No plano de fundo, as grandes linhas de tendência global. Nítidas desde há décadas, e no entanto persistentemente desvalorizadas.
Num plano mais próximo, regional, a afirmação clara da subalternização dos países periféricos, aos quais se reserva o destino de serem os primeiros a cair.
E no plano local, a coisa. A coisa pública, entenda-se. E é neste plano local que as atenções se concentram agora, estritamente, seja pela urgência ou pela incapacidade para olhar um pouco mais além.
Num jogo de cumplicidade sustentada, os cidadãos portugueses deixaram-se encantar pelos seus próprios devaneios de arrivistas, dando aos dois maiores partidos burgueses, ao longo de mais de trinta anos, a legitimidade para submeter o estado aos interesses do mais primário egocentrismo. Uma cegueira absoluta face ao interesse colectivo, um desdém absoluto pela necessidade de um contrato social equilibrado, um endeusamento absoluto do liberalismo sob o capote de um alegado desaparecimento das ideologias.
Esquecemo-nos de que esse endeusamento do liberalismo desemboca necessariamente em dois momentos sucessivos. Um primeiro em que o estado ( que num momento de alucinação se poderia tomar como emanação do colectivo ) se transforma em instrumento de extorsão às mãos dos grupos mais capazes. Um segundo em que o estado se desagrega, depois de esgotadas a autoridade e a capacidade financeira para sustentar o seu próprio funcionamento.
Estamos agora na fronteira entre estes dois momentos. Estamos de parabéns.