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Episódios que redefinem quase instantaneamente a perspectiva que temos de nós próprios e do que nos rodeia.

Debaixo de um microscópio, a transição da infância para a adolescência torna-se realmente rica. Nessa fase extraordinária da nossa vida, plena de descobertas e redescobertas do mundo, aquele instrumento de ampliação dos sentidos alicia-nos com a filigrana que sem ele nos escapa por completo. A orgia de vida numa gota de água lamacenta, a sinistra ordenação prussiana das células de uma pele de cebola, as formas escandalosas de um insecto, tudo gera novas perguntas que pedem urgência na resposta e nos causam tremuras e febres como se de doença se tratasse.
Depois, um belo dia, o grande choque. A imagem de si próprio, unitária, monolítica, construída por integração automática de sinais provenientes de sentidos grosseiros desde a fase final de gestação, desagrega-se. De um momento para o outro, sem aviso, a percepção da humilde cebola como colónia celular transforma-se na percepção de si próprio como colónia celular. Choque tremendo, quase vergonha. Adeus unidade, adeus individualidade, adeus eu.

Mais adiante, outra surpresa. Se pensarmos bem, faria sentido tostar Ptolomeu em fogo lento, pois na opinião dos nossos sentidos canhestros, é óbvio que o céu é côncavo. Mas um belo dia o artista é sujeito a uma experiência não intencional. Numa noite campista, depois de ums canecos valentes, jazendo de barriga para o ar sobre as ervas e tendo unicamente no seu campo de visão o céu límpido e estrelado, com a galáxia perpendicular ao eixo do seu próprio corpo, eis que de repente o trompe l'oeil se desvanece e a propriocepção se modifica. Já não está deitado olhando para um tecto côncavo. Está agora de pé, assente no vazio, olhando de longe para uma galáxia espiral gigantesca que se dispõe não acima mas à sua frente, imóvel, silenciosa, uma manada de sóis incontáveis suspensos num vazio negro de frieza indiferente. Vertigem tremenda, anima vagula blandula e tudo o resto.

Precisaria agora de um novo reset. A minha glândula pensadeira está presa numa visão newtoniana do universo. Poderão uns copos de Calgonit em jejum resolver o problema ?

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