À espera de Godot

Clarifiquemos, Moussavi não é um republicano laico e socialista sarapintado de valores norte-americanos. É, como todos os actores da cena política iraniana, parte integrante do regime teocrático. Um regime que sofre agora um embate simultâneo em duas frentes.

Por um lado, o de uma classe média instruída e em crescimento acelerado, que, tal como acontece em todo o lado, reclama o seu quinhão do bolo económico e igual medida de autonomia política.
Independentemente de quaisquer outras considerações, parece-me que esta classe corporiza uma contradição insanável, a de o seu crescimento ser condição necessária à modernização do país, sendo ao mesmo tempo o coveiro mais anunciado do jugo teocrático.

Por outro lado, o combate entre as duas grandes vertentes ideológicas do regime, uma preconizando a administração directa por uma élite iluminada pelos deuses, a outra mais contida, preconizando que essa intervenção se restrinja à fiscalização dos padrões éticos alegadamente prescritos nos textos religiosos.

Pelo andar da carruagem, vou fixando a crença de que o levantamento da classe média é prematuro.

Nesta última semana, enquanto prosseguiu a supressão dos sinais de insurreição, desde as manifestações de rua às antenas parabólicas nos terraços das habitações, somaram-se as tomadas de posição de sectores clericais de oposição ao eixo Khamenei-Ahmadinejad, numa espécie de convergência contra-natura ditada pela necessidade. Bom, contra-natura mas não muito. A nota dominante nos comentários públicos é a de que a destruição dos pólos de fiscalização mútua não garante a sobrevivência do regime, antes associa o clero à tirania, um casamento que descredibiliza o clero e acarreta a prazo o seu afastamento total e compulsivo da cena política. Não admira por isso a súbita beijoquice entre tantos amantes desavindos. Pior que isso, não admira também eles convirjam na narrativa da sublevação instigada pelo inimigo externo.

Não há limites para a pulhice humana, principalmente quando couraçada pela religião... Não me surpreenderá que um progressivo afastamento dos candidatos a tiranos seja precedido pelo enforcamento de um certo número de activistas civis. Nesse cenário, o levantamento da classe média terá sido prematuro. O que acarreta sempre um preço elevado.

E em que posição ficamos nós, ocidentais, no meio de tudo isto ?
Numa posição delicada, mas ainda assim com alguma margem de manobra. Se aos EUA está vedada qualquer acção que possa ser aproveitada por Khamenei-Ahmadinejad para unir artificialmente o país numa demência nacionalista contra o inimigo externo, à UE mantém-se aberta a possibilidade de exercer uma pressão diplomática persistente sem riscos notáveis. Julgo que as direcções políticas europeias já o perceberam, pelo que poderemos montar uma cenaça de polícia-bom-polícia-mau com, quem diria, os EUA a fazer de polícia bom.

Mas trata-se aqui de fazer o (quase) impossível... Combater este desvio para a tirania no poder político iraniano, e ao mesmo tempo construir as bases de um relacionamento equitativo que a médio prazo impeça que se complete a transformação do país num peão dos interesses chineses e russos. Uma tarefa que vai sendo dificultada a todo o momento pelo regime racista de Israel, que, literalmente em todas as frentes, tem aproveitado esta crise para incitar toda a espécie de actos que possam conduzir a uma intervenção militar ocidental.

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