Tudo ou nada

A  orquestra política dos boers israelitas parece ter afinado os instrumentos, concentrando-se numa nova estratégia baseada na afirmação unilateral dos seus interesses, qualquer que seja o possível impacto na comunidade internacional.

Depois do embaixador turco, foi agora a vez do vice-presidente norte-americano ser publicamente humilhado, com requintes.
A deslocação de Biden começou de forma promissora para o bom relacionamento entre os dois países e para a retoma do processo negocial entre israelitas e palestinianos. Mas logo a seguir, a derrocada. O ministério da administração interna anunciou os planos para a construção de 1.600 fogos em Jerusalém Leste.
Biden deverá ter ficado lívido perante a afronta, e reagiu imediatamente com o que tinha à mão, fazendo Bibi esperar 90 minutos para o jantar, e aproveitando-o para condenar abertamente a iniciativa.
Ao mesmo tempo, o Haaretz anunciava estar em curso um plano de construção de médio prazo mais vasto, envolvendo cerca de 50.000 fogos na mesma zona, 20.000 dos quais já em fase de aprovação.
À medida que as notícias corriam mundo, o universo diplomático foi-se agitando como um formigueiro e gerando manifestações de desagrado um pouco por todo o lado, incluindo a cautelosa Europa. Mas mais interessante que isso é a incidência dos media, incluindo os israelitas, na caracterização dos factos como ume um insulto planeado destinado a descredibilizar os EUA, na pessoa de Biden.

Seja qual for a leitura, parece ter ficado definitivamente assente que Israel não tenciona acolher a visão de dois estados independentes e viáveis.
Já não há sequer a preocupação de manter sempre activa uma qualquer fantasia negocial para ir entretendo os pacóvios enquanto se vão criando os factos no terreno, o que constitui uma alteração radical da política seguida ao longo de décadas.

Porquê esta sucessão de provocações ? Bom, porque para já vão compensando. Para os boers de colheita tardia, a evolução recente dos factos e o impacto resultante nas idéias da comunidade internacional sobre o assunto fez surgir no horizonte a indicação de que os tempos da cumplicidade ocidental estariam a chegar ao fim.
Resta por isso pouco tempo para garantir a conclusão desta fase do projecto sionista, pelo que vale a dar um salto em frente e apostar na paralisia da potência protectora, mesmo que isso custe um arrefecimento sério das relações. Na verdade, a capacidade de manobra da potência protectora é muito reduzida, seja pelo peso do lobby judaico no seu interior, seja pela incapacidade de desenhar um quadro estratégico alternativo.

Todos o sabem, mas também todos sabem que esta deriva vai forçosamente desembocar numa nova guerra, num momento de crise que se estende até ao Paquistão, em que não é possível prever com um mínimo de rigor quais os actores, qual o grau de envolvimento ou qual o desenlace.

Os primeiros sinais, quer dos EUA quer da UE ou da própria Rússia, apontam para o reconhecimento da necessidade de uma travagem rápida dos desmandos dos boers, antes que todo o Ocidente se veja envolvido numa crise grave.
Mas, depois de tantos anos a sugerir aos boers que, façam o que fizerem, terão sempre as costas quentes, dispõe o Ocidente dos meios para travar o processo ? Ou é demasiado tarde ?

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