Portugalistão

Ironicamente, defendi ontem junto de algumas pessoas a postura do grande ayatollah de Belém, pessoa
que não me inspira habitualmente um grande apreço.
Essa defesa baseava-se numa razão simples, a de que seria inconcebível que o presidente, ao longo de um ano e agora de forma mais aberta, se tivesse enredado numa burla capaz de o sujar seriamente e, pior que isso, de sujar também a instituição que personifica.

Os factos de hoje parecem mudar o cenário.

Valerá por isso a pena que o presidente, antes das eleições, explique claramente os factos.
Porque das duas uma... Ou o primeiro-ministro utilizou meios ilícitos para espiar um outro órgão de soberania, e os cidadãos devem ser informados a tempo de lhe dar a resposta adequada no dia 27, ou o presidente utilizou abusivamente o cargo para emprestar credibilidade a uma calúnia capaz de influenciar decisivamente a votação.

Em qualquer dos casos, parece-me higiénico que um dos figurantes saia de cena.
Porque se os figurantes simplesmente se ficarem por um acordo de cavalheiros que conduza a um manso esquecimento do assunto, então ficará a impressão de que o afunilamento ao centro da vida política não gera apenas entendimentos duvidosos, mas gera também encobrimentos mais sérios.

Um dos meninos que se chegue à frente. Já.

2 comentários:

Anónimo disse...

Caro Hélder, o meu amigo está a partir do princípio que o afastamento de Fernando Lima credibiliza alguma coisa, calúnia ou não, o que não é necessariamente verdade...
Não lhe parece que existem inúmeras outras justificações possíveis (e verosímeis) para esta decisão? E que, por conseguinte, ela possa ser interpretada de outras tantas formas?

Hélder M. Vieira disse...

Existem à partida três possibilidades dignas de nota:
1. Sócrates colou um microfone à secretária do presidente;
2. Cavaco apadrinhou uma fraude;
3. Fernando Lima concebeu a fraude e só contou metade ao chefe.

Nos dois primeiros casos, estará em causa o envolvimento do estado em actividades graves. No terceiro caso, poderá estar em causa a capacidade de decisão do presidente.
Em qualquer dos casos, estamos perante uma situação capaz de influenciar decisivamente o resultado das eleições.
Julgo ser por isso dever absoluto de Cavaco Silva esclarecer os cidadãos. Não o fazendo, oculta deliberadamente informação necessária à apreciação que estes irão fazer no dia 27 sobre a actividade dos governantes.
Não tem para mim qualquer cabimento a opinião segundo a qual um presidente pode a seu bel-prazer decidir quando deve prestar esclarecimentos numa matéria como esta.