A produção intelectual da primeira metade do séc. XX teve inúmeras ramificações, num crescendo frenético cujo desenvolvimento, nalguns casos, nos apraz hoje classificar como imoral.
Depois de séculos e séculos de mansa subordinação a uma ordem social bafienta, aquela janela de tempo tem semelhanças com a louca explosão das formas de vida do Câmbrico. Profícua e insustentável.
Desse tempo sobrou acima de tudo sofrimento e vergonha. E dessa confusão, apetece-me esta noite sublinhar a eugenia, cuja morte matada se deve quase exclusivamente à despudorada abordagem feita pela Alemanha nazi.
Pessoa que se preze deve agora exibir náusea genuína perante as experiências aberrantes dos homens maus nos campos de concentração.
Pena, pena... A narrativa, neste e noutros pecadilhos, faz de conta que os homens maus tiveram culpa exclusiva, mas não poderíamos estar mais longe da verdade. A eugenia, talvez porque encaixe como luva na demência nacionalista, teve durante décadas uma audiência alargada e fez escola em todo o Ocidente.
A comprová-lo, a gravura que encabeça este artigo documenta o orgulho profissional do dever cumprido, depois de legalizada a esterilização forçada de grupos com comportamentos tidos como desviantes na maioria dos estados norte-americanos.
Deixe-me tirar-lhe o sono, querido leitor...
Setenta anos depois, vai ser colocado perante possibilidade similar de eliminar linhagens desviantes. Com uma diferença fundamental... Há setenta anos atrás, presumimos que as linhagens decadentes podiam ser eliminadas pela esterilização forçada. Hoje, a ciência promete-nos a possibilidade de eliminar a decadência pela manipulação genética.
Em ambos os casos o juiz é o leitor, cidadão comum com direito de voto. Chegue-se então à frente, querido leitor, porque vai ter de assumir o papel de um deus. E se fizer o mesmo que fez há setenta anos atrás, o resultado será hediondo.
Incómodo ? Sim, mas não pense em furtar-se a essa responsabilidade...
Se apoia as medidas de redução contínua e incondicional da mortalidade infantil, deve estar ciente de que garante a sobrevivência e reprodutibilidade de mutantes de todo o género. Se, ao contrário, defende a selecção activa de linhagens, por nobilíssimas razões eugénicas ou simples leviandade estética, então prepare-se para ser julgado por crimes contra a humanidade.
Durma bem.
Incómodo ? Sim, mas não pense em furtar-se a essa responsabilidade...
Se apoia as medidas de redução contínua e incondicional da mortalidade infantil, deve estar ciente de que garante a sobrevivência e reprodutibilidade de mutantes de todo o género. Se, ao contrário, defende a selecção activa de linhagens, por nobilíssimas razões eugénicas ou simples leviandade estética, então prepare-se para ser julgado por crimes contra a humanidade.
Durma bem.


7 comentários:
Muito obrigada, agora vou passar a dormir mal, com pesadelos e isso assim. Podias ser um pouco mais claro, mais objectivo sobre o assunto. Claro que sabemos (acho que todos sabemos) o que os nazis fizeram com a eugenia, mas e agora, concretamente, o que é que os nossos cientistas e políticos andam a engendrar?
Também falas em votantes. Achas que nós, cidadãos comuns, vamos ter direito a voto nesta matéria?
Por hoje é tudo. Fica bem :o)
Antes de mais, convido todos para uma visita a www.eugenicsarchive.org ou outro dos diversos sites que contam a história da coisa sem grandes efabulações.
Para todos nós, o problema seria simples se pudéssemos ater-nos ao que os nazis fizeram com a eugenia... Mas, tendo sido os não-nazis a levantar a lebre da eugenia e a implementá-la por mecanismos democráticos, parece-me importante chamar a atenção para a forma como se comportaram.
Julgo que estamos a cometer uma sucessão de erros quando começamos por diabolizar a eugenia (retirando-a assim da discussão pública), aceitamos em seguida as moratórias bem intencionadas sugeridas por esta ou aquela comissões de ética, e por último somos colocados perante factos consumados sempre que, inevitavelmente, as moratórias são furadas a conta-gotas numa sequência de eventos abaixo do limiar de alarme.
Os patos-bravos dão-se bem neste tipo de ambientes.
Claramente, creio que a eugenia vai ser necessária. A deriva genética, ao produzir ruído que já não é filtrado por mecanismos de selecção natural, pode conduzir a uma degradação das capacidades da espécie.
Mas coloca-se-nos o mesmo problema de sempre, o de decidir o que deve ser preservado ou rejeitado. Errámos no passado e vamos errar no futuro, desta vez de forma mais subreptícia, pois estamos no limiar de uma nova etapa em que a eugenia poderá dispensar a eutanásia ou a esterilização, optando antes pela manipulação correctiva in vitro. Bébés à medida sem problemas de consciência, com critérios de correcção ditados pelas seguradoras. Um caldinho jeitoso...
Importa reter que houve leis de esterilização compulsiva democraticamente aprovadas em assembleias representativas de cidadãos.
Leis de teor mais ou menos similar irão obter o selo de aprovação pelo mesmo processo.
Por isso me parece que desta vez os cidadãos deviam exigir uma discussão aberta, em vez de assinarem de cruz como é habitual.
Boa noite
Será que o teu blog não pode ter um textos ou temas mais bem humorados? Será que o "bom humor" se perdeu nesta procura incessante de temas sombrios em linguagem propositadamente elaborada?
Vou continuar a espreitar este blog na expectativa de me surpreender.....
"defende a selecção activa de linhagens, por nobilíssimas razões eugénicas ou simples leviandade estética, então prepare-se para ser julgado por crimes contra a humanidade."
SIMPLES LEVIANDADE ESTÉTICA!?!?
Não concordo que a questão estética seja leviana. Vê-se mesmo que não tens olhos azuis...
:P
(Tá bem, o assunto é mais sério que isso. Mas os comentários são livres.)
Cientistas mapearam o gene dos gases intestinais!
http://www.infoaddict.com/post/title/the-fart-gene-has-been-mapped/index.html
Dúvida: retirar esse gene dos seres humanos futuros é Eugenia ou Leviandade estética?
leviandade estética! sem gases vão ficar todos barrigudos e estéticamente (mais) feios!
A eugenia, manipulação genética e o diabo a sete, não me convencem de maneira nenhuma dêem-lhe as voltas que lhe derem. Podem vestir a coisa com as roupas mais bonitas e garridas, e mais democracia e mais debate aprofundado da coisa e mais ética e isto e aquilo, que o produto final vai ser sempre o mesmo: um cataclismo dos grandes. A História já nos provou que a ciência dos homens e mulheres é perversa. Tu mesmo disseste que Hitler se limitou a aperfeiçoar e a aplicar na prática e em grande escala um modelo desenvolvido por outros em democracia, e claro que ele não o fez sozinho. Se é discutível que o fez com o consentimento do povo alemão, é mais que sabido que tinha do seu lado um exército de homens e mulheres ditos de ciência. (Não era o Goebbles, ou lá como se escreve, que tinha não sei qtos PhDs?). Depois, falar em democracia, liberdade etc em países capitalistas é como contar histórias de encantar a criancinhas, pelo menos, no meu modo singelo de ver as coisas. O meu voto só serve para passar carte blanche aos fazedores de politica, que uma vez eleitos tratam logo de se pôr ao serviço dos grandes interesses capitalistas, não dos meus, ou do povo que os elegeu. Portanto, democracia ou ditadura tanto faz, o poder impõe-se sempre nem que seja com lavagens mais ou menos veladas aos cérebros dos cidadãos através das máquinas de propaganda nas mãos de Murdocks e Co. E depois, qual é a pessoa abastada que não prefere ter uma prole cheia de saude e de olhos azuis? O vil metal compra tudo, pois é. E agora, vamos falar de debates :o)
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