Partido curioso, o PSD.
Nascido como pombinha liberal no ambiente cinzento da coisa salazarenta, recebeu baptismo e crisma já sob o novo regime, que achou piada àquela criança, a um tempo desabrida e solene.
Passado o fulgor da adolescência, já endurecido pela vida, conseguia ainda assim cativar um largo segmento, quase, quase interclassista, de gente unida no sonho burguês da Respeitabilidade, do Progresso, da Elevação Individual.
Mas é dura a vida, e cedo o irmão chucha lhe roubou o sonho e o tomou como seu. Erra agora o PSD, decapitado e sem alma, palco de vaidades menores que se canibalizam.
Falta-lhe um Líder.
Um líder que não precisa de ser um génio das finanças ou um douto em leis. Um que precisa antes de aproximar do Povo e de saber conduzi-lo, marcando a diferença senão pela substância ao menos pelo estilo, a um novo ciclo radioso de poder.
E esse Líder existe, aguarda apenas que o chamem...
O chamamento
A agonia de um títere
A farsa parece estar a chegar ao fim, como todas as que a precederam.
Logo após Abbas ter confessado o seu despontamento quanto aos resultados do encontro com o Superpateta, o Hamas ( com toda a pertinência, diria eu ) sugeriu-lhe que oficialmente considere fracassadas as negociações para o estabelecimento do estado palestiniano.
De facto, mais uma vez, não só o governo israelita pretende de forma ostensiva arrastar os pés sem se expor a qualquer compromisso sério, como a administração norte-americana cobre a palhaçada sem um único gesto de protesto com efeitos práticos.
No estado em que as coisas se encontram, ao sabotar uma negociação crítica que se desejaria séria, Israel joga a sua existência com uma leviandade digna de nota.
Vejamos:
A norte e a sul enfrenta agora, pela primeira vez, duas forças não estatais bem organizadas, capazes de promover a curto prazo, sem intervenção directa de terceiros, uma acção de desgaste intensiva, à qual não poderá responder sem um massacre indiscriminado em larga escala, com uma posição política enfraquecida por manifesta má-fé.
Para contrabalançar esse perigo, o governo de Olmert tem vindo a alimentar ilusões perigosas quanto à possibilidade de cindir o campo islâmico, por um lado através de uma paz separada com a Síria, por outro através do estabelecimento de uma frente de conveniência com países sunitas para alegadamente contrabalançar o avanço xiita.
Será útil que fixemos na memória este momento, para que mais tarde os distintos agentes não possam descartar-se das suas responsabilidades. Todo o Ocidente se envolveu de forma inequívoca no boicote abjecto a um governo dotado de clara legitimidade democrática. Todo o Ocidente se solidariza agora com a destruição política do idiota útil Abbas. Veremos como irão os governos e cidadãos dos países ocidentais reagir ao que muito provavelmente se segue.
Negócio fechado ?...
Assim parece.
O comando das hostes dos Talimaus no Paquistão ordenou um cessar-fogo aos seus petizes. Para que não haja problemas de interpretação, o comando advertiu que quem continuasse a atacar as tropas governamentais seria tratado de forma pouco simpática. Bom, parece que os Talimaus fecharam uma frente de guerra. Afeganistão, aí vão eles.
Do lado afegão, crescem também os esforços dos Talibons para negociar qualquer coisa com os Talimaus. Mais precisamente, a idéia será cativar os Talipoucomaus para uma partilha de poder, na esperança de que se divorciem dos Talimuitomaus. No meio das festividades, a NATO vai reforçando a sua carne para canhão, pois parece não ter grandes alternativas depois de se ter encafuado neste buraco. Adoramos fazer figura de parvos.
Tarzan Taborda vai às cordas
K.O. ao quarto assalto.
A imprensa aguentou os embates da rádio e da televisão, entrincheirou-se numa galáxia de nichos especializados, mas soçobra perante a acessibilidade das fontes na Internet, que proporciona ao consumidor final uma margem de manobra simplesmente imbatível.
À medida que o tempo passa, as tiragens diminuem e a publicidade procura novos meios, cada vez mais diversificados.
Nos próximos dias, é esperada uma redução drástica nos quadros do New York Times. No meio desse e de outros ajustes, muitos jornalistas de grande qualidade irão perder o seu púlpito. Infelizmente, não irão ser reaproveitados pelas empresas que operam na Internet. Estas, noblesse oblige, tendem cada vez mais para o imediatismo em detrimento da integração e da análise. Paradoxalmente, ao mesmo tempo que a Internet proporciona uma quantidade tremenda de informação e um grau de liberdade de expressão nunca antes experimentado, acaba também por enterrar a imprensa escrita, e com ela os seus serviços de integração e análise.
Horror dos horrores, as cadeias de televisão, cada vez mais concentradas e sujeitas a forte censura, acabam por receber de mão beijada, sem qualquer esforço, o monopólio desses serviços.
Ideologia, a Gata Borralheira dos nossos tempos
Como é de uso, quando se fala em ideologias imediatamente alguém se arrepia com a palavra e sugere uma outra coisa. No caso, um leitor propôs em alternativa uma reflexão sobre estratégias futuras.
Bom, de onde vem esta alergia a uma palavra tão interessante ?...
Esmiucemos... De forma simplificada, pode entender-se por ideologia qualquer corpo coerente de idéias que conferem algum tipo de justificação ética a uma prática.
Como alguém já referiu, usualmente a ideologia sucede à prática, não a precede.
Andemos para trás no tempo. Se observarmos as grandes mudanças qualitativas ao longo da História, podemos com alguma segurança afirmar que elas não foram precedidas de uma justificação coerente. Tipicamente, tratou-se de ajustes involuntários ( muitas vezes revolucionários ) resultantes da inadequação da ideologia vigente à realidade. Mas, particularmente na Europa, assume particular interesse o período que se inicia com o descalabro do absolutismo e termina no colapso da URSS, pela sua fecundidade do ponto de vista da produção ideológica, gerando um largo leque de opções, algumas delas com impactos muito dramáticos.
À saída deste período, venceu aos pontos uma versão da ideologia ( quase ) liberal. E, como tantas vezes acontece, criou-se então a ilusão de que o modelo proposto seria quase consensual e, mais ainda, representaria um cume inultrapassável, um compromisso que duraria por toda a eternidade. Houve até um rapaz muito jeitoso que jurou a pés juntos que tínhamos alcançado o fim da História, mas acabou por ter de se retractar alguns anos depois...
Nada de novo. A expressão sempre foi assim e há-de ser sempre assim é manifestamente falsa, como as inúmeras reviravoltas da História nos mostram, mas é talvez uma das frases que, ela sim, terá acompanhado desde sempre a humanidade. Trata-se apenas de uma de várias manifestações negativas do modo de funcionamento do nosso cérebro.
Sugiro, portanto, que será prudente olharmos para o mundo com sentido mais crítico, porque algumas das coisas em que acreditamos simplesmente não têm fundamento. De momento, uma das crenças que me parecem mais perigosas é a da associação entre a democracia política e um sistema económico capitalista quase liberal. Uma outra é a de uma infinita criatividade, supostamente capaz de gerar novas áreas de negócio que absorvam as massas humanas rejeitadas em virtude do contínuo aumento de produtividade num planeta em que os mercados atingem a sua dimensão máxima com a globalização.
Ora, noto que o sistema chinês, fortemente dirigista e completamente divorciado do humanismo ocidental, se apresenta hoje como solução de sucesso e promete ser a potência dominante dentro de duas ou três décadas, forçando os países ocidentais a um drástico e incondicional realinhamento por baixo.
Parece-me que o nosso sistema de crenças vai entrar em crise a curto prazo... Parece-me que seria prudente começarmos desde já a pôr os pontos nos is, em vez de nos colocarmos na péssima posição de ter de reagir em cima do acontecimento.
Por isso me parece, enfim, que a palavra ideologia não deveria ser maltratada. Vamos precisar dessa palavra.
Cautela e caldos de galinha
Vimos recentemente os primeiros sinais de alerta para o problema da escassez de alimentos, e assistimos de imediato à ressurreição do proteccionismo na sua pior forma, com cerca de dez grandes exportadores a impor restrições à saída do novo ouro. Nada de estranho, nada de imprevisível.
Há cerca de seis meses atrás, quando alguém me questionou sobre investimentos seguros, respondi de forma simples: produtos alimentares. Julgo que a pessoa em causa perceberá agora a que me referia.
Clarifiquemos, no entanto. A crise actual não passa de um prenúncio, algo que resulta para já de aspectos circunstanciais, que podem ser facilmente minimizados no quadro das instituições internacionais de regulação comercial existentes.
Trata-se de um núcleo de baixas pressões, sugado de um lado pelo aumento gradual da procura, de outro por incidentes naturais ou incompetência humana, e de outro ainda pela desastrosa performance da D. Branca norte-americana.
Não resisto no entanto a relevar o gozo imoral que me dão as notícias que chegam dos EUA... As que nos dão conta do racionamento imposto por várias cadeias de retalho a venda de diversos cereais, face à súbita tentação de açambarcamento que acometeu esta maravilhosa classe média.
Também por aí, não criemos no entanto angústias sem sentido. Se há problemas no abastecimento por parte dessas cadeias, eles decorrem apenas, para já, do modelo de gestão mais difundido, cujo primeiro mandamento é Não manterás stocks para mais de 24 horas, caso contrário vais para o olho da rua.
Gozo à parte, talvez fosse interessante que a lusa governação começasse a pensar no assunto, não vá o diabo tecê-las. E seguramente, o diabo vai tecê-las.
Gestão de percepções
A recolha, tratamento e difusão de notícias tem na cena internacional um reduzido número de agências de topo, o que potencialmente reduz o leque de visões que o consumidor final pode obter.
Por trás dos factos e opiniões que nos são apresentados nos noticiários nacionais estão essas agências de topo, não havendo portanto um grande trabalho local de investigação, mas um mero trabalho de filtragem final.
Usualmentes, o resultado não é muito credível.
E menos credível se torna quando, nalguns raros momentos, nos é dado perceber o grau de sujeição ao poder a que algumas das grandes cadeias dos media estão submetidas.
Num trabalho muito interessante, o New York Times decidiu focar a atenção sobre os comentadores militares que nessas grandes cadeias periodicamente se pronunciam sobre o desenvolvimento de situações como o Iraque ...
Seria de esperar que esses comentadores expressassem opiniões informadas e com elevado grau de isenção. Afinal de contas, têm a responsabilidade de ajudar um elevadíssimo número de cidadãos a interpretar os factos que se vão sucedendo.
O que o NYT expõe, afinal, é uma teia de relações centrada no Pentágono, um exercício metódico e persistente de influência directa sobre o tipo de interpretações a veicular pelos comentadores.
Para mais detalhes, divirta-se lendo o artigo . Noto que o eco já se espalhou um pouco por todo o planeta, tanto quanto posso observar. Sugiro ao leitor que esteja atento ao tratamento deste assunto pelos media nacionais, nos próximos dias.
Ainda o caixeiro viajante
É difícil perceber o contexto em que a viagem de Carter foi definida. Se por um lado a frente unida do Ocidente martela incessantemente a tecla do Hamas-muito-mau, e apregoa uma decisão férrea de o ignorar a todo o custo, apresenta continuamente sinais de algum realismo, ao concordar que o Hamas tem a legitimidade que falta à Fatah e que sem o Hamas qualquer acordo que se cozinhe será apenas mais uma história de fadas.
Veja-se que as manifestações informais de apoio a esta iniciativa surgem em vários pontos, incluindo pelo menos uma figura de topo do governo israelita. Ao mesmo tempo, são muitas as manifestações de desagrado, chegando a congressista Sue Myrick a exigir que o passaporte de Carter seja confiscado.
Embora se possa ver nesta salgalhada a desorientação inevitável que resulta da estratégia pateta de isolamento do Hamas, julgo que assistimos a algo mais profundo, um combate surdo entre duas linhas políticas no interior das estruturas de poder ocidentais, uma mais retrógrada que defende a posição colonialista com unhas e dentes, uma outra com motivações não necessariamente muito diferentes mas pelo menos com a consciência de que a farsa não pode arrastar-se por muito mais tempo.
Esta última linha continua em desvantagem, quanto mais não seja porque os incompetentes governos ocidentais, depois de se meterem neste buraco, não podem facilmente voltar atrás sem perder a face. É exemplo da actual correlação de forças, cá no nosso cantinho, a censura a que os media se sujeitam, calando as manifestações de apoio a Carter, e, pior que isso, calando as suas declarações mais incisivas. Veja-se o rigor e a profundidade:
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1326308&idCanal=11
Continuamos a viver ( e a querer viver ) num mundo orientado por narrativas efabuladas... Será bom que tenhamos consciência de que há um preço a pagar.
Como nota de rodapé, refiro que nos próximos dias a imprensa israelita poderá levantar a tampa sobre alguns assuntos que têm estado bem escondidos, e que não se relacionam com a visita de Carter. Depois de ver os ecos na imprensa ocidental, voltarei ao tema.
O cano de esgoto
O centro é o ralo por onde a democracia se escoa.
Ao longo do processo político desde 74, alguns, poucos, tiveram o cuidado de alertar para essa perversão. Neste ponto do campeonato, seja do ponto de vista formal por via dos arranjinhos parlamentares, seja do ponto de vista prático pelos golpes de cintura dos grupos de interesse prevalecentes nos dois maiores partidos, chegámos a uma situação que nem a fantasiosa alternância consegue mascarar, a da identidade ideológica desses dois partidos.
Vem isto a propósito da novíssima cena de faca e alguidar com que o PSD mais uma vez nos brinda, uma liturgia que ameaça tornar-se tão regular como um relógio de cuco. Sendo os dois partidos apoiantes plenos de um mesmo capitalismo-liberal-mas-não-muito, ao que se encontre circunstancialmente no poder cabe nesta época apenas a responsabilidade de garantir que a incontornável depreciação do estado não seja demasiado estrepitosa.
Quanto à fase seguinte, nenhum dos dois tem qualquer idéia, mas essa é uma falha que a realidade se encarregará de resolver.
Não admira portanto que, como aconteceu antes com o PS quando estava na oposição, o PSD esteja agora condenado a defenestrar o líder uma ou duas vezes por ano. Na ausência de causas políticas minimamente dignas desse nome, resta ao partido da oposição o canibalismo.
Chama-se a isso ginástica de manutenção. E se acontece hoje no PSD, acontecerá amanhã no PS quando por um qualquer acaso seja temporariamente arredado do poder.
Querido leitor, enquanto o mito da morte das ideologias perdurar, tenha lá paciência mas vai ter de engolir muitas vezes este tipo de palhaçadas. Aguente-se à bronca e tenha fé.
O viajante silenciado
Apesar de não ter ainda terminado a passeio de Carter pelo deserto, apetece-me botar já alguma faladura sobre o assunto.
Ainda o homem não tinha começado, já os poderes se mexiam para que em caso algum se encontrasse com o Hamas. Mal pôs os pés em Israel, ficou a saber-se que o governo, ostensivamente, não lhe garantiria segurança. Quando tentou ir a Gaza, o governo não lhe concedeu autorização.
No problem... Carter encountrou-se com o Hamas, no Egipto. E vai encontrar-se novamente, na Síria, na semana que vem. Depois do encontro no Cairo, fez uma pequena conferência na universidade americana, para dizer algumas coisas desagradáveis, a saber:
- Que o bloqueio imposto a Gaza é um crime e uma atrocidade;
- Que os palestinianos de Gaza estão a ser condenados à fome, com direito a menos calorias que os habitantes dos países mais pobres da África;
- Que, politicamente, esta atrocidade acabou por fortalecer o Hamas, em detrimento da Fatah.
Talimaus e Talibons
Querido leitor, arrependa-se e reze três pai-nossos.
Lembra-se de quando se horrorizava com as histórias terríveis sobre uns orientais primitivos que dinamitavam Budas ? Lembra-se de ter chorado com emoção a morte do Leão do Panshir, nobre e generoso líder dos Talibons ? Lembra-se do regozijo que lhe encheu o coração, quando se irmanou com a pobre populaça finalmente livre do jugo dos Talimaus ?
Definitivamente, os valores das democracias ocidentais não se vendem bem por catálogo. Mais tarde ou mais cedo, o make-up esfarela-se e as grandes linhas de força dos processos culturais emergem. No caso afegão, terá sido mais cedo que tarde. Veja-se a rapidez com que o país, logo que os Talimaus foram corridos, retomou o top de vendas dos opiáceos e ali se mantém. Ou a rapidez com que os senhores feudais sedimentaram o seu poder reconquistado. Veja-se também como, passo a passo, as grandes linhas de força se transformam em lei:
Afghan parliament committee drafts Taliban-style moral law
AFP
http://news.yahoo.com/s/afp/20080416/wl_sthasia_afp/afghanistanculturerelgionparliament
Desiludido, querido leitor ? A culpa é sua. Não se iludisse com narrativas fantasiosas.
A barriguinha quer-se cheia
E de repente, o FMI lembrou-se...Aqui d'el-rei, que isto vai dar para o torto, e centenas de milhar de pessoas irão morrer à fome. Tentemos perceber melhor o que se passa, porque isto parece não fazer muito sentido para nós, europeus, que pagamos aos nossos agricultores para que não produzam.
Por entre dois bocejos, a tendência de fundo tem sido vagamente reconhecida. Com um lote de mil milhões de novas bocas para alimentar a cada 10 ou 15 anos, seria necessário aumentar continuamente a dimensão e a produtividade das áreas cultivadas para que o balanço fosse neutro. Ora, não sendo os solos um maná inesgotável, a sua sobreexploração e a diminuição contínua da área aproveitável aconselhariam algumas medidas de precaução, mais ainda quando alguma projectada instabilidade climática promete ajudar à degradação rápida de zonas muito vastas do planeta, precisamente aquelas em que a concentração de pessoas e terras aráveis é maior.
Até ao momento, nada fizémos.
Do lado dos países mais desenvolvidos, uma mistura de sentimentos de segurança, impotência ou inevitabilidade, talvez associados a uma cínica esperança num ajuste malthusiano que reduza parte da procura. Se quisermos perceber como a coisa funciona, basta olhar para os hutus e tutsis, ou para alguns dos conflitos mais recentes. O mesmo cenário começa agora colocar-se em países um pouco mais ricos, e não poderia ser de outra forma. Ainda assim , devo dizer que acho arrepiante a visão de um camião de transporte de cereais sendo escoltado por homens armados de metralhadora.
Dir-se-à que a crise actual não será duradoura. Afinal de contas, os últimos dois ou três anos foram desastrosos em termos de colheitas e uma situação dessas não se prolonga indefinidamente. É verdade que estamos perante um pico de procura, mas, se as consequências são estas, a razão está no progressivo esgotamento dos stocks de reserva. Ao longo dos últimos dez anos, a humanidade tem estado a consumir mais do que produz, e a margem de manobra para reagir aos imprevistos desapareceu.Em boa verdade, portanto, sem esses imprevistos a crise que agora vivemos iria surgir, mas apenas daqui a quatro ou cinco anos.
Acordámos, com algum estrépito. Porquê ? Porque para os países ricos, que se julgavam de certa forma capazes de manter a crise alimentar no interior dos limites fronteiriços dos países mais pobres, foram confrontados com uma situação curiosa, que provavelmente vai alargar-se, a da gestão política de alguns exportadores tradicionais, que simplesmente estabeleceram tectos de exportação para evitar que a inflação degenere em convulsão social. Temos aqui, portanto, um primeiro sinal de retorno aos mercados controlados. Não basta agora ter dinheiro para comprar, é necessário que do outro lado os governos ( já não os produtores ) se disponham a vender.
Cada um por si e o diabo por todos, parece ser o mote. E o Santo Graal que todos procuram agora é o da auto-suficiência. Se alguns governos optam por investimentos massivos na produção agrícola no seu próprio território, outros, com terras mais estéreis ou mais sobreexploradas, inauguram um novo processo, o do 'aluguer' de vastas áreas cultivadas ou cultiváveis em território de outros países. O bicho homem é muito criativo.
Ah, antes que me esqueça, querido leitor... Se estava a pensar num ecológico pópó a etanol, comece a pensar noutra coisa, antes que o acusem de homicídio por negligência.
Pedro Bandeira Freire
Soube há pouco tempo atrás que a IGAC tinha ordenado o encerramento das salas do Quarteto.
Sei agora que Pedro Bandeira Freire se encontra internado, em estado grave.
Dos espaços culturais que tenho conhecido ao longo da vida, um dos que melhores memórias me traz é o Quarteto. Não apenas pelo cinema, que PBF soube oferecer de forma então inovadora, enriquecida ainda mais pela sua alma de cinéfilo...
É também pela aposta que fez há um quarto de século atrás, quando abriu a porta ao teatro Emarginato. Ocupávamos o espaço e o tempo de uma sessão de cinema, numa das salas. Um espaço físico reduzido, é certo, mas suficientemente grande para que ali se tenham criado momentos que guardo na memória como se de preciosidades se tratasse.
Obrigado, Pedro Bandeira Freire.
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1325694
Sinceras condoleezzas
A mórbida figura chega-se à frente, tal como vaticinado.
Não há agora sessão pública relacionada com McCain em que esta varejeira sinistra não insinue morcegos mensageiros, promovendo a sua natural candidatura ao cargo de vice...
Um acto de desespero, já que a colagem carreirista ao Superpateta é uma nódoa que nem a benzina esmaece.
Mas... Uma análise coproscópica cuidadosa do circo de horrores em que se transformou a cena política imperial, pasme-se, leva-me a crer que o duo McCain/Condoleezza seria panaceia adequada para os males do mundo...
Um mix de cinismo, traição e realismo com algum valor, ao contrário da paranóia narcísica de Hillary ou do messianismo bacoco de Obama.
Qualquer criatura que sobreviva a Rumsfeld merece o meu respeito e veneração. Amen, vai em frente, cachopa.
Homicídio, Inc.
O reconfortante manto da censura vai-se estendendo sobre a Net, é certo, garantindo-nos a possibilidade de fazer de conta que nada sabemos.
Não foi a tempo, no entanto, de esconder alguns dos episódios mais hediondos da nossa aventura nas areias iraquianas.
Entre muitas outras imagens particularmente cruéis, ficou-me na memória a filmagem do passeio de uma equipa de segurança privada ao longo de uma estrada de periferia urbana. Nessa filmagem, feita pelos próprios, o divertimento consistia em alvejar a tiro de metralhadora, aleatoriamente, os condutores dos veículos que por funesto acaso se aproximassem. Julgo que foi nesse momento que percebi as imagens anteriores sobre uma outra equipa, vitimada em Fallujah, transformada em torresmo e pendurada na ponte para gozo da populaça, episódio que haveria de causar um dos casos mais graves de punição colectiva da população civil, com o cerco e esvaziamento dessa cidade de quase 300000 habitantes, seguido da sua destruição .
Na raíz desta loucura está o recurso a empresas privadas de segurança com garantia de imunidade pelos crimes que cometam. Um complemento incontrolável, com dezenas de milhar de efectivos, das tropas imperiais regulares.
No centro desse grupo de mercenários está a Blackwater, cujo contrato foi agora renovado, sem atender às objecções do débil governo iraquiano. Rumsfeld fez escola.
O homem doente está a espirrar
Confesso que em vez de uma União Europeia preferiria, por um grande número de razões, uma União Mediterrânica.
Mais deixemos os sonhos de lado, que os meus concidadãos europeus preferem continuar a efabular sobre um clube europeu da cristandade, apesar de serem maioritariamente ateus ou agnósticos.
Ficar-me-ia então pelo paliativo mais próximo, a inclusão de um país de charneira, suficientemente pesado para que pudesse constituir um sinal sério de abertura. Precisamos disso como de pão para a boca.
A Turquia serve às mil maravilhas. Meio europeia, meio islâmica, meio democrática, meio tudo.
Não sendo a ponte perfeita para o mundo árabe, é o mais próximo que podemos encontrar. E vontade de inclusão parece não faltar.
A Turquia tem consciência plena do seu estatuto de charneira, e fez a sua escolha europeia em devido tempo, não uma mas várias vezes.
Infelizmente, não parece acontecer o mesmo do lado de cá, a resposta da UE tem sido um infindável e humilhante arrasta-pés, cujos resultados se vão tornando cada vez mais inquietantes. O capital de vontade política que as forças laicas ou religiosas turcas possam ter não é inesgotável, e a persistência de alguns de nós na efectiva construção de uma pindérica Fortaleza Europa está a minar lentamente essa vontade. Um passo aqui, outro além, e a Turquia acabará por desistir de várias coisas, laicidade incluída. Podemos ver o processo em marcha, e as suas fases seguintes poderão ser violentas e decisivas, acabando na morte definitiva de Ataturk.
A UE, por razões que a minha limitada razão desconhece, optou por investir a Leste o que deveria ter investido a Sudeste ou a Sul, e não parece ter tempo ou sequer vontade para emendar a mão.
O homem doente da Europa está a espirrar.
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1324727&idCanal=11
A gestão dos ventos
Matt Drudge, fenómeno do Entroncamento.
Um franco-atirador do jornalismo, um matador solitário, que em boa hora decidiu complementar o seu trabalho com o dos outros, criando o Drudge Report ( http://www.drudgereport.com/ ).
A chave do sucesso deste empreendimento é um misto de rapidez, um levantar da lebre ainda numa fase incipiente de validação da informação, com uma selecção cuidadosa das novidades de maior impacto e das fontes que as veiculam.
Números ? ... Uma subida constante ao longo dos anos, com um recorde de aproximadamente 500 milhões de visitas no passado mês de Março.
E a outra face da moeda... Sem qualquer exposição pessoal, pela mera gestão dos títulos, vai fazendo um jogo de influência em que a sua tendência conservadora sobressai. Em particular, tenho-me deliciado com a subtil pulhice com que trata as candidaturas presidenciais. Um verdadeiro Detritus.
Palminhas, palminhas.
As delícias do Grande Jogo
Uma das linhas de força mais importantes na cimeira da NATO, tão ou mais importante que a questão do alargamento, foi a necessidade de garantir maior empenho na estabilização do Afeganistão. A razão é simples, todo o esforço feito até agora na construção de uma democracia pluralista está em risco.
A tarefa não se adivinhava fácil. O país foi seriamente degradado por décadas de guerras, que acabaram por promover as lealdades tribais em detrimento do sentimento nacional, e a cruel unificação sob domínio Taliban foi interrompida pela intervenção dos países ocidentais, que dessa forma assumiram ingenuamente a responsabilidade de prosseguir a unificação em moldes mais humanos, quando lhes interessaria acima de tudo garantir alguma influência num país estrategicamente valioso. Chamem-me cínico, mas creio que poderíamos tê-lo feito sem abater os Taliban.
Como aconteceria em seguida no Iraque, pecaram os países ocidentais, julgo eu, por erro injustificado e persistente. Erro na demonização imprudente dos Taliban, erro na avaliação da correlação de forças. Quanto ao primeiro, pareceu-me na altura indício óbvio o conjunto de atrocidades cometidos pela Aliança do Norte. Do seu episódio mais grave fica a lembrança de uma investigação da ONU, nunca concluída, sobre a chacina de centenas de Taliban em contentores.Quanto ao segundo, pareceu-me e parece-me estranho que não se tenha reflectido sobre as razões que conduziram os Taliban ao poder.
Seis anos depois, estamos quase na estaca zero, com uma pequena agravante... O Paquistão, forçado a transformar o seu território numa das frentes de guerra que supostamente contribuiria para esmagar os Taliban e a Al-Qaeda, atirou agora a toalha ao tapete, ao negar a Musharraf a possibilidade de manter a aliança com o Ocidente, pois esta começava a ameaçar seriamente a integridade do estado.Um volte-face dramático, que conduziu Negroponte a uma humilhação quando, ainda antes da tomada de posse do novo governo, decidiu ir dar ordens em casa alheia e saíu pela porta do cavalo. Rei morto rei posto, o Paquistão inicia agora um processo negocial com os Taliban. Fechada esta frente de combate, eles ficarão totalmente disponíveis para o teatro afegão, o mesmo acontecendo aos muchachos da Al-Qaeda e até alguns desempregados da quezília de Cachemira.
Um quadro pouco auspicioso para nós, daí a urgência num maior empenho dos membros da NATO. Por mais que limpe as lentes do meu coproscópio, no entanto, não consigo perceber onde queremos chegar...
O menino que comia erva
Tinha de ser... Uns artistas britânicos da universidade de Newcastle andaram a brincar às casinhas e plantaram núcleos humanos em óvulos de vaca. Não foram muito longe, e agiram com as devidas autorizações. Usaram apenas meia dúzia de células e ao fim de alguns dias foi tudo pela retrete abaixo, pois aparentemente os híbridos não conseguiram sobreviver mais de três dias, o que faz algum sentido.
Adiante. Embora seja a primeira vez, julgo eu, que esta habilidade é executada com material humano, pode dizer-se que já foi banalizada com componentes de outras espécies. É sempre divertido e permite ir percebendo em que medida a maquinaria celular de um hospedeiro é compatível, ou auto-ajustável, de acordo com as necessidades do DNA hóspede e as suas determinações.
Presumamos então que por um qualquer milagre o DNA do núcleo invasor acabe por ser expresso e rapidamente o hospedeiro seja preenchido por um novíssimo bouquet de proteínas, em vez de se desfazer sem honra numa gosma aquosa... Ainda assim, não estaríamos perante a transferência da totalidade da informação que constitui o bilhete de identidade das nossas células. Faltam algumas coisitas, como as mitocôndrias, que no caso ensaiado continuaram a ser as da vaca. Gostaria muuuuito de saber o que poderia resultar de tão colorida mistura, caso se garantisse a constituição de uma colónia mais populosa. Sei lá, uma colónia que tivesse bracinhos e perninhas e dissesse 'mãmã', por exemplo.
Partilha da minha curiosidade, querido leitor ?
Os ultracongelados
De vez em quando, percorro textos mais antigos, em jeito de auditoria, à procura de erros de percepção cuja repetição deva ser evitada. Correcção de tiro, chamemos-lhe assim...
Muitos desses textos são hoje obsoletos, por força da alteração das circunstâncias ou da dinâmica dos costumes.
Não é assim em todos os casos, infelizmente. Nalguns aspectos, talvez dos mais centrais do ponto de vista ideológico, permanecemos bloqueados enquanto a realidade avança.
No seguimento de uma discussão tida este fim-de-semana, fui procurar algo que tinha escrito há quatro anos atrás. Convido o leitor (e com particular ênfase os que participaram na discussão) a espreitar esse artigo e a reflectir sobre as mudanças ocorridas desde então. Pela minha parte, não encontro nenhuma.
http://www.infoalternativa.org/moriente/mo010.htm
