A primeira cena desta etapa do processo político iraniano teve o seu lugar.
Nas orações de 6ª feira, Khamenei deixou sinais claros do que aí vem. Quando citou a frase há um tempo para a tolerância e um tempo para a espada, abriu caminho para uma série de ameaças mais ou menos veladas e para o incitamento, este sob a forma de uma chamada aos seus apoiantes para que assegurem uma presença massiva e combativa no dia de Quds.
A manobra não surge isolada. Depois dos assaltos e prisões do dia anterior, veio a público que Khamenei já há duas semanas atrás assinou um mandato de captura em nome de Karroubi, que pode ser cumprido a qualquer momento. Entretanto, a comissão judicial encarregue de investigar as alegações de violação de detidos afirma ter terminado os trabalhos e concluído que as alegações de Karroubi são falsas. Logo se renovaram os apelos de algumas figuras importantes relacionadas com Ahmadinejad para que Karroubi seja preso ou morto.
Rafsanjani não perdeu tempo a reagir. Fez saber que se reuniu com a suprema múmia e lhe manifestou abertamente o desacordo quanto a esse mandato, uma revelação curiosa pelo que representa de desafio público à autoridade de Khamenei. E esta revelação foi logo seguida de uma outra, que caíu como uma bomba nas hostes reformistas, a de que Rafsanjani se retira da acção política e renuncia a várias posições importantes, incluindo o direito de liderar as orações no próximo dia 18, o que pode ser entendido como um sinal de rendição.
Mas convém ler nas entrelinhas... Rafsanjani já percebeu ( como toda a gente, de resto ) que a autoridade de Khamenei é cada vez mais diminuta, e que as suas ameaças não são mais que um último esforço para manter a iniciativa perante o eixo Ahmadinejad/IRGC. E nesta dinâmica, é praticamente impossível evitar um confronto de massas violento no dia 18 mesmo que entretanto, como se teme, todos os dirigentes reformistas sejam detidos. Rato, Rafsanjani pode estar simplesmente a tentar distanciar-se da violência, para que a culpa pese inteiramente sobre os ombros do moribundo supremo líder. Noto que não é a primeira vez nestes três meses que Rafsanjani tenta afirmar uma imagem de ponderação em resposta a atitudes irreflectidas de Khamenei. Não é à toa que lhe chamam tubarão.
A coisa não está fácil. Com o IRGC a assumir, agora abertamente pela voz do seu comandante, que no novo cenário já não faz sentido manter-se arredado do poder político, então restam apenas as forças armadas regulares como última entidade capaz de os travar. E desse lado o silêncio continua a ser absoluto.
A evolução dos acontecimentos não é positiva. Uma ditadura suportada por um corpo paramilitar irá forçosamente procurar legitimação no confronto com o inimigo externo, o que cria dificuldade acrescida ao processo negocial com os países ocidentais. Depois da palhaçada que constituiu a mais recente proposta do governo iraniano ( que pode ser consultada em documents.propublica.org ) e que foi hoje tomada a sério em marcha-atrás pelos EUA, outras se seguirão, provavelmente com um tom de desafio mais incisivo que forçosamente suscite reacção ocidental equivalente, o que nos colocará a todos no reino da imprevisibilidade.
Vale a pena ter bem presente que a posição iraniana é muito forte. Mesmo sem quaisquer apoios externos. Note-se que do ponto de vista militar é praticamente impossível aos países ocidentais organizar um ataque convencional capaz de submeter o Irão ( a palavra convencional não está aqui por acaso, e a palavra submeter também não ).
Mas no fundo é para uma aventura desse tipo que caminhamos. A Rússia e a China já o perceberam, e pelo menos do lado russo não têm faltado as indicações de que vão rejeitar o incremento das pressões políticas e económicas, o que encorajará os países ocidentais a aplicar sanções unilaterais e, quando estas falharem, a enveredar pela guerra.
Mas não nos queixemos. Afinal de contas, quem bem faz a cama, bem se deita nela.
Nas orações de 6ª feira, Khamenei deixou sinais claros do que aí vem. Quando citou a frase há um tempo para a tolerância e um tempo para a espada, abriu caminho para uma série de ameaças mais ou menos veladas e para o incitamento, este sob a forma de uma chamada aos seus apoiantes para que assegurem uma presença massiva e combativa no dia de Quds.
A manobra não surge isolada. Depois dos assaltos e prisões do dia anterior, veio a público que Khamenei já há duas semanas atrás assinou um mandato de captura em nome de Karroubi, que pode ser cumprido a qualquer momento. Entretanto, a comissão judicial encarregue de investigar as alegações de violação de detidos afirma ter terminado os trabalhos e concluído que as alegações de Karroubi são falsas. Logo se renovaram os apelos de algumas figuras importantes relacionadas com Ahmadinejad para que Karroubi seja preso ou morto.
Rafsanjani não perdeu tempo a reagir. Fez saber que se reuniu com a suprema múmia e lhe manifestou abertamente o desacordo quanto a esse mandato, uma revelação curiosa pelo que representa de desafio público à autoridade de Khamenei. E esta revelação foi logo seguida de uma outra, que caíu como uma bomba nas hostes reformistas, a de que Rafsanjani se retira da acção política e renuncia a várias posições importantes, incluindo o direito de liderar as orações no próximo dia 18, o que pode ser entendido como um sinal de rendição.
Mas convém ler nas entrelinhas... Rafsanjani já percebeu ( como toda a gente, de resto ) que a autoridade de Khamenei é cada vez mais diminuta, e que as suas ameaças não são mais que um último esforço para manter a iniciativa perante o eixo Ahmadinejad/IRGC. E nesta dinâmica, é praticamente impossível evitar um confronto de massas violento no dia 18 mesmo que entretanto, como se teme, todos os dirigentes reformistas sejam detidos. Rato, Rafsanjani pode estar simplesmente a tentar distanciar-se da violência, para que a culpa pese inteiramente sobre os ombros do moribundo supremo líder. Noto que não é a primeira vez nestes três meses que Rafsanjani tenta afirmar uma imagem de ponderação em resposta a atitudes irreflectidas de Khamenei. Não é à toa que lhe chamam tubarão.
A coisa não está fácil. Com o IRGC a assumir, agora abertamente pela voz do seu comandante, que no novo cenário já não faz sentido manter-se arredado do poder político, então restam apenas as forças armadas regulares como última entidade capaz de os travar. E desse lado o silêncio continua a ser absoluto.
A evolução dos acontecimentos não é positiva. Uma ditadura suportada por um corpo paramilitar irá forçosamente procurar legitimação no confronto com o inimigo externo, o que cria dificuldade acrescida ao processo negocial com os países ocidentais. Depois da palhaçada que constituiu a mais recente proposta do governo iraniano ( que pode ser consultada em documents.propublica.org ) e que foi hoje tomada a sério em marcha-atrás pelos EUA, outras se seguirão, provavelmente com um tom de desafio mais incisivo que forçosamente suscite reacção ocidental equivalente, o que nos colocará a todos no reino da imprevisibilidade.
Vale a pena ter bem presente que a posição iraniana é muito forte. Mesmo sem quaisquer apoios externos. Note-se que do ponto de vista militar é praticamente impossível aos países ocidentais organizar um ataque convencional capaz de submeter o Irão ( a palavra convencional não está aqui por acaso, e a palavra submeter também não ).
Mas no fundo é para uma aventura desse tipo que caminhamos. A Rússia e a China já o perceberam, e pelo menos do lado russo não têm faltado as indicações de que vão rejeitar o incremento das pressões políticas e económicas, o que encorajará os países ocidentais a aplicar sanções unilaterais e, quando estas falharem, a enveredar pela guerra.
Mas não nos queixemos. Afinal de contas, quem bem faz a cama, bem se deita nela.

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