É difícil perceber o contexto em que a viagem de Carter foi definida. Se por um lado a frente unida do Ocidente martela incessantemente a tecla do Hamas-muito-mau, e apregoa uma decisão férrea de o ignorar a todo o custo, apresenta continuamente sinais de algum realismo, ao concordar que o Hamas tem a legitimidade que falta à Fatah e que sem o Hamas qualquer acordo que se cozinhe será apenas mais uma história de fadas.
Veja-se que as manifestações informais de apoio a esta iniciativa surgem em vários pontos, incluindo pelo menos uma figura de topo do governo israelita. Ao mesmo tempo, são muitas as manifestações de desagrado, chegando a congressista Sue Myrick a exigir que o passaporte de Carter seja confiscado.
Embora se possa ver nesta salgalhada a desorientação inevitável que resulta da estratégia pateta de isolamento do Hamas, julgo que assistimos a algo mais profundo, um combate surdo entre duas linhas políticas no interior das estruturas de poder ocidentais, uma mais retrógrada que defende a posição colonialista com unhas e dentes, uma outra com motivações não necessariamente muito diferentes mas pelo menos com a consciência de que a farsa não pode arrastar-se por muito mais tempo.
Esta última linha continua em desvantagem, quanto mais não seja porque os incompetentes governos ocidentais, depois de se meterem neste buraco, não podem facilmente voltar atrás sem perder a face. É exemplo da actual correlação de forças, cá no nosso cantinho, a censura a que os media se sujeitam, calando as manifestações de apoio a Carter, e, pior que isso, calando as suas declarações mais incisivas. Veja-se o rigor e a profundidade:
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1326308&idCanal=11
Continuamos a viver ( e a querer viver ) num mundo orientado por narrativas efabuladas... Será bom que tenhamos consciência de que há um preço a pagar.
Como nota de rodapé, refiro que nos próximos dias a imprensa israelita poderá levantar a tampa sobre alguns assuntos que têm estado bem escondidos, e que não se relacionam com a visita de Carter. Depois de ver os ecos na imprensa ocidental, voltarei ao tema.
Ainda o caixeiro viajante
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