Antes de tudo, querido leitor, deixe-me clarificar que não distingo entre a mafia dos médicos e a cosa nostra dos farmacêuticos. Trata-se de duas corporações dotadas de um poder excessivo e ilegítimo.
E se do lado dos médicos a ataque a esse poder ilegítimo tem vindo gradualmente a produzir alguns efeitos, do lado dos farmacêuticos os resultados são nulos, senão mesmo negativos...
Por um aproveitamento de circunstâncias anormais, desde o regime de coutadas na outorga de licenças até à construção de uma rede de produção e distribuição de bens e serviços tendencialmente monopolista, sob a liderança esclarecida de quem em devido tempo percebeu a mina de ouro que se escondia sob a ANF e o regime legal em que opera, os farmacêuticos conseguiram evitar o descalabro liberalizante que atingiu outros subsectores.
Em todo o caso, não vá o diabo tecê-las, alguns membros da ANF acharam por bem investir na produção de genéricos. Um bom negócio, sem custos de investigação que onerem a produção, e com uma cadeia de distribuição bem controlada que assegura o seu escoamento.
Ganância excessiva, talvez, pois a utilização dos farmacêuticos como tropa de choque numa estratégia individual pouco clara teve como resultado a abertura de uma guerra aberta contra a corporação dos médicos.
Zangam-se as comadres... E ainda bem, pois assim se vão desfazendo alguns mitos. Por um lado, a insistência dos médicos nos medicamentos de marca, desmascarada como não tendo qualquer suporte científico. Por outro lado, o absurdo da exclusividade da distribuição pelos farmacêuticos.
A proposta lançada pela direcção da OM parece interessante, pois remove do circuito um intermediário que na maior parte das situações não tem qualquer função útil, por muito que barafuste . Porque não fazer a distribuição de genéricos ( pelo menos ) nos centros de saúde, se isso implica uma redução substancial de custos ?
Que diz aquele senhor do canto ? Que o novo modelo misto das ULS irá naturalmente beneficiar os seus médicos, que não mais se sentirão tentados a prescrever substâncias que a sua ULS não distribua ?... Hélas, os sócios da ANF deveriam ter tido mais cuidado antes de deixar o seu presidente brincar com o fogo.
Desavenças conjugais
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5 comentários:
Caríssimo,
Em circunstâncias normais o seu post passar-me-ia completamente ao lado, mas visto que ultimamente parece de bom-tom atacar a profissão farmacêutica, sinto-me no direito - como estudante do mestrado integrado em Ciências Farmacêuticas - de defender a classe que represento.
Em primeiro lugar, duvido que uma profissão que fosse completamente desnecessária à sociedade ("um intermediário que na maior parte das situações não tem qualquer função útil") vingasse durante tanto tempo - se assim fosse, as farmácias tal como existem hoje nunca subsistiriam - teriam sido transformadas de boticas directamente a simples supermercados especializados com a revolução industrial. De facto tal não aconteceu, e não foi de certeza por pressões de lobbys. O "absurdo da exclusividade da distribuição pelos farmacêuticos" não é absurdo nenhum. Sabia que na eventualidade do prescritor (médico), por lapso, numa dada receita, prescrever dois medicamentos que tenham interacções que coloquem a integridade física do utente em risco ou um princípio activo que tenha na sua composição um excipiente ao qual o doente seja alérgico é ao farmacêutico que cabe a responsabilidade de rectificar essa situação, sob pena de ser ele o responsável por quaisquer consequências desse tratamento? Os farmacêuticos têm um código deontológico, que lhes incute o dever de zelar pela promoção da saúde e prevenção da doença.
Em relação ao "regime de coutadas na outorga de licenças", devo esclarecê-lo que a partir de 2007 qualquer pessoa tem acesso à propriedade de uma farmácia, desde que o regime jurídico das farmácias de oficina foi modificado pelo D.L. 307/2007, de 31 de Agosto. É certo que esta propriedade continua muito centralizada, e que existe um sistema de atribuição de licenças muito duvidoso, que acaba por beneficiar sempre um grupo de indivíduos, mas isso não é da responsabilidade dos farmacêuticos.
Por outro lado, se como você próprio diz, existe uma "máfia dos médicos", que insiste nos "medicamentos de marca", quem lhe garante que ao "fazer a distribuição de genéricos (pelo menos) nos centros de saúde” a máfia desaparece magicamente? Não seria então mais lógico pensar que a indústria farmacêutica iria simplesmente transferir a sua pressão pela prescrição de um dado “medicamento de marca” pela pressão da dispensa de um certo genérico?!
E quem é essa “máfia dos médicos” e a “cosa nostra dos farmacêuticos”?! Ninguém nega que existe pressão por parte da indústria farmacêutica para "empurrar" um determinado medicamento ao prescritor, nem sequer o sistema de “brindes” a médicos e a farmacêuticos, que podem passar de uma simples caneta a uma viagem às Caraíbas (e se este sistema ainda existe é porque há médicos e farmacêuticos que coadunam com ele) mas não generalize! Nenhum dos meus conhecidos alguma vez aceitou algum benefício por parte dos laboratórios, e inclusivamente uma amiga minha (médica) recusa-se a receber qualquer delegado de informação médica.
Lobbys e cascatas de interesses é o que não falta neste País, mas há que ter em atenção todos os factos antes de fazer certo tipo de presunções.
Só uma rectificação: Quando escrevi "princípio activo que tenha na sua composição um excipiente (...)", o que deveria ter dito era "medicamento que tenha na sua composição um excipiente(...)". Peço desculpa também pelo comentário enorme...
Não estou limitado por questões de bom tom, as minhas críticas à situação da Saúde não são de agora.
Mantenho a minha afirmação de que o farmacêutico é um intermediário que na maior parte das situações não tem qualquer função útil.
Mesmo no estado actual do SNS, em que não há integração de informação sobre os MCDT e uma parte substancial dos médicos não recorre a meios informáticos como ferramenta de decisão sobre os fármacos a utilizar, o papel dos farmacêuticos, para além da substituição de produtos prescritos por outros equivalentes, reduz-se à detecção de eventuais interacções negativas entre os fármacos cujas prescrições o utente apresente em simultâneo ( podendo ir um pouco mais longe caso se trate de um cliente habitual ).
Quanto às alergias, confesso que não entendo como é que o farmacêutico pode ser responsabilizado quando o utente as não declare. Parece-me mais natural que seja o médico a assegurar-se do tipo de substâncias que pode prescrever a um paciente.
Na ausência de meios informáticos, julgo que as precauções referentes a interacções e alergias são apenas DEVER ÉTICO de TODOS os agentes envolvidos, começando no médico e acabando no enfermeiro. Julgo ainda que nesse contexto deveria existir regulamentação muito clara sobre os limites da responsabilidade de cada um.
A partir do momento em que o registo nacional de dados clínicos entre em funcionamento, e sendo plenamente utilizado o potencial dos meios informáticos, abrem-se novas possibilidades:
- O Infarmed pode ser incumbido de actualizar permanentemente uma base de dados centralizada com complemento de informação sobre interacções e alergias, integrada no sistema de prescrições electrónicas;
- A prescrição pode ser feita com base no princípio activo, com posterior sugestão pela ferramenta de registo da lista completa de apresentações comerciais nele baseadas;
- A ferramenta de registo pode ser incumbida de verificar as interacções e sugerir precauções contra eventual alergia usando, sempre que disponível, o historial clínico do utente;
- A USF ou equivalente pode proceder a testes de sensibilidade quando necessários;
- A USF ou equivalente pode dispensar parte ou a totalidade dos medicamentos prescritos, desde que a ULS respectiva, como mais ou menos propõe a OM, os tenha adquirido e distribuído atempadamente, o que pode fazer com eficácia dado o histórico de procura.
O que resta depois disto pode ser dispensado em farmácias.
E se o regime que as sustenta for removido, então naturalmente irão sofrer concentração em unidades economicamente eficientes, como está a acontecer noutros subsectores, que também apresentavam inúmeras razões para a manutenção do regime de coutadas.
Um regime de coutadas que, é bom frisá-lo, reflecte UNICAMENTE a pressão continuada das corporações. Um regime que começou por soçobrar pelo lado da questão da propriedade e em seguida pela questão dos limites territoriais ( o que não aconteceu ainda no sector farmacêutico, pelo que continua a ser apropriado falar de 'regime de coutadas na outorga de licenças' ).
Em qualquer caso, nesta mudança do regime de funcionamento das unidades económicas não tem estado em causa, nem creio que venha a estar, a necessidade de direcção técnica credenciada.
O que está em causa é o leque de medidas proteccionistas em que se barricou a área da saúde, com manifesto e grave prejuízo económico para todos os cidadãos.
E se de há 10 ou 15 anos para cá temos vindo a observar uma alteração destas condições, isso deve-se a dois factores: à tremenda pressão de grupos económicos que procuraram a abertura desse mercado e à urgente necessidade de diminuir a sangria do Estado.
A 'mafia dos médicos' e a 'cosa nostra dos farmacêuticos' não se restringem à questão dos genéricos. É algo muito mais vasto, que passou pela transformação do Estado numa ferramenta, e que vai levar ainda mais de uma década a desmontar. Cabe no entanto notar que a batalha do capital pela liberalização do sector tende, não sendo acompanhada pela vigilância dos cidadãos, a manter o Estado numa posição de ferramenta, agora sob influência de outros grupos. Os sinais são muito claros e estendem-se a posições elevadas na hierarquia estatal.
Tenho uma dúvida há muito tempo: Quando um médico faz um diagnóstico e selecciona um medicamento não seria natural que procurasse os princípios activos mais adequados e só depois a marca? Porquê que se parte do princípio que o médico conhece TODOS os medicamentos de TODOS os laboratórios e tem uma memória fantástica que mentalmente compara todos e prescreve a marca mais adequada e/ou mais barata? Ou melhor? Nunca perguntei a nenhum deles o que toma para manter o “ficheiro mental” actualizado, mas gostava de saber….
Caro Coproscópio,
Respeitando a argumentação que faz do assunto e estando de acordo com alguns dos pontos que foca, sou obrigado a comentar um dos quais estou em total desacordo.
Refere-se às farmácias como "...um intermediário que na maior parte das situações não tem qualquer função útil,...". Isto demonstra o seu desconhecimento do assunto e a pouca investigação que fez do mesmo.
Gostaria de recordar-lhe alguns pequenos factos que tornam as farmácias um elemento imprescindível de um SNS de qualquer país (por que será que nem os países ultra liberais acabaram com as farmácias, passando a sua prática para supermercados ou grandes superfícies ? já pensou nisso ?).
As farmácias e os farmacêuticos fazem parte de uma cadeia de saúde complexa, na qual a função da farmácia não se extingue na distribuição de medicamentos.
Há muito trabalho de educação, sensibilização e condução (nomeadamente para os médicos) que é realizado nas farmácias e esse trabalho (ao que eu posso aceitar que não atribua valor algum) permite gerir com mais eficácia as diferentes células do nosso "mau" sistema nacional de saúde. Sem esse trabalho, a meu ver importante e valioso, os serviços de urgência dos hospitais ainda estariam mais "entupidos" do que estão hoje. Essa é a vertente cívica e educacional que no seu post não abordou.
Quando à confusão entre farmacêuticos e ANF, é bom não a fazer e não incorrer em generalizações.
A ANF, por responsabilidade dos farmacêuticos, foi tomada de assalto pelo seu actual presidente e seu gang de "muchachos" (lembra-se do Eng. Costa Freire antigo secretário de estado da ministra Leonor Beleza ? sim também faz parte do património da ANF...).
Esse mesmo presidente com uma agenda pessoal bem definida e depois de alterar os estatutos da referida associação (de forma semelhante ao que em tempos fez o antigo BCP, blindando-os) tomou sózinho a rédea do poder e usa-o como um verdaddeiro absolutista...
Isso é mau para a classe dos farmacêuticos, que só depois de muitos anos adormecida, começa agora a acordar.
Nas eleições do penúltimo mês pela primeira vez uma lista concorrente ousou desafiar o rei Cordeiro e atingiu 30% dos votos. Não mudou o estado de coisas, mas penso preparou o futuro que se avisinhará mais risonho se suportado na mudança.
Muito as farmácias têm feito pelo país e caso não saiba em muitos momentos têm financiado o Estado, continuando a fornecer os contribuintes e suportando mais de seis meses de atraso de pagamento por parte do Estado.
Assim que o Estado se dispuser a regularizar sem atraso as suas comparticipações às farmácias directamente, o domínio de poder da ANF desaparece, pois vai-se-lhe o balão financeiro que a suporta.
Foi o Estado e os diferentes governos que permitiram que esta situação se criasse e se eternize.
Claro que o "padrinho" Cordeiro vendo o "furo" aproveitou. E tirou dividendos disso (particularmente - mas essa história ainda está por contar...).
Referiria ainda que já há distribuição de medicamentos em grandes superfícies sem que isso beliscasse as farmácias, nem provocasse reacção de monta.
O utente procura um binómio produto/serviço e esse só as farmácias lho proporcionarão.
Quanto ao licenciamento de farmácias, concedo-lhe razão, pois não se entende como tal poder está numa instituição sem supervisão do estado.
Mas reduzir as farmácias a "...um intermediário que na maior parte das situações não tem qualquer função útil,..." parece-me primário, genérico e com um fundo de investigação pouco sustentado.
Ah...esquecia-me... não sou farmacêutico nem quadro da ANF...
abraço
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