Periclitante

Quando parecia que Ahmadinejad estaria condenado a uma posição relativamente passiva, eis que o tabuleiro vira por completo.

Para que se compreenda melhor esta reviravolta, convém antes de mais lembrar, que já há poucos dias atrás o parlamento recebeu uma ordem directa da suprema múmia para se deixar de coisas e aprovar o novo painel ministerial, quando tudo indicava que pelo menos cinco ministros seriam rejeitados. E o parlamento obedeceu.

Fico na dúvida sobre os desenvolvimentos de ontem, com as buscas, apreensão de documentos e prisões nas instalações de Moussavi e Karroubi. Num primeiro momento, dir-se-ia que os actos teriam sido ordenados por Ahmadinejad. Tendo vindo a ser sujeito a uma cerco crescente, seria razoável que passasse à ofensiva, forçando o campo conservador próximo de Khamenei a apoiá-lo in extremis. Não seria caso para menos, pois um retorno à normalidade institucional, com o cortejo de acções judiciais punitivas que estão em marcha, coloca em risco a sobrevivência política e económica do polvo construído pela guarda revolucionária.

No entanto, as muitas fugas de informação que desde ontem vêem sendo difundidas apontam para a Khamenei como autor das medidas repressivas em curso. Aguardemos clarificação...

Em qualquer caso, tudo conflui para uma agudização rápida da crise, com a aproximação de três eventos que poderão ter impacto maior, a saber, a alocução de Khamenei nas orações de 6ª feira, as manifestações anti-sionistas no dia de Al-Quds ( 18/9 ) e o desenlace da reunião dos grandes ayatollahs que decorre em Qom.

Na 6ª feira, Khamenei poderá apelar a uma repressão mais significativa dos reformistas, alegando que já foram tomadas as medidas necessárias para o retorno à legalidade institucional. Nesse cenário, as prisões de alto nível ontem efectuadas seriam provavelmente um prelúdio para a prisão de Khatami, Karroubi, Moussavi e, quem sabe, Rafsanjani. Um dos rumores em circulação é o de que o IRGC (a guarda revolucionária) terá enviado a Khamenei provas de que todos eles estão conluiados na preparação da deposição da suprema múmia. Se pensarmos um pouco, o rumor é um pouco ridículo, dado que a única pessoa que não trabalha neste momento para depor a suprema múmia é a dita cuja.

No dia de Al-Quds ( instituído por Khomeini, in illo tempore ), esperam-se movimentações de massas em larga escala, devidamente enquadradas politicamente. De forma pouco clara, vai-se tendo a percepção de que os reformistas estão a preparar alguma coisa significativa para esse dia. Alegam uns que a azáfama de ontem se destinou a preparar o terreno para a prisão dos líderes reformistas antes do dia 19. Alegam outros que Ahmadinejad poderá declarar um feriado nessa data, de forma a desmobilizar o maior número possível de participantes, ou simplesmente proibir as comemorações, o que teria um custo político muito elevado.

Entretanto, espera-se que a reunião do topo do clero resulte num finca-pé claro contra as investidas anti-clericais do eixo Ahmadinejad/IRGC. Talvez seja esperar demasiado, mas vale a pena notar que alegadamente a reunião deverá contar com a presença de Sistani, o que, a ser verdade, será muito significativo.

Com os eventos de ontem, parece ter tido início o jogo em campo aberto. O impasse arrastou-se sem decisão por muito tempo, e alguns terão concluído que só pode decidir-se pela força. E talvez tenham razão.

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