Da criação de caniches

Cheios de boas intenções, lá vamos corrigindo os muitos defeitos dos processos naturais.
Ao contrário do que acontece com os criadores de cães, que podem arbitrariamente decidir sobre as linhagens a cruzar, os guardiães da boa raça humana enfrentam o problema da liberdade.
Os valores que nos regem impedem de momento a esterilização compulsiva ou métodos similares de higiene racial, o que acaba por facilitar a reprodução de espécimes portadores de características perniciosas, uma vez que os humanos tendem a acasalar de forma pouco criteriosa. Isto é muito aborrecido.

Mas como a ciência nos vai habilitando a reconhecer as raízes genéticas das alegadas deficiências e a tecnologia nos vai deixando interferir de forma mais precisa nos processos biológicos, parece-nos que será fácil direccionar a evolução da espécie sem colidir com barreiras éticas.

A Times relata-nos um novo expediente, muito promissor. Trata-se da selecção artificial na fase embrionária, que nos permite dizer que descartamos embriões de menor qualidade, em vez termos de dizer que praticamos aborto eugénico.
Como funcionou a coisa, neste caso particular ?... Ao que diz o artigo, a linhagem do macho é portadora de uma variante do gene BRCA1 da qual resulta prejuízo para os processos de reparação do DNA, aumentando o risco de aparecimento de cancro da mama. Os anjos da ciência decidiram então criar meia dúzia de embriões por IVF, seleccionaram dois que não continham essa variante e implantaram-nos na feliz mamã, atirando os outros para a retrete. Tão fácil como saltar à corda.

É uma história bonita. Comovente. Não mais haverá naquela família a dor da perda de entes queridos às mãos do cancro, por muitas e muitas gerações.

Mas deixem-me azedar a festa...
Como acontece em muitas outras situações, o BRCA1 não é actor isolado. A escolha de uma variante em detrimento de outra, sem que se faça selecção simultânea nalguns outros genes, é condição suficiente para que a reparação de DNA passe a decorrer normalmente ?
Por outro lado, a variante preterida, sendo feitas correcções noutros genes, não poderia, a la longue, revelar-se afinal uma melhoria no património genético ?

Tudo isto é muito bonito, mas conviria não esquecer que este tipo de correcções vai produzir efeitos por muitas gerações. Não seria mais prudente explorar a fundo todas as medidas de redução de risco que não impliquem uma manipulação cega do património genético ?
A via Frankenstein para a felicidade comporta riscos muito elevados. Seria útil que os discutíssemos.

1 comentário:

Anónimo disse...

"Não seria mais prudente explorar a fundo todas as medidas de redução de risco que não impliquem uma manipulação cega do património genético ?"

Ouvi dizer que em Singapura os ditos 'professionals' doutores, engenheiros, catedráticos, enfim, os seres dotados de uma certa inteligência intrínseca, têm benefícios fiscais se se acasalarem com outros seres da mesma profissão. Quererá isto dizer que os asiáticos, ao contrário dos ocidentais, já encontraram um meio eficaz e barato de seleção natural? Humm, perverso, digo eu. Mas estou convencida que não falta quem não aprove este tipo de medidas. E se olharmos bem para a coisa, quem é o ser inteligente que escolhe para acasalar um parceiro estupido. Desculpa lá, mas não eu, a estupidez complica-me com a nervadura até dizer chega. E pronto, aqui tens :o)E repara que me abstenho de falar de loiras e homens de negócios e afins, que acho que é uma outra história mais comovedora ainda.