A barriguinha quer-se cheia

E de repente, o FMI lembrou-se...Aqui d'el-rei, que isto vai dar para o torto, e centenas de milhar de pessoas irão morrer à fome. Tentemos perceber melhor o que se passa, porque isto parece não fazer muito sentido para nós, europeus, que pagamos aos nossos agricultores para que não produzam.

Por entre dois bocejos, a tendência de fundo tem sido vagamente reconhecida. Com um lote de mil milhões de novas bocas para alimentar a cada 10 ou 15 anos, seria necessário aumentar continuamente a dimensão e a produtividade das áreas cultivadas para que o balanço fosse neutro. Ora, não sendo os solos um maná inesgotável, a sua sobreexploração e a diminuição contínua da área aproveitável aconselhariam algumas medidas de precaução, mais ainda quando alguma projectada instabilidade climática promete ajudar à degradação rápida de zonas muito vastas do planeta, precisamente aquelas em que a concentração de pessoas e terras aráveis é maior.

Até ao momento, nada fizémos.
Do lado dos países mais desenvolvidos, uma mistura de sentimentos de segurança, impotência ou inevitabilidade, talvez associados a uma cínica esperança num ajuste malthusiano que reduza parte da procura. Se quisermos perceber como a coisa funciona, basta olhar para os hutus e tutsis, ou para alguns dos conflitos mais recentes. O mesmo cenário começa agora colocar-se em países um pouco mais ricos, e não poderia ser de outra forma. Ainda assim , devo dizer que acho arrepiante a visão de um camião de transporte de cereais sendo escoltado por homens armados de metralhadora.

Dir-se-à que a crise actual não será duradoura. Afinal de contas, os últimos dois ou três anos foram desastrosos em termos de colheitas e uma situação dessas não se prolonga indefinidamente. É verdade que estamos perante um pico de procura, mas, se as consequências são estas, a razão está no progressivo esgotamento dos stocks de reserva. Ao longo dos últimos dez anos, a humanidade tem estado a consumir mais do que produz, e a margem de manobra para reagir aos imprevistos desapareceu.Em boa verdade, portanto, sem esses imprevistos a crise que agora vivemos iria surgir, mas apenas daqui a quatro ou cinco anos.

Acordámos, com algum estrépito. Porquê ? Porque para os países ricos, que se julgavam de certa forma capazes de manter a crise alimentar no interior dos limites fronteiriços dos países mais pobres, foram confrontados com uma situação curiosa, que provavelmente vai alargar-se, a da gestão política de alguns exportadores tradicionais, que simplesmente estabeleceram tectos de exportação para evitar que a inflação degenere em convulsão social. Temos aqui, portanto, um primeiro sinal de retorno aos mercados controlados. Não basta agora ter dinheiro para comprar, é necessário que do outro lado os governos ( já não os produtores ) se disponham a vender.

Cada um por si e o diabo por todos, parece ser o mote. E o Santo Graal que todos procuram agora é o da auto-suficiência. Se alguns governos optam por investimentos massivos na produção agrícola no seu próprio território, outros, com terras mais estéreis ou mais sobreexploradas, inauguram um novo processo, o do 'aluguer' de vastas áreas cultivadas ou cultiváveis em território de outros países. O bicho homem é muito criativo.

Ah, antes que me esqueça, querido leitor... Se estava a pensar num ecológico pópó a etanol, comece a pensar noutra coisa, antes que o acusem de homicídio por negligência.

1 comentário:

Anónimo disse...

Tenho uma teoria que a Mãe Natureza encontrará mecanismos para resolver este problema, infelizmente à custa de muitas pessoas mortas à fome! E enviar alimentos para países dito pobres, é por vezes financiar guerrilhas que os roubam e vendem no mercado negro.

Dado que é subjacente conhecido que a Terra começa a ser um espaço exíguo para o ser humano e restantes animais (alguns mais racionais que o Homem), poderíamos começar a concertar políticas para reduzir a população a nível mundial. Estabelecer uma espécie de quotas para a população, mas nunca de forma leviana ou repressiva com alguns países o fazem actualmente. Menos população, significaria menos poluição, menos consumo, menos desemprego, menos guerras e provavelmente uma melhor qualidade de vida!

A subido exponencial de alimentos básicos para o ser humano têm várias razões, mas a principal é sem dúvida a paranoia instalada na produção de Bio-diesel que muitos julgavam ser uma fonte de riqueza e energia limpa e que se está a tornar numa fonte de miséria, sendo o seu cultivo intensivo altamente destruidor dos solos.