A golpada

Criticável, Saramago ? Em parte.

Afinal de contas, não inova na apreciação dos textos bíblicos. Qualquer indivíduo que tente ler o antigo testamento fica aterrorizado pela figura ali retratada, de um deus narcisita, caprichoso, vingativo.
Uma figura que nem os textos seguintes conseguem esbater.
Uma figura que nem as modernas divagações sobre sentidos figurados conseguem esbater.
Se alguns procuram naqueles textos religiosos uma mensagem tranquilizadora e inspiradora de nobres sentimentos, talvez devam perguntar-se se não estarão a ler o livro errado.

Por outro lado deve reconhecer-se que, voluntária ou involuntariamente, Saramago se deixou seduzir pelo sensacionalismo como ferramenta de marketing. Não foi bonito, não havia necessidade, os seus livros vendem-se como pãezinhos quentes mesmo sem golpadas.

No entanto, surpreende a restolhada que acolheu as declarações.
Afinal, tanta indignação contra um descrente e tanto silêncio quando o grande ayatollah Aníbal Ibn Silva Al-Gharbi emprestou a presidência da república, supostamente laica, à canonização do sujeito que consertou a senhora do olho frito.

Para amenizar, sugiro que depois de Saramago também o ayatollah renuncie à cidadania. Pode ser ?

Sem comentários: