Com o estabelecimento da igualdade de direitos dos casais homossexuais o país fica mais próximo de um ideal democrático baseado no respeito máximo dos direitos individuais.
Nesta frente, recebe assim um golpe profundo a doentia utilização da lei e dos múltiplos meios de coacção do Estado como ferramenta de imposição bacoca de estilos de vida. Uma utilização que, ainda por cima, é usualmente pouco nobre, pois, não tendo a frontalidade necessária para proibir este ou aquele comportamentos, as maiorias preferem habitualmente a interdição por omissão, ou a criação de meios indirectos de dissuasão. Todos os modos são bons para cumprir a vontade das maiorias...
Mas se esta revisão dos textos legais é positiva, convém não ficar desatento do contexto em que foi produzida... Tratou-se de um exercício vanguardista, como o prova a ruidosa discordância dos proponentes quanto à possibilidade de referendar o tema. E se esse referendo tivesse tido lugar, provavelmente iria no sentido da manutenção da discriminação. Desiluda-se quem pense o contrário, a sociedade portuguesa continua tão beata como há 30 ou 40 anos atrás, apenas vem substituindo os terços por gravatas.
Será também interessante a reacção do grande ayatollah de al-Ushbuna, Aníbal al-Boliqueimi. Irá vetar a lei ?... Vontade não lhe faltará, certamente, mas talvez prefira poupar-se a uma ratificação da AR que lhe empalideça ainda mais a máscara já tão puída.
E será mais interessante ainda ver como as forças políticas irão agora descalçar a bota das adopções.
Proponho uma solução. Proíba-se a adopção de crianças por casais homossexuais cujos membros não tenham filhos, durante os próximos 10 anos. Findo esse prazo, submeta-se então a questão a decisão da AR.
Proponho uma solução. Proíba-se a adopção de crianças por casais homossexuais cujos membros não tenham filhos, durante os próximos 10 anos. Findo esse prazo, submeta-se então a questão a decisão da AR.
Hmmm... Vejo ali um leitor mais conservador a sorrir, dizendo de si para si : 'Ah, malandro, que afinal és tão moralista como eu'.
Pode o leitor mais conservador meter o sorriso em local apropriado. Se sugiro um período de nojo, não é porque considere perniciosa a educação de uma criança num lar homossexual. Julgo até que ela beneficiará pelo facto de ter à sua disposição um leque de cenários de relacionamento afectivo mais alargado. A minha relutância centra-se quase totalmente no tratamento discriminatório a que essa criança poderá estar sujeita, às mãos da beatice maioritária.
Não me saem da cabeça as imagens recentes de algumas mães que nas televisões, quando questionadas sobre a existência de crucifixos nas salas de aula de estabelecimentos públicos, não tiveram dúvidas em sugerir que, se os pais de alguns alunos não gostassem de ver os crucifixos, então que transferissem os filhos para outra escola. Este é o país real.
Não me saem da cabeça as imagens recentes de algumas mães que nas televisões, quando questionadas sobre a existência de crucifixos nas salas de aula de estabelecimentos públicos, não tiveram dúvidas em sugerir que, se os pais de alguns alunos não gostassem de ver os crucifixos, então que transferissem os filhos para outra escola. Este é o país real.

5 comentários:
Finalmente alguém pensa na criança...
Hipocrisia...
Se se deseja legalizar as uniões homossexuais, o que me parece lícito, que se faça.
Agora, não se lhe chame casamento, pois, ainda que eu não seja católico, não me parece bem dar-lhe um nome de sacramento...
Assim mude-se o nome de casamento civil para qq outra coisa. E todos ficarão contentes !
Quanto à adopção, isso já é outro assunto.
A problemática é a meu ver mais complexa e deve ser estudada em várias vertentes antes de se tomar uma decisão (a psicológica e a sociológica pelo menos !).
E depois de tudo isto teremos que admitir que se não queremos a adopção de crianças por homossexuais, também não queremos um estado que permitiu o que se passou na Casa Pia !
Mal intencionados há em todos os lados e até nos casais heterosexuais. Nesse caso e continuano a nossa proverbial verborreia legislativa, legisle-se para permitir retirar crianças a casais que as não tratem condignamente ! Mas por favor, não as ponham na Casa Pia... não vá o diabo tecê-las...
Um abraço dum antigo colega da LCA
Hmm...
Chegámos ao ponto crucial... O de chamar sacramento ao casamento.
Ao longo dos últimos meses, diverti-me ao observar que esta classificação estava presente, mas raramente expressa de forma directa, na argumentação de quase todos os oponentes do casamento homossexual, fossem eles religiosos, ateus ou agnósticos.
Para mim, agnóstico militante, o casamento é tão-só um tipo particular de contrato, que firma em simultâneo um regime de direitos e deveres essencialmente patrimoniais, bem como um compromisso afectivo de longa duração. Nessa medida, o sexo dos contraentes parece-me irrelevante.
E se os aspectos patrimoniais cabem bem num sistema constitucional alegadamente laico, já os afectivos parecem destoar, quando deslizem para a esfera do sagrado.
Assim sendo, parece-me, nesta como noutras matérias ( crucifixos nas escolas, envolvimento da presidência da república num processo de
beatificação, etc... ), que seria necessário, de uma vez por todas, esclarecer se Portugal vive num regime laico ou numa teocracia.
Depois disso, seria também vantajoso clarificar o copyright de certas palavras, como 'casamento', pois, se Portugal viver num regime laico e
a palavra 'casamento' for mantida sob alçada religiosa, então nenhum casamento civil, homo ou heterossexual, poderá ser classificado como tal.
Mude-se então o nome de casamento civil para qualquer outra coisa.
Julgo que esta questão vem realçar o que me parece ser um dos subprodutos mais curiosos do processo de laicização dos estados de raíz católica, o da religiosidade inercial. Isto é, a persistência de elementos ideológicos claramente ligados à religião nas construções mentais de inúmeras pessoas que se afirmam agnósticas ou atéias.
Chamem-lhe casamento, união civil ou união de facto, no fundo pouco interessa porque a Igreja não vai "abençoar" casamentos homossexuais, e não me parece que os homossexuais se vão incomodar muito com isso. O importante é legalizar uma união de facto para que possam usufruir de todos os direitos e deveres da sociedade como qualquer cidadão. Afinal, também contribuem para o Estado com os seus impostos.
Em termos práticos, um dos problemas que ficariam resolvidos seria o das heranças, por exemplo.
Quanto à adopção e desculpa se pareço agressiva, mas estou morta de cansada de ouvir a mesma conversa por parte de progressistas, da esquerda, ateus, agnósticos ou uma coisa assim. Tendo em conta que a maioria de crianças são maltratadas, mortas (caso recente e não unico de baby P, aqui na Inglaterra) pelos pais biológicos, tenho muita dificuldade em entender tanto prurido da esquerda em relação à adopção por parte de homossexuais. Se achas que os portugueses precisam de tempo para se habituarem à ideia, para mim quanto mais depressa se habituarem melhor, e a mudança de legislação é o meio mais conducivo para mudar mentalidades e acabar com preconceitos bacocos e discriminação.
E mais, enquanto vamos com pézinhos de lã para não incomondar os católicos e reaccionários, os homossexuais continuarão a ser objecto de violência e muitas vezes, mortos. Continua a acontecer neste país de primeiro mundo onde estou. Portanto, e para finalizar, o assunto é mesmo muito vasto e com mais vertentes que um ... sei lá o quê :o)
Abraço e Happy New Year!
joana
Ah, mas uma boa parte da esquerda é homofóbica até ao tutano. Simplesmente pegou na moral burguesa, chamou-lhe moral proletária e deu o assunto por encerrado.
Quanto ao resto... Preocupa-me realmente que as crianças adoptadas por casais homossexuais venham a servir de bode expiatório
para um sem-número de comadres ressabiadas, que não perderão a oportunidade para, com a cobardia que as caracteriza, afirmar por essa via a sua reprovação. Há exemplos no passado, valerá a pena tê-los em conta.
Por isso me parece prudente dar algum tempo para que a sociedade se habitue a conviver com os casais homossexuais. Passada a fase
do exotismo, irmã da ignorância, haverá então lugar para as crianças.
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