Vitória no feminino

É ainda cedo para o desenlace da crise iraniana.

Moussavi rejeitou hoje a solução proposta pelo Conselho de Guardiães, que previa a recontagem de 10% dos votos sob supervisão dos candidatos.
Presumo que Moussavi possa estar a apostar numa outra abordagem, patrocinada, ao que consta, por Rafsanjani. Confesso algum cepticismo. Rafsanjani já teve tempo suficiente para manobrar, mas a clique detentora do poder parece cristalizada numa divisão em dois blocos de peso quase similar, dado que Larijani prefere cirandar feito mariposa, sem definir para que lado cai.

Mantendo-se o impasse, o médio prazo iraniano será minado pelo confronto surdo das duas facções, mas no curto prazo é de esperar acção repressiva mais decidida pelos pupilos de Khamenei.
Quem mais perde, para já, é a classe média urbana. Submetida pelo terror, foi forçada a perceber da pior forma que o modelo Ghandi não é universalmente aplicável, principalmente quando não se tem um projecto político capaz de mudar a correlação de forças, e quando do outro lado as barreiras éticas são as determinadas pela fé religiosa ( isto é, nenhumas ). Deverá aguardar que o seu próprio crescimento gere peso negocial, ou que a administração incompetente de Ahmadinejad gere descontentamento generalizado.

Mas nem tudo é amargo. Devo homenagear o único grupo que sairá desta refrega com uma imagem fortalecida, o das mulheres.
Os exemplos de coragem e determinação que as mulheres deram nos momentos mais complicados, movendo-se adiante dos homens que se acobardavam, realçaram a mediocridade de uma sociedade entregue ao machismo, uma sociedade suficientemente tola para amputar uma metade tão rica de si própria.

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