Al Fu Manchu

'Deserto por deserto, antes o Saudita que o Gobi', pensou de si para si o chinoca, 'Sempre tem mais petróleo, pelo menos'.
E se bem pensou, melhor o fez. Tanto assim que, ao longo de 2009, enquanto o império americano ali foi buscar menos de um milhão de barris de petróleo por dia, o império do meio  atingiu e ultrapassou essa marca.
Sopram ventos de mudança, que muitas supresas hão-de trazer.

Oportunidade

A história de um país nasce muitas vezes da pequena história, quando os seus protagonistas são suficientemente grandes.

Podemos estar a passar por um desses momentos, se soubermos dar-lhe a relevância que merece. Se as alegações forem correctas, esta é uma das raras circunstâncias em que o abuso de poder aparece suficientemente documentado para que acabe por produzir efeito, seja por acção ou por omissão.

Estando em causa um potencial abuso sério, o regime poderia aproveitar o momento para reconstruir alguma da credibilidade perdida depois de algumas décadas de práticas duvidosas.
Fazê-lo não é complicado, basta uma comissão parlamentar de inquérito que produza conclusões baseadas num trabalho de investigação objectivamente sério. Caso se apure que o alegado plano existiu de facto e contou com o envolvimento do PM, então este deverá demitir-se. Daí não virá grande mal ou crise de governabilidade, pois nessa situação o PS pode e deve ser convidado a apresentar um novo PM e um novo governo.
Nesta linha, caberia agora ao PS a iniciativa de propor o estabelecimento de uma comissão de inquérito.
Fazendo-o, mostraria sentido de estado.

Infelizmente, o PS parece mais inclinado para tratar o caso como um problema de relações públicas, que por cansaço dos cidadãos ou simples diluição do alvo acabe esquecido debaixo do tapete. Os sinais são visíveis. Logo nos promeiros dias, tentou-se centrar a atenção na forma como as transcrições foram obtidas e fazer passar para segundo plano o seu conteúdo. Agora, trata-se de organizar uma contra-ofensiva em duas vertentes... Por um lado, desafiando-se os partidos da oposição a apresentar uma moção de desconfiança, quando se sabe à partida que nenhum embarcará nessa irresponsabilidade. Por outro lado, amontoando munições relativas a outros temas, de forma a transformar as audições numa palhaçada inconsequente. Ao que parece, até o caso da espionagem ao ayatollah de al-Ushbuna, Aníbal al-Boliqueimi, virá à baila.

Mas seria bom que o PS entendesse que esta crise o ultrapassa, e que os cidadãos talvez esperem um sinal inequívoco sobre o real valor do regime político vigente. Cerrar fileiras e lançar balões coloridos poderá ser um bom meio para abafar o assunto, mas que fique bem claro que, para bem da democracia portuguesa, este assunto não pode ser abafado. Tem agora o PS, por inteiro, a responsabilidade de decidir. Que decida bem.

Baradar

Para além do efeito desmoralizador que necessariamente terá a curto prazo, não é fácil prever as consequências da detenção de Baradar ou, ainda antes disso, perceber sequer o contexto que conduziu à detenção.
Note-se que há aspectos divergentes na apreciação do seu estatuto corrente. Do lado da estrutura hierárquica dos Taliban a sua aura talvez rivalize demasiado com a do mullah Omar. Do lado paquistanês, não deve ter caído muito bem o seu pendor para causar distúrbios com os xiitas e, consequentemente, minar ainda mais a frágil situação interna no Paquistão.
No curto prazo, a desactivação deste estratega pode danificar a cadeia de comando e facilitar assim a obtenção de resultados mais rápidos na ofensiva de Helmand, o que por sua vez pode abrir caminho para uma solução negociada baseada numa posição menos proeminente dos Taliban. Já não seria nada mau que isso acontecesse, o sucesso dos Taliban ao longo dos anos garantiu-lhes uma posição demasiado forte face ao liliputiano governo de Cabul.
No longo prazo, no entanto, a detenção não implica por si só um grande impacto, uma vez que a estrutura da organização já está adaptada há muitos anos a este tipo de perdas e que não há ameaças sérias ao fenómeno Taliban que, quando muito, continuará a ser alvo de medidas de contenção do lado paquistanês.

Como não podia deixar de ser, alerto mais uma vez o leitor para a ligeireza lamentável com que alguns media ocidentais tratam este e outros eventos. Se as interpretações mais propaladas fossem credíveis, os Taliban não passariam de um mero conjunto de terroristas maltrapilhos que já teria desaparecido do mapa pelo menos vinte vezes nos últimos nove ano. Como facilmente se verifica, tal narrativa pouco tem a ver com a realidade.

Os três pastelinhos e o turco bigodaças


A Turquia é, talvez ainda mais que a Rússia, o modelo do estado charneira, com um pé em cada um de dois mundos divorciados. Talvez por isso tenha o condão de ser uma comichão incómoda no vazio de idéias sobre o qual se vai pachorrentamente construindo uma união económica e política sem qualquer coisa que se pareça mesmo ao de leve com uma direcção estratégica.

Talvez valesse a pena, nesta altura, perguntar aos cidadãos da UE se esta deve crescer ou ficar assim mesmo. Assim de chofre, estou em crer que os cidadãos seriam avessos a qualquer alargamento.
Afinal de contas, o tempo das velhas potências terminou definitivamente no meio do mais tremendo banho de sangue da História, e desde então as nações da Europa limitaram-se a uma existência de viúvas abastadas, que lentamente consomem o espólio do defunto enquanto queimam o tempo em intermináveis jogos de canasta e falam mal da vizinha russa, uma ingrata que nunca se deu bem com o resto da família.
Ainda assim, uma vizinha russa que acabou por, na sua queda, proporcionar alguma comoção e o acolhimento apressado de alguns dos seus afilhados tão subitamente largados na rua. As viúvas chamaram a este alargamento um passo estratégico. Lá terão as suas razões...

Assinale-se que este passo estratégico foi decidido ao mais alto nível, sem que os cidadãos da UE alguma vez fossem chamados a pronunciar-se directamente sobre o assunto.

Por entre duas chávenas de chá com um farrapinho, as viúvas ainda ponderaram convidar o turco, primo afastado, para os jogos de canasta. Mas nunca se percebeu muito bem se era assunto sério ou leviandade momentânea das velhotas. Agora como antes, a Turquia é Ocidente às segundas, quartas e sextas, e Oriente nos dias restantes, uma situação equívoca e demasiado complexa para as pobres viúvas, cujo cérebro já soçobrou irremediavelmente depois de tanta conversa mole sobre canasta e carapins. Mais tarde ou mais cedo, portanto, o equívoco teria de ser desfeito, de preferência com alguma dignidade. Infelizmente, as viúvas já nem isso conseguiram fazer, preferiram deixar o turco esquecido na soleira, condenado a esfregar os pés incessantemente num tapete áspero que acabou por lhe estragar as solas e a paciência.

Em abono da verdade, deve dizer-se que a maior parte das viúvas não se interessou muito pelo assunto, talvez porque estejam já tão tomadas pelo Alzheimer que nem tenham reparado que a Turquia estava à porta. Mas há três velhotas particularmente fiúzas que não deixaram escapar a oportunidade de meter o seu veneno, por razões distintas. Ratzinger, Merkel e Sarkozy, à conta da cultura ou coisa que o valha, tudo fizeram para espantar o turco.

Bom, imaginemos agora que as viúvas finalmente esticaram, deixando a geração seguinte entregue a si própria... Que cenário enfrenta esta ?

Quatrocentos milhões de cidadãos mantidos na ilusão da superioridade, subitamente confrontados com a inoperância dos seus modelos económico, político e cultural num ambiente globalizado onde vence o melhor e mais barato. Fim do jogo, dir-se-ia, a UE teria de se adaptar a uma redução drástica no seu padrão de vida para poder subsistir nesse novo ambiente, já que a alternativa de transformar a União numa fortaleza proteccionista teria como contrapartidas a derrocada do castelo de cartas dos seus capitais deslocalizados e a estagnação da economia no meio de um mercado que já está mais que saturado e que foi distorcido até ao limite para garantir a paz social.

Um problema... Mas não o único problema. Para aguentar por mais algum tempo a ficção, e porque do outro lado do Mediterrâneo as coisas não seguem por melhor caminho, o hábito da importação de mão-de-obra barata deverá manter-se, senão mesmo crescer. E aqui ganha corpo um problema maior, o da lenta invasão por um exército composto pelo escalão mais baixo entre os mais baixos da cintura islâmica. Julgamos conhecer o desenlace, já vimos situações semelhantes no passado, e quando as coisas pioram basta pôr de lado o verniz cultural, apelar ao chauvinismo e ao cacete, correr com os estrangeiros e deslizar para qualquer coisa próxima do fascismo.

Mas... Pode a UE dar-se a esse luxo no séc. XXI ? É duvidoso. Enfraquecida e cercada por quem muito justamente alimenta algum revanchismo, a UE vai ter de se haver com a seca e patética hostilidade russa e a antipatia activa de um mundo árabe canalizado para o eixo Turquia-Síria-Irão, abençoado pelos chinocas. Pouco auspicioso, o cenário.

E no entanto, tudo poderia ter sido diferente ( e talvez possa ainda sê-lo ). Ao apostar na ocupação da faixa de segurança a Leste, a única coisa que a UE conseguiu foi assegurar a animosidade russa. Uma atitude idiota, se pensarmos que à partida a Rússia teria todo o interesse em reforçar a sua ligação à Europa, já que o seu namoro com a China será necessariamente curto. Mas esqueçamos esse triste episódio, o mal já está feito... Restam duas outras frentes que deveriam suscitar um forte investimento.
Por um lado, a relação com a margem sul do Mediterrâneo... Investimento directo e aposta forte na formação e intercâmbio de quadros, como única forma de garantir uma aproximação cultural real. Absoluta restrição das tentações neocoloniais, já que o seu resultado é garantidamente desastroso.
Por outro lado, a Turquia... A sua posição geográfica é de um valor inestimável, tal como é inestimável a sua osmose cultural com todo o universo islâmico árabe e persa. Friso bem este segundo ponto... No seguimento da atitude insultuosa da UE, a Turquia tem vindo a reconstruir sob a excelente direcção política de Erdogan, ano após ano, a rede de interdependências quebrada com a queda do império otomano. E neste processo é digno de espanto o acolhimento favorável que a iniciativa tem tido nos antigos territórios vassalos, quando seria de esperar que a recebessem com uma boa dose de anticorpos.

Poderemos esperar que os cidadãos da UE, ou pelo menos os seus tutores políticos, olhem para esta questão com um pouco de bom senso e sentido de estado ? É duvidoso. Ratzinger está apenas interessado em aproveitar em benefício próprio a insegurança dos cidadãos, um benefício que se corporize na definição prática da UE como clube da cristandade desvalida, mesmo que para isso não tenha qualquer legitimidade, um pormenor que não o deve incomodar muito ( tal como, pelos vistos, não incomoda o nosso Policarpo ).
Quanto a Merkel, não se percebe muito bem para onde vai, pois os medos que se lhe adivinham poderiam ser facilmente contidos por regimes transitórios.
Quanto ao petit Sarkozy tudo é mais claro, pois se trata de um revivalista que acredita na reconstrução de l'empire. O tempo se encarregará de lhe mostrar que l'empire já era, pena é que talvez não haja tempo para corrigir o tiro.

O RSE e restante família

Parece que alguém  acordou.
O registo electrónico de informações individuais na área da saúde, sendo muito vantajoso do ponto de vista técnico, levanta dois problemas sérios, o da confidencialidade e o da fiabilidade.

No que respeita à confidencialidade, pode e deve notar-se que um registo universal de dados da saúde dos cidadãos é um bolo demasiado apetecível e que é pouco credível a capacidade do estado português para o defender, dada a sua incapacidade para prevenir ou punir a corrupção.
Uma incapacidade que não nasce apenas da deliberada diluição de responsabilidades que tão bem serve os interesses de um elevado número de funcionários do estado, mas também de uma produção legislativa demasiado habituada a deixar portas abertas. A CNPD faria bem em reflectir sobre a dimensão da tarefa e o grau de responsabilidade que lhe cabe antes de benzer a criança.

No que respeita à fiabilidade, vale a pena estar atento à dimensão do projecto em curso. Se se limitasse ao registo dos diagnósticos ou até dos tratamentos, poder-se-ia pensar que a prudência dos clínicos seria suficiente para minimizar os efeitos da subjectividade ou do erro presentes nos registos.
O que é inquietante é que o projecto prevê o alargamento aos meios complementares de diagnóstico, o que, supostamente, habilitará os clínicos a fazer juízos mais pormenorizados. Ora, na verdade, neste ponto entramos na selva. Por um lado, porque não está implementado a nível nacional nenhum sistema de controle de qualidade. De momento o único controle é feito pelo prescritor, quando pela experiência adquirida ao longo do tempo fique ciente do grau de credibilidade dos distintos fornecedores operando na sua área.
Por outro lado, porque a centralização de um tão grande volume de informação pressupõe que a sua manipulação seja totalmente automatizada, de forma a evitar erros de transcrição. Mas para que essa automatização seja possível, é necessário que todo o percurso, que tem início na prescrição e termo no registo na base de dados central, seja absolutamente isento de ambiguidade.
E aí vale a pena referir que a filosofia seguida pelo estado nas últimas décadas ( nelas incluídos os anos posteriores ao fuzilamento do IGIF ) é estruturalmente inválida, mesmo do ponto de vista da candeia economicista que lhe vai alumiando o caminho.

Não seria útil dar início à discussão pública deste assunto ?