Na zona quente que vai do Mediterrâneo ao Paquistão a balbúrdia cresce de modo desconcertante.
Comecemos pelo Levante...
A mudança de guarda na direcção imperial, reflectindo uma viragem à esquerda ( salvo seja ) do eleitorado norte-americano, apanhou a direcção sionista na contramão.
A forte guinada do eleitorado israelita para a direita esbarra agora num sentimento planetário cada vez mais alargado a favor da implementação do estado palestiniano. Dir-se-ia que o planeta se cansou finalmente de cem anos do palavreado mimocas que tem dado cobertura ao acto colonial sionista.
Como sinal dos tempos, note-se a franca brutalidade da nova administração imperial, ao mencionar como prioridade a criação do estado palestiniano e, horror dos horrores, afirmar que essa criação pode seguir os moldes propostos no plano árabe. Como se não bastasse, até o presidente Shimon Peres foi forçado a dar o dito por não dito. Alguns dias depois de ter afirmado que Israel atacaria o Irão se a abordagem diplomática não produzisse resultados a curto prazo, ouviu dos norte-americanos a afirmação de que tal ataque não seria bem recebido. Diz agora Shimon Peres que está completamente fora de causa qualquer violência contra o Irão. Pois.
Entretanto, na senda da destruição do gueto de Gaza e das posteriores movimentações iranianas de apoio ao Hamas, que muito irritam o faraó do Egipto, produziu-se mais um fenómeno curioso: ao mesmo tempo que Israel e o Egipto se abraçam apaixonadamente no combate ao Hamas, divergem perigosamente em tudo o resto, ao ponto de o ministro dos negócios estrangeiros do faraó afirmar que nunca receberá o seu homólogo israelita. Coisas de comadres.
Mas as oportunidades não se devem desperdiçar, pensam os israelitas, pelo que insistem até à exaustão em apelar aos estados árabes para a formação de uma frente comum contra o inimigo persa que, sustentam, tem ambições coloniais sobre todo o Médio Oriente. A idéia da frente comum parece ser divertida, do ponto de vista dos árabes. Apenas divertida, mas Israel insiste.
Quanto às ambições iranianas, seria interessante que a direcção sionista tivesse colocado a questão ao amigo Superpateta, antes deste ter oferecido o Iraque aos xiitas. Águas passadas, mas ainda assim vale a pena lembrar ...
Estamos em terreno não mapeado. Israel está a deixar-se conduzir para um beco sem saída, o do isolamento internacional acompanhado por certa demência nacionalista que vai condicionar os movimentos do governo ( que ainda por cima começou mal ). Ao ser-lhe negada a possibilidade de manipular comme d'habittude a agenda política, Israel pode deslizar ainda mais para o belicismo.
Espero que o sr. Obama tenha a percepção dos timings adequados ( o que parece ser o caso ) no seu movimento envolvente. Pelo menos um analista notou que a simultaneidade da desautorização de um ataque ao Irão e o apoio ao plano árabe podem assinalar a Israel que, caso pretenda apoio norte-americano face ao Irão, tem de aceitar a resolução da questão palestiniana sem mais delongas.
Bibi parece consciente de que o terreno se mexeu muito depressa... Já deixou saber que Lieberman não está autorizado a deslocar-se aos EUA antes dele, não vá o homem causar mais estragos na reputação sionista.
Prudente, o Bibi. E com razão. Nota-se uma curiosa postura defensiva da AIPAC em relação ao JStreet, o lobby judaico alternativo que, com sucesso assinalável, aposta na crítica aberta das políticas israelitas. Lieberman não seria o melhor cartão de visita nestas circunstâncias.
Um pouco mais para o lado direito, o Iraque está a acordar. Agora que a tropa imperial se prepara para fazer as malas, todos se preparam paraa luta em campo aberto. Na pole position estão os xiitas, que preventivamente mandaram os sunitas arrependidos do Awakening dar uma volta, agora que estes foram largados pelo patronato norte-americano e não são muito bem vistos pelos rapazes da Al-Qaeda. Bom, embora não se note, o programa Awakening envolve cerca de noventa mil homens com historial de violência. Para que lado irão cair ?...
Ali ao lado, o Irão segue a sua vidinha descansado. Tem nas suas mão a chave da estabilidade no Médio Oriente e passou o teste da ameaça ocidental, não lhe ligando nenhuma. Vamos ver que coelhinho irá Obama tirar da cartola. E o coelhinho não pode ser muito feio, se pensarmos que o Ocidente precisa cada vez mais de apoio naquilo que foi o palco afegão e alastrou para Sul, criando o palco AfPak e a perspectiva da derrocada paquistanesa. Uma perspectiva que resulta de um fenómeno invulgar num estado, o de uma direcção política apavorada com o fundamentalismo religioso, em oposição a uma direcção militar que apoia esse fundamentalismo, tudo em nome do superior interesse do estado. Esta estranha doença ficará conhecida como 'apoptose paquistanesa'.
Do despertar à apoptose
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