Reunião Tupperware

Há alguns anos atrás participei num debate sobre a Palestina, e chocou-me na altura o seguidismo da audiência. Chocou-me ainda mais a prudência do representante da OLP, que, mesmo acicatado, não se desviou um milímetro da linha fotogénica, deixando-me tão enriquecido como quando lá chegara.

Há uns dias atrás, chegou a vez do sionismo, a pretexto das comemorações dos 60 anos de Israel. O anúncio do evento prometia conferência e debate sobre a actual situação do Médio Oriente. Lá fui de cabelos ao vento.

Oops. Uma audiência minúscula, frente a uma mesa com um jornalista equidistante, um trotskista arrependido e um jovial cidadão israelita.

O mote foi dado logo no início, quando o trotskista arrependido nos ensinou que as posições anti-sionistas resultam de ignorância. Fiquei a saber logo ali que sou um igorante.

A coisa prosseguiu, com uma lenta sucessão de declarações de princípios, dentro de limites que eu achava que já tinham sido postos de lado, mas que afinal ainda sobrevivem: os palestinianos não existem, o mufti de Jerusalém era nazi, a comunidade judaica gerou muitos prémios Nobel, Israel é um farol da democracia,...

Tentei questionar algumas das afirmações e avançar para o que seria importante, mas, sendo a única voz dissidente, precisaria de duas coisas importantes, que infelizmente não existiram:
- Algum apoio da mesa para evitar a dispersão;
- Um interlocutor pró-sionista que pudesse validar as afirmações que fiz quanto à realidade actual, estabelecendo uma plataforma minimamente realista sobre a qual pudéssemos em seguida elaborar.

Curiosamente, o cidadão israelita, que me parecia um bom alvo para o segundo ponto, parecia desconhecer que o Hamas fosse o vencedor das eleições palestinianas, ou que o governo israelita estivesse obrigado à devolução de impostos à AP, ou que haja quase 500 postos de controle nos territórios ocupados, ou que haja dezenas de colonatos na Cisjordânia, ou qual a distribuição territorial proposta por Sharon.

Não me pareceu portanto que valesse a pena pedir opiniões sobre a aparente contradição dum estado simultaneamente democrático e confessional ( embora não me tenha escapado que vários intervenientes tenham sentido uma irreprimível necessidade de afirmar a pés juntos que Israel não é um estado confessional ), o esforço diplomático para estabelecimento de uma frente anti-xiita e sua desautorização pelos EUA, agravidade da semelhança entre Gaza e Varsóvia, a decadência moral ( semelhante à experimentada pelos militares portugueses nas colónias ) relatada em primeira mão na segunda edição do Breaking the Silence, a periódica aparição de grupos neonazis entre israelitas de segunda geração, a travagem dos processos rápidos de conversão que ajudaram ao crescimento demográfico mas ameaçavam a descaracterização do estado, a possibilidade de criação de um estado único que integre os 8 milhões de israelitas e 8 milhões de palestinianos como cidadãos de pleno direito,... A lista seria bem longa.

Suscitou-me alguma esperança a intervenção de uma figura discretamente sentada na última fila, que julgo ser pessoa com algum ascendente na comunidade judaica. Apesar de não poder dispor de muito tempo, teve a cortesia de pôr os pontos nos is quanto à representatividade doHamas, mas terminou a sua presença com uma ( mais uma ) exposição sobre as magníficas realizações e a imensa simpatia dos israelitas.

Julgava que iria participar num debate político, não numa reunião de vendas duma agência de viagens. Saí tão enriquecido como quando lá cheguei, mas não perco a esperança, pode ser que alguém venha um dia a organizar um debate digno desse nome.
Precisamos dele.

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