca chegaram a tê-la, Tradisom,  RTP e Público editam agora as filmagens de muitas das recolhas de Giacometti. Ouçamos estas vidas, fiadas em lugares sem distância ou tempo.

Asia Despatch, finalmente

Nasceu há poucos dias, ainda gatinha mas tem um toque de Midas, isto é, tem potencial para se tornar um quiosque de passagem obrigatória para quem pretenda informar-se sobre os nossos vizinhos do ocidente asiático.
Trata-se do Asia Despatch , um projecto editorial encabeçado por Syed Saleem Shahzad, um repórter com uma produção notável e um conhecimento detalhado de alguns dos assuntos mais significativos daquela zona do planeta.
Ao concentrar a produção num único ponto, este projecto poderá garantir, finalmente, a disponibilização para os cidadãos ocidentais de um conjunto de informações e comentários que até aqui se perdiam em nichos dispersos. Ouçamos então estas vozes.

Overdose

Mark LeVine espanta-se, na Al Jazeera, com a ausência de sinais de revolta perante o manancial de provas de abuso publicadas pelo Wikileaks. Bom, não será na verdade esse espanto que é espantoso ?
Os cidadãos ocidentais ( pelo menos ) vivem sob um regime de administração de informação por via intra-venosa baseado no sensacionalismo simplista, não na reflexão e muito menos na apreciação de grandes volumes de dados. E se as centenas de milhar de registos publicadas pelo Wikileaks podem fazer as delícias dos activistas mais laboriosos, para todas as restantes almas os problemas desta natureza tornam-se enfadonhos em três tempos, graças a dois pequenos pormenores...
Por um lado, a banalização crescente das abordagens éticas, que, cada vez mais semelhantes ao fast-food, se apresentam ao consumidor numa embalagem com prazo de validade curto, a das causas. Incapaz de qualquer elaboração teórica, o pobre cidadão é solicitado para uma sequência infindável de acções desconexas, e cedo se fatiga e retorna à Playstation. Conviria a qualquer activismo ter presente que o sucesso exige um empenho de longo prazo, não um flirt. E esse empenho de longo prazo só pode ser obtido num quadro ideológico minimamente abrangente e credível, coisa que por ora não abunda por estas bandas.
Por outro lado, a sempre presente cumplicidade. Estamos perfeitamente acomodados à idéia de transferir para o estado o direito ( e a culpa, quando a coisa corre mal ) de executar as tarefas sujas que se mostrem adequadas à defesas do nosso status. Quaisquer que sejam essas tarefas sujas. Sim, representamos a cena da virgem ofendida quando nos mostram os aspectos mais cruéis, mas limitamo-nos a bocejar quando se trate de aspectos meramente cinzentos. São muitos séculos de prática...
Precisaríamos de reflectir sobre a campanha imperial no Iraque, dado que o rasto será visível ao longo de todo este século, demasiado visível. Mas até ao momento não o fizemos, e a overdose de brejeirices a la Wikileaks acaba por nos afastar ainda mais dessa reflexão.

A casa da Mariquinhas


No plano de fundo, as grandes linhas de tendência global. Nítidas desde há décadas, e no entanto persistentemente desvalorizadas.
Num plano mais próximo, regional, a afirmação clara da subalternização dos países periféricos, aos quais se reserva o destino de serem os primeiros a cair.
E no plano local, a coisa. A coisa pública, entenda-se. E é neste plano local que as atenções se concentram agora, estritamente, seja pela urgência ou pela incapacidade para olhar um pouco mais além.
Num jogo de cumplicidade sustentada, os cidadãos portugueses deixaram-se encantar pelos seus próprios devaneios de arrivistas, dando aos dois maiores partidos burgueses, ao longo de mais de trinta anos, a legitimidade para submeter o estado aos interesses do mais primário egocentrismo. Uma cegueira absoluta face ao interesse colectivo, um desdém absoluto pela necessidade de um contrato social equilibrado, um endeusamento absoluto do liberalismo sob o capote de um alegado desaparecimento das ideologias.
Esquecemo-nos de que esse endeusamento do liberalismo desemboca necessariamente em dois momentos sucessivos. Um primeiro em que o estado ( que num momento de alucinação se poderia tomar como emanação do colectivo ) se transforma em instrumento de extorsão às mãos dos grupos mais capazes. Um segundo em que o estado se desagrega, depois de esgotadas a autoridade e a capacidade financeira para sustentar o seu próprio funcionamento.
Estamos agora na fronteira entre estes dois momentos. Estamos de parabéns.