Fez cinco aninhos

Não gostamos de fazer certas contas. Por isso, podemos apenas dizer que o número de cidadãos iraquianos que até agora pagaram com a vida pelo crime de não serem ocidentais andará algures entre os 90000 e os 500000. Para além disso, cerca de 2 milhões refugiaram-se nos países limítrofes e outros 2 milhões rabiam deslocados no interior do Iraque.Uma festa.

E chegou a festa ao fim ? Não creio. Na verdade, talvez não tenha ainda começado. Nenhum dos problemas do Iraque está resolvido, e apenas a força militar imperial consegue manter em lume brando o reajustamento violento da configuração política interna ( ou o puro e simples colapso do estado-nação ). Ora, estando a potência imperial e seus aliados a dispender mensalmente 4 mil milhões de dólares, é razoável supor que mais tarde ou mais cedo haverá que abandonar o barco.

Que acontecerá então ? Pensemos um pouco... O Iraque é um estado-nação ficcional, tendo no seu interior três grandes grupos com interesses divergentes. Mesmo assim, funcionou durante décadas como tampão entre outros estados da região ( alguns deles também ficcionais ). Esse tempo acabou.

Por um lado, a ascensão dos xiitas a sul, agravada por se tratar de uma expansão vasta e súbita da área de influência iraniana, causa arrepios aos déspotas sauditas e suores frios a alguns outros.

Por outro lado, a existência do quase-estado curdo forçará a Turquia a repetir as incursões nesse território para diminuir a capacidade ofensiva do PKK. Um aspecto que me parece caricato no meio desta novela é que, sendo a Turquia membro da NATO, pode solicitar o apoio de outros membros face a ameaças à sua integridade territorial, o que deixa os EUA numa posição muito curiosa... Para melhor envenenar a situação, o quase-estado curdo conta com apoio israelita.

Por outro lado ainda, o colosso iraniano. Sem mexer uma palha, viu os seus interesses estratégicos aparentemente servidos de bandeja pelo Superpateta, para logo em seguida ficar na ingrata posição de ter o bolo à sua frente e não o poder comer. Para os EUA e para o Ocidente em geral, por alguma razão que me escapa, a estabilização do Irão como potência regional é um pesadelo, decorrendo daí que, tal como o Iraque, deva ser militarmente subjugado. Não sei que coisas se fumam nos corredores da Casa Branca ou de Bruxelas... Mas que são fortes, são.

Por último, o velho jogo das grandes potências vai reforçando a posição do Irão como testa de ferro dos interesses russos e chineses, o que prenuncia alguns problemazitos quando despedaçarmos à bomba os cidadãos de Teerão.

Ah, já me esquecia... A imagem anexa é um instantâneo da AFP retratando a promissora mocidade iraquiana.

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