Notei hoje duas afirmações, uma de Loureiro dos Santos num canal de televisão e uma outra de um leitor comentando no Público, que de formas distintas associavam a violência Taliban às eleições presidenciais.
Bom, é natural que qualquer movimento rebelde tente sabotar os actos eleitorais, é dos livros.
E é também natural que qualquer regime em situação semelhante à afegã tente publicitar a realização dos actos eleitorais como manifestações de coragem e de solidez do sistema.
Mas na actualidade afegã a questão é secundária. Mesmo sem violência Taliban, a segunda volta das presidenciais está à partida condenada a ser inconclusiva e pouco concorrida, em grande parte parte devido ao descrédito causado pela gigantesca fraude que constituiu a primeira volta. Uma fraude em que a ONU se envolveu até à ponta dos cabelos, infelizmente.
Claramente, mesmo sem Talibons e Talimaus a situação política afegã seria um filme desaconselhável a menores.
E aqui sim, está concentrado o grande problema afegão. Oito anos de guerra tiveram como único resultado proteger alguns quistos perniciosos que retiram governabilidade ao país. Ver Rashid Dostum e facínoras similares sendo cooptados pelo poder oficial, com apoio activo ou simples complacência de uma comunidade internacional bloqueada pela consciência da ausência de alternativas, é razão suficiente para pensar que algo continua muito mal por aquelas bandas.
Estamos na difícil situação de ter de escolher entre um regime fundamentalista imposto por um movimento ideologicamente coeso e outro regime pouco ou nada democrático imposto por uma pandilha de criminosos sob a batuta tremelicante de Karzai.
De qualquer das formas, o que será necessário explicar com alguma urgência é a extensão crescente da zona de actuação dos Taliban. Há uns meses atrás reproduzi aqui um mapa que retratava uma situação preocupante. Reproduzo hoje um novo mapa das áreas de actuação dos Taliban ( com os meus agradecimentos ao ICOS pela autorização concedida ) que faz passar a situação de preocupante a arrepiante.
Deixo ao leitor a incumbência de reflectir sobre este resultado de oito anos de guerra ( oito para nós, já que para os afegãos a tragédia se mede em décadas ).
Deixo também ao leitor a incumbência de reflectir sobre o seu grau de responsabilidade em tudo isto. Ao crer cegamente nas narrativas duvidosas que justificaram e justificam esta guerra, e ao traduzir em votos essa crença, não estará o leitor a contribuir para a manutenção do Afeganistão num estado de guerra permanente ?


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