Acto II, cena 3

Se o guião tivesse sido seguido, o clero de Qom deveria por esta altura ter produzido algum ruído de fundo.
Se calhar fê-lo, mas à porta fechada. Para o público, nem um pio.
Mas talvez no seguimento do conclave, o tom geral parece ser de conciliação em torno das propostas arbitradas por Rafsanjani, cujo alegado plano de salvação nacional já vai na versão 315.
O velho tubarão está a conseguir juntar conservadores, reformistas, fiéis de Khamenei e mais alguma fauna dispersa, tendo como base, aparentemente, o retorno efectivo à normalidade institucional através de cedências mútuas.

Como é usual nestas situações, há bodes expiatórios para satisfazer a sede de sangue. Bodes com sabores distintos. Do lado do governo, Mortazavi parece ser o bode eleito, com o próprio Ahmadinejad em situação curiosa. Do lado reformista, foi lavrada sentença de morte do primeiro bode no julgamento dos sediciosos.

Mas, no jogo de sombras do poder iraniano, que significa isto ?
Pouco, creio eu.
Tenho a esperança de que esta ou outras sentenças de morte não venham a ser cumpridas, não só porque assinalariam aos reformistas que as negociações em curso não seriam sérias, mas porques lhes proporcionariam também um ou mais mártires. Da mesma forma, duvido que Mortazavi chegue a pousar o rabo no banco dos réus. É capaz de ser peso-pesado suficiente para suscitar resposta violenta do IRGC.

Quanto à sorte de Ahmadinejad, é cedo para perceber. Nas mãos do parlamento estão duas bombas atómicas prudentemente silenciadas à chegada, mas não antes de ser cuidadosamente passado para o domínio público um resumo do seu conteúdo.
Uma das bombas é o relatório da comissão de inquérito à repressão e condições de detenção dos cidadãos envolvidos nos tumultos pós-eleitorais, que confirma grande parte das acusações de abuso de poder. Daí o nervosismo de Mortazavi.
A outra bomba, esta de profundidade, é o relatório da auditoria às contas do estado sob consulado de Ahmadinejad. Se os números ventilados forem credíveis, estamos a falar de desvios de muitas ( mesmo muitas ) dezenas de milhar de milhão de dólares. À beira disto, os corruptos da nossa praça ainda nem do infantário saíram.
Mas Ahmadinejad está de momento numa posição quase intocável, graças à vitória estonteante que obteve nas negociações com o Ocidente, onde ganhou muito sem ceder nada. Deve ter aprendido com os amigos israelitas.

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