O clube católico agita-se, aterrorizado pelas tentativas de laicização do estado, uma reacção que seria compreensível há 40 anos atrás, aquando da reforma do ensino. Afinal de contas, foi nessa altura que em Portugal o regime de privilégio na utilização das instituições do estado para disseminação da crendice religiosa sofreu os primeiros golpes sérios desde a implantação da ditadura.
Um pouco adiante, a revolução de 74 abriu caminho à formalização nos textos constitucionais da separação entre o estado e a religião, uma característica democraticamente estabelecida e democraticamente mantida até hoje. E tendo essa separação sido tão claramente estabelecida há 34 anos atrás, então os esforços de D. Policarpo pareceriam deslocados, pois teoricamente não haveria hoje em Portugal qualquer utilização das instituições do estado para inculcar a religiosidade nos cidadãos desde pequeninos. Hélas, ficámos a saber há pouco tempo atrás que a Constituição afinal não vale o papel em que está escrita, e que na verdade os crucifixos e santinhos se mantiveram firmes nas salas de aula dos estabelecimentos de ensino público. À socapa. Durante mais de três décadas.
Percebe-se o arrepio de D. Policarpo e a manobra que propõe, agora que o clube católico foi forçado a sair do armário... Trazida à luz do dia, esta situação já não é sustentável sem uma revisão da Constituição validada pelo voto dos cidadãos, e D. Policarpo não se sente seguro para propor tal coisa. Prefere tentar manter-se no terreno mole da semântica, crendo ser assim possível manter o status quo mudando apenas o nome às moscas.
Proponho a D. Policarpo que tenha a coragem de assumir com clareza as suas pretensões. Se quer o ensino público como veículo de propagação da crendice religiosa, então deverá coordenar com as forças políticas que o queiram apoiar a elaboração de um projecto de revisão constitucional em que os portugueses possam votar com total consciência. Nada o impede, a Constituição deve em cada momento reflectir com rigor os sentimentos dos cidadãos.
Pela minha parte, afirmo desde já muito claramente que um tal projecto não terá o meu voto. A razão é simples, parece-me um abuso grave a submissão das crianças, numa fase da vida em que não podem ainda fazer uso do juízo crítico, a um regime de treino pavloviano que lhes inculque a aceitação cega da crendice religiosa.
Saindo do armário
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1 comentário:
Não deixando de estar de acordo com a sua opinião de que uma lavagem cerebral pavloviana de crendices católicas apostólicas romanas é altamente prejudicial em tenra idade (e o conceito de culpa, pecado e castigo inculcados preocupam-me muito mais do que as crendices...) li com algum espanto
"...a Constituição deve em cada momento reflectir com rigor os sentimentos dos cidadãos..."
Será? Seria giro ver a constituição alemã nos finais dos anos 193x "reflectir com rigor os sentimentos dos cidadãos" ou em 1940 na omnipotente URSS a mesma coisa...
Esse é um passo que eu não daria...
Mas opiniões são opiniões e o que eu não daria para ver uma constituição corânica após a chegada a Teerão do Iman Khomeiny !!!
Abraço
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