Fazendo as malas

Há quem se divirta...
Larijani mandou dizer há uns dias que, por este andar, o mullah Omar acabará por ser convidado para as recepções da Casa Branca.
Hoje foi a vez de Mottaki avisar os patetinhas ocidentais contra uma negociação ingénua com os Taliban.

Mas que fazer, então ?...
Não creio que haja agora muitas saídas airosas. Tal como no Iraque, a nossa intervenção perturbou de forma insanável o status quo, sem o complementar com uma alternativa sustentável. Não surpreende portanto a agitação crescente da vizinhança, à medida que o poder dos Taliban se reforça e/ou o governo central definha.
Importa notar que esse poder não resulta de uma afirmação militar incontestada, mas antes do cansaço ou simples sensatez dos cidadãos afegãos, que se mostram cada vez mais dispostos a aceitar, senão mesmo a apoiar, o regresso dos fundamentalistas ao poder. Tendo em conta as circunstâncias, não os critico. Mal por mal...
Mas não me parece que as coisas possam evoluir para um final idílico. Desde logo, uma solução de partilha de poder não será fácil de aguentar... A não ser que os Taliban levem porrada de criar bicho no Paquistão, o seu regresso far-se-à numa posição que supõem ser de força, pelo que deverão sentir-se tentados a um assalto à totalidade do poder. Tal como no passado, enfrentarão uma oposição fragmentada e corrupta, mas enfrentarão também uma intervenção renovada do Irão, Índia e Rússia.

Caberá aos deuses decidir o desfecho desta palhaçada, que deveríamos ter evitado.
Deposito alguma esperança na intervenção inteligente de Petraeus e na renovação da administração imperial, que espero venha a ser menos dada ao banditismo e mais capaz de honrar o compromisso criado pela invasão.
Pouco me importa que o prestígio militar da NATO saia embaciado. Importa-me mais saber se teremos a habilidade e a dignidade necessárias para apoiar o povo afegão nas suas decisões, quaisquer que sejam e por muito que nos desagradem.
De outra forma, à retirada da NATO irão suceder-se anos de reajuste violento, cujo preço será mais uma vez pago por aquele povo. E se isso acontecer então envergonho-me, pois sei que nessa altura todos nós, cidadãos ocidentais, arranjaremos uma forma de olhar para o lado, como se nada tivéssemos a ver com o assunto. Somos peritos nesse jogo.

2 comentários:

Fernando Ribeiro disse...

Ainda há poucas horas li no Le Monde Diplomatique (edição portuguesa) um interessante e elucidativo artigo sobre a embrulhada que vai lá pelas bandas do Afeganistão, do Paquistão e das suas áreas tribais, à mistura com as forças da NATO que pr'ali estão... a afundar-se. O artigo é de um jornalista paquistanês chamado Syed Saleem Shahzad e vem acompanhado de um esclarecedor mapa.

Recomendo-lhe a leitura do artigo, se puder, mas terá que comprar o jornal (4 euros!), porque o site dele não o publica.

Hélder M. Vieira disse...

Hmm...
Cuidado com o Sayed Saleem Shahzad.
Trata-se de um jornalista notável, com uma produção abundante, recheada de pormenores interessantes, mas... Algo polarizado, para dizer o mínimo.
Há uns 5 ou 6 anos atrás questionei um artigo dele no Antiwar e embora as minhas objecções tenham sido publicadas, o artigo em causa não foi confirmado ou negado, sendo simplesmente transferido para uma página associada.
Desde então, sempre que possível ( com particular ênfase no caso das notícias sobre a situação afegã ), procuro confirmação noutras fontes dos media paquistaneses.