A inércia ideológica produz atoleiros capazes de engolir civilizações, já o sabemos da História.
Mas, confinados à nossa mesquinha janela de tempo de algumas décadas, estamos, como outros antes de nós, condenados a empenhar sempre mais recursos em batalhas sem sentido, batalhas perdidas à partida que nos condenam a uma lenta exaustão.
No Afeganistão, como aconteceu noutras épocas, o império ocidental vai-se desgastando, sem que ninguém possa apontar uma razão válida para a teimosia. Sete anos depois de uma invasão disparatada, com 70000 imbecis no terreno limitados a uma posição de defesa de um regime corrupto e sem futuro, resta-nos agora ir aumentando esse efectivo para evitar ou simplesmente adiar uma derrota vergonhosa. É a guerra pela guerra, uma chacina interminável na defesa quixotesca de uma fronteira ficcional contra um inimigo imaginário.
Nós, portugueses, poderíamos ainda assim conviver de forma desprendida com esta patetice, se ela se limitasse a uma episódica chacina de populações civis. Afinal de contas, se pudemos com alguma tranquilidade manter uma guerra deste tipo nas nossas colónias e claudicar apenas ao fim de catorze anos, então no Afeganistão estamos apenas a meio do trajecto, e com a auto-censura dos media a esconder os efeitos da guerra, mesmo agora que ela alastra ao Paquistão, a nossa anuência acéfala poderia estar mais ou menos garantida.
Mas o problema cosmético complicou-se subitamente, com a ocorrência quase simultânea de três factos relevantes, a saber:
- Numa comunicação supostamente reservada entre as representações inglesa e francesa, que acabou publicada nas páginas do Canard Encheiné, o embaixador inglês afirma que a estratégia ocidental está a fracassar, uma vez que o avanço dos Taliban é contínuo e o apoio das tropas ocidentais a um governo corrupto é parte do problema em vez de ser parte da solução;
- O general McKiernan, comandante da força NATO, insiste no reforço urgente das tropas, face à contínua degradação da segurança resultante do avanço das três facções mais importantes na oposição ao regime e à presença de tropas de ocupação. 20, 30 anos, é agora o prazo admissível para a retirada das forças;
- Karzai, plenamente ciente do factores em jogo, convidou o mullah Omar a retornar ao Afeganistão, garantindo-lhe condições para se candidatar às próximas eleições presidenciais... Juro, pela alma da sogra que nunca tive, que a proposta me surpreendeu... Ao que parece nem o Omar perdeu tempo com esta rendição ridícula, rejeitando-a no dia seguinte.
Querido leitor... Tem algo a dizer sobre o assunto, ou prefere continuar a alimentar-se de futebolices ?...
Sete anos
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1 comentário:
Caro coproscópio, guerras como a que o pateta alegre americano e a Nato travam no Afeganistão, não se ganham, perdem-se.
Por variadíssimas razões e sobretudo porque o modelo vigente com Kazai, assenta nos pressupostos americanos da corrupção.
Uma guerra invasora ou é rápida e brutalmente destruidora ou provoca sentimentos de revolta na população mal o pânico passe e a mesma população se organize.
Os ocidentais ainda não perceberam que os seus modelos , princípios e cultura só funcionam nos países de origem e por isso insistem em exportar modelos desadequados tentando impô-los pela força.
Ora quando é que a força gerou consenso ? Nunca !
Mas quando os corruptos sentem o chão fugir-lhe debaixo dos pés, tentam então a via da pseudo-conciliação...
Já vimos isto antes...
Lembram-se das descolonizações exemplares ?
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