O jardim infantil

Estamos perante um dilema incómodo.
Se cessarmos os acordos de tratamento preferencial com Israel ou de alguma forma criticarmos a iniquidade do processo sionista, seremos de imediato acusados de anti-semitismo. Se mantivermos o apoio, no entanto, teremos de olhar para nós próprios e rever Varsóvia e muitos outros lugares de vergonha.

Não tenhamos ilusões... De pouco adianta a efabulação sobre um paraíso idílico onde os israelitas, graças a uma postura ponderada dos palestinianos, poderiam viver alegremente.
Israel foi fundado sobre as cinzas quentes dum tempo em que colonialismo e racismo não suscitavam reserva moral em nenhum cidadão do Ocidente, um tempo em que a limpeza étnica poderia ter passado completamente despercebida. Mas esse tempo passou, e o estado de Israel acabou por ser fundado a meio do processo, sem a pureza que lhe garantiria alguma coerência interna.

Já não é possível a deportação maciça, muito menos às mãos de judeus, em lugares visíveis do planeta.
Por isso nada mais resta que manter este povo como pária na sua própria terra, preferencialmente liderado de quando em quando por um Quisling, na esperança de que algum milagre venha a ocorrer.
E esse milagre não ocorrerá. Israel condenou-se, pela sua fundação, a ser um estado racista.
Não pode deixar de o ser, porque perderia a sua essência. Não pode continuar a sê-lo, porque se vai transformando em algo de animalesco.

E no meio deste monstruoso equívoco, cabe aos milhões de párias palestinianos viver como animais cercados, chacinados quando resistam, abusados quando cedam. Por quanto tempo ? O que for necessário, até que o balanço de forças penda um pouco menos a favor do Ocidente e este deixe de poder financiar este crime.

Nessa altura ocorrerá povavelmente um ajuste de contas. Sabemo-lo bem, como sempre o soubemos ao longo das décadas em que permitimos a criação do monstro e o nutrimos. E quando isso acontecer, iremos virar a cara para o lado. Somos peritos nessa arte.

É curioso que, na mesma altura em que se inicia mais um pogrom, uma notícia no Haaretz, acompanhada de um vídeo com entrevistas de rua, nos fale de uma criança israelita árabe cuja inscrição num infantário foi cancelada por pressão de um grupo de pais que prefere o segregacionismo. A ver com atenção, pois dificilmente a reportagem passará nas nossas estações de TV.

Sem comentários: