Seis dias

Depois do anúncio, há seis dias atrás, sobre o início de negociações in extremis com o FMI, o Paquistão anuncia hoje que está a seis dias da bancarrota.
Nada mau, num país politicamente instável, detentor de armamento nuclear, ensarilhado na armadilha fundamentalista que alimentou, e impotente face às cada vez mais frequentes acções militares da NATO no seu território.
Depois de alguns anos a contribuir com pregos para o caixão, estaremos em condições de rever a nossa política face ao Paquistão, ou queremos insistir até que se transforme num estado falhado ?

O anjo que tinha vertigens

Admitamos, a sucessão de crises neste início de século está a tornar-se um pouco incómoda.
Terroristas debaixo da cama, guerras sem propósito e sem fim, um sistema económico decrépito enganado com metadona, uma crise financeira de proporções bíblicas, um manto de CO2 que anseia por transformar o planeta numa cataplana...

Se para nós, europeus, tudo isto resulta em palpitações e ansiedades inconsequentes de viúva envelhecida, para os nossos sobrinhos do lado de lá do Atlântico as coisas apresentam-se de forma talvez mais brutal.
Na força da juventude, incultos, deslumbrados ainda por duzentos anos de sucesso fácil, confrontam-se com sinais de declínio que não podem entender nem aceitar.
Curioso que nos últimos oito anos tenham optado por bater no ceguinho, isto é, que tenham optado pela defesa agressiva de um estatuto que desejariam imutável. E se acho curiosa essa opção, é porque ela repete os erros dos impérios da velha Europa e de muitos outros grupos transitoriamente dominantes que a História foi engolindo entre bocejos.

É neste cenário que o mundo inteiro, pasme-se, de repente pára os seus afazeres para ver o que se passa naquela ponta do bairro, uma simples eleição presidencial que pode mudar tudo num mundo que desejaria agora poder também apresentar o seu voto, um voto que teria um sentido inequívoco... Seria eleito Obama, que nalgumas das sondagens feitas ao longo do planeta recolhe 80% de apoios.
Autistas, os norte-americanos não parecem aperceber-se da dimensão deste fenómeno, e muito menos da sua origem ou implicações.

Confesso que a figura de Obama não me fascina. Tendo a vê-lo como um ineficiente messias de púlpito, sem projecto concreto, condenado a reagir em vez de agir.
Mas reconheço-lhe uma abertura de espírito notável. Caso ele venha a ganhar a presidência, não espero que se afirme como visionário mas antes como catalisador, como pastor de vontades.
E se chegar o momento em que ele perceba que é essa na verdade a esperança de todo o planeta, e se nesse momento não for tomado de vertigens, então talvez tenha afinal a grandeza necessária.

Revelação mística

Como o leitor estará lembrado, um dos argumentos usados pelo Superpateta para promover a invasão do Iraque foi a protecção concedida por Saddam a Abu Nidal, um terrorista reformado muito mal visto na cena internacional.
Bom, o homem acabou suicidado e não se falou mais nisso.
Por uns tempos.
O Independent alega ter em seu poder os registos de uma confissão interessante de Abu Nidal ( registos provavelmente sacados do espólio do Mukhabarat, penso eu de que )...
Alegadamente, prestaria serviços de espionagem ao Egipto e ao Koweit, com conhecimento dos EUA, estando incumbido de recolher dados sobre uma eventual ligação entre Saddam e a Al-Qaeda.
Há coisas fantásticas, não há ?

A dança dos flatos

Como vimos num folhetim anterior, o Turquemenistão tem gases. E como certamente lembrará o querido leitor, há pouco tempo atrás a Rússia assegurou a exclusividade da comercialização das reservas conhecidas.

Ora bem, os amanhãs cantam para a Europa, já que um estudo agora concluído revela novas reservas com uma dimensão notável, que elevam o país para a segunda posição no ranking mundial... E estas novas reservas não estão incluídas no acordo com a Rússia.
Uma segunda oportunidade, portanto, para fazermos alguma coisinha pela vida.

Mas os amanhãs também grasnam para esta mesma Europa, pois esta semana teve lugar a primeira reunião para a formação do cartel do gás natural. Nada que nos alegre, tendo em conta que os produtores que mais nos interessariam estão entalados entre a Rússia e o Irão, dois membros fundadores da máfia do flato.

Pelo caminho que as coisas tomam, será razoável que nos preparemos espiritualmente para assinalar à Rússia que a Geórgia é zona de interesse vital para a UE ( ou mais genericamente, para todos os membros da NATO ). Estaremos a brincar com o fogo se não assinalarmos esse interesse, ou se o fizermos demasiado tarde.

Fazendo as malas

Há quem se divirta...
Larijani mandou dizer há uns dias que, por este andar, o mullah Omar acabará por ser convidado para as recepções da Casa Branca.
Hoje foi a vez de Mottaki avisar os patetinhas ocidentais contra uma negociação ingénua com os Taliban.

Mas que fazer, então ?...
Não creio que haja agora muitas saídas airosas. Tal como no Iraque, a nossa intervenção perturbou de forma insanável o status quo, sem o complementar com uma alternativa sustentável. Não surpreende portanto a agitação crescente da vizinhança, à medida que o poder dos Taliban se reforça e/ou o governo central definha.
Importa notar que esse poder não resulta de uma afirmação militar incontestada, mas antes do cansaço ou simples sensatez dos cidadãos afegãos, que se mostram cada vez mais dispostos a aceitar, senão mesmo a apoiar, o regresso dos fundamentalistas ao poder. Tendo em conta as circunstâncias, não os critico. Mal por mal...
Mas não me parece que as coisas possam evoluir para um final idílico. Desde logo, uma solução de partilha de poder não será fácil de aguentar... A não ser que os Taliban levem porrada de criar bicho no Paquistão, o seu regresso far-se-à numa posição que supõem ser de força, pelo que deverão sentir-se tentados a um assalto à totalidade do poder. Tal como no passado, enfrentarão uma oposição fragmentada e corrupta, mas enfrentarão também uma intervenção renovada do Irão, Índia e Rússia.

Caberá aos deuses decidir o desfecho desta palhaçada, que deveríamos ter evitado.
Deposito alguma esperança na intervenção inteligente de Petraeus e na renovação da administração imperial, que espero venha a ser menos dada ao banditismo e mais capaz de honrar o compromisso criado pela invasão.
Pouco me importa que o prestígio militar da NATO saia embaciado. Importa-me mais saber se teremos a habilidade e a dignidade necessárias para apoiar o povo afegão nas suas decisões, quaisquer que sejam e por muito que nos desagradem.
De outra forma, à retirada da NATO irão suceder-se anos de reajuste violento, cujo preço será mais uma vez pago por aquele povo. E se isso acontecer então envergonho-me, pois sei que nessa altura todos nós, cidadãos ocidentais, arranjaremos uma forma de olhar para o lado, como se nada tivéssemos a ver com o assunto. Somos peritos nesse jogo.

Sete anos

A inércia ideológica produz atoleiros capazes de engolir civilizações, já o sabemos da História.

Mas, confinados à nossa mesquinha janela de tempo de algumas décadas, estamos, como outros antes de nós, condenados a empenhar sempre mais recursos em batalhas sem sentido, batalhas perdidas à partida que nos condenam a uma lenta exaustão.

No Afeganistão, como aconteceu noutras épocas, o império ocidental vai-se desgastando, sem que ninguém possa apontar uma razão válida para a teimosia. Sete anos depois de uma invasão disparatada, com 70000 imbecis no terreno limitados a uma posição de defesa de um regime corrupto e sem futuro, resta-nos agora ir aumentando esse efectivo para evitar ou simplesmente adiar uma derrota vergonhosa. É a guerra pela guerra, uma chacina interminável na defesa quixotesca de uma fronteira ficcional contra um inimigo imaginário.

Nós, portugueses, poderíamos ainda assim conviver de forma desprendida com esta patetice, se ela se limitasse a uma episódica chacina de populações civis. Afinal de contas, se pudemos com alguma tranquilidade manter uma guerra deste tipo nas nossas colónias e claudicar apenas ao fim de catorze anos, então no Afeganistão estamos apenas a meio do trajecto, e com a auto-censura dos media a esconder os efeitos da guerra, mesmo agora que ela alastra ao Paquistão, a nossa anuência acéfala poderia estar mais ou menos garantida.

Mas o problema cosmético complicou-se subitamente, com a ocorrência quase simultânea de três factos relevantes, a saber:
- Numa comunicação supostamente reservada entre as representações inglesa e francesa, que acabou publicada nas páginas do Canard Encheiné, o embaixador inglês afirma que a estratégia ocidental está a fracassar, uma vez que o avanço dos Taliban é contínuo e o apoio das tropas ocidentais a um governo corrupto é parte do problema em vez de ser parte da solução;
- O general McKiernan, comandante da força NATO, insiste no reforço urgente das tropas, face à contínua degradação da segurança resultante do avanço das três facções mais importantes na oposição ao regime e à presença de tropas de ocupação. 20, 30 anos, é agora o prazo admissível para a retirada das forças;
- Karzai, plenamente ciente do factores em jogo, convidou o mullah Omar a retornar ao Afeganistão, garantindo-lhe condições para se candidatar às próximas eleições presidenciais... Juro, pela alma da sogra que nunca tive, que a proposta me surpreendeu... Ao que parece nem o Omar perdeu tempo com esta rendição ridícula, rejeitando-a no dia seguinte.

Querido leitor... Tem algo a dizer sobre o assunto, ou prefere continuar a alimentar-se de futebolices ?...