Admitamos, a sucessão de crises neste início de século está a tornar-se um pouco incómoda.
Terroristas debaixo da cama, guerras sem propósito e sem fim, um sistema económico decrépito enganado com metadona, uma crise financeira de proporções bíblicas, um manto de CO2 que anseia por transformar o planeta numa cataplana...
Se para nós, europeus, tudo isto resulta em palpitações e ansiedades inconsequentes de viúva envelhecida, para os nossos sobrinhos do lado de lá do Atlântico as coisas apresentam-se de forma talvez mais brutal.
Na força da juventude, incultos, deslumbrados ainda por duzentos anos de sucesso fácil, confrontam-se com sinais de declínio que não podem entender nem aceitar.
Curioso que nos últimos oito anos tenham optado por bater no ceguinho, isto é, que tenham optado pela defesa agressiva de um estatuto que desejariam imutável. E se acho curiosa essa opção, é porque ela repete os erros dos impérios da velha Europa e de muitos outros grupos transitoriamente dominantes que a História foi engolindo entre bocejos.
É neste cenário que o mundo inteiro, pasme-se, de repente pára os seus afazeres para ver o que se passa naquela ponta do bairro, uma simples eleição presidencial que pode mudar tudo num mundo que desejaria agora poder também apresentar o seu voto, um voto que teria um sentido inequívoco... Seria eleito Obama, que nalgumas das sondagens feitas ao longo do planeta recolhe 80% de apoios.
Autistas, os norte-americanos não parecem aperceber-se da dimensão deste fenómeno, e muito menos da sua origem ou implicações.
Confesso que a figura de Obama não me fascina. Tendo a vê-lo como um ineficiente messias de púlpito, sem projecto concreto, condenado a reagir em vez de agir.
Mas reconheço-lhe uma abertura de espírito notável. Caso ele venha a ganhar a presidência, não espero que se afirme como visionário mas antes como catalisador, como pastor de vontades.
E se chegar o momento em que ele perceba que é essa na verdade a esperança de todo o planeta, e se nesse momento não for tomado de vertigens, então talvez tenha afinal a grandeza necessária.
O anjo que tinha vertigens
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